Cita√ß√Ķes de Robert Musil

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Frases, pensamentos e outras cita√ß√Ķes de Robert Musil para ler e compartilhar. Os melhores escritores est√£o em Poetris.

As associa√ß√Ķes lutam pelos interesses dos seus associados, enquanto prejudicam os que n√£o o s√£o.

Aquele a quem se permite actuar à sua vontade em breve baterá com a cabeça contra um muro de tijolos de pura frustração.

Não é que o génio se adiante um século ao seu tempo, é a Humanidade que se encontra cem anos atrás dele.

A Moral Pura é Impossível

A nossa moral √© a cristaliza√ß√£o de um movimento interior completamente diferente dela! Nada do que dizemos faz sentido. Pensa numa frase qualquer, ocorre-me, por exemplo, esta: ¬ęNuma pris√£o deve imperar o arrependimento!¬Ľ √Č uma frase que se pode pronunciar com a melhor das consci√™ncias, mas ningu√©m a toma √† letra, sen√£o est√°vamos a pedir o fogo do inferno para os encarcerados! Como √© que a entendemos ent√£o? H√° com certeza muito poucos que saibam o que √© o arrependimento, mas todos dizem onde ele deve imperar. Ou ent√£o pensa em algo de exaltante: como √© que isso se mistura com a moral? Quando √© que estivemos com o rosto t√£o mergulhado no p√≥ que isso nos fa√ßa sentir a bem-aventuran√ßa do arrebatamento? Ou ent√£o toma √† letra uma express√£o como ¬ęser assaltado por um pensamento¬Ľ: no momento em que sentisses no corpo um tal contacto j√° estarias no limiar da loucura! Cada palavra quer ent√£o ser lida na sua literalidade para n√£o degenerar em mentira, mas n√£o podemos tomar nenhuma √† letra, sob pena de o mundo se transformar num manic√≥mio! H√° uma qualquer grande embriaguez que se eleva da√≠ sob a forma de uma obscura recorda√ß√£o, e de vez em quando imaginamos que todas as nossas experi√™ncias s√£o partes soltas e destru√≠das de uma antiga totalidade que um dia se foi completando de maneira errada.

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Não há nenhum pensamento importante que a burrice não saiba usar, ela é móvel para todos os lados e pode vestir todos os trajes da verdade. A verdade, porém, tem apenas um vestido de cada vez e só um caminho, e está sempre em desvantagem

A Superficialidade dos Grandes Espíritos

N√£o h√° nada de mais perigoso para o esp√≠rito do que a sua rela√ß√£o com as grandes coisas. Algu√©m deambula por uma floresta, sobe a um monte e v√™ o mundo estendido a seus p√©s, olha para um filho que lhe colocam pela primeira vez nos bra√ßos, ou desfruta da felicidade de assumir uma posi√ß√£o invejada por todos. Perguntamos: o que se passa nele em tais momentos? Ele pr√≥prio certamente pensa que s√£o muitas coisas, profundas e importantes; mas n√£o tem presen√ßa de esp√≠rito suficiente para, por assim dizer, as tomar √† letra. O que h√° de admir√°vel, diante dele e fora dele, que o encerra numa esp√©cie de gaiola magn√©tica, arranca os pensamentos do seu interior. O seu olhar perde-se em mil pormenores, mas ele tem a secreta sensa√ß√£o de ter esgotado todas as muni√ß√Ķes. L√° fora, esse momento inspirado, solar, profundo, essa grande hora, recobre o mundo com uma camada de prata galvanizada que penetra todas as folhinhas e veias; mas na outra extremidade em breve se come√ßa a notar uma certa falta de subst√Ęncia interior, e nasce a√≠ uma esp√©cie de grande ¬ęO¬Ľ, redondo e vazio. Este estado √© o sintoma cl√°ssico do contacto com tudo o que √© eterno e grande,

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Utopia

Uma utopia √© mais ou menos o equivalente de uma possibilidade; o facto de uma possibilidade n√£o ser uma realidade significa apenas que as circunst√Ęncias com as quais a primeira est√° articulada num determinado momento a impedem de ser a segunda, porque de outra forma ela mais n√£o seria do que uma impossibilidade. Se essa possibilidade for liberta das suas depend√™ncias e puder desenvolver-se, nasce a utopia. √Č um processo semelhante √†quele que se verifica quando um investigador observa a transforma√ß√£o de um elemento num composto para da√≠ tirar as suas conclus√Ķes. A utopia √© a experi√™ncia na qual se observam a possibilidade de transforma√ß√£o de um elemento e os efeitos que ela provocaria naquele fen√≥meno composto a que chamamos vida.

