Textos sobre Dependentes

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Textos de dependentes escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Dominar ou Morrer

Uma esp√©cie nasce, um tipo fixa-se e torna-se forte sob a longa luta com condi√ß√Ķes desfavor√°veis essencialmente constantes. Inversamente, sabe-se pelas experi√™ncias dos criadores de gado que as esp√©cies que foram superalimentadas e, de um modo geral, tiveram demasiada protec√ß√£o e cuidados, logo tendem marcadamente para a varia√ß√£o de tipos e abundam em prod√≠gios e monstruosidades (tamb√©m em v√≠cios monstruosos). Considere-se agora uma comunidade aristocr√°tica, por exemplo uma antiga polis grega ou Veneza como institui√ß√£o volunt√°ria ou involunt√°ria, destinada √† selec√ß√£o: h√° ali homens convivendo dependentes uns dos outros e que querem impor a sua esp√©cie, em geral porque se t√™m que impor ou de contr√°rio correm o terr√≠vel risco de serem exterminados.

O Tele-Lixo

Se a √ļnica coisa que oferecerem √†s pessoas for tele-lixo e omitirem que existem outras coisas, elas acreditar√£o que n√£o existe mais nada para l√° do lixo. Nestes momentos, a audi√™ncia √© a rainha e por causa dela √© l√≠cito uma pessoa at√© matar a av√≥. Os meios de comunica√ß√£o t√™m grande parte da responsabilidade nisto, embora seja necess√°rio perguntar quem move os seus fios. Por detr√°s h√° sempre um banco ou um governo. Um jornal independente? Uma r√°dio livre? Uma televis√£o objectiva? Isso n√£o existe. Essa mistura, o tele-lixo e os meios de comunica√ß√£o dependentes, provoca que a sociedade esteja gravemente doente.

Um Segredo de um Casamento Feliz

Desde que a Maria João e eu fizemos dez anos de casados que estou para escrever sobre o casamento. Depois caí na asneira de ler uns livros profissionais sobre o casamento e percebi que eu não percebo nada sobre o casamento.

Confesso que a minha ambição era a mais louca de todas: revelar os segredos de um casamento feliz. Tendo descoberto que são desaconselháveis os conselhos que ia dar, sou forçado a avisar que, quase de certeza, só funcionam no nosso casamento.

Mas vou dá-los à mesma, porque nunca se sabe e porque todos nós somos muito mais parecidos do que gostamos de pensar.

O casamento feliz n√£o √© nem um contrato nem uma rela√ß√£o. Rela√ß√Ķes temos n√≥s com toda a gente. √Č uma cria√ß√£o. √Č criado por duas pessoas que se amam.

O nosso casamento √© um filho. √Č um filho inteiramente dependente de n√≥s. Se n√≥s nos separarmos, ele morre. Mas n√£o deixa de ser uma terceira entidade.

Quando esse filho é amado por ambos os casados Рque cuidam dele como se cuida de um filho que vai crescendo -, o casamento é feliz. Não basta que os casados se amem um ao outro.

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Valoriza-se mais o Ter que o Ser

A primeira fase da domina√ß√£o da economia sobre a vida social levou, na defini√ß√£o de toda a realiza√ß√£o humana, a uma evidente degrada√ß√£o do ser em ter. A fase presente da ocupa√ß√£o total da vida social em busca da acumula√ß√£o de resultados econ√≥micos conduz a uma busca generalizada do ter e do parecer, de forma que todo o ¬ęter¬Ľ efectivo perde o seu prest√≠gio imediato e a sua fun√ß√£o √ļltima. Assim, toda a realidade individual tornou-se social e directamente dependente do poderio social obtido.

(…) O espect√°culo √© o herdeiro de toda a fraqueza do projecto filos√≥fico ocidental, que foi uma compreens√£o da actividade dominada pelas categorias do ver; assim como se baseia no incessante alargamento da racionalidade t√©cnica precisa, proveniente deste pensamento. Ele n√£o realiza a filosofia, ele filosofa a realidade. √Č a vida concreta de todos que se degradou em universo especulativo.
A filosofia, enquanto poder do pensamento separado, e pensamento do poder separado, nunca pode por si própria superar a teologia. O espectáculo é a reconstrução material da ilusão religiosa. A técnica espectacular não dissipou as nuvens religiosas onde os homens tinham colocado os seus próprios poderes desligados de si: ela ligou-os somente a uma base terrestre.

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Porquê Confiar em Si Mesmo?

