Textos sobre Raz√£o

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Textos de razão escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Felicidade e Prazer

Devemos estudar os meios de alcan√ßar a felicidade, pois, quando a temos, possu√≠mos tudo e, quando n√£o a temos, fazemos tudo por alcan√ß√°-la. Respeita, portanto, e aplica os princ√≠pios que continuadamente te inculquei, convencendo-te de que eles s√£o os elementos necess√°rios para bem viver. Pensa primeiro que o deus √© um ser imortal e feliz, como o indica a no√ß√£o comum de divindade, e n√£o lhe atribuas jamais car√°cter algum oposto √† sua imortalidade e √† sua beatitude. Habitua-te, em segundo lugar, a pensar que a morte nada √©, pois o bem e o mal s√≥ existem na sensa√ß√£o. De onde se segue que um conhecimento exacto do facto de a morte nada ser nos permite fruir esta vida mortal, poupando-nos o acr√©scimo de uma ideia de dura√ß√£o eterna e a pena da imortalidade. Porque n√£o teme a vida quem compreende que n√£o h√° nada de tem√≠vel no facto de se n√£o viver mais. √Č, portanto, tolo quem declara ter medo da morte, n√£o porque seja tem√≠vel quando chega, mas porque √© tem√≠vel esperar por ela.
√Č tolice afligirmo-nos com a espera da morte, visto ser ela uma coisa que n√£o faz mal, uma vez chegada. Por conseguinte, o mais pavoroso de todos os males,

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O Homem é um Animal Irracional

1. O homem √© um animal irracional, exactamente como os outros. A √ļnica diferen√ßa √© que os outros s√£o animais irracionais simples, o homem √© um animal irracional complexo. √Č esta a conclus√£o que nos leva a psicologia cient√≠fica, no seu estado actual de desenvolvimento. O subconsciente, inconsciente, √© que dirige e impera, no homem como no animal. A consci√™ncia, a raz√£o, o racioc√≠nio s√£o meros espelhos. O homem tem apenas um espelho mais polido que os animais que lhe s√£o inferiores.

2. Sendo assim, toda a vida social procede de irracionalismos vários, sendo absolutamente impossível (excepto no cérebro dos loucos e dos idiotas) a ideia de uma sociedade racionalmente organizada, ou justiceiramente organizada, ou, até, bem organizada.

3. A √ļnica coisa superior que o homem pode conseguir √© um disfarce do instinto, ou seja o dom√≠nio do instinto por meio de instinto reputado superior. Esse instinto √© o instinto est√©tico. Toda a verdadeira pol√≠tica e toda a verdadeira vida social superior √© uma simples quest√£o de senso est√©tico, ou de bom gosto.
4. A humanidade, ou qualquer nação, divide-se em três classes sociais verdadeiras: os criadores de arte; os apreciadores de arte; e a plebe.

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O Verdadeiro Emprego da Nossa Raz√£o

De resto, o verdadeiro emprego da nossa raz√£o para a conduta da vida n√£o consiste sen√£o em examinar e considerar sem paix√£o o valor de todas as perfei√ß√Ķes, tanto do corpo quanto do esp√≠rito, que podem ser adquiridas atrav√©s da nossa conduta, a fim de que, sendo normalmente obrigados a privar-nos de algumas para ter as outras, sempre escolhamos as melhores.

Caminho Recompensador

Aquele que se tenha erguido acima do cesto das esmolas e n√£o se tenha contentado em viver ociosamente das sobras de opini√Ķes suplicadas, que p√īs a funcionar os seus pr√≥prios pensamentos para encontrar e seguir a verdade, n√£o deixar√° de sentir a satisfa√ß√£o do ca√ßador; cada momento da sua busca recompensar√° os seus dissabores com algum prazer; e ter√° raz√Ķes para pensar que o seu tempo n√£o foi mal gasto, mesmo quando n√£o se puder gabar de nenhuma aquisi√ß√£o especial.

