Textos sobre Dedos

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Textos de dedos escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

O Prazer do Beneficiador é Sempre Maior do que o do Beneficiado

– N√£o me podes negar um facto, disse ele; √© que o prazer do beneficiador √© sempre maior do que o do beneficiado. Que √© o benef√≠cio? √Č um acto que faz cessar certa priva√ß√£o do beneficiado. Uma vez produzido o efeito essencial, isto √©, uma vez cessada a priva√ß√£o, torna o organismo ao estado anterior, ao estado indiferente. Sup√Ķe que tens apertado em demasia o c√≥s das cal√ßas; para fazer cessar o inc√≥modo, desabotoas o c√≥s, respiras, saboreias um instante de gozo, o organismo torna √† indiferen√ßa, e n√£o te lembras dos teus dedos que praticaram o acto. N√£o havendo nada que perdure, √© natural que a mem√≥ria se esvae√ßa, porque ela n√£o √© uma planta a√©rea, precisa de ch√£o. A esperan√ßa de outros favores, √© certo, conserva sempre no beneficiado a lembran√ßa do primeiro; mas este facto, ali√°s um dos mais sublimes que a filosofia pode achar em seu caminho, explica-se pela mem√≥ria da priva√ß√£o, ou, usando de outra f√≥rmula, pela priva√ß√£o continuada na mem√≥ria, que repercute a dor passada e aconselha a precau√ß√£o do rem√©dio oportuno.
N√£o digo que, ainda sem esta circunst√Ęncia, n√£o aconte√ßa, algumas vezes, persistir a mem√≥ria do obs√©quio, acompanhada de certa afei√ß√£o mais ou menos intensa;

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Um Eu Forte e Maduro

Precisamos de conhecer os papéis do Eu, que representa a capacidade de escolha. Entre esses papéis, o de ser autor da própria história, um protetor da mente, um jardineiro do território da emoção, um plantador de janelas light na memória da pessoa amada.

Discutir, gritar, impor ideias, não significa nem de longe ter um Eu forte, mas sim fraco. Dizer o que vem à mente, dizer sempre a verdade, nem sempre é a expressão de um Eu maduro, mas sim de alguém que não tem autocontrolo. Um Eu forte e maduro aquieta a sua ansiedade, protege a pessoa amada, pede desculpas sem medo, aponta primeiro o dedo a si próprio antes de falar dos erros do outro, repensa a sua história, exige menos e dá-se mais; não tem a necessidade neurótica de mudar as pessoas ao seu redor.

O Inseguro

A eterna can√ß√£o: Que fiz durante o ano, que deixei de fazer, por que perdi tanto tempo cuidando de aproveit√°-lo? Ah, se eu tivesse sido menos apressado! Se parasse meia hora por dia para n√£o fazer absolutamente nada ‚ÄĒ quer dizer, para sentir que n√£o estava fazendo coisas de programa, sem cor nem sabor. A√≠, a fantasia galopava, e eu me reencontraria como gostava de ser; como seria, se eu me deixasse…
Não culpo os outros. Os outros fazem comigo o que eu consinto que eles façam, dispersando-me. Aquilo que eu lhes peço para fazerem: não me deixarem ser eu-um. Nem foi preciso rogar-lhes de boca. Adivinharam. Claro que eu queria é sair com eles por aí, fugindo de mim como se foge de um chato. Mas não foi essa a dissipação maior. No trabalho é que me perdi completamente de mim, tornando-me meu próprio computador. Sem deixar faixa livre para nenhum ato gratuito. Na programação implacável, só omiti um dado: a vida.