A confiança só será possível se primeiro tiver confiança em si próprio. E isto deve começar por acontecer dentro de si. Se tiver confiança em si próprio, poderá ter confiança em mim, poderá ter confiança nas pessoas, poderá ter confiança na existência. Mas, se não tiver confiança em si próprio, então nunca mais será possível ter confiança em mais ninguém. E a sociedade corta a confiança pela raiz. Não permite que você confie em si próprio. Ensina-lhe todo o tipo de confiança Рconfiança nos pais, confiança na Igreja, confiança no Estado, confiança em Deus, ad infinitum. Mas a confiança básica é completamente destruída. E depois qualquer outra confiança será uma impostura, estará destinada a ser uma impostura. E então qualquer outra confiança não passará de meras flores de plástico. Não há em si raízes verdadeiras que lhe permitam fazer nascer flores verdadeiras.

A sociedade faz isso deliberadamente, de prop√≥sito, porque um homem que confie em si pr√≥prio √© perigoso para a sociedade – uma sociedade que depende da escravid√£o, uma sociedade que investiu demasiadamente na escravid√£o. Um homem que confie em si pr√≥prio √© um homem independente. √Č imposs√≠vel fazer previs√Ķes a seu respeito, ele movimentar-se-√° conforme quiser.

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A Subjectividade dos Comportamentos

Podemos ter para com as coisas que nos acontecem ou que fazemos uma atitude mais geral ou mais pessoal. Podemos sentir uma pancada n√£o apenas como dor, mas tamb√©m como ofensa, e neste caso ela torna-se cada vez mais insuport√°vel; mas tamb√©m aceit√°-la desportivamente, como um obst√°culo que n√£o nos intimidar√° nem nos arrastar√° para uma ira cega, e ent√£o n√£o √© raro nem sequer darmos por ela. Neste segundo caso, por√©m, o que aconteceu foi apenas que integr√°mos essa pancada num contexto mais geral, o do combate, e em fun√ß√£o disso a natureza do golpe revelou-se dependente da tarefa que tem de desempenhar. E precisamente este fen√≥meno, que leva a que um acontecimento receba o seu significado, e mesmo o seu conte√ļdo, mediante a sua inser√ß√£o numa cadeia de ac√ß√Ķes consequentes, produz-se em todos os indiv√≠duos que n√£o o encaram apenas como acontecimento pessoal, mas como desafio √† sua capacidade intelectual.
Tamb√©m ele ser√° mais superficialmente afectado nas suas emo√ß√Ķes pelo que faz. Mas, estranhamente, aquilo que se v√™ como sinal de intelig√™ncia superior num pugilista √© visto como frieza e insensibilidade em pessoas que n√£o sabem de boxe e nas quais isso se deve √† sua inclina√ß√£o para uma determinada forma de vida intelectual.

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Serenidade Desperta

Tenho tanta coisa para fazer. Pois, mas aquilo que faz, f√°-lo com qualidade? Conduzir at√© ao emprego, falar com os clientes, trabalhar no computador, fazer recados, lidar com os incont√°veis afazeres que preenchem a sua vida quotidiana – at√© que ponto √© que se entrega √†s coisas que faz? E realiza-as com entrega, sem resist√™ncia, ou, pelo contr√°rio, sem se entregar e resistindo √† ac√ß√£o? √Č isto que determina o sucesso na vida e n√£o a dose de esfor√ßo que se despende. O esfor√ßo implica stresse e desgaste f√≠sico, implica a necessidade absoluta de atingir um determinado objectivo ou de alcan√ßar um determinado resultado.

√Č capaz de detectar dentro de si at√© a mais pequena sensa√ß√£o de n√£o quererestar a fazer aquilo que est√° a fazer? Isso √© uma nega√ß√£o da vida e, desse modo, n√£o ser√° poss√≠vel obter resultados verdadeiramente bons.

Se for capaz de descobrir aquela sensa√ß√£o, ser√° que tamb√©m consegue abdicar dela e entregar–se completamente √†quilo que faz?

‚ÄúFazer uma coisa de cada vez”, foi assim que um Mestre Zen definiu o esp√≠rito da filosofia Zen.

Fazer uma coisa de cada vez significa estar nela por inteiro, concentrar nela toda a sua atenção.