O Gosto pela Simplicidade

Cansado às vezes do artificialismo que domina hoje em todos os géneros, enfadado com os chistes, os lances espirituosos, com as troças e com todo esse espírito que se quer colocar nas menores coisas, digo comigo mesmo: se eu pudesse encontrar um homem que não fosse espirituoso, com quem não fosse preciso sê-lo, um homem ingénuo e modesto, que falasse somente para se fazer entender e para exprimir os sentimentos do seu coração, um homem que só tivesse a razão e um pouco de naturalidade: com que ardor eu correria para descansar na sua conversa ao invés do jargão e dos epigramas do resto dos homens! Como é que acontece perder-se o gosto pela simplicidade a ponto de não mais se perceber que ele foi perdido? Não há virtudes nem prazeres que dela não retirem encantos e as suas graças mais tocantes.

N√£o H√° Paz no Mundo

Enchem a boca de paz, e n√£o h√° tal paz no mundo. E sen√£o, quem h√° t√£o cego, que n√£o veja o mesmo hoje em toda a parte? Dizem que h√° paz nos reinos, e os vassalos n√£o obedecem aos reis: dizem que h√° paz nas cidades, e os s√ļbditos n√£o obedecem aos magistrados: dizem que h√° paz nas fam√≠lias, e os filhos n√£o obedecem aos pais: dizem que h√° paz nos particulares, e cada um tem dentro em si mesmo a maior e a pior guerra. Havia de mandar a raz√£o, e o racional n√£o lhe obedece; porque nele, e sobre ela domina o apetite. (…) A paz do mundo √© guerra que se esconde debaixo da paz. Chama-se paz e √© lisonja: chama-se paz, e √© dissimula√ß√£o: chama-se paz, e √© depend√™ncia: chama-se paz, e √© mentira, quando n√£o seja trai√ß√£o.

A Razão da Minha Esperança

Meu bom amigo,

Sei que tens sofrido bastante.

Não posso esquecer que um dia me ensinaste: que leal é quem não abandona; que devemos procurar ser pessoas dignas de confiança, mais do que tentar encontrar alguém assim; e, que a vontade de amar já é, em si mesma, amor.

Permite-me que partilhe contigo, hoje, algumas ideias a respeito dos momentos dif√≠ceis…

S√£o muitas as provas que na vida servem para testar quem somos, a for√ßa que temos em n√≥s e o nosso valor. Algumas vezes uma pedra gigante vem cair mesmo diante de n√≥s… outras vezes s√£o s√©ries infind√°veis de pequenos obst√°culos no caminho… longas etapas que nos obrigam a seguir adiante sem descansar, em percursos onde quase nunca se v√™ o horizonte.
A agita√ß√£o permanente em que vivemos leva muitos a desistir de encontrar refer√™ncias mais adiante, mas √© preciso que nos afastemos do tempo para assim encontrarmos a posi√ß√£o mais segura, elevando-nos acima dos momentos passageiros para os compreender melhor. No meio da confus√£o √© preciso ver para al√©m do que se pode olhar… estabelecer os alicerces sobre o que √© s√≥lido, ainda que seja preciso escavar muito mais fundo do que o normal…

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O Pressuposto Indispens√°vel para se Ser um Grande-Escritor

O pressuposto indispens√°vel para se ser um grande-escritor √©, ent√£o, o de escrever livros e pe√ßas de teatro que sirvam para todos os n√≠veis, do mais alto ao mais baixo. Antes de produzir algum bom efeito, √© preciso primeiro produzir efeito: este princ√≠pio √© a base de toda a exist√™ncia como grande-escritor. √Č um princ√≠pio miraculoso, eficaz contra todas as tenta√ß√Ķes da solid√£o, por excel√™ncia o princ√≠pio goethiano do sucesso: se nos movermos apenas num mundo que nos √© prop√≠cio, tudo o resto vir√° por si. Pois quando um escritor come√ßa a ter sucesso d√°-se logo uma transforma√ß√£o significativa na sua vida. O seu editor p√°ra de se lamentar e de dizer que um comerciante que se torna editor se parece com um idealista tr√°gico, porque faria muito mais dinheiro negociando com tecidos ou papel virgem. A cr√≠tica descobre nele um objecto digno da sua actividade, porque os cr√≠ticos muitas vezes at√© nem s√£o m√°s pessoas, mas, dadas as circunst√Ęncias epocais pouco prop√≠cias, ex-poetas que precisam de um apoio do cora√ß√£o para poderem p√īr c√° fora os seus sentimentos;s√£o poetas do amor ou da guerra, consoante o capital interior que t√™m de aplicar com proveito, e por isso √© perfeitamente compreens√≠vel que escolham o livro de um grande-escritor e n√£o o de um comum escritor.

