Textos de Robert Musil

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Textos de Robert Musil. Conheça este e outros autores famosos em Poetris.

A Dualidade do Simbolismo

Um s√≠mbolo cont√©m uma verdade e uma inverdade, indestrin√ß√°veis para o sentimento. Se o tomarmos tal como √© e o configurarmos atrav√©s dos sentidos e √† imagem da realidade, nascem da√≠ o sonho e a arte; mas entre estes e a vida real e plena ergue-se uma parede de vidro. Se o apreendermos com a raz√£o e separarmos o que n√£o coincide do que coincide perfeitamente, nascem da√≠ a verdade e o conhecimento, mas arruinamos o sentimento. √Ä semelhan√ßa daquelas estirpes de bact√©rias que dividem em duas partes a mat√©ria org√Ęnica, a esp√©cie humana fragmenta em duas a condi√ß√£o vital primordial do s√≠mbolo: a mat√©ria s√≥lida da realidade e da verdade, e a atmosfera v√≠trea da intui√ß√£o, da f√© e do artefacto. Parece n√£o haver uma terceira possibilidade; mas quantas vezes algo de incerto acaba por ser desejado, se n√£o metermos muito a reflex√£o no caso!

O Saber é uma Forma de Comportamento

O saber √© uma forma de comportamento, uma paix√£o. No fundo, um comportamento il√≠cito; porque, tal como a depend√™ncia do √°lcool, de sexo ou da viol√™ncia, tamb√©m a compuls√£o de saber molda um car√°cter em desequil√≠brio. √Č um erro pensar que o investigador persegue a verdade; de facto, √© ela que o persegue a ele. √Č ele que tem de suport√°-la. A verdade √© verdadeira, o facto √© real, sem se preocuparem com ele: ele √© que sofre da paix√£o, da dipsomania dos factos que define o seu car√°cter, e est√°-se nas tintas para saber se as suas descobertas levar√£o a alguma coisa de total, humano, perfeito ou o que quer que seja. √Č uma natureza contradit√≥ria, sofredora e, ao mesmo tempo, incrivelmente en√©rgica.

O Espírito Desfaz a Ordem das Coisas

O esp√≠rito aprendeu que a beleza nos faz bons, maus, est√ļpidos ou sedutores. Disseca uma ovelha e um penitente e encontra em ambos humildade e paci√™ncia. Analisa uma subst√Ęncia e descobre que, tomada em grandes quantidades, pode ser um veneno, e em pequenas doses, um excitante. Sabe que a mucosa dos l√°bios tem afinidades com a do intestino, mas tamb√©m sabe que a humildade desses l√°bios tem afinidades com a humildade de tudo o que √© sagrado. O esp√≠rito desfaz a ordem das coisas, dissolve-as e volta a recomp√ī-las de forma diferente. O bem e o mal, o que est√° em cima e o que est√° em baixo n√£o s√£o para ele no√ß√Ķes de um relativismo c√©ptico, mas termos de uma fun√ß√£o, valores que dependem do contexto em que se encontram. Os s√©culos ensinaram-lhe que os v√≠cios se podem transformar em virtudes e as virtudes em v√≠cios, e conclui que, no essencial, s√≥ por in√©pcia se n√£o consegue fazer de um criminoso um homem √ļtil no tempo de uma vida. N√£o reconhece nada como l√≠cito ou il√≠cito, porque tudo pode ter uma qualidade gra√ßas √† qual um dia participar√° de um novo e grande sistema. Odeia secretamente como a morte tudo aquilo que se apresenta como se fosse definitivo,

