Passagens de Robert Musil

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Frases, pensamentos e outras passagens de Robert Musil para ler e compartilhar. Os melhores escritores est√£o em Poetris.

A Beleza ou a Excitação Aparecem no Mundo por Omissão

O que faz quando l√™? Vou dar-lhe j√° a resposta: a sua leitura deixa de lado aquilo que n√£o lhe conv√©m. O mesmo fez j√° o autor antes. Omitem-se tamb√©m coisas nos sonhos e na imagina√ß√£o. Daqui concluo: a beleza ou a excita√ß√£o aparecem no mundo por omiss√£o. Parece evidente que o modo como nos situamos na realidade corresponde a um compromisso, um estado interm√©dio em que os sentimentos se impedem mutuamente de chegar a paix√Ķes e se misturam em tons de cinzento. As crian√ßas que desconhecem este modo de estar no mundo s√£o, por isso, mais e menos felizes do que os adultos. E acrescento j√°: tamb√©m as pessoas est√ļpidas omitem; como se sabe, a estupidez faz-nos felizes.

N√£o Existe Felicidade Desregrada

Uma √©poca em que tudo √© permitido sempre tornou infelizes aqueles que nela viveram. Disciplina, abstin√™ncia, cortesia, m√ļsica, moral, poesia, forma, proibi√ß√£o, tudo isso tem como sentido √ļltimo conferir √† vida uma forma bem delimitada e determinada. N√£o existe felicidade desregrada. N√£o existe grande felicidade sem grandes tabus. At√© no mundo dos neg√≥cios n√£o podemos correr atr√°s de qualquer vantagem, porque nos arriscamos a n√£o chegar a lugar nenhum. O limite √© o segredo dos fen√≥menos, o mist√©rio da for√ßa, da felicidade, da f√© e da nossa miss√£o, que √© a de nos afirmarmos como √≠nfimos seres humanos num universo.

Alma Mec√Ęnica

Muita gente acusa a ci√™ncia de n√£o ter alma, de ser mec√Ęnica, e de deixar nesse estado tudo aquilo em que toca.

Todas as Ideologias Profissionais S√£o Nobres

Todas as ideologias profissionais s√£o nobres: os ca√ßadores, por exemplo, nunca sonhariam em se denominar carniceiros da floresta, afirmando, pelo contr√°rio, a sua condi√ß√£o de leg√≠timos amigos dos animais e da natureza; do mesmo modo, os comerciantes defendem o princ√≠pio do lucro honesto e os ladr√Ķes, por sua vez, adoptaram como seu o deus dos comerciantes, o distinto promotor das rela√ß√Ķes internacionais, Merc√ļrio. N√£o adianta muito, por isso, acreditar na imagem que uma determinada actividade assume na consci√™ncia daqueles que a exercem.

A Subjectividade dos Comportamentos

Podemos ter para com as coisas que nos acontecem ou que fazemos uma atitude mais geral ou mais pessoal. Podemos sentir uma pancada n√£o apenas como dor, mas tamb√©m como ofensa, e neste caso ela torna-se cada vez mais insuport√°vel; mas tamb√©m aceit√°-la desportivamente, como um obst√°culo que n√£o nos intimidar√° nem nos arrastar√° para uma ira cega, e ent√£o n√£o √© raro nem sequer darmos por ela. Neste segundo caso, por√©m, o que aconteceu foi apenas que integr√°mos essa pancada num contexto mais geral, o do combate, e em fun√ß√£o disso a natureza do golpe revelou-se dependente da tarefa que tem de desempenhar. E precisamente este fen√≥meno, que leva a que um acontecimento receba o seu significado, e mesmo o seu conte√ļdo, mediante a sua inser√ß√£o numa cadeia de ac√ß√Ķes consequentes, produz-se em todos os indiv√≠duos que n√£o o encaram apenas como acontecimento pessoal, mas como desafio √† sua capacidade intelectual.
Tamb√©m ele ser√° mais superficialmente afectado nas suas emo√ß√Ķes pelo que faz. Mas, estranhamente, aquilo que se v√™ como sinal de intelig√™ncia superior num pugilista √© visto como frieza e insensibilidade em pessoas que n√£o sabem de boxe e nas quais isso se deve √† sua inclina√ß√£o para uma determinada forma de vida intelectual.