A nobreza do espírito, com respeito àquela tradicional, oferece-nos a vantagem de podermos atribui-la a nós mesmos.

O Comportamento Simbólico e o Comportamento Inequívoco

Na verdade, encontramos desde as origens da hist√≥ria humana estas duas formas de comportamento, a simb√≥lica e a inequ√≠voca. O ponto de vista do inequ√≠voco √© a lei do pensamento e da ac√ß√£o despertos, que domina quer uma conclus√£o irrefut√°vel da l√≥gica quer o c√©rebro de um chantagista que pressiona passo a passo a sua v√≠tima, uma lei que resulta das necessidades da vida, √†s quais sucumbir√≠amos se n√£o fosse poss√≠vel dar uma forma inequ√≠voca √†s coisas. O s√≠mbolo, por seu lado, √© a articula√ß√£o de ideias pr√≥prias do sonho, √© a l√≥gica deslizante da alma, a que corresponde o parentesco das coisas nas intui√ß√Ķes da arte e da religi√£o; mas tamb√©m tudo o que na vida existe de vulgares inclina√ß√Ķes e avers√Ķes, de concord√Ęncia e repulsa, de admira√ß√£o, submiss√£o, lideran√ßa, imita√ß√£o e seus contr√°rios, todas estas rela√ß√Ķes do homem consigo e com a natureza, que ainda n√£o s√£o puramente objectivas e talvez nunca venham a s√™-lo, s√≥ podem ser entendidas em termos simb√≥licos.
Aquilo a que se chama a humanidade superior mais não é, com certeza, do que a tentativa de fundir estas duas metades da vida, a do símbolo e a da verdade, cuidadosamente separadas antes. Mas quando separamos num símbolo tudo aquilo que talvez possa ser verdadeiro do que é apenas espuma,

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√Č mais importante escrever um livro do que governar um imp√©rio… e mais dif√≠cil tamb√©m.

A Nossa Vida como um Conjunto de Met√°foras

Pensemos, por exemplo, nos grandes escritores. Podemos orientar a nossa vida por eles, mas não podemos extrair das suas obras o elixir da vida. Eles deram uma forma tão rígida àquilo que os moveu que tudo isso está ali, mesmo nas entrelinhas, como metal laminado. Mas, que disseram eles na verdade? Ninguém sabe. Eles próprios nunca o souberam explicar cabalmente. São como um campo sobre o qual voam as abelhas; e ao mesmo tempo, eles são esse próprio voo. Os seus pensamentos e sentimentos assumem toda a escala da transição entre verdades ou erros que, se necessário, podem ser demonstrados, e seres mutáveis que se aproximam ou afastam de nós quando os queremos observar.
√Č imposs√≠vel destacar o pensamento de um livro da p√°gina que o encerra. Acena-nos como o rosto de algu√©m que passa rapidamente por n√≥s, numa fila com outros rostos, e por um instante surge carregado de sentido. Estou outra vez a exagerar um pouco. Mas agora queria perguntar-lhe: que coisa acontece na nossa vida que n√£o seja aquilo que acabo de descrever? N√£o falo das impress√Ķes mais exactas, mensur√°veis e defin√≠veis; todos os outros conceitos em que baseamos a nossa vida n√£o passam de met√°foras que ficaram cristalizadas.