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O Amor n√£o Acontece. Decide-se.

H√° quem julgue que o amor √© alheio √† vontade humana, algo superior que elege, embala e conduz‚Ķ e que quase nada se pode fazer perante tamanha for√ßa. Isso √© uma mera paix√£o no seu sentido menos nobre. E, nesse caso, sim, o amor acontece… Ao contr√°rio, amar √© estar acima das paix√Ķes e dos apetites. Mesmo quando o amor nasce de uma espontaneidade, resulta de um claro discernimento.

O amor decorre de uma decisão. De um compromisso. Constrói-se de forma consciente. Através do heroísmo de alguém livre que decide ser o que poucos ousam. Escolhe para fim de si mesmo ser o meio para a felicidade daquele a quem ama. Sim, decide-se amar e, sim, decide-se a quem amar.

O amor aut√™ntico √© raro e extraordin√°rio, embora o seu nome sirva para quase tudo… a maior parte das vezes designa ego√≠smos entrela√ßados, cada vez mais comuns. S√£o poucos os que se aventuram, os que arriscam tudo, os que se disp√Ķem a amar mesmo quando sabem que poucos sequer perceber√£o o que fazem, o seu porqu√™ e o para qu√™.
O amor n√£o sup√Ķe reciprocidade. Amar √© dar-se por completo e aceitar tudo… n√£o se contabilizam ganhos e perdas,

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Saberei Conquistá-la Através de Todos os Sacrifícios

Perdoe-me se me apaixonei a este ponto de si. Mas n√£o passarei daqui, nem ningu√©m me ver√°! Fechado num quarto da pousada, espero a sua resposta. Esperarei seis horas por umas linhas suas e depois volto para Paris. J√° nem sei viver, vagueio por a√≠, ferido de morte. Prefiro cansar-me em longos passeios a cavalo, a consumir-me na solid√£o, ou no meio de pessoas que deixaram de me entender… Ordene-me que parta e n√£o tornar√° a ser atormentada por um homem a quem um m√™s bastou para perder a raz√£o.
Muito gostaria de surpreender o seu primeiro pensamento ao acordar; n√£o posso descrever-lhe o reconhecimento que me enche o cora√ß√£o, este cora√ß√£o que reclama apenas a sua amizade, que saber√° conquist√°-la atrav√©s de todos os sacrif√≠cios, que √© completamente vosso at√© ao seu √ļltimo alento.
N√£o me conformo com a ideia de ser abandonado. O seu interesse √©-me mil vezes mais preciso do que a pr√≥pria vida, mas saberei moderar a express√£o dos meus sentimentos e n√£o terei outras aspira√ß√Ķes do que as que me forem permitidas; tamb√©m saberei esconder-lhe os meus temores; respeitarei o seu repouso – mas v√™-la-ei, e nunca mais haver√° felicidade na minha vida se n√£o puder consagrar-lha inteiramente.

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A Opini√£o Pura e Elevada

A opini√£o que se emite ou a regra que se estabelece n√£o tem que se importar com as circunst√Ęncias em que se encontram os homens nem com as possibilidades de acolhimento ou recusa que o mundo lhe oferece; o que √© hoje gr√£o seco levanta-se amanh√£ sobre as ondas do campo como a espiga mais alta e mais cheia; o culto da verdade n√£o se compadece com a adora√ß√£o dos deuses que presidem aos dias nem com a v√£ agita√ß√£o que √© de regra no formigueiro humano; cada um tomar√° o que se diz como quiser; a sua atitude, por√©m, s√≥ interessar√° enquanto fen√≥meno base para uma nova legalidade.
N√£o h√° aqui nem indiferen√ßa, nem ego√≠smo; √© mais larga a alma que a par do amor dos homens actuais sente vibrar o amor dos homens do futuro, mais forte o esp√≠rito que se orienta para o eterno; a justi√ßa sempre o ter√° a seu lado armado de todas as armas, n√£o porque sinta para ela um impulso moment√Ęneo mas porque a defende em qualquer tempo; e sempre se h√°-de recusar, sejam quais forem as raz√Ķes, a passar em claro uma injusti√ßa ou a servir-se de qualquer meio, apenas porque tal proceder se aparenta vantajoso aos seus interesses ou aos interesses dos seus amigos.