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Qualidades de Sentimento

¬ęUm charco¬Ľ, pensou, ¬ęd√°-nos muitas vezes, e de forma mais intensa, a impress√£o de profundidade do que o oceano, pela simples raz√£o de que a viv√™ncia dos charcos √© muito mais frequente do que a dos oceanos: era, segundo ele, o que acontecia com o sentimento, e pela mesma raz√£o os sentimentos mais banais passavam por ser os mais profundos. De facto, a prefer√™ncia que se d√° ao sentir, mais do que ao sentimento, que √© a marca de todas as pessoas sens√≠veis √†s emo√ß√Ķes, conduz, tal como o desejo de fazer sentir e de ser levado a sentir, comum a todas as institui√ß√Ķes postas ao servi√ßo do sentimento, a uma diminui√ß√£o do n√≠vel e da ess√™ncia do sentimento face √† sua manifesta√ß√£o instant√Ęnea como estado de ordem pessoal, e finalmente √†quela superficialidade, inibi√ß√£o e total insignific√Ęncia para as quais n√£o faltam exemplos. ¬ę√Č natural que um ponto de vista como este¬Ľ, pensou Ulrich, completando a sua observa√ß√£o, ¬ęchoque todos aqueles que se sentem bem nos seus sentimentos, como o galo nas suas penas, e que ainda por cima estejam convencidos de que a eternidade recome√ßa com cada “personalidade”!¬Ľ Tinha a n√≠tida percep√ß√£o de estar perante um erro monstruoso, √† dimens√£o de toda a humanidade,

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A Felicidade é tão Cansativa como a Infelicidade

Toda a gente tem o seu m√©todo de interpretar a seu favor o balan√ßo das suas impress√Ķes, para que da√≠ resulte de algum modo aquele m√≠nimo de prazer necess√°rio √†s suas exist√™ncias quotidianas, o suficiente em tempos de normalidade. O prazer da vida de cada um pode ser tamb√©m constitu√≠do por desprazer, essas diferen√ßas de ordem material n√£o t√™m import√Ęncia; sabemos que existem tantos melanc√≥licos felizes como marchas f√ļnebres, que pairam t√£o suavemente no elemento que lhes √© pr√≥prio como uma dan√ßa no seu. Talvez tamb√©m se possa afirmar, ao contr√°rio, que muitas pessoas alegres de modo nenhum s√£o mais felizes do que as tristes, porque a felicidade √© t√£o cansativa como a infelicidade; mais ou menos como voar, segundo o princ√≠pio do mais leve ou mais pesado do que o ar. Mas haveria ainda uma outra objec√ß√£o: n√£o ter√° raz√£o aquela velha sabedoria dos ricos segundo a qual os pobres n√£o t√™m nada a invejar-lhes, j√° que √© pura fantasia a ideia de que o seu dinheiro os torna mais felizes? Isso s√≥ lhes imporia a obriga√ß√£o de encontrar um sistema de vida diferente do seu, cujo or√ßamento, em termos de prazer, fecharia apenas com um m√≠nimo excedente de felicidade,

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As associa√ß√Ķes lutam pelos interesses dos seus associados, enquanto prejudicam os que n√£o o s√£o.

Aquele a quem se permite actuar à sua vontade em breve baterá com a cabeça contra um muro de tijolos de pura frustração.

Não é que o génio se adiante um século ao seu tempo, é a Humanidade que se encontra cem anos atrás dele.

A Moral Pura é Impossível

A nossa moral √© a cristaliza√ß√£o de um movimento interior completamente diferente dela! Nada do que dizemos faz sentido. Pensa numa frase qualquer, ocorre-me, por exemplo, esta: ¬ęNuma pris√£o deve imperar o arrependimento!¬Ľ √Č uma frase que se pode pronunciar com a melhor das consci√™ncias, mas ningu√©m a toma √† letra, sen√£o est√°vamos a pedir o fogo do inferno para os encarcerados! Como √© que a entendemos ent√£o? H√° com certeza muito poucos que saibam o que √© o arrependimento, mas todos dizem onde ele deve imperar. Ou ent√£o pensa em algo de exaltante: como √© que isso se mistura com a moral? Quando √© que estivemos com o rosto t√£o mergulhado no p√≥ que isso nos fa√ßa sentir a bem-aventuran√ßa do arrebatamento? Ou ent√£o toma √† letra uma express√£o como ¬ęser assaltado por um pensamento¬Ľ: no momento em que sentisses no corpo um tal contacto j√° estarias no limiar da loucura! Cada palavra quer ent√£o ser lida na sua literalidade para n√£o degenerar em mentira, mas n√£o podemos tomar nenhuma √† letra, sob pena de o mundo se transformar num manic√≥mio! H√° uma qualquer grande embriaguez que se eleva da√≠ sob a forma de uma obscura recorda√ß√£o, e de vez em quando imaginamos que todas as nossas experi√™ncias s√£o partes soltas e destru√≠das de uma antiga totalidade que um dia se foi completando de maneira errada.