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O Bem e o Mal

Quando os acontecimentos nos colocam em oposi√ß√£o ao meio envolvente, todos desenvolvemos as for√ßas de que dispomos, ao passo que nas situa√ß√Ķes em que apenas fazemos o nosso dever nos comportamos, compreensivelmente, como quem paga os seus impostos. Daqui se conclui que tudo o que √© mau se pratica com mais ou menos imagina√ß√£o e paix√£o, enquanto o bem se caracteriza por uma inconfund√≠vel pobreza de afecto e mesquinhez.
(…) Se abstrairmos daquela grande fatia central do mundo e da vida ocupada por pessoas em cujo pensamento as palavras bem e mal deixaram de ter lugar desde que largaram as saias da m√£e, ent√£o as margens, onde ainda h√° prop√≥sitos morais deliberados, ficam hoje reservadas √†quelas pessoas boas-m√°s ou m√°s-boas, das quais algumas nunca viram o bem voar nem o ouviram cantar e por isso exigem de todas as outras que se extasiem com elas diante de uma natureza da moral com p√°ssaros empalhados pousados em √°rvores mortas; o segundo grupo, por seu lado, os mortais maus-bons, espica√ßados pelos seus rivais, manifestam, pelo menos em pensamento, uma tend√™ncia para o mal, como se estivessem convencidos de que √© apenas nas m√°s ac√ß√Ķes, menos desgastadas do que as boas, que ainda pulsa alguma vida moral.

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A Beleza ou a Excitação Aparecem no Mundo por Omissão

O que faz quando l√™? Vou dar-lhe j√° a resposta: a sua leitura deixa de lado aquilo que n√£o lhe conv√©m. O mesmo fez j√° o autor antes. Omitem-se tamb√©m coisas nos sonhos e na imagina√ß√£o. Daqui concluo: a beleza ou a excita√ß√£o aparecem no mundo por omiss√£o. Parece evidente que o modo como nos situamos na realidade corresponde a um compromisso, um estado interm√©dio em que os sentimentos se impedem mutuamente de chegar a paix√Ķes e se misturam em tons de cinzento. As crian√ßas que desconhecem este modo de estar no mundo s√£o, por isso, mais e menos felizes do que os adultos. E acrescento j√°: tamb√©m as pessoas est√ļpidas omitem; como se sabe, a estupidez faz-nos felizes.

N√£o Existe Felicidade Desregrada

Uma √©poca em que tudo √© permitido sempre tornou infelizes aqueles que nela viveram. Disciplina, abstin√™ncia, cortesia, m√ļsica, moral, poesia, forma, proibi√ß√£o, tudo isso tem como sentido √ļltimo conferir √† vida uma forma bem delimitada e determinada. N√£o existe felicidade desregrada. N√£o existe grande felicidade sem grandes tabus. At√© no mundo dos neg√≥cios n√£o podemos correr atr√°s de qualquer vantagem, porque nos arriscamos a n√£o chegar a lugar nenhum. O limite √© o segredo dos fen√≥menos, o mist√©rio da for√ßa, da felicidade, da f√© e da nossa miss√£o, que √© a de nos afirmarmos como √≠nfimos seres humanos num universo.

Alma Mec√Ęnica

Muita gente acusa a ci√™ncia de n√£o ter alma, de ser mec√Ęnica, e de deixar nesse estado tudo aquilo em que toca.

Todas as Ideologias Profissionais S√£o Nobres

Todas as ideologias profissionais s√£o nobres: os ca√ßadores, por exemplo, nunca sonhariam em se denominar carniceiros da floresta, afirmando, pelo contr√°rio, a sua condi√ß√£o de leg√≠timos amigos dos animais e da natureza; do mesmo modo, os comerciantes defendem o princ√≠pio do lucro honesto e os ladr√Ķes, por sua vez, adoptaram como seu o deus dos comerciantes, o distinto promotor das rela√ß√Ķes internacionais, Merc√ļrio. N√£o adianta muito, por isso, acreditar na imagem que uma determinada actividade assume na consci√™ncia daqueles que a exercem.