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A Vida é uma Montanha Russa

A vida n√£o √© uma linha reta em que algu√©m conquistado ou algo adquirido √© uma seguran√ßa para todo o sempre; a vida √© uma montanha russa e, de vez em quando, sim, √© preciso ficares de pernas para o ar. Tudo passa, tu ficas. Sou t√£o assertivo relativamente a este tema porque sei que √© a depend√™ncia que gera o apego, ou seja, se as pessoas forem independentes √© imposs√≠vel serem apegadas. √Č o ego que as vincula √† ideia de que n√£o s√£o suficientemente boas para dependerem de si mesmas e √© contra esta terr√≠vel armadilha que √© preciso lutar.

Uma m√£e que dependa do bem–estar do filho e que viva para ele √© uma mulher que n√£o encontrar√° for√ßas para lhe esticar o bra√ßo quando ele cair e precisar de uma verdadeira m√£e, pois ser√£o sempre dois a sofrer da mesma epidemia, da mesma dor, da mesma frustra√ß√£o ou desilus√£o; um homem que use e abuse da estabilidade profissional e financeira que conquistou e que dependa disso para, pensa ele, ser o que √©, √© algu√©m que mais tarde ou mais cedo, e num daqueles loopings da vida em que o que era j√° n√£o √©,

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As Culturas de Indivíduo, Grupo, e Sociedade

O termo cultura tem associa√ß√Ķes diferentes conforme temos em mente o desenvolvimento de um indiv√≠duo, de um grupo ou classe ou de toda uma sociedade. √Č parte da minha tesse que a cultura do indiv√≠duo est√° dependente da cultura de um grupo ou classe, e que a cultura do grupo ou classe est√° dependente da cultura de toda a sociedade a que esse grupo ou classe pertence. Por isso, √© a cultura da sociedade que √© fundamental, e √© o significado do termo ¬ęcultura¬Ľ em rela√ß√£o a toda a sociedade que se devia examinar primeiro. Quando o termo ¬ęcultura¬Ľ se aplica √† manipula√ß√£o de organismos inferiores – ao trabalho do bacteriologista ou do agricultor – o significado √© bastante claro porque podemos obter unanimidade a respeito dos fins a serem atingidos, e podemos concordar quanto a t√™-los atingidos ou n√£o. Quando se aplica ao aperfei√ßoamento do intelecto e esp√≠ritos humanos, √© menos prov√°vel que concordemos em rela√ß√£o ao que a cultura √©. O termo em si, significando alguma coisa a que se deve conscientemente aspirar em assuntos humanos, n√£o tem uma uma hist√≥ria longa.

Como alguma coisa a ser alcan√ßada com esfor√ßo deliberado, a ¬ęcultura¬Ľ √© relativamente intelig√≠vel quando nos preocupamos com o acto do indiv√≠duo se autocultivar,

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Esquecimento Esvaziante

A variedade das nossas emo√ß√Ķes torna claro que cada homem guarda dentro de si os celeiros do contentamento e do descontentamento: os jarros das coisas boas e m√°s n√£o est√£o depositados ¬ęna soleira de Zeus¬Ľ, mas na alma. O n√©scio negligencia e desdenha as coisas boas que l√° est√£o porque a sua imagina√ß√£o acha-se sempre voltada para o futuro; o sensato, por√©m, torna os factos pregressos vividamente presentes com record√°-los. O presente oferece-se ao toque da nossa m√£o apenas por um instante e logo nos ilude os sentidos; os tolos julgam que ele n√£o √© mais nosso, que n√£o mais nos pertence.
Há a pintura de um cordoeiro no inferno, com um asno a engolir toda a corda feita por ele, à medida que ele a entretece; assim é a multidão acometida e dominada pelo esquecimento insensato e ingrato, que apaga cada acto, cada sucesso, cada experiência aprazível de bem-estar, de camaradagem e de deleite.
O esquecimento n√£o consente √† vida desenvolver-se unitariamente, o passado entretecido com o presente, mas separa o ontem do hoje, como se fossem de diferente subst√Ęncia, e o hoje do amanh√£, como se n√£o fossem o mesmo; transforma toda a ocorr√™ncia em n√£o-ocorr√™ncia.