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Não há nenhum pensamento importante que a burrice não saiba usar, ela é móvel para todos os lados e pode vestir todos os trajes da verdade. A verdade, porém, tem apenas um vestido de cada vez e só um caminho, e está sempre em desvantagem

A Superficialidade dos Grandes Espíritos

N√£o h√° nada de mais perigoso para o esp√≠rito do que a sua rela√ß√£o com as grandes coisas. Algu√©m deambula por uma floresta, sobe a um monte e v√™ o mundo estendido a seus p√©s, olha para um filho que lhe colocam pela primeira vez nos bra√ßos, ou desfruta da felicidade de assumir uma posi√ß√£o invejada por todos. Perguntamos: o que se passa nele em tais momentos? Ele pr√≥prio certamente pensa que s√£o muitas coisas, profundas e importantes; mas n√£o tem presen√ßa de esp√≠rito suficiente para, por assim dizer, as tomar √† letra. O que h√° de admir√°vel, diante dele e fora dele, que o encerra numa esp√©cie de gaiola magn√©tica, arranca os pensamentos do seu interior. O seu olhar perde-se em mil pormenores, mas ele tem a secreta sensa√ß√£o de ter esgotado todas as muni√ß√Ķes. L√° fora, esse momento inspirado, solar, profundo, essa grande hora, recobre o mundo com uma camada de prata galvanizada que penetra todas as folhinhas e veias; mas na outra extremidade em breve se come√ßa a notar uma certa falta de subst√Ęncia interior, e nasce a√≠ uma esp√©cie de grande ¬ęO¬Ľ, redondo e vazio. Este estado √© o sintoma cl√°ssico do contacto com tudo o que √© eterno e grande,

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Utopia

Uma utopia √© mais ou menos o equivalente de uma possibilidade; o facto de uma possibilidade n√£o ser uma realidade significa apenas que as circunst√Ęncias com as quais a primeira est√° articulada num determinado momento a impedem de ser a segunda, porque de outra forma ela mais n√£o seria do que uma impossibilidade. Se essa possibilidade for liberta das suas depend√™ncias e puder desenvolver-se, nasce a utopia. √Č um processo semelhante √†quele que se verifica quando um investigador observa a transforma√ß√£o de um elemento num composto para da√≠ tirar as suas conclus√Ķes. A utopia √© a experi√™ncia na qual se observam a possibilidade de transforma√ß√£o de um elemento e os efeitos que ela provocaria naquele fen√≥meno composto a que chamamos vida.

A nobreza do espírito, com respeito àquela tradicional, oferece-nos a vantagem de podermos atribui-la a nós mesmos.

O Comportamento Simbólico e o Comportamento Inequívoco

Na verdade, encontramos desde as origens da hist√≥ria humana estas duas formas de comportamento, a simb√≥lica e a inequ√≠voca. O ponto de vista do inequ√≠voco √© a lei do pensamento e da ac√ß√£o despertos, que domina quer uma conclus√£o irrefut√°vel da l√≥gica quer o c√©rebro de um chantagista que pressiona passo a passo a sua v√≠tima, uma lei que resulta das necessidades da vida, √†s quais sucumbir√≠amos se n√£o fosse poss√≠vel dar uma forma inequ√≠voca √†s coisas. O s√≠mbolo, por seu lado, √© a articula√ß√£o de ideias pr√≥prias do sonho, √© a l√≥gica deslizante da alma, a que corresponde o parentesco das coisas nas intui√ß√Ķes da arte e da religi√£o; mas tamb√©m tudo o que na vida existe de vulgares inclina√ß√Ķes e avers√Ķes, de concord√Ęncia e repulsa, de admira√ß√£o, submiss√£o, lideran√ßa, imita√ß√£o e seus contr√°rios, todas estas rela√ß√Ķes do homem consigo e com a natureza, que ainda n√£o s√£o puramente objectivas e talvez nunca venham a s√™-lo, s√≥ podem ser entendidas em termos simb√≥licos.
Aquilo a que se chama a humanidade superior mais não é, com certeza, do que a tentativa de fundir estas duas metades da vida, a do símbolo e a da verdade, cuidadosamente separadas antes. Mas quando separamos num símbolo tudo aquilo que talvez possa ser verdadeiro do que é apenas espuma,

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