Cita√ß√Ķes de Guy Debord

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Frases, pensamentos e outras cita√ß√Ķes de Guy Debord para ler e compartilhar. Os melhores escritores est√£o em Poetris.

O Autofagismo do Meio Urbano

O momento presente √© o momento do autofagismo do meio urbano. O rebentar das cidades sobre campos recobertos de ¬ęmassas informes de res√≠duos urbanos¬Ľ (Lewis Mumford) √©, de um modo imediato, presidido pelos imperativos do consumo. A ditadura do autom√≥vel, produto-piloto da primeira fase da abund√Ęncia mercantil, estabeleceu-se na terra com a prevalesc√™ncia da auto-estrada, que desloca os antigos centos e exige uma dispers√£o cada vez maior. Ao passo que os momentos de reorganiza√ß√£o incompleta do tecido urbano polarizam-se passageiramente em torno das ¬ęf√°bricas de distribui√ß√£o¬Ľ que s√£o os gigantescos supermercados, geralmente edificados em terreno aberto e cercados por um estacionamento; e estes templos de consumo precipitado est√£o, eles pr√≥prios, em fuga num movimento centr√≠fugo, que os repele √† medida que eles se tornam, por sua vez, centros secund√°rios sobrecarregados, porque trouxeram consigo uma recimposi√ß√£o parcial da aglomera√ß√£o. Mas a organiza√ß√£o t√©cnica do consumo n√£o √© outra coisa sen√£o o arqu√©tipo da dissolu√ß√£o geral que conduziu a cidade a consumir-se a si pr√≥pria.
A história económica, que se desenvolveu intensamente em torno da oposição cidade-campo, chegou a um tal grau de sucesso que anula ao mesmo tempo os dois termos. A paralisia actual do desenvolvimento histórico total, em proveito da exclusiva continuação do movimento independente da economia,

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O Esmagamento do Eu

O espectáculo (da sociedade de consumo) que é a extinção dos limites do eu e do mundo pelo esmagamento do eu que a presença-ausência do mundo assedia, é igualmente a supressão dos limites do verdadeiro e do falso pelo recalcamento de toda a verdade vivida sob a presença real da falsidade que a organização da aparência assegura. Aquele que sofre passivamente a sua sorte quotidianamente estranha é, pois, levado a uma loucura que reage ilusoriamente a essa sorte, ao recorrer a técnicas mágicas. O reconhecimento e o consumo das mercadorias estão no centro desta pseudo-resposta a uma comunicação sem resposta. A necessidade de imitação que o consumidor sente é precisamente uma necessidade infantil, condicionada por todos os aspectos da sua despossessão fundamental.

Toda a vida das sociedades em que dominam as condi√ß√Ķes modernas de produ√ß√£o aparece como uma imensa acumula√ß√£o de espet√°culos.

Sociedade de Indivíduos Normalizados

O apagamento da personalidade acompanha as condi√ß√Ķes da exist√™ncia concretamente submetida √†s normas espectaculares da sociedade de consumo, e tamb√©m cada vez mais separada das possibilidades de conhecer experi√™ncias que sejam aut√™nticas e, atrav√©s delas, descobrir as suas prefer√™ncias individuais.
O indiv√≠duo, paradoxalmente, dever√° negar-se permanentemente se pretende ser um pouco considerado nesta sociedade. Esta exist√™ncia postula com efeito uma fidelidade sempre vari√°vel, uma s√©rie de ades√Ķes constantemente enganosas a produtos falaciosos. Trata-se de correr rapidamente atr√°s da inflac√ß√£o dos sinais depreciados da vida.
Em todas as esp√©cies de assuntos desta sociedade, onde a distribui√ß√£o dos bens est√° de tal maneira centralizada que se tornou propriet√°ria, de uma forma simultaneamente not√≥ria e secreta, da pr√≥pria defini√ß√£o do que poder√° ser o bem, acontece atribuir-se a certas pessoas qualidades, ou conhecimentos ou, por vezes, mesmo v√≠cios, perfeitamente imagin√°rios, para explicar atrav√©s de tais causas o desenvolvimento satisfat√≥rio de certas empresas; e isto com o √ļnico fim de esconder, ou pelo menos dissimular tanto quanto poss√≠vel, a fun√ß√£o de diversos acordos que decidem sobre tudo.

