Textos sobre Raz√£o

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Textos de razão escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Combater a Opress√£o

√Č certamente admir√°vel o homem que se op√Ķe a todas as esp√©cies de opress√£o, porque sente que s√≥ assim se conseguir√° realizar a sua vida, s√≥ assim ela estar√° de acordo com o esp√≠rito do mundo; constitui-lhe suficiente imperativo para que arrisque a tranquilidade e bordeje a pr√≥pria morte o pensamento de que os esp√≠ritos nasceram para ser livres e que a liberdade se confunde, na sua forma mais perfeita, com a raz√£o e a justi√ßa, com o bem; a exist√™ncia passou a ser para ele o meio que um deus benevolente colocou ao seu dispor para conseguir, pelo que lhe toca, deixar uma centelha onde at√© a√≠ apenas a treva se cerrara; √© um esfor√ßo de indiv√≠duo que reconheceu o caminho a seguir e que deliberadamente por ele marcha sem que o esmore√ßam obst√°culos ou o intimide a amea√ßa; afinal o poder√≠amos ver como a alma que busca, ap√≥s uma luta de que a n√£o interessam nem dificuldades nem extens√£o.

Serenidade da Alma

N√£o examinar o que se passa na alma dos outros dificilmente far√° o infort√ļnio de algu√©m; mas os que n√£o seguem com aten√ß√£o os movimentos das suas pr√≥prias almas s√£o fatalmente desditosos.
(…) Ser semelhante ao promont√≥rio contra o qual v√™m quebrar as vagas e que permanece firme enquanto, √† sua volta, espumeja o furor das ondas.
РQue desgraça ter-me acontecido isto!
Não, não é assim que se deve falar, mas desta maneira:
– Que felicidade, apesar do que me aconteceu, eu n√£o me mortificar, n√£o me deixar abater pelo presente nem me assustar pelo futuro!
Na verdade, coisa idêntica poderia suceder a toda a gente, mas bem poucos a suportariam sem se mortificarem. Por que razão considerar este acontecimento infortunado e aquele outro feliz?
Em resumo, chamas de infort√ļnio para o ser humano aquilo que n√£o √© um obst√°culo √† sua natureza? E consideras um obst√°culo √† natureza do ser humano aquilo que n√£o vai contra a vontade da sua natureza? Que queres, ent√£o? Conheces bem essa vontade; aquilo que te sucede impede-te, por acaso, de ser justo, magn√Ęnimo, s√≥brio, reflectido, prudente, sincero, modesto, livre, e de possuir as outras virtudes cuja posse assegura √† natureza do ser humano a felicidade que lhe √© pr√≥pria?

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O Princípio da Simpatia e Antipatia

O princípio da simpatia e antipatia tende ao máximo a pecar por severidade excessiva. Tende ele a aplicar castigo em muitos casos em que é injusto fazê-lo, e, em casos em que se justifica uma punição, a aplicar severidade maior do que a merecida. Não existe acto algum imaginável, por mais trivial e por menos censurável que seja, que o princípio da simpatia e antipatia não encontre algum motivo para punir. Quer se trate de diferenças de gosto, quer se trate de diferenças de opinião, sempre se encontra motivo para punir. Não existe nenhum desacordo, por mais trivial que seja, que a perseverança não consiga transformar num incidente sério. Cada qual se torna, aos olhos do seu semelhante, um inimigo e, se a lei o permitir, um criminoso. Este é um dos aspectos sob os quais a espécie humana se distingue Рpara seu desabono Рdos animais.
Por princ√≠pio de simpatia e antipatia entendo o princ√≠pio que aprova ou desaprova certas ac√ß√Ķes, n√£o na medida em que estas tendem a aumentar ou a diminuir a felicidade da parte interessada, mas simplesmente pelo facto de que algu√©m se sente disposto a aprov√°-las ou reprov√°-las.Os partid√°rios deste princ√≠pio mant√™m que a aprova√ß√£o ou a reprova√ß√£o constituem uma raz√£o suficiente em si mesma,

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Virtude Representa Muito Mais que Bondade