Que sentimento tive da vida, este ano? Que escava√ß√£o tentei em suas jazidas? A que profundidade cheguei? Substitu√≠ a no√ß√£o de profundidade pela de altura. N√£o quis saber de minera√ß√Ķes. Cravei os olhos no espa√ßo,

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A Poesia

… Quantas obras de arte… J√° n√£o cabem no mundo… Temos de as pendurar fora dos quartos… Quantos livros… Quantos livrecos… Quem ser√° capaz de os ler?… Se fossem comest√≠veis… Se numa panela de grande calado os fiz√©ssemos em salada, os pic√°ssemos, os alinh√°ssemos… J√° n√£o se pode mais… Estamos at√© ao pesco√ßo… O mundo afoga-se na mar√©… Reverdy dizia-me: ¬ęAvisei o correio para que n√£o me trouxesse mais livros… N√£o poderia abri-los. N√£o tenho espa√ßo. Trepam pelas paredes, temi uma cat√°strofe, ruiriam em cima da minha cabe√ßa¬Ľ… Todos conhecem Eliot… Antes de ser pintor, de dirigir teatros, de escrever luminosas cr√≠ticas, lia os meus versos… Sentia-me lisonjeado… Ningu√©m os compreendia melhor… At√© que um dia come√ßou a ler-me os seus e eu, egoisticamente, corri a protestar: ¬ęN√£o mos leia, n√£o mos leia¬Ľ… Fechei-me no quarto de banho, mas Eliot, atrav√©s da porta, lia-mos… Fiquei muito triste… O poeta Frazer, da Esc√≥cia, estava presente… Increpou-me: ¬ęPorque tratas assim Eliot?¬Ľ… Respondi: ¬ęN√£o quero perder o meu leitor. Cultivei-o. Conhece at√© as rugas da minha poesia… Tem tanto talento… Pode fazer quadros… Pode escrever ensaios… Mas eu quero manter este leitor, conserv√°-lo, reg√°-lo como planta ex√≥tica… Compreendes-me, Frazer?¬Ľ… Porque a verdade, se isto continua,

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Olhar para as Coisas com alguma Dist√Ęncia

Percorrendo as ruas fui descobrindo coisas espantosas que l√° ocorriam desde sempre, disfar√ßadas sob uma m√°scara t√©nue de normalidade: um vi√ļvo que, depois de se reformar, passava as tardes sentado no carro, a porta aberta, a perna esquerda fora, a direita dentro; um sujeito t√£o magro que se podia tomar por uma figura de cart√£o, ideia refor√ßada por andar de bicicleta e, sobretudo, por nela carregar o papel√£o que recolhia nos contentores do lixo; a mulher que, com uma regularidade cronom√©trica, vinha √† janela, olhava para um lado e para o outro, como se aguardasse h√° muito a chegada de algu√©m. Eram tr√™s exemplos de situa√ß√Ķes que – creio ser esta a melhor formula√ß√£o – aconteciam desde sempre e pela primeira vez. Se olharmos para as coisas com alguma dist√Ęncia, retirando-as do contexto, deixando-nos contaminar pela estranheza, tudo, tudo mesmo, adquire uma aura macabra e repetitiva, singular, reconhec√≠vel, que se mistura com a subst√Ęncia dos sonhos, a mat√©ria das mentes perturbadas. Penso sempre, n√£o sei porque, que talvez a resposta esteja naquela revista antiga que n√£o resistiu √†s tra√ßas: nos sobreviventes de Hiroxima, no clar√£o absoluto que os cegou, no mundo irreal em que foram condenados a viver a partir desse momento,

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N√£o H√° Amor como o Primeiro

N√£o h√° amor como o primeiro. Mais tarde, quando se deixa de crescer, h√° o equivalente adulto ao primeiro amor ‚ÄĒ √© o primeiro casamento; mas n√£o √© igual. O primeiro amor √© uma chapada, um sacudir das ra√≠zes adormecidas dos cabelos, uma voragem que nos come as entranhas e n√£o nos explica. Electrifica-nos a capacidade de poder amar. Ardem-nos as √≥rbitas dos olhos, do impens√°vel calor de podermos ser amados. Atiramo-nos ao nosso primeiro amor sem pensar onde vamos cair ou de onde salt√°mos. Saltamos e ca√≠mos. Enchemos o peito de ar, seguramos as narinas com os dedos a fazer de mola de roupa, juramos fazer tr√™s ou quatro mortais de costas, e estatelamo-nos na √°gua ou no ch√£o, como patos disparados de um obus, com penas a esvoa√ßar por toda a parte.