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As Três Fases da Moralidade

Temos o primeiro sinal de que o animal se tornou homem, quando a sua actua√ß√£o j√° n√£o se relaciona com o bem-estar moment√Ęneo, mas com o duradouro, pro¬≠va de que o homem adquire o sentido do “√ļtil”, do “adequado”: √© ent√£o que, pela primeira vez, irrompe o livre senhorio da raz√£o. Um est√°dio ainda mais ele¬≠vado √© alcan√ßado, quando ele age consoante o prin¬≠c√≠pio da honra; gra√ßas ao mesmo, ele adapta-se, sub¬≠mete-se a sentimentos comuns, e isso ergue-o muito acima da fase, em que s√≥ a utilidade entendida em termos pessoais o guiava: ele respeita e quer ser res¬≠peitado, isto √©, entende o proveito como dependente do que ele opina acerca dos outros, do que os outros opinam acerca dele. Finalmente, na fase mais eleva¬≠da da moralidade em uso at√© agora, ele age segundo o seu crit√©rio quanto √†s coisas e √†s pessoas, ele pr√≥prio determina para si e para outros o que √© honroso, o que √© √ļtil; tornou-se o legislador das opini√Ķes, em conformidade com o conceito cada vez mais desen¬≠volvido do √ļtil e do honroso. O conhecimento habi¬≠lita-o a preferir o mais √ļtil, ou seja, a colocar o pro¬≠veito geral e duradouro √† frente do pessoal, a respeitosa estima de valia geral e duradoura √† frente da moment√Ęnea;

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A Avaliação de uma Civilização

Quando j√° se viveu por muito tempo numa civiliza√ß√£o espec√≠fica e com frequ√™ncia se tentou descobrir quais foram as suas origens e ao longo de que caminho ela se desenvolveu, fica-se √†s vezes tentado a voltar o olhar para outra dire√ß√£o e indagar qual o destino que a espera e quais as transforma√ß√Ķes que est√° fadada a experimentar. Logo, por√©m, se descobre que, desde o in√≠cio, o valor de uma indaga√ß√£o desse tipo √© diminu√≠do por diversos fatores, sobretudo pelo facto de apenas poucas pessoas poderem abranger a actividade humana em toda a sua amplitude. A maioria das pessoas foi obrigada a restringir-se a somente um ou a alguns dos seus campos. Entretanto, quanto menos um homem conhece a respeito do passado e do presente, mais inseguro ter√° de mostrar-se o seu ju√≠zo sobre o futuro. E h√° ainda uma outra dificuldade: a de que precisamente num ju√≠zo desse tipo as expectativas subjectivas do indiv√≠duo desempenham um papel dif√≠cil de avaliar, mostrando ser dependentes de factores puramente pessoais de sua pr√≥pria experi√™ncia, do maior ou menor optimismo da sua atitude para com a vida, tal como lhe foi ditada pelo seu temperamento ou pelo seu sucesso ou fracasso. Finalmente, faz-se sentir o facto curioso de que,

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Matéria e Espírito

N√≥s hoje estamos ao mesmo tempo na melhor √©poca da humanidade e na pior. T√£o depressa sentimos que tudo em n√≥s e em redor marcha un√≠ssono em frente, como subitamente um grande atrito emperra as nossas pr√≥prias articula√ß√Ķes. H√° ao mesmo tempo qualquer coisa que nos desacompanha e qualquer coisa que nos anima. H√° caminhos inteiros que terminam s√ļbito e n√£o h√° caminho inteiro e vital√≠cio. E n√≥s desejamos francamente acertar com a direc√ß√£o √ļnica e onde o √ļnico obst√°culo seja de verdade o mist√©rio do futuro.
Todo aquele que se lance mais animado pela palavra espírito, não creia que faz mais do que estar sujeito a uma determinante actual. A consciência material, como acontece hoje, dá entrada natural para o campo do espírito. Assim também o espírito tem existência vital segundo a qualidade de consciência da matéria. O espírito apartando da matéria não é deste mundo. Espírito e matéria confundem-se em vida.
Acontece, por√©m, que os fugitivos da mat√©ria transformam em si esse unilateralismo ao ingressar no esp√≠rito, e ficam outra vez de banda, inversamente agora, mas como antes. Ora o esp√≠rito n√£o tem mais dimens√Ķes do que a mat√©ria; s√£o outras, mas id√™nticas, que se justap√Ķem,

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Civilização e Religião Condicionam-se Uma à Outra