Parece-me que a virtude √© coisa diferente e mais nobre do que as inclina√ß√Ķes para a bondade que nascem em n√≥s. As almas bem ajustadas por si mesmas e bem nascidas seguem o mesmo andamento e apresentam nas suas a√ß√Ķes a mesma apar√™ncia que as virtuosas. Por√©m a virtude significa n√£o sei qu√™ de maior e mais activo do que, por uma √≠ndole favorecida, deixar-se conduzir docemente e tranquilamente na esteira da raz√£o. Aquele que com uma do√ßura e complac√™ncia naturais menosprezasse as ofensas recebidas faria coisa mui bela e digna de louvor; mas aquele que, espica√ßado e ultrajado at√© o √Ęmago por uma ofensa, se armasse com as armas da raz√£o contra o furio¬≠so apetite de vingan√ßa e ap√≥s um grande conflito finalmen¬≠te o dominasse, sem a menor d√ļvida seria muito mais. Aquele agiria bem, e este virtuosamente: uma ac√ß√£o poder-¬≠se-ia dizer bondade; a outra, virtude, pois parece que o nome de virtude pressup√Ķe dificuldade e oposi√ß√£o, e que ela n√£o pode se exercer sem combate. Talvez seja por isso que chamamos Deus de bom, forte e liberal, e justo; mas n√£o O chamamos de virtuoso: Os Seus actos s√£o todos natu¬≠rais e sem esfor√ßo.
Metelo, o √ļnico de todos os senadores romanos a se ter proposto,

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A Fragilidade da Posse

O que pode ser acrescentado √† felicidade do homem que goza de boa sa√ļde, n√£o tem d√≠vidas e est√° com a consci√™ncia limpa? Para algu√©m nessa condi√ß√£o, todos os acr√©scimos de fortuna podem ser justificadamente considerados sup√©rfluos; e, se ele muito se exaltar por causa deles, isso s√≥ poder√° ser fruto da mais fr√≠vola ligeirice. […] Mas, embora pouco se possa acrescentar a essa condi√ß√£o, muito se pode subtrair dela. Pois, ainda que o intervalo entre ela e o ponto mais extremo da prosperidade humana n√£o seja mais que uma ninharia, o intervalo entre ela e o fosso da mais profunda infelicidade √© imenso e prodigioso. A adversidade, em raz√£o disso, necessariamente deprime a mente do sofredor a um ponto muito mais baixo do seu estado natural do que a prosperidade √© capaz de faz√™-lo erguer-se acima deste.

Olhar e Chorar

Not√°vel criatura s√£o os olhos! Admir√°vel instrumento da natureza; prodigioso artif√≠cio da Provid√™ncia! Eles s√£o a primeira origem da culpa; eles a primeira fonte da Gra√ßa. S√£o os olhos duas v√≠boras, metidas em duas covas, e que a tenta√ß√£o p√īs o veneno, e a contri√ß√£o a triaga. S√£o duas setas com que o Dem√≥nio se arma para nos ferir e perder; e s√£o dois escudos com que Deus depois de feridos nos repara para nos salvar. Todos os sentidos do homem t√™m um s√≥ of√≠cio; s√≥ os olhos t√™m dois. O Ouvido ouve, o Gosto gosta, o Olfacto cheira, o Tacto apalpa, s√≥ os olhos t√™m dois of√≠cios: Ver e Chorar. Estes ser√£o os dois p√≥los do nosso discurso.
Ninguém haverá (se tem entendimento) que não deseje saber por que ajuntou a Natureza no mesmo instrumento as lágrimas e a vista; e por que uniu a mesma potência o ofício de chorar, e o de ver? O ver é a acção mais alegre; o chorar a mais triste. Sem ver, como dizia Tobias, não há gosto, porque o sabor de todos os gostos é o ver; pelo contrário, o chorar é o estilado da dor, o sangue da alma,

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O Amor-Próprio como Fonte de Todos os Males