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Testemunhas Aparentes

N√£o me preocupa tanto qual eu seja para outrem como me preocupa qual eu seja em mim mesmo. Quero ser rico por mim, n√£o por empr√©stimo. Os estranhos v√™em apenas os acontecimentos e as apar√™ncias externas; cada qual pode ter um ar alegre exteriormente e por dentro estar cheio de febre e receio. Eles n√£o v√™em o meu cora√ß√£o; v√™em apenas o meu comportamento. Tem-se raz√£o em depreciar a hipocrisia que existe na guerra; pois o que √© mais f√°cil para um homem oportunista do que esquivar-se dos perigos e fazer-se de bravo, tendo o √Ęnimo repleto de frouxid√£o? H√° tantos meios de evitar as ocasi√Ķes de arriscar-se pessoalmente que teremos enganado o mundo mil vezes antes de encetarmos um passo perigoso; e mesmo ent√£o, vendo-nos entravados, nesse momento bem sabemos encobrir o nosso jogo com um ar alegre e uma palavra serena, embora a alma nos trema interiormente.
E se algu√©m pudesse usar o anel de Plat√£o, que tornava invis√≠vel quem o levasse no dedo e o virasse para a palma da m√£o, muitas pessoas ami√ļde se esconderiam quando mais √© preciso apresentar-se e se arrependeriam de estar colocadas num lugar t√£o honroso, no qual a necessidade as torna seguras: Quem pode alegrar-se com falsas honrarias e temer a cal√ļnia,

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O Egoísta Homem Moderno

Um dos problemas mais complicados e mais dif√≠ceis dos nossos dias, o de encaminhar para um fim ben√©fico e utilit√°rio, para o bem real da nossa sociedade, essa exuber√Ęncia espantosa de prosperidade material, que muito √© de temer n√£o materialize excessivamente o esp√≠rito popular e n√£o o lance na via de uma ambi√ß√£o desenfreada e subversiva. Esta quest√£o considero-a como a √ļnica s√©ria e vital que hoje resta resolver satisfatoriamente, porque a sua resolu√ß√£o √© que h√°-de dizer a raz√£o por que n√≥s gozamos dos incalcul√°veis benef√≠cios do vapor e das suas aplica√ß√Ķes e do tel√©grafo el√©ctrico; porque √© dela que depende a sorte futura da nossa sociedade, e essa resolu√ß√£o √© tanto mais dif√≠cil que ela n√£o pode ser a obra da viol√™ncia, por isso que a viol√™ncia apressaria o termo fatal do desengano sem que a sociedade estivesse suficientemente preparada para um choque t√£o violento, e tornaria sang√ľin√°ria uma revolu√ß√£o que, longe de dever ser um cataclismo para a sociedade, dever√° executar-se brandamente. O governo, que deve saber dirigir a verdadeira opini√£o p√ļblica, pode pela sua ac√ß√£o sobre a instru√ß√£o das classes laboriosas ensinar-lhes a sua posi√ß√£o futura na sociedade e destruir as ambi√ß√Ķes desenfreadas dos pretendidos amigos do povo…

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O que é um Romance?

Um romance √© aquilo que o autor quiser que seja. O Herberto Helder tem raz√£o quando diz que est√° tudo misturado: n√£o se sabe quando √© que a poesia n√£o d√° origem a um romance, quando √© que um ensaio n√£o √© um romance, quando √© que no interior de um ensaio n√£o aparece um poema‚Ķ N√£o vejo por que √© que essas coisas h√£o-de ser catalogadas. H√° p√°ginas de grandes romances que s√£o grandes p√°ginas de poesia. Bom, mas isto √© mais um pressentimento que uma certeza, que o in√≠cio de uma teoria‚Ķ √Č uma interroga√ß√£o. O meu problema √© que sempre li mais prosa que poesia. Na verdade, a poesia aborrece-me mais. N√£o √© bem isso‚Ķ √© no sentido de que ocupa um espa√ßo muito menor nas minhas leituras.