Quando a civiliza√ß√£o formulou o mandamento de que o homem n√£o deve matar o pr√≥ximo a quem odeia, que se acha no seu caminho ou cuja propriedade cobi√ßa, isso foi claramente efetuado no interesse comunal do homem, que, de outro modo, n√£o seria pratic√°vel, pois o assassino atrairia para si a vingan√ßa dos parentes do morto e a inveja de outros, que, dentro de si mesmos, se sentem t√£o inclinados quanto ele a tais actos de viol√™ncia. Assim, n√£o desfrutaria da sua vingan√ßa ou do seu roubo por muito tempo, mas teria toda a possibilidade de ele pr√≥prio em breve ser morto. Mesmo que se protegesse contra os seus inimigos isolados atrav√©s de uma for√ßa ou cautela extraordin√°rias, estaria fadado a sucumbir a uma combina√ß√£o de homens mais fracos. Se uma combina√ß√£o desse tipo n√£o se efectuasse, o homic√≠dio continuaria a ser praticado de modo infind√°vel e o resultado final seria que os homens se exterminariam mutuamente. Chegar√≠amos, entre os indiv√≠duos, ao mesmo estado de coisas que ainda persiste entre fam√≠lias na C√≥rsega, embora, em outros lugares, apenas entre na√ß√Ķes. A inseguran√ßa da vida, que constitui um perigo igual para todos, une hoje os homens numa sociedade que pro√≠be ao indiv√≠duo matar,

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Sensibilidade e Maturidade

Uma certa vivacidade de impress√Ķes, mais directamente dependentes da sensibilidade f√≠sica, decresce com a idade. Ao chegar aqui, e sobretudo depois de ter aqui passado alguns dias, n√£o senti, desta vez, essas vagas de tristeza ou de entusiasmo que este local me costumava comunicar, e cuja recorda√ß√£o, depois, me era t√£o doce.
Deix√°-lo-ei, se calhar, sem a pena que outrora sentia. O meu esp√≠rito, por seu turno, tem hoje uma seguran√ßa muito maior, uma maior capacidade de fazer associa√ß√Ķes e de se exprimir; a intelig√™ncia cresceu, mas a alma perdeu parte da sua elasticidade e irritabilidade. E porque √© que, ao fim e ao cabo, n√£o partilhar√° o homem o destino comum de todos os outros seres?
Ao pegarmos num fruto delicioso, ser√° justo pretender respirar ao mesmo tempo o perfume da flor? Foi preciso passar pela subtil delicadeza da nossa sensibilidade juvenil para chegar a esta seguran√ßa e maturidade do esp√≠rito. Talvez os grandes homens – √© o que eu penso – sejam aqueles que, numa idade em que a intelig√™ncia possui j√° a sua plena for√ßa, ainda conservam parte dessa impetuosidade das impress√Ķes, que √© pr√≥pria da juventude.

Como Ser Autónomo?

As pessoas vivem toda a sua vida a acreditar no que os outros dizem, dependentes dos outros. √Č por isso que t√™m tanto medo da opini√£o dos outros. Se eles pensam que voc√™ √© mau, torna-se mau. Se o condenam, come√ßa a condenar-se. Se dizem que √© pecador, come√ßa a sentir-se culpado. E, como depende da opini√£o deles, √© obrigado a conformar-se constantemente com as suas opini√Ķes; sen√£o eles mudar√£o de opini√£o. Ora isso cria uma escravid√£o, uma escravid√£o muito subtil. Se quiser ser considerado bom, digno, belo, inteligente, tem de fazer concess√Ķes, tem de se comprometer continuamente com as pessoas de quem depende.

E levanta-se um outro problema. Como h√° muitas pessoas, elas est√£o sempre a alimentar a sua mente com diferentes tipos de opini√Ķes ‚ÄĒ opini√Ķes conflituosas, ainda por cima. Uma opini√£o a contradizer outra opini√£o ‚ÄĒ da√≠ que exista uma grande confus√£o dentro de si. Uma pessoa diz que voc√™ √© muito inteligente, outra pessoa diz-lhe que √© est√ļpido. Como decidir? Ent√£o fica dividido. Fica com d√ļvidas sobre si pr√≥prio, sobre quem √©… uma ondula√ß√£o. E a complexidade √© muito grande, porque h√° milhares de pessoas √† sua volta.
Você está em contacto com muitas pessoas e cada uma delas mete a sua ideia na sua mente.