A Decadência da Ciência

Ouve-se dizer que a ci√™ncia est√° actualmente submetida a imperativos de rentabilidade econ√≥mica; na verdade sempre foi assim. O que √© novo √© que a economia venha a fazer abertamente guerra aos humanos; j√° n√£o somente quanto √†s possibilidades da sua vida, como tamb√©m √†s da sua sobreviv√™ncia. Foi ent√£o que o pensamento cientifico escolheu, contra uma grande parte do seu pr√≥prio passado antiesclavagista, servir a domina√ß√£o espectacular (da sociedade de consumo). Antes de chegar a este ponto, a ci√™ncia possu√≠a uma autonomia relativa. Ent√£o sabia pensar a sua parcela da realidade e, assim, tinha podido contribuir imensamente para aumentar os meios da economia. Quando a economia toda-poderosa enlouqueceu, e os tempos espectaculares n√£o s√£o mais do que isto, suprimiu os √ļltimos vest√≠gios da autonomia cient√≠fica, tanto no campo metodol√≥gico como no das condi√ß√Ķes pr√°ticas da actividade dos ¬ęinvestigadores¬Ľ.
J√° n√£o se pede √† ci√™ncia que compreenda o mundo ou o melhore nalguma coisa. Pede-se-lhe que justifique instantaneamente tudo o que faz. T√£o est√ļpida neste terreno como em todos os outros, que explora com a mais ruinosa irreflex√£o, a domina√ß√£o espectacular promoveu o abate da √°rvore gigantesca do conhecimento cient√≠fico com o √ļnico fim de dela talhar uma matraca.

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O Espectáculo é a Ideologia por Excelência

O espect√°culo (da sociedade de consumo) √© a ideologia por excel√™ncia, porque exp√Ķe e manifesta na sua plenitude a ess√™ncia de qualquer sistema ideol√≥gico: o empobrecimento, a submiss√£o e a nega√ß√£o da vida real. O espect√°culo √©, materialmente, ¬ęa express√£o da separa√ß√£o e do afastamento entre o homem e o homem¬Ľ. O ¬ęnovo poderio do embuste¬Ľ que se concentrou a√≠ tem a sua base na produ√ß√£o onde surge ¬ęcom a massa crescente de objectos… um novo dom√≠nio de seres estranhos aos quais o homem se submete¬Ľ. √Č grau supremo duma expans√£o que necessariamente se coloca contra a vida.

¬ęA necessidade de dinheiro √© portanto a verdadeira necessidade produzida pela economia pol√≠tica, e a √ļnica necessidade que ela produz¬Ľ (Manuscritos econ√≥mico-filos√≥ficos). O espect√°culo estende por toda a vida social o princ√≠pio que Hegel, na Realphilosophie de Iena, concebe quanto ao dinheiro; √© ¬ęa vida do que est√° morto movendo-se em si pr√≥pria¬Ľ.

Sociedade Espectaculista

A sociedade que repousa sobre a ind√ļstria moderna n√£o √© fortuitamente ou superficialmente espectacular, ela √© fundamentalmente espectaculista. No espect√°culo da imagem da economia reinante, o fim n√£o √© nada, o desenvolvimento √© tudo. O espect√°culo n√£o quer chegar a outra coisa sen√£o a si mesmo.
Na forma do indispensável adorno dos objectos hoje produzidos, na forma da exposição geral da racionalidade do sistema, e na forma de sector económico avançado que modela directamente uma multidão crescente de imagens-objectos, o espectáculo é a principal produção da sociedade actual.

Valoriza-se mais o Ter que o Ser

A primeira fase da domina√ß√£o da economia sobre a vida social levou, na defini√ß√£o de toda a realiza√ß√£o humana, a uma evidente degrada√ß√£o do ser em ter. A fase presente da ocupa√ß√£o total da vida social em busca da acumula√ß√£o de resultados econ√≥micos conduz a uma busca generalizada do ter e do parecer, de forma que todo o ¬ęter¬Ľ efectivo perde o seu prest√≠gio imediato e a sua fun√ß√£o √ļltima. Assim, toda a realidade individual tornou-se social e directamente dependente do poderio social obtido.

(…) O espect√°culo √© o herdeiro de toda a fraqueza do projecto filos√≥fico ocidental, que foi uma compreens√£o da actividade dominada pelas categorias do ver; assim como se baseia no incessante alargamento da racionalidade t√©cnica precisa, proveniente deste pensamento. Ele n√£o realiza a filosofia, ele filosofa a realidade. √Č a vida concreta de todos que se degradou em universo especulativo.
A filosofia, enquanto poder do pensamento separado, e pensamento do poder separado, nunca pode por si própria superar a teologia. O espectáculo é a reconstrução material da ilusão religiosa. A técnica espectacular não dissipou as nuvens religiosas onde os homens tinham colocado os seus próprios poderes desligados de si: ela ligou-os somente a uma base terrestre.

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