O Socorro

Ele foi cavando, foi cavando, cavando, pois sua profiss√£o – coveiro – era cavar. Mas, de repente, na distrac√ß√£o do of√≠cio que amava, percebeu que cavara de mais. Tentou sair da cova e n√£o conseguiu. Levantou o olhar para cima e viu que, sozinho, n√£o conseguiria sair. Gritou. Ningu√©m atendeu. Gritou mais forte. Ningu√©m veio. Enlouqueceu de gritar, cansou de esbravejar, desistiu com a noite. Sentou-se no fundo da cova, desesperado. A noite chegou, subiu, fez-se o sil√™ncio das horas tardas. Bateu o frio da madrugada e, na noite escura, n√£o se ouvia mais um som humano, embora o cemit√©rio estivesse cheio dos pipilos e coaxares naturais dos matos. S√≥ pouco depois da meia-noite √© que l√° vieram uns passos. Deitado no fundo da cova o coveiro gritou. Os passos se aproximaram. Uma cabe√ßa √©bria apareceu l√° em cima, perguntou o que havia: ¬ęO que √© que h√°?¬Ľ
O coveiro ent√£o gritou, desesperado: ¬ęTire-me daqui, por favor. Estou com um frio terr√≠vel!¬Ľ. ¬ęMas coitado!¬Ľ – condoeu-se o b√™bado. – ¬ęTem toda raz√£o de estar com frio.
Algu√©m tirou a terra toda de cima de voc√™, meu pobre mortinho!¬Ľ. E, pegando na p√°, encheu-a de terra e p√īs-se a cobri-lo cuidadosamente.

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A Verdade Simbólica

Quando a inteligência aborda o estudo da vida, necessariamente trata o ser vivo como o inerte, aplicando a esse novo objecto as mesmas formas, transportando para esse novo domínio os mesmos hábitos que deram tão certo no antigo. E tem razão em fazer isso, pois somente sob essa condição o ser vivo oferecerá à nossa acção o mesmo campo que a matéria inerte. Mas a verdade à qual se chega assim torna-se absolutamente relativa à nossa faculdade de agir. Nada mais é do que uma verdade simbólica.

Toda a Ideia Geral é Puramente Intelectual

As ideias gerais s√≥ se podem introduzir na esp√©cie com o aux√≠lio das palavras, e o entendimento n√£o as apreende sen√£o por meio das proposi√ß√Ķes. √Č uma das raz√Ķes por que os animais n√£o poderiam formar tais ideias, nem jamais adquirir a perfectibilidade que delas depende. Quando um macaco vai, sem hesitar, de uma noz a outra, julga-se que tenha a ideia geral dessa esp√©cie de fruta e que compare o seu arqu√©tipo a esses dois indiv√≠duos? N√£o, sem d√ļvida; mas, a vista de uma dessas nozes lembra √† sua mem√≥ria as sensa√ß√Ķes que recebeu da outra, e os seus olhos, modificados de certa maneira, anunciam ao seu gosto a modifica√ß√£o que vai receber. Toda a ideia geral √© puramente intelectual; por pouco que a imagina√ß√£o tome parte nela, a ideia torna-se, logo, particular.
Procurai traçar a imagem de uma árvore em geral, e jamais o conseguireis; contra a vossa vontade, é preciso vê-la grande ou pequena, desgalhada ou em copa, clara ou escura; e, se dependesse de vós não ver senão o que se acha em toda a árvore, essa imagem não se pareceria mais com uma árvore. Os seres puramente abstractos vêem-se do mesmo modo, ou não se concebem senão por meio do discurso.