√Č preciso n√£o confundir o amor-pr√≥prio e o amor de si mesmo, duas paix√Ķes muito diferentes pela sua natureza e pelos seus efeitos. O amor de si mesmo √© um sentimento natural que leva todo o animal a velar pela sua pr√≥pria conserva√ß√£o, e que, dirigido no homem pela raz√£o e modificado pela piedade, produz a humanidade e a virtude. O amor-pr√≥prio √© apenas um sentimento relativo, fact√≠cio e nascido na sociedade, que leva cada indiv√≠duo a fazer mais caso de si do que de qualquer outro, que inspira aos homens todos os males que se fazem mutuamente, e que √© a verdadeira fonte da honra.
Bem entendido isso, repito que, no nosso estado primitivo, no verdadeiro estado de natureza, o amor-pr√≥prio n√£o existe; porque, cada homem em particular olhando a si mesmo como o √ļnico espectador que o observa, como o √ļnico ser no universo que toma interesse por ele, como o √ļnico juiz do seu pr√≥prio m√©rito, n√£o √© poss√≠vel que um sentimento que teve origem em compara√ß√Ķes que ele n√£o √© capaz de fazer possa germinar na sua alma.
Pela mesma raz√£o, esse homem n√£o poderia ter √≥dio nem desejo de vingan√ßa, paix√Ķes que s√≥ podem nascer da opini√£o de alguma ofensa recebida.

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O Perigo da Leitura Excessiva

Quando lemos, outra pessoa pensa por n√≥s: repetimos apenas o seu processo mental. Ocorre algo semelhante quando o estudante que est√° a aprender a escrever refaz com a pena as linhas tra√ßadas a l√°pis pelo professor. Sendo assim, na leitura, o trabalho de pensar √©-nos subtra√≠do em grande parte. Isso explica o sens√≠vel al√≠vio que experimentamos quando deixamos de nos ocupar com os nossos pensamentos para passar √† leitura. Por√©m, enquanto lemos, a nossa cabe√ßa, na realidade, n√£o passa de uma arena dos pensamentos alheios. E quando estes se v√£o, o que resta? Essa √© a raz√£o pela qual quem l√™ muito e durante quase o dia inteiro, mas repousa nos intervalos, passando o tempo sem pensar, pouco a pouco perde a capacidade de pensar por si mesmo – como algu√©m que sempre cavalga e acaba por desaprender a caminhar. Tal √© a situa√ß√£o de muitos eruditos: √† for√ßa de ler, estupidificaram-se. Pois ler constantemente, retomando a leitura a cada instante livre, paralisa o esp√≠rito mais do que o trabalho manual cont√≠nuo, visto que, na execu√ß√£o deste √ļltimo, √© poss√≠vel entregar-se aos seus pr√≥prios pensamentos.
No entanto, como uma mola que, pela press√£o constante acarretada por meio de um corpo estranho,

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A Lusit√Ęnia

A terra mais ocidental de todas √© a Lusit√Ęnia. E porque se chama Ocidente aquela parte do mundo? Porventura porque vivem ali menos, ou morrem mais os homens? N√£o; sen√£o porque ali v√£o morrer, ali acabam, ali se sepultam e se escondem todas as luzes do firmamento. Sai no Oriente o Sol com o dia coroado de raios, como Rei e fonte da Luz: sai a Lua e as Estrelas com a noite, como tochas acesas e cintilantes contra a escuridade das trevas, sobem por sua ordem ao Z√©nite, d√£o volta ao globo do mundo resplandecendo sempre e alumiando terras e mares; mas em chegando aos Horizontes da Lusit√Ęnia, ali se afogam os raios, ali se sepultam os resplendores, ali desaparece e perece toda aquela pompa de luzes.
E se isto sucede aos lumes celestes e imortais; que nos lastimamos, Senhores, de ler os mesmos exemplos nas nossas Histórias? Que foi um Afonso de Albuquerque no Oriente? Que foi um Duarte Pacheco? Que foi um D. João de Castro? Que foi um Nuno da Cunha, e tantos outros Heróis famosos, senão uns Astros e Planetas lucidíssimos, que assim como alumiaram com estupendo resplendor aquele glorioso século, assim escurecerão todos os passados?