H√° amores melhores, mas s√£o amores cansados, amores que j√° levaram na cabe√ßa, amores que sabem dizer ‚ÄúAlto-e-p√°ra-o-baile‚ÄĚ, amores que j√° d√£o o desconto, amores que j√° t√™m medo de se magoarem, amores democr√°ticos, que se discutem e debatem. E todos os amores d√£o maior prazer que o primeiro. O primeiro amor est√° para al√©m das categorias normais da dor e do prazer. N√£o faz sentido sequer.

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Um Cérebro Ilimitado

Uma das coisas √ļnicas do c√©rebro humano √© que pode fazer apenas o que pensa poder fazer. No momento em que diz “A minha mem√≥ria j√° n√£o √© o que era” ou “Hoje n√£o me lembro de uma s√≥ coisa”, est√° de facto a treinar o c√©rebro para corresponder √†s suas diminu√≠das expetativas. Baixas expetativas equivalem a baixos resultados. A primeira regra do superc√©rebro √© que o seu c√©rebro est√° sempre a espiar os seus pensamentos. Assim escuta, assim aprende. Se lhe ensinar limita√ß√£o, o seu c√©rebro ficar√° limitado. Mas, e se fizer o oposto? E se ensinar o seu c√©rebro a ser ilimitado?

Pense no seu c√©rebro como sendo um piano de cauda Steinway. Todas as teclas est√£o no lugar, prontas a soar ao toque de um dedo. Seja um principiante a sentar-se ao teclado ou um virtuoso de renome mundial como Vladimir Horowitz ou Arthur Rubinstein, o instrumento √© fisicamente o mesmo. Mas a m√ļsica que dele ressoar√° ser√° inteiramente diferente. O principiante usa menos de 1% do potencial do piano; o virtuoso transcende os limites do instrumento.
Se o mundo da m√ļsica n√£o dispusesse de virtuosos, ningu√©m jamais adivinharia as coisas espantosas que um Steinway de cauda pode fazer.

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Na Tua Voz, Irm√£o

Estavam sentados e n√£o falavam. Cada um olhava para um lado que n√£o via. Atr√°s dos rostos tristes, cismavam. Pensando, Mois√©s dizia palavras ao irm√£o, esperan√ßado de que ele as ouvisse; no pensamento, dizia ser√° um instante e trar√° a solid√£o. Pela primeira vez, gritaremos o nome um do outro. J√° reparaste?, nunca precis√°mos de nos chamar. N√£o sei como √© o meu nome na tua voz. Na tua voz, irm√£o, irm√£o. N√£o sei como √© o teu nome na minha voz. Pela primeira vez, gritaremos o nome um do outro, e o desespero ser√° a antec√Ęmara de uma dor triste a que nos habituaremos, como se habitua um homem sem cora√ß√£o ao espa√ßo negro no peito. Viveste sempre na minha vida, e eu estive sempre contigo quando sorriste. Hoje, a solid√£o. Desapareceremos um do outro, deixaremos de ser n√≥s para sermos s√≥ tu e s√≥ eu. Mas n√£o esqueceremos. E lembrarmo-nos ser√° o maior sofrimento, recordarmos o que fomos onde estivermos e n√£o podermos ser mais nada nesse dia. Lembrarmo-nos de quando acord√°vamos e olh√°vamos um para o outro, pois t√≠nhamos acordado ao mesmo tempo e t√≠nhamos ao mesmo tempo pensado em ver-nos. Lembrarmo-nos de falar na nossa maneira de falar,

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As Influências no Estado de Espírito

Agora estou disposto a fazer tudo, agora a nada fazer; o que me √© um prazer neste momento em alguma outra vez me ser√° um esfor√ßo. Acontecem em mim mil agita√ß√Ķes desarrazoadas e acidentais. Ou o humor melanc√≥lico me domina, ou o col√©rico; e, com a sua autoridade pessoal, neste momento a tristeza predomina em mim, neste momento a alegria. Quando pego em livros, terei captado em determinada passagem qualidades excelentes e que ter√£o tocado a minha alma; quando uma outra vez volto a deparar com ela, por mais que a vire e revire, por mais que a dobre e apalpe, √© para mim uma massa desconhecida e informe.
Mesmo nos meus escritos nem sempre reencontro o sentido do meu pensamento anterior: n√£o sei o que quis dizer, e ami√ļde me esfalfo corrigindo e dando-lhe um novo sentido, por haver perdido o primeiro, que valia mais. N√£o fa√ßo mais que ir e vir: o meu julgamento nem sempre caminha para a frente; ele flutua, vagueia, Como um barquinho fr√°gil surpreendido no vasto mar por uma tempestade violenta (Catulo).
Muitas vezes (como habitualmente me advém fazer), tendo tomado para defender, por exercício e por diversão, uma opinião contrária à minha,