A Subjectividade dos Comportamentos

Podemos ter para com as coisas que nos acontecem ou que fazemos uma atitude mais geral ou mais pessoal. Podemos sentir uma pancada n√£o apenas como dor, mas tamb√©m como ofensa, e neste caso ela torna-se cada vez mais insuport√°vel; mas tamb√©m aceit√°-la desportivamente, como um obst√°culo que n√£o nos intimidar√° nem nos arrastar√° para uma ira cega, e ent√£o n√£o √© raro nem sequer darmos por ela. Neste segundo caso, por√©m, o que aconteceu foi apenas que integr√°mos essa pancada num contexto mais geral, o do combate, e em fun√ß√£o disso a natureza do golpe revelou-se dependente da tarefa que tem de desempenhar. E precisamente este fen√≥meno, que leva a que um acontecimento receba o seu significado, e mesmo o seu conte√ļdo, mediante a sua inser√ß√£o numa cadeia de ac√ß√Ķes consequentes, produz-se em todos os indiv√≠duos que n√£o o encaram apenas como acontecimento pessoal, mas como desafio √† sua capacidade intelectual.
Tamb√©m ele ser√° mais superficialmente afectado nas suas emo√ß√Ķes pelo que faz. Mas, estranhamente, aquilo que se v√™ como sinal de intelig√™ncia superior num pugilista √© visto como frieza e insensibilidade em pessoas que n√£o sabem de boxe e nas quais isso se deve √† sua inclina√ß√£o para uma determinada forma de vida intelectual.

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Qualidades de Sentimento

¬ęUm charco¬Ľ, pensou, ¬ęd√°-nos muitas vezes, e de forma mais intensa, a impress√£o de profundidade do que o oceano, pela simples raz√£o de que a viv√™ncia dos charcos √© muito mais frequente do que a dos oceanos: era, segundo ele, o que acontecia com o sentimento, e pela mesma raz√£o os sentimentos mais banais passavam por ser os mais profundos. De facto, a prefer√™ncia que se d√° ao sentir, mais do que ao sentimento, que √© a marca de todas as pessoas sens√≠veis √†s emo√ß√Ķes, conduz, tal como o desejo de fazer sentir e de ser levado a sentir, comum a todas as institui√ß√Ķes postas ao servi√ßo do sentimento, a uma diminui√ß√£o do n√≠vel e da ess√™ncia do sentimento face √† sua manifesta√ß√£o instant√Ęnea como estado de ordem pessoal, e finalmente √†quela superficialidade, inibi√ß√£o e total insignific√Ęncia para as quais n√£o faltam exemplos. ¬ę√Č natural que um ponto de vista como este¬Ľ, pensou Ulrich, completando a sua observa√ß√£o, ¬ęchoque todos aqueles que se sentem bem nos seus sentimentos, como o galo nas suas penas, e que ainda por cima estejam convencidos de que a eternidade recome√ßa com cada “personalidade”!¬Ľ Tinha a n√≠tida percep√ß√£o de estar perante um erro monstruoso, √† dimens√£o de toda a humanidade,

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A Felicidade é tão Cansativa como a Infelicidade

Toda a gente tem o seu m√©todo de interpretar a seu favor o balan√ßo das suas impress√Ķes, para que da√≠ resulte de algum modo aquele m√≠nimo de prazer necess√°rio √†s suas exist√™ncias quotidianas, o suficiente em tempos de normalidade. O prazer da vida de cada um pode ser tamb√©m constitu√≠do por desprazer, essas diferen√ßas de ordem material n√£o t√™m import√Ęncia; sabemos que existem tantos melanc√≥licos felizes como marchas f√ļnebres, que pairam t√£o suavemente no elemento que lhes √© pr√≥prio como uma dan√ßa no seu. Talvez tamb√©m se possa afirmar, ao contr√°rio, que muitas pessoas alegres de modo nenhum s√£o mais felizes do que as tristes, porque a felicidade √© t√£o cansativa como a infelicidade; mais ou menos como voar, segundo o princ√≠pio do mais leve ou mais pesado do que o ar. Mas haveria ainda uma outra objec√ß√£o: n√£o ter√° raz√£o aquela velha sabedoria dos ricos segundo a qual os pobres n√£o t√™m nada a invejar-lhes, j√° que √© pura fantasia a ideia de que o seu dinheiro os torna mais felizes? Isso s√≥ lhes imporia a obriga√ß√£o de encontrar um sistema de vida diferente do seu, cujo or√ßamento, em termos de prazer, fecharia apenas com um m√≠nimo excedente de felicidade,