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As L√°grimas e os Homens

Vede que misteriosamente puseram as l√°grimas nos olhos a Natureza, a Justi√ßa, a Raz√£o, a Gra√ßa. A Natureza para rem√©dio; a Justi√ßa para castigo; a Raz√£o para arrependimento; a Gra√ßa para triunfo. Como pelos olhos se contrai a m√°cula do pecado, p√īs a Natureza nos olhos as l√°grimas, para que com aquela √°gua se lavassem as manchas: como pelos olhos se admite a culpa, p√īs a Justi√ßa nos olhos as l√°grimas para que estivesse o supl√≠cio no mesmo lugar do delito: como pelos olhos se concebe a ofensa, p√īs a Raz√£o nos olhos as l√°grimas, para que onde se fundiu a ingratid√£o, a desfizesse o arrependimento: e como pelos olhos entram os inimigos √† alma, p√īs a Gra√ßa nos olhos as l√°grimas, para que pelas mesmas brechas onde entraram vencedores, os fizesse sair correndo. Entrou Jonas pela boca da baleia pecador; sa√≠a Jonas pela boca da baleia arrependido. Raz√£o √© logo e Justi√ßa, e n√£o s√≥ Gra√ßa, sen√£o Natureza, que pois os olhos s√£o a fonte universal de todos os pecados, sejam os rios de suas l√°grimas a satisfa√ß√£o tamb√©m universal de todos; e que paguem os olhos por todos chorando, j√° que pecaram em todos vendo: Quo fonte manavit nefas,

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Os Sábios Célebres

Todos vós, os sábios célebres, nunca fostes mais do que os servidores do povo e da superstição popular, e não os servidores da verdade. E é precisamente por isso que vos têm honrado.
E por isso também foi tolerada a vossa incredulidade, porque parecia uma brincadeira, um rodeio engenhoso que vos levava ao povo. Assim o amo dá maior liberdade aos seus escravos e regozija-se até com a sua presunção.
Mas aquele que o povo odeia, com o ódio do lobo pelos cães, é o espírito livre, inimigo das algemas, aquele que não adora, aquele que habita as florestas.
Persegui-lo at√© ao seu esconderijo, √© aquilo a que o povo, sempre chamou ter o ¬ęsentido de justi√ßa¬Ľ; e ainda por cima d√£o ca√ßa ao solit√°rio com os seus ferozes mastins.
‘Porque a verdade est√° onde o povo est√°! Ai daqueles que a procuram!’ – √© isto o que ecoa atrav√©s dos tempos.
Quer√≠eis assentar na raz√£o a piedade tradicional do vosso povo e √© a isso que chamais ¬ęa vontade de verdade¬Ľ, √≥ s√°bios c√©lebres!
E o vosso cora√ß√£o insiste em dizer para si pr√≥prio: ‘Eu vim do povo, foi tamb√©m do povo que me veio a voz de Deus.’

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A Felicidade Est√° Fora da Nossa Realidade

O amoroso apaixonado j√° n√£o vive em si, mas no que ama; quanto mais se afasta de si para se fundir no seu amor, mais feliz se sente. Assim, quando a alma sonha em fugir do corpo e renuncia a servir-se normalmente dos seus org√£os, podeis dizer com raz√£o que ele enlouquece. As express√Ķes correntes n√£o querem dizer outra coisa: ¬ęN√£o est√° em si… Volta a ti… Ele voltou a si.¬Ľ E quanto mais perfeito √© o amor, maior a loucura e mais feliz.
Quem ser√°, pois, essa vida no C√©u, √† qual aspiram t√£o ardentemente as almas piedosas? O esp√≠rito, mais forte e vitorioso, absorver√° o corpo; isto ser√° tanto mais f√°cil quanto mais purificado e extenuado tiver sido o corpo durante a vida. Por sua vez, o esp√≠rito ser√° absorvido pela suprema Intelig√™ncia, cujos poderes s√£o infinitos. Assim se encontrar√° fora de si mesmo o homem inteiro e a √ļnica raz√£o da sua felicidade ser√° de n√£o mais se pertencer, mas de submeter-se a este soberano inef√°vel, que tudo atrai a si.
Uma tal felicidade, é certo, só poderá ser perfeita no momento em que as almas, dotadas de imortalidade, retomem os antigos corpos. Mas, como a vida dos piedosos não é mais do que a meditação sobre a eternidade e como que a sombra dela,

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