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A Solid√£o n√£o Constitui Alimento, apenas Jejum

Se n√£o temos aptid√£o para fazer amigos, remodelemo-nos at√© consegui-la. A solid√£o s√≥ vale como rem√©dio, como jejum – n√£o constitui alimento; o car√°cter, como Goethe o viu com tanta clareza, s√≥ se forma no tumulto da vida. Se nos tornamos excessivamente introspectivos, estamos na senda da perdi√ß√£o, ainda que o nosso neg√≥cio seja a psicologia; olhar com persist√™ncia excessiva para dentro de n√≥s mesmos √© provocar o desastre do jogador de t√©nis que conscientemente mede a dist√Ęncia, os √Ęngulos e a for√ßa dos golpes, ou como o pianista que pensa nos dedos. Os amigos s√£o necess√°rios, n√£o s√≥ porque nos ouvem, como porque se riem para n√≥s; atrav√©s dos amigos conseguimos um pouco de objectividade, um pouco de mod√©stia, um pouco de cortesia; com eles tamb√©m aprendemos as regras da vida, tornando-nos melhores jogadores dos jogos que a comp√Ķem.
Se queres ser amado, sê modesto; se queres ser admirado, sê orgulhoso; se queres as duas coisas, usa externamente a modéstia e internamente o orgulho. Mas o próprio orgulho pode ser modesto, raramente se deixando ver, e nunca se deixando ouvir.
N√£o revelar muita agudeza: os epigramas tornam-se odiosos quando farpeiam fundo a carne; e adoptar como lema o De vivis nil nisi bonum.

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A um Passo do Amor

A um passo do amor estarás a um passo do futuro e a duzentos mil anos do passado. O teu nome é o nome de todas as coisas-, quando todas as coisas respiram no teu nome. Entre o sofrimento e a felicidade, muito de ti se espalha pela vida, muita vida te aguarda, muita vida te procura. Um duplo coração bate dentro do peito e fora de ti. Tens a sabedoria das crianças e a sabedoria dos velhos. Sabes ferir e beijar e sentes o vento do orgulho. Pequeninos gestos, grandes pensamentos, constroem um dia excepcional, um amor excepcional, uma violência excepcional. Todas as noites são uma só noite, tanto desespero pode voltar a ser esperança. As tuas mãos são uma pátria. Os teus dedos são, umas vezes, o mais difícil dos rebanhos. E outras, os cães que o guardam, quando a verdade é triste e o amor tem a fome e a sede das estrelas.

A Vida não Está por Ordem Alfabética

A vida n√£o est√° por ordem alfab√©tica como h√° quem julgue. Surge… ora aqui, ora ali, como muito bem entende, s√£o miga¬≠lhas, o problema depois √© junt√°-las, √© esse montinho de areia, e este gr√£o que gr√£o sust√©m? Por vezes, aquele que est√° mesmo no cimo e parece sustentado por todo o montinho, √© precisamente esse que mant√©m unidos todos os outros, porque esse montinho n√£o obedece √†s leis da f√≠sica, retira o gr√£o que aparentemente n√£o sustentava nada e esboroa-se tudo, a areia desliza, espalma-se e resta-te apenas tra√ßar uns rabiscos com o dedo, contradan√ßas, caminhos que n√£o levam a lado nenhum, e continuas √† nora, insistes no vaiv√©m, que √© feito daquele aben√ßoado gr√£o que mantinha tudo ligado… at√© que um dia o dedo resolve parar, farto de tanta garatuja, deixaste na areia um tra√ßado estranho, um desenho sem jeito nem l√≥gica, e come√ßas a desconfiar que o sentido de tudo aquilo eram as garatujas.