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A Moral Pura é Impossível

A nossa moral √© a cristaliza√ß√£o de um movimento interior completamente diferente dela! Nada do que dizemos faz sentido. Pensa numa frase qualquer, ocorre-me, por exemplo, esta: ¬ęNuma pris√£o deve imperar o arrependimento!¬Ľ √Č uma frase que se pode pronunciar com a melhor das consci√™ncias, mas ningu√©m a toma √† letra, sen√£o est√°vamos a pedir o fogo do inferno para os encarcerados! Como √© que a entendemos ent√£o? H√° com certeza muito poucos que saibam o que √© o arrependimento, mas todos dizem onde ele deve imperar. Ou ent√£o pensa em algo de exaltante: como √© que isso se mistura com a moral? Quando √© que estivemos com o rosto t√£o mergulhado no p√≥ que isso nos fa√ßa sentir a bem-aventuran√ßa do arrebatamento? Ou ent√£o toma √† letra uma express√£o como ¬ęser assaltado por um pensamento¬Ľ: no momento em que sentisses no corpo um tal contacto j√° estarias no limiar da loucura! Cada palavra quer ent√£o ser lida na sua literalidade para n√£o degenerar em mentira, mas n√£o podemos tomar nenhuma √† letra, sob pena de o mundo se transformar num manic√≥mio! H√° uma qualquer grande embriaguez que se eleva da√≠ sob a forma de uma obscura recorda√ß√£o, e de vez em quando imaginamos que todas as nossas experi√™ncias s√£o partes soltas e destru√≠das de uma antiga totalidade que um dia se foi completando de maneira errada.

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A Superficialidade dos Grandes Espíritos

N√£o h√° nada de mais perigoso para o esp√≠rito do que a sua rela√ß√£o com as grandes coisas. Algu√©m deambula por uma floresta, sobe a um monte e v√™ o mundo estendido a seus p√©s, olha para um filho que lhe colocam pela primeira vez nos bra√ßos, ou desfruta da felicidade de assumir uma posi√ß√£o invejada por todos. Perguntamos: o que se passa nele em tais momentos? Ele pr√≥prio certamente pensa que s√£o muitas coisas, profundas e importantes; mas n√£o tem presen√ßa de esp√≠rito suficiente para, por assim dizer, as tomar √† letra. O que h√° de admir√°vel, diante dele e fora dele, que o encerra numa esp√©cie de gaiola magn√©tica, arranca os pensamentos do seu interior. O seu olhar perde-se em mil pormenores, mas ele tem a secreta sensa√ß√£o de ter esgotado todas as muni√ß√Ķes. L√° fora, esse momento inspirado, solar, profundo, essa grande hora, recobre o mundo com uma camada de prata galvanizada que penetra todas as folhinhas e veias; mas na outra extremidade em breve se come√ßa a notar uma certa falta de subst√Ęncia interior, e nasce a√≠ uma esp√©cie de grande ¬ęO¬Ľ, redondo e vazio. Este estado √© o sintoma cl√°ssico do contacto com tudo o que √© eterno e grande,

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Utopia

Uma utopia √© mais ou menos o equivalente de uma possibilidade; o facto de uma possibilidade n√£o ser uma realidade significa apenas que as circunst√Ęncias com as quais a primeira est√° articulada num determinado momento a impedem de ser a segunda, porque de outra forma ela mais n√£o seria do que uma impossibilidade. Se essa possibilidade for liberta das suas depend√™ncias e puder desenvolver-se, nasce a utopia. √Č um processo semelhante √†quele que se verifica quando um investigador observa a transforma√ß√£o de um elemento num composto para da√≠ tirar as suas conclus√Ķes. A utopia √© a experi√™ncia na qual se observam a possibilidade de transforma√ß√£o de um elemento e os efeitos que ela provocaria naquele fen√≥meno composto a que chamamos vida.