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A Duração da Vida em Perspectiva

A nossa religião não teve fundamento humano mais seguro do que o desprezo pela vida. Não somente o exercício da razão nos convida a isso, pois por que temeríamos perder uma coisa que perdida não pode ser lamentada; e, já que somos ameaçados por tantas formas de morte, não haverá maior mal em temê-las todas do que em suportar uma?
Que importa quando ela ser√°, pois que √© inevit√°vel? A algu√©m que dizia a S√≥crates: ¬ęOs trinta tiranos condenaram-te √† morte¬Ľ, respondeu ele: ¬ęE a natureza a eles¬Ľ. Que tolice nos atormentarmos sobre o momento da passagem para a isen√ß√£o de todo o tormento!
Assim como o nosso nascimento nos trouxe o nascimento de todas as coisas, assim a nossa morte trará a morte de todas as coisas. Por isso, chorar porque daqui a cem anos não estaremos a viver é loucura igual a chorar porque há cem anos atrás não vivíamos. A morte é origem de uma outra vida. Assim choramos nós; assim nos custou entrar nesta aqui; assim nos despojamos do nosso antigo véu quando entramos naquela.
Não pode ser penoso algo que o é apenas uma vez. Será certo temer por tão longo tempo uma coisa de tão breve duração?

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Todo o Conhecimento Degenera em Probabilidade

A nossa raz√£o deve ser considerada como uma esp√©cie de causa cujo efeito natural √© a verdade; mas um efeito tal que pode ser facilmente evitado pela intrus√£o de outras causas e pela inconst√Ęncia das nossas faculdades mentais. Dessa maneira, todo o conhecimento degenera em probabilidade; essa probabilidade √© maior ou menor segundo a nossa experi√™ncia da veracidade ou da falsidade do nosso entendimento e segundo a simplicidade ou a complexidade da quest√£o.

Ao sábio não o movem nem a afeição nem o ódio, o lucro nem a perda

Ao sábio não o movem nem a afeição nem o ódio, o lucro nem a perda, as honrarias nem os vexames. E por essa razão é ele tido em tão alta estima por todo o mundo.

A Necessidade da Filosofia

A filosofia n√£o brota por ser √ļtil, mas t√£o-pouco pela ac√ß√£o irracional de um desejo veemente. √Č constitutivamente necess√°ria ao intelectual. Porqu√™? A sua nota radical era buscar o todo como um tal todo, capturar o Universo, ca√ßar o Unic√≥rnio. Mas porqu√™ esse profundo anseio? Por que n√£o nos contentamos com o que, sem filosofar, achamos no mundo, com o que j√° √© e a√≠ est√° patente diante de n√≥s? Por esta simples raz√£o: tudo o que √© e est√° a√≠, quanto nos √© dado, presente, patente, √© por sua ess√™ncia um mero bocado, peda√ßo, fragmento, coto. E n√£o podemos v√™-lo sem prever e verificar que est√° a menos a por√ß√£o que falta. Em todo o ser que √© dado, em todo o dado do mundo encontramos a sua essencial linha de fractura, o seu car√°cter de parte e s√≥ parte – vemos a ferida da sua mutila√ß√£o ontol√≥gica, grita-nos a sua dor de amputado, a sua nostalgia do bocado que lhe falta para ser completo, o seu divino descontentamento. H√° doze anos, quando eu falava em Buenos Aires, definia o descontentamento ¬ęcomo um amar sem amado e uma como dor que sentimos em membros que n√£o temos¬Ľ. √Č o achar de menos o que n√£o somos,

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O Dom de Deixar Ir

√Č preciso aprender a viver. A qualidade da nossa exist√™ncia depende de um equil√≠brio fundamental na nossa rela√ß√£o com o mundo: apego e desapego. Nesta vida, a pondera√ß√£o, a propor√ß√£o e a subtileza s√£o sempre melhores que qualquer arrebatamento. Mas o essencial √© aprender que a exist√™ncia √© feita de d√°divas e perdas.

Eis porque quem reza deve pedir e agradecer: tudo √©, na verdade, um dom. Tudo passa… importa pois prepararmo-nos para a perda, ainda que tantas vezes n√£o seja sen√£o tempor√°ria… Alegrias e dores. S√≥ h√° felicidade num cora√ß√£o onde habita a sabedoria e paci√™ncia dos tempos e dos momentos, a paz de quem sabe que s√£o muitos os porqu√™s e para qu√™s que ultrapassam a capacidade humana de compreender.

Na vida, tudo se recebe e tudo se perde.
Amar é um apego natural mas também obriga a que deixemos o outro ser quem é, abrindo mão e permitindo-lhe que parta, ou que fique, sem desejar outra coisa senão que seja radicalmente livre. Aprendendo que há muito mais valor no ato de quem decide ficar do que naquele de quem só está por não poder partir.