Todos Erramos

Apontamos quase sempre o dedo a quem erra… Condenamos os outros com enorme facilidade. Compreendemo-los pouco, perdoamo-los ainda menos. Mas, ser√° que atirar pedras √© o mais justo, eficaz e melhor?

Temos uma necessidade quase prim√°ria de julgar o comportamento alheio, de o analisar e avaliar ao mais √≠nfimo detalhe, sempre de um ponto de vista superior, como se o sentido da nossa exist√™ncia, a nossa miss√£o, passasse por sentenciar todos quantos cruzam a sua vida com a nossa… condenando-os… na firme convic√ß√£o de que assim estamos a ajudar… a melhorar.

Comete erro em cima de erro quem se dedica a julgar os erros dos outros…

Julgamos de forma absoluta, na maior parte das vezes, generalizando um gesto ou dois, achando que cada pequena a√ß√£o revela tudo quanto h√° a saber sobre determinada pessoa… mais, achamos que cada homem ou √© bom ou √© mau… como se n√£o fossemos todos… de carne e osso… de luz e sombras.
J√° a n√≥s n√£o nos julgamos nem nos deixamos julgar. Consideramos que, no caso espec√≠fico da nossa vida, s√£o tantos os factores que t√™m de se levar em conta (quase todos atenuantes) que se torna imposs√≠vel qualquer tipo de veredicto…

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Entender os Outros

N√≥s combatemos a nossa superficialidade, a nossa mesquinhez, para tentarmos chegar aos outros sem esperan√ßas ut√≥picas, sem uma carga de preconceitos ou de expectativas ou de arrog√Ęncia, o mais desarmados poss√≠vel, sem canh√Ķes, sem metralhadoras, sem armaduras de a√ßo com dez cent√≠metros de espessura; aproximamo-nos deles de peito aberto, na ponta dos dez dedos dos p√©s, em vez de estra√ßalhar tudo com as nossas p√°s de catterpillar, aceitamo-los de mente aberta, como iguais, de homem para homem, como se costuma dizer, e, contudo, nunca os percebemos, percebemos tudo ao contr√°rio.
Mais vale ter um cérebro de tanque de guerra. Percebemos tudo ao contrário, antes mesmo de estarmos com eles, no momento em que antecipamos o nosso encontro com eles; percebemos tudo ao contrário quando estamos com eles; e, depois, vamos para casa e contamos a outros o nosso encontro e continuamos a perceber tudo ao contrário.
Como, com eles, acontece a mesma coisa em rela√ß√£o a n√≥s, na realidade tudo √© uma ilus√£o sem qualquer percep√ß√£o, uma espantosa farsa de incompreens√£o. E, contudo, que fazer com esta coisa terrivelmente significativa que s√£o os outros, que √© esvaziada do significado que pensamos ter e que, afinal, adquire um significado l√ļdico;

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A Solidão é Pior do que a Pobreza

Ris-te do que te digo, mas quando chegar a tua hora, ver√°s a falta que te vai fazer um apoio e o muito que precisamos de carinho para ir vivendo, √† medida que os anos passam. Algu√©m que esteja ao teu lado, que te pegue na m√£o nos teus √ļltimos instantes (que mais podemos fazer a um moribundo?). E quando os ouves falar assim, angustias-te, imaginas-te sem conseguires levantar-te da cama, agarrado √†s costas das cadeiras para te moveres dentro de casa, apoiando-te √†s paredes para alcan√ßares a casa de banho, ensopado num ran√ßoso suor senil; ou morrendo asfixiado, engasgado com qualquer coisa, com um peda√ßo de cartilagem de vaca mal mastigado, um simples gole de √°gua, uma migalha de p√£o, um desses comprimidos que tomas para a hipertens√£o, para facilitar o fluxo sangu√≠neo, para o colesterol, para a hiperglicemia; v√™s-te afogado na tua pr√≥pria saliva: tosses, sufocas, sem ningu√©m por perto que te d√™ uma palmada nas costas, ou te meta os dedos na boca para te ajudar a expelir o que tens atravessado na garganta, algu√©m que chame o 112 ou te meta num carro e te leve a toda a velocidade para o hospital ou o centro de sa√ļde mais pr√≥ximo.