O Comportamento Simbólico e o Comportamento Inequívoco

Na verdade, encontramos desde as origens da hist√≥ria humana estas duas formas de comportamento, a simb√≥lica e a inequ√≠voca. O ponto de vista do inequ√≠voco √© a lei do pensamento e da ac√ß√£o despertos, que domina quer uma conclus√£o irrefut√°vel da l√≥gica quer o c√©rebro de um chantagista que pressiona passo a passo a sua v√≠tima, uma lei que resulta das necessidades da vida, √†s quais sucumbir√≠amos se n√£o fosse poss√≠vel dar uma forma inequ√≠voca √†s coisas. O s√≠mbolo, por seu lado, √© a articula√ß√£o de ideias pr√≥prias do sonho, √© a l√≥gica deslizante da alma, a que corresponde o parentesco das coisas nas intui√ß√Ķes da arte e da religi√£o; mas tamb√©m tudo o que na vida existe de vulgares inclina√ß√Ķes e avers√Ķes, de concord√Ęncia e repulsa, de admira√ß√£o, submiss√£o, lideran√ßa, imita√ß√£o e seus contr√°rios, todas estas rela√ß√Ķes do homem consigo e com a natureza, que ainda n√£o s√£o puramente objectivas e talvez nunca venham a s√™-lo, s√≥ podem ser entendidas em termos simb√≥licos.
Aquilo a que se chama a humanidade superior mais não é, com certeza, do que a tentativa de fundir estas duas metades da vida, a do símbolo e a da verdade, cuidadosamente separadas antes. Mas quando separamos num símbolo tudo aquilo que talvez possa ser verdadeiro do que é apenas espuma,

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A Nossa Vida como um Conjunto de Met√°foras

Pensemos, por exemplo, nos grandes escritores. Podemos orientar a nossa vida por eles, mas não podemos extrair das suas obras o elixir da vida. Eles deram uma forma tão rígida àquilo que os moveu que tudo isso está ali, mesmo nas entrelinhas, como metal laminado. Mas, que disseram eles na verdade? Ninguém sabe. Eles próprios nunca o souberam explicar cabalmente. São como um campo sobre o qual voam as abelhas; e ao mesmo tempo, eles são esse próprio voo. Os seus pensamentos e sentimentos assumem toda a escala da transição entre verdades ou erros que, se necessário, podem ser demonstrados, e seres mutáveis que se aproximam ou afastam de nós quando os queremos observar.
√Č imposs√≠vel destacar o pensamento de um livro da p√°gina que o encerra. Acena-nos como o rosto de algu√©m que passa rapidamente por n√≥s, numa fila com outros rostos, e por um instante surge carregado de sentido. Estou outra vez a exagerar um pouco. Mas agora queria perguntar-lhe: que coisa acontece na nossa vida que n√£o seja aquilo que acabo de descrever? N√£o falo das impress√Ķes mais exactas, mensur√°veis e defin√≠veis; todos os outros conceitos em que baseamos a nossa vida n√£o passam de met√°foras que ficaram cristalizadas.