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A Dificuldade do Poder Obtido sem Esforço

Aqueles que, s√≥ pela m√£o da fortuna, de vulgares cidad√£os se tornam pr√≠ncipes alcan√ßam o mando com pouca fadiga, mas s√≥ com muito esfor√ßo o conseguem manter. N√£o experimentam dificuldades na caminhada para o poder, parecendo que para l√° v√£o voando. As dificuldades surgem depois de serem entronizados. √Č o que sucede com aqueles a quem √© dado um estado a troco de dinheiro ou por gra√ßa de quem o concede (…) Os que assim sobem √† condi√ß√£o de pr√≠ncipe ficam dependentes da vontade e da fortuna de quem lhes proporcionou o trono, que s√£o duas coisas assaz vol√ļveis e inst√°veis, n√£o sabendo nem podendo garantir a sua conserva√ß√£o. N√£o sabem – porque, a menos que seja um homem de grande habilidade e virtude, n√£o √© razo√°vel que, tendo sempre vivido como vulgar cidad√£o, saiba comandar; n√£o podem – porque n√£o disp√Ķem de for√ßas que lhes possam ser amigas e fi√©is. Al√©m disto, os estados que surgem de repente, como todas as outras coisas da natureza que nascem e crescem rapidamente, n√£o desenvolvem as ra√≠zes, o tronco e os ramos, sendo destru√≠dos pelo primeiro temporal. Isto, a menos que aqueles que, como eu disse, de repente se tornaram pr√≠ncipes possuam tanta virtude como a fortuna que tiveram quando o estado lhes caiu no rega√ßo e saibam,

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Dificuldade de Prever o Comportamento de qualquer Pessoa, o Nosso Inclusivamente

Sendo vari√°vel o nosso ‚Äúeu‚ÄĚ, que √© dependente das circunst√Ęncias, um homem jamais deve supor que conhece outro. Pode somente afirmar que, n√£o variando as circunst√Ęncias, o procedimento do indiv√≠duo observado n√£o mudar√°. O chefe de escrit√≥rio que j√° redige h√° vinte anos relat√≥rios honestos, continuar√° sem d√ļvida a redigi-los com a mesma honestidade, mas cumpre n√£o o afirmar em demasia. Se surgirem novas circunst√Ęncias, se uma paix√£o forte lhe invadir a mente, se um perigo lhe amea√ßar o lar, o insignificante burocrata poder√° tornar-se um celerado ou um her√≥i.
As grandes oscila√ß√Ķes da personalidade observam-se quase exclusivamente na esfera dos sentimentos. Na da intelig√™ncia, elas s√£o muito fracas. Um imbecil permanecer√° sempre imbecil.
As poss√≠veis varia√ß√Ķes da personalidade, que impedem de conhecermos a fundo os nossos semelhantes, tamb√©m obstam a que cada qual se conhe√ßa a si pr√≥prio. O ad√°gio ‚ÄúNosce te ipsum‚ÄĚ dos antigos fil√≥sofos constitui um conselho irrealiz√°vel. O ‚Äúeu‚ÄĚ exteriorizado representa habitualmente uma personalidade de empr√©stimo, mentirosa. Assim √©, n√£o s√≥ porque atribu√≠mos a n√≥s mesmos muitas qualidades e n√£o reconhecemos absolutamente os nossos defeitos, como tamb√©m porque o nosso ‚Äúeu‚ÄĚ cont√©m uma pequena por√ß√£o de elementos conscientes, conhec√≠veis em rigor, e, em grande parte,

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A Arte da Retórica Floresce nas Sociedades Decadentes

Um ret√≥rico do passado dizia que o seu of√≠cio era fazer que as coisas pequenas parecessem grandes e como tais fossem julgadas. Dir-se-ia um sapateiro que, para cal√ßar p√©s pequenos, sabe fazer sapatos grandes. Em Esparta ter-lhe-iam dado a experimentar o azorrague por professar uma arte trapaceira e mentirosa. E creio que Arquidamo, que foi seu rei, n√£o ter√° ouvido sem espanto a resposta de Tuc√≠dides, ao qual perguntara quem era mais forte na luta, se P√©ricles, se ele: ¬ęIsso ser√° dif√≠cil de verificar, pois quando o deito por terra, ele convence os espectadores que n√£o caiu, e ganha¬Ľ. Os que, com cosm√©ticos, caracterizam e pintam as mulheres fazem menos mal, pois √© coisa de pouca perda n√£o as ver ao natural, ao passo que estoutros fazem ten√ß√£o de enganar, n√£o j√° os olhos, mas o nosso ju√≠zo, e de abastardar e corromper a ess√™ncia das coisas. Os Estados que longamente se mantiveram em boa ordem e bem governados, como o cretense e o lacedem√≥nio, n√£o tinham em grande conta os oradores.
Aríston definiu sabiamente a retórica como a ciência de persuadir o povo; Sócrates e Platão, como a arte de enganar e lisonjear; e aqueles que isto negam na sua definição genérica,

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