Nada verdadeiramente nos pertence. O sublime do amor está aí,

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A Raz√£o

A raz√£o √© a suprema uni√£o da consci√™ncia e da consci√™ncia de si, ou seja, do conhecimento de um objecto e do conhecimento de si. √Č a certeza de que as suas determina√ß√Ķes n√£o s√£o menos objectais, n√£o s√£o menos determina√ß√Ķes da ess√™ncia das coisas do que s√£o os nossos pr√≥prios pensamentos. √Č, num √ļnico e mesmo pensamento, ao mesmo tempo e ao mesmo t√≠tulo, certeza de si, isto √©, subjectividade, e ser, isto √©, objectividade.
(…) A raz√£o √© t√£o poderosa quanto ardilosa. O seu ardil consiste em geral nessa actividade mediadora que, deixando os objectos agirem uns sobre os outros conforme √† sua pr√≥pria natureza, sem se imiscuir directamente na sua ac√ß√£o rec√≠proca, consegue, contudo, atingir unicamente o objectivo a que se prop√Ķe.
(…) A Raz√£o governa o mundo e, consequentemente, governa e governou a hist√≥ria universal. Em rela√ß√£o a essa raz√£o universal e substancial, todo o resto √© subordinado e serve-lhe de instrumento e de meio. Ademais, essa Raz√£o √© imanente na realidade hist√≥rica, realiza-se nela e por ela. √Č a uni√£o do Universal existente em si e por si e do individual e do subjecitvo que constitui a √ļnica verdade.

A Alegria Pura só Existe sem a Vaidade

A mais pura alegria é aquela que gozamos no tempo da inocência; estado venturoso, em que nada distinguimos pela razão, mas pelo instinto; e em que nada considera a razão, mas sim a natureza. Então circula veloz o nosso sangue, e os humores que num mundo novo, e resumido, apenas têm tomado os seus primeiros movimentos. Os humores são os que produzem as nossas alegrias; e com efeito não há alegria sem grande movimento; por isso vemos, que a tristeza nos abate, e a alegria nos move; o sossego ainda que indique contentamento, contudo mais é representação da morte que da vida; e a tranquilidade pode dar descanso, porém alegria não a dá sempre.

Mas como pode deixar de ser pura a alegria dos primeiros anos, se ainda então a vaidade não domina em nós? Então só sentimos o bem, e o mal, que resulta da dor, ou do prazer; depois também sentimos o mal, e o bem da opinião, isto é, da vaidade; por isso muitas cousas nos alegram, que tomadas em si mesmas, não têm mais bem, que aquele com que a vaidade as considera; e outras também nos entristecem, que tomadas só por si, não têm outro mal,

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Coerção e Autocoerção

Os casos e acontecimentos que nos dizem respeito aparecem e entrecruzam-se isoladamente, sem ordem nem rela√ß√£o uns com os outros, no mais vivo contraste e sem nada em comum, a n√£o ser justamente o facto de se relacionarem connosco. Dessa maneira, para corresponder a esses casos e acontecimentos, os nossos pensamentos e cuidados t√™m igualmente de estar desligados uns dos outros. Como consequ√™ncia, quando empreendemos algo, temos de nos abstrair de tudo o resto, para ent√£o tratar cada coisa a seu tempo, fru√≠-la e senti-la, sem demais preocupa√ß√Ķes. Precisamos ter, por assim dizer, compartimentos para os nossos pensamentos e abrir apenas um deles, enquanto os outros permanecem fechados. Desse modo, conseguimos impedir que uma preocupa√ß√£o muito grave roube cada pequeno prazer do presente, despojando-nos de toda a tranquilidade.
Conseguimos ainda fazer com que uma pondera√ß√£o n√£o reprima a outra, que a preocupa√ß√£o com um caso importante n√£o produza a neglig√™ncia de muitos de menor relev√Ęncia, e assim por diante. Mas sobretudo o homem capaz de considera√ß√Ķes elevadas e nobres nunca pode deixar o seu esp√≠rito ser totalmente possu√≠do e absorvido por casos pessoais e preocupa√ß√Ķes triviais, a ponto de impedir o acesso √†s altas considera√ß√Ķes, pois isso, de facto,