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A Grandeza Humana Tem Raízes no Irracional

A pol√≠tica, a honra, a guerra, a arte, tudo o que h√° de mais decisivo na vida acontece para l√° do entendimento. A grandeza humana tem ra√≠zes no irracional. Nem n√≥s, os homens de neg√≥cios, agimos por c√°lculo, como talvez o senhor imagine. N√≥s – falo, naturalmente, daqueles poucos que se distinguem; os pequenos, esses continuar√£o a contar os seus tost√Ķes – aprendemos a ver as nossas ideias realmente bem sucedidas como um mist√©rio que tro√ßa de qualquer c√°lculo. Quem n√£o amar o sentimento, a moral, a religi√£o, a m√ļsica, a poesia, a forma, a disciplina, o c√≥digo cavalheiresco, a liberalidade, a franqueza, a toler√Ęncia – acredite, nunca chegar√° a ser um grande homem de neg√≥cios. Por isso, sempre admirei a profiss√£o do guerreiro; (…) todas as grandes coisas dependem das mesmas qualidades.

A Raz√£o n√£o Basta

√Č esse o segredo da vida dotada de for√ßa. Apenas com a intelig√™ncia n√£o se pode ser um ser moral, nem fazer pol√≠tica. A raz√£o n√£o basta, as coisas decisivas passam-se para al√©m dela. Os homens que fizeram grandes coisas amaram sempre a m√ļsica, a poesia, a forma, a disciplina, a religi√£o e a nobreza. Iria mesmo ao ponto de afirmar que s√≥ as pessoas que assim procedem conhecem a felicidade! S√£o esses os chamados imponder√°veis que d√£o o cunho pr√≥prio ao senhor, ao homem; aquilo que ainda vibra na admira√ß√£o do povo pelos actores √© um resto incompreendido disso.

Ode à Criança

A crian√ßa √© criativa porque √© crescimento e se cria a si pr√≥pria. √Č como um rei, porque imp√Ķe ao mundo as suas ideias, os seus sentimentos e as suas fantasias. Ignora o mundo do acaso, pr√©-elaborado, e constr√≥i o seu pr√≥prio mundo de ideais. Tem uma sexualidade pr√≥pria. Os adultos cometem um pecado b√°rbaro ao destruir a criatividade da crian√ßa pelo roubo do seu mundo, sufocando-a com um saber artificial e morto, e orientando-a no sentido de finalidades que lhe s√£o estranhas. A crian√ßa √© sem finalidade, cria brincando e crescendo suavemente; se n√£o for perturbada pela viol√™ncia, n√£o aceita nada que n√£o possa verdadeiramente assimilar; todo o objecto em que toca vive, a crian√ßa √© cosmos, mundo, v√™ as √ļltimas coisas, o absoluto, ainda que n√£o saiba dar-lhes express√£o: mas mata-se a crian√ßa ensinando-a a ater-se a finalidades e agrilhoando-a a uma rotina vulgar a que, hipocritamente, se chama realidade.

Inspiração e Perseverança no Homem que Pensa

N√£o h√° nada de mais dif√≠cil em literatura do que descrever um homem a pensar. Um grande inventor respondeu um dia a quem lhe perguntava como fazia para ter tantas ideias novas: ¬ępensando ininterruptamente nelas¬Ľ. E de facto bem pode dizer-se que as ideias inesperadas nos v√™m porque est√°vamos √† espera delas. S√£o, em grande parte, o resultado conseguido de um car√°cter, de certas inclina√ß√Ķes constantes, de uma ambi√ß√£o tenaz, de uma incessante ocupa√ß√£o com elas. Que t√©dio, uma perseveran√ßa assim! Mas, vista de outro √Ęngulo, a solu√ß√£o de um problema intelectual n√£o acontece de modo muito diferente, como um c√£o que traz um pau na boca e quer passar por uma porta estreita; vira a cabe√ßa para a esquerda e para a direita tantas vezes at√© que consegue passar com o pau; o mesmo acontece connosco, apenas com a diferen√ßa de que n√£o fazemos tantas tentativas ao acaso, mas sabemos j√°, por experi√™ncia, mais ou menos como fazer as coisas. E se uma cabe√ßa inteligente, como √© √≥bvio, revela muito mais habilidade e experi√™ncia nas voltas que d√° do que uma cabe√ßa est√ļpida, o momento em que consegue passar n√£o √© para ela menos surpreendente; de repente estamos do outro lado,

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