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H√° l√° Coisa Melhor?

H√° l√° coisa melhor do que duas m√£os que se beijam?

A m√£o dela tinha Deus dentro. Apertava-a, beijava-a com a minha m√£o apressada, com a minha m√£o urgente, a minha m√£o como se numa ambul√Ęncia, e percorr√≠amos as ruas mesmo que fossem as ruas que nos percorressem a n√≥s, simples corpos sorridentes

H√° l√° coisa melhor do que dois corpos que se sorriem?

Sabia, com cada um dos meus dedos, com cada uma das minhas mãos, todos os riscos e ranhuras da mão dela; era ali, no por dentro das mãos que tocava, que ouvia as novidades, que lia os títulos das notícias, de todas as notícias que me importavam

Há lá coisa melhor do que ler as notícias na mão que se ama?

N√£o havia, nos passos que d√°vamos, qualquer dist√Ęncia andada, nem sequer um caminho a andar; √©ramos caminhantes de andar, viajantes do nosso tempo. E acredit√°vamos, todos os dias, em todas as respira√ß√Ķes que respir√°vamos no espa√ßo das nossas m√£os, que o tempo era apenas o instante em que, juntos, par√°vamos o tempo

H√° l√° coisa melhor do que o instante em que se p√°ra o tempo?

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Escrever é Triste

Escrever é triste. Impede a conjugação de tantos outros verbos. Os dedos sobre o teclado, as letras se reunindo com maior ou menor velocidade, mas com igual indiferença pelo que vão dizendo, enquanto lá fora a vida estoura não só em bombas como também em dádivas de toda natureza, inclusive a simples claridade da hora, vedada a você, que está de olho na maquininha. O mundo deixa de ser realidade quente para se reduzir a marginália, puré de palavras, reflexos no espelho (infiel) do dicionário.
O que voc√™ perde em viver, escrevinhando sobre a vida. N√£o apenas o sol, mas tudo que ele ilumina. Tudo que se faz sem voc√™, porque com voc√™ n√£o √© poss√≠vel contar. Voc√™ esperando que os outros vivam, para depois coment√°-los com a maior cara-de-pau (“com isen√ß√£o de largo espectro”, como diria a bula, se seus escritos fossem produtos medicinais). Selecionando os retalhos de vida dos outros, para objeto de sua divaga√ß√£o descompromissada. Sereno. Superior. Divino. Sim, como se fosse deus, rei propriet√°rio do universo, que escolhe para o seu jantar de not√≠cias um terremoto, uma revolu√ß√£o, um adult√©rio grego ‚ÄĒ √†s vezes nem isso, porque no painel imenso voc√™ escolhe s√≥ um besouro em campanha para verrumar a madeira.

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N√£o se Diz ao Triste que se Alegre

Pouco sabe da tristeza quem, sem remédio para ela, diz ao triste que se alegre; pois não vê que alheios contentamentos a um coração descontente, não lhe remediando o que sente, lhe dobram o que padece. Vós, se vem à mão, esperáreis de mim palavrinhas joeiradas, enforcadas de bons propósitos. Pois desenganai-vos, que, desde que professei tristeza, nunca mais soube jogar a outro fito. E, porque não digais que sou gente fora do meu bairro, vedes, vai uma volta feita a este mote, que escolhi na manada dos enjeitados; e cuido que não é tão dedo queimado que não seja dos que el-rei mandou chamar; o qual fala assim:

N√£o quero e n√£o quero
jub√£o amarelo.

Se de negro for
também me parece
quanto me aborrece
toda a alegre cor:
cor que mostra dor,
quero e n√£o quero
jub√£o amarelo.

Parece-vos que se pode dizer mais ? N√£o me respondais: ¬ęQuem gabar√° a noiva?¬Ľ Porque assentai que foi comendo e fazendo, ou assoprando, que n√£o √© t√£o pequena habilidade. E, porque vos n√£o pare√ßa que foi mais acertar que quer√™-lo fazer, vedes, vai outra do mesmo jaez,

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