Citação de

Os Amantes n√£o Contam Nada de Novo uns aos Outros

A alma s√≥ acolhe o que lhe pertence; de certo modo, ela j√° sabe de antem√£o tudo aquilo por que vai passar. Os amantes n√£o contam nada de novo uns aos outros, e para eles tamb√©m n√£o existe reconhecimento. De facto, o amante n√£o reconhece no ser que ama nada a n√£o ser que √© transportado por ele, de modo indescrit√≠vel, para um estado de dinamismo interior. E reconhecer uma pessoa que n√£o ama significa para ele trazer o outro ao amor como uma parede cega sobre a qual cai a luz do Sol. E reconhecer uma coisa inerte n√£o significa identificar os seus atributos uns a seguir aos outros, mas sim que um v√©u cai ou uma fronteira se abre, e nenhum deles pertence ao mundo da percep√ß√£o. Tamb√©m o inanimado, desconhecido como √©, mas cheio de confian√ßa, entra no espa√ßo fraterno dos amantes. A natureza e o singular esp√≠rito dos amantes olham-se nos olhos, e s√£o as duas direc√ß√Ķes de um mesmo agir, um rio que corre em dois sentidos, um fogo que arde em dois extremos.
E ent√£o √© imposs√≠vel reconhecer uma pessoa ou uma coisa sem rela√ß√£o connosco pr√≥prios, pois o acto de tomar conhecimento toma das coisas qualquer coisa; mant√™m a forma, mas parecem desfazer-se em cinzas por dentro, algo delas se evapora, e o que resta √© apenas a sua m√ļmia. √Č por isso tamb√©m que n√£o existe verdade para os amantes; seria um beco sem sa√≠da, um fim, a morte do pensamento que, enquanto estiver vivo, se assemelha √† f√≠mbria arfante de uma chama, onde se abra√ßam a luz e a escurid√£o.