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A Grandeza Humana Tem Raízes no Irracional

A pol√≠tica, a honra, a guerra, a arte, tudo o que h√° de mais decisivo na vida acontece para l√° do entendimento. A grandeza humana tem ra√≠zes no irracional. Nem n√≥s, os homens de neg√≥cios, agimos por c√°lculo, como talvez o senhor imagine. N√≥s – falo, naturalmente, daqueles poucos que se distinguem; os pequenos, esses continuar√£o a contar os seus tost√Ķes – aprendemos a ver as nossas ideias realmente bem sucedidas como um mist√©rio que tro√ßa de qualquer c√°lculo. Quem n√£o amar o sentimento, a moral, a religi√£o, a m√ļsica, a poesia, a forma, a disciplina, o c√≥digo cavalheiresco, a liberalidade, a franqueza, a toler√Ęncia – acredite, nunca chegar√° a ser um grande homem de neg√≥cios. Por isso, sempre admirei a profiss√£o do guerreiro; (…) todas as grandes coisas dependem das mesmas qualidades.

A Felicidade é tão Cansativa como a Infelicidade

Toda a gente tem o seu m√©todo de interpretar a seu favor o balan√ßo das suas impress√Ķes, para que da√≠ resulte de algum modo aquele m√≠nimo de prazer necess√°rio √†s suas exist√™ncias quotidianas, o suficiente em tempos de normalidade. O prazer da vida de cada um pode ser tamb√©m constitu√≠do por desprazer, essas diferen√ßas de ordem material n√£o t√™m import√Ęncia; sabemos que existem tantos melanc√≥licos felizes como marchas f√ļnebres, que pairam t√£o suavemente no elemento que lhes √© pr√≥prio como uma dan√ßa no seu. Talvez tamb√©m se possa afirmar, ao contr√°rio, que muitas pessoas alegres de modo nenhum s√£o mais felizes do que as tristes, porque a felicidade √© t√£o cansativa como a infelicidade; mais ou menos como voar, segundo o princ√≠pio do mais leve ou mais pesado do que o ar. Mas haveria ainda uma outra objec√ß√£o: n√£o ter√° raz√£o aquela velha sabedoria dos ricos segundo a qual os pobres n√£o t√™m nada a invejar-lhes, j√° que √© pura fantasia a ideia de que o seu dinheiro os torna mais felizes? Isso s√≥ lhes imporia a obriga√ß√£o de encontrar um sistema de vida diferente do seu, cujo or√ßamento, em termos de prazer, fecharia apenas com um m√≠nimo excedente de felicidade,

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A Raz√£o n√£o Basta

√Č esse o segredo da vida dotada de for√ßa. Apenas com a intelig√™ncia n√£o se pode ser um ser moral, nem fazer pol√≠tica. A raz√£o n√£o basta, as coisas decisivas passam-se para al√©m dela. Os homens que fizeram grandes coisas amaram sempre a m√ļsica, a poesia, a forma, a disciplina, a religi√£o e a nobreza. Iria mesmo ao ponto de afirmar que s√≥ as pessoas que assim procedem conhecem a felicidade! S√£o esses os chamados imponder√°veis que d√£o o cunho pr√≥prio ao senhor, ao homem; aquilo que ainda vibra na admira√ß√£o do povo pelos actores √© um resto incompreendido disso.

Ode à Criança

A crian√ßa √© criativa porque √© crescimento e se cria a si pr√≥pria. √Č como um rei, porque imp√Ķe ao mundo as suas ideias, os seus sentimentos e as suas fantasias. Ignora o mundo do acaso, pr√©-elaborado, e constr√≥i o seu pr√≥prio mundo de ideais. Tem uma sexualidade pr√≥pria. Os adultos cometem um pecado b√°rbaro ao destruir a criatividade da crian√ßa pelo roubo do seu mundo, sufocando-a com um saber artificial e morto, e orientando-a no sentido de finalidades que lhe s√£o estranhas. A crian√ßa √© sem finalidade, cria brincando e crescendo suavemente; se n√£o for perturbada pela viol√™ncia, n√£o aceita nada que n√£o possa verdadeiramente assimilar; todo o objecto em que toca vive, a crian√ßa √© cosmos, mundo, v√™ as √ļltimas coisas, o absoluto, ainda que n√£o saiba dar-lhes express√£o: mas mata-se a crian√ßa ensinando-a a ater-se a finalidades e agrilhoando-a a uma rotina vulgar a que, hipocritamente, se chama realidade.