Passagens de Camilo Castelo Branco

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Este Amor Infinito e Imaculado

Querida, o teu viver era um letargo,
Nenhuma aspiração te atormentava;
Afeita j√° do jugo ao duro cargo,
Teu peito nem sequer desafogava.
Fui eu que te apontei um mundo largo
De novas sensa√ß√Ķes; teu peito ansiava
Ouvindo-me contar entre caricias,
Do livre e ardente amor tantas delicias!

N√£o te mentia, n√£o. Sentiste-o, filha,
Esse amor infinito e imaculado,
Estrela maga que incessante brilha
Da alma pura ao casto amor sagrado;
Afecto nobre que jamais partilha
O coracão de vícios ulcerado.
N√£o sentes, nem recordas, j√° sequer?
Quem deste amor te despenhou, mulher ?

Eu n√£o! Se muitos crimes me desluzem,
Se p√īde transviar-me o seu encanto,
Ao menos uma só não me recusem,
Uma virtude só: amar-te tanto!
Embora inj√ļrias contra mim se cruzem,
Cuspindo insultos neste amor t√£o santo,
Diz tu quem fui, quem sou, e se é verdade
O opróbrio aviltador da sociedade.

O amor indómito, fremente e tempestuoso é um naufrágio que se ama, uma dor com que se brinca, e, enfim, um delírio honroso em qualquer criatura.

A felicidade, à custa de lágrimas alheias, é uma traição aos nossos gozos: é um licor saboroso em taça de prata, com fezes no fundo, fezes que afinal somos obrigados a tragar.

Não há desgraça absoluta debaixo do céu. Todos somos infelizes, quando olhamos a medalha por uma só das faces.

A mulher mais digna de n√≥s √© aquela que melhor serve as nossas propens√Ķes, quer viva na cripta subterr√Ęnea das vestais, quer se ostente de seios n√ļs no estrado do alcouce.

A Decadência do Coração nos Tempos Modernos

Nestes ruins tempos de material e nauseante industrialismo, a fase do cora√ß√£o √© curta, o amor vem tempor√£o, e como que apodrece antes de sazonado. De toda a parte, aos ouvidos do mancebo vem a soada do martelar da ind√ļstria. A sociedade, aparelhada em oficina, n√£o d√° por ele, se o n√£o v√™ a labutar e mourejar no veio da riqueza. T√≠tulos, gl√≥ria, homenagens, regalos, as fei√ß√Ķes todas da festejada m√°scara, com que por aqui nos andamos entrudando uns aos outros, s√≥ pode ser afivelada com broches de ouro. Dislates do amor empecem o ir direito ao fim. O cora√ß√£o √© v√≠scera que derranca o sangue, se com as muitas vertigens o vascoleja demais. Faz-se mister abafar-lhe as v√°lvulas e exercitar o c√©rebro, onde demora a bossa do c√°lculo, da empresa, da sord√≠cia gananciosa, e outras muitas bossas filiadas ao est√īmago, o qual √©, sem debate, a v√≠scera por excel√™ncia, o luzeiro perene entre as trevas que ofuscam as almas.

H√° mulheres que parecem ensoberbecer-se com o seu pr√≥prio infort√ļnio. A docilidade, a humilha√ß√£o sem desdouro, poder√°, nos casos de muitas, revirar a pouco e pouco a sorte.

H√° certas mulheres que influem sobre certos homens como o sol da zona ardente. (…) Hoje, gra√ßas aos romances, s√£o quase todas.

A amante que chora o amante que teve, na presença do amante que se lhe oferece, quer persuadir o segundo que é arrastada ao crime pela ingratidão do primeiro.