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O que é uma Pessoa Religiosamente Iluminada

Em vez de perguntar o que √© a religi√£o, prefiro perguntar o que caracteriza as aspira√ß√Ķes de uma pessoa que me d√° a impress√£o de ser religiosa: uma pessoa que √© religiosamente iluminada parece-me algu√©m que, utilizando as suas melhores capacidades, se libertou das grilhetas dos seus desejos ego√≠stas e est√° preocupado com pensamentos, sentimentos e aspira√ß√Ķes a que se agarra devido ao seu estreito valor superpessoal. Parece-me que o que √© importante √© a for√ßa deste conte√ļdo superpessoal e a profundidade da convic√ß√£o relativa ao seu significado esmagador, independentemente de se fazer alguma tentativa para reunir este conte√ļdo com um ser divino, pois de outro modo n√£o seria poss√≠vel considerar Buda e Spinoza personalidades religiosas. De igual modo, uma pessoa religiosa √© devota no sentido de que n√£o tem quaisquer d√ļvidas sobre o significado e o car√°cter desses objectos e fins superpessoais, que n√£o necessitam nem garantem uma fundamenta√ß√£o racional (…)
A ci√™ncia s√≥ pode ser criada por aqueles que est√£o profundamente imbu√≠dos de uma aspira√ß√£o de verdade e compreens√£o. Todavia, a origem deste sentimento nasce na esfera da religi√£o. A esta esfera pertence tamb√©m a f√© na possibilidade de as regula√ß√Ķes v√°lidas para o mundo real serem racionais,

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A Vida Raramente depende da Inciativa dos Homens

Poucas pessoas saber√£o, a meio da vida, como chegaram a ser o que s√£o, aos seus prazeres, √† sua vis√£o do mundo, √† sua mulher, ao seu car√°cter, √† sua profiss√£o e aos seus √™xitos; mas sentem que a partir da√≠ as coisas j√° n√£o ir√£o mudar muito. Poderia mesmo afirmar-se que foram enganadas, porque n√£o se consegue descobrir em lugar nenhum a raz√£o suficiente para que tudo tenha acontecido como aconteceu, quando teria sido perfeitamente poss√≠vel ter acontecido de outra forma. O que acontece, ali√°s, raramente depende da iniciativa dos homens, mas quase sempre das mais variadas circunst√Ęncias, dos caprichos, da vida e da morte de outras pessoas, e, de certo modo, limita-se a vir ter connosco naquele preciso momento. Na juventude, a vida est√° ainda √† nossa frente como uma manh√£ inesgot√°vel, plena de possibilidades e de vazio; mas logo ao meio-dia algo se anuncia que reclama ser a nossa pr√≥pria vida, mas que √© t√£o surpreendente como uma pessoa com quem nos correspondemos durante vinte anos sem a conhecer, e que um belo dia, de repente, temos diante de n√≥s e constatamos que √© completamente diferente do que hav√≠amos imaginado.
Mas o mais estranho é que a maior parte das pessoas nem dêem por isso;

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O Simples e o Complicado

As pessoas n√£o querem que se lhes d√™ li√ß√Ķes. √Č por isso que n√£o compreendem agora as coisas mais simples. No dia em que o quiserem, verificar-se-√° que s√£o capazes de compreender tamb√©m as coisas mais complicadas. At√© l√°, as instru√ß√Ķes s√£o: continuar a trabalhar, discutir o menos poss√≠vel. Com efeito, s√≥ poder√≠amos dizer a um indiv√≠duo: voc√™ √© um imbecil, a outro: voc√™ √© um patife, e h√° boas raz√Ķes que excluem a realiza√ß√£o expressiva de tais convic√ß√Ķes. Sabemos, de resto, que estamos diante de pobres diabos, que receiam por um lado chocar, prejudicar as suas carreiras e que, por outro lado, se encontram acorrentados pelo medo do que est√° recalcado neles pr√≥prios. Teremos de esperar que todos eles morram ou se tornem lentamente minorit√°rios. De qualquer maneira, o que acontece de fresco e de novo √© a n√≥s que pertence.