Passagens sobre Espírito

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Frases sobre esp√≠rito, poemas sobre esp√≠rito e outras passagens sobre esp√≠rito para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Crueldade e Sofrimento

A crueldade √© constitutiva do universo, √© o pre√ßo a pagar pela grande solidariedade da biosfera, √© inelimin√°vel da vida humana. Nascemos na crueldade do mundo e da vida, a que acrescent√°mos a crueldade do ser humano e a crueldade da sociedade humana. Os rec√©m-nascidos nascem com gritos de dor. Os animais dotados de sistemas nervosos sofrem, talvez os vegetais tamb√©m, mas foram os humanos que adquiriram as maiores aptid√Ķes para o sofrimento ao adquirirem as maiores aptid√Ķes para a frui√ß√£o. A crueldade do mundo √© sentida mais vivamente e mais violentamente pelas criaturas de carne, alma e esp√≠rito, que podem sofrer ao mesmo tempo com o sofrimento carnal, com o sofrimento da alma e com o sofrimento do esp√≠rito, e que, pelo esp√≠rito, podem conceber a crueldade do mundo e horrorizar-se com ela.
A crueldade entre homens, indiv√≠duos, grupos, etnias, religi√Ķes, ra√ßas √© aterradora. O ser humano cont√©m em si um ru√≠do de monstros que liberta em todas as ocasi√Ķes favor√°veis. O √≥dio desencadeia-se por um pequeno nada, por um esquecimento, pela sorte de outrem, por um favor que se julga perdido. O √≥dio abstracto por uma ideia ou uma religi√£o transforma-se em √≥dio concreto por um indiv√≠duo ou um grupo;

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Nada √© mais perigoso do que o axioma comum de que √© necess√°rio consultar o esp√≠rito da lei. Esta √© uma barreira rompida pela torrente das opini√Ķes.

√Ä medida que vamos tendo mais esp√≠rito, achamos que h√° mais homens originais. As pessoas vulgares n√£o fazem distin√ß√Ķes entre os homens.

Se um espírito contemplativo se deita à água, não tentará nadar, procurará, primeiro, compreender a água. E afogar-se-á.

A Única Coisa que Desculpa o Casamento é o Amor

Na carta que lhe escrevi dava-lhe, como me tinha pedido, a minha opini√£o sobre o casamento. √Č a seguinte: acho o casamento uma coisa revoltante! E isto por uma √ļnica raz√£o mas que para mim √© tudo, para mim e para aquelas mulheres que n√£o s√£o apenas f√™meas, para todas as delicadas, para todas as que t√™m pudor, esp√≠rito e consci√™ncia. Essa raz√£o √© a posse, essa suprema e grande lei da Natureza que, no entanto, revolta tudo quanto eu tenho de delicado e bom no √≠ntimo da minha alma. Ganha-se um amigo muitas vezes, √© certo; um amigo que √†s vezes √© o nosso supremo amparo, mas em compensa√ß√£o quantas revoltas, quantas m√°goas, quantas desilus√Ķes! Quantas!… A minha querida faz bem, faz muito bem em n√£o se querer sujeitar ao mercado, √† venda. Eu casei e casei por amor. √Č a √ļnica coisa que desculpa, no meu entender, o casamento, porque do contr√°rio, quando nele apenas entram o interesse e a ambi√ß√£o, revolta-me e indigna-me.

A sujei√ß√£o que na juventude e na idade madura nos penetra no cora√ß√£o e no esp√≠rito, o mau uso e a sufoca√ß√£o que imp√Ķe √†s nossas energias mais nobres, d√£o-nos um maravilhoso sentimento do valor que temos quando conseguimos apesar de tudo realizar os nossos melhores desejos.

Ninguém é Feliz quando Treme pela sua Felicidade

Ningu√©m √© feliz quando treme pela sua felicidade. N√£o se apoia em bases s√≥lidas quem tira a sua satisfa√ß√£o de bens exteriores, pois acabar√° por perder o bem-estar que obteve. Pelo contr√°rio, um bem que nasce dentro de n√≥s √© permanente e constante, e vai sempre crescendo at√© ao nosso √ļltimo momento; todos os demais bens ante os quais se extasia o vulgo s√£o bens ef√©meros. “E ent√£o? Quer isso dizer que s√£o in√ļteis e n√£o podem dar satisfa√ß√£o?” √Č evidente que n√£o, mas apenas se tais bens estiverem na nossa depend√™ncia, e n√£o n√≥s na depend√™ncia deles. Tudo quanto cai sob a al√ßada da fortuna pode ser proveitoso e agrad√°vel na condi√ß√£o de o seu benefici√°rio ser senhor de si pr√≥prio em vez de ser servo das suas propriedades. √Č um erro pensar-se, Luc√≠lio, que a fortuna nos concede o que quer que seja de bom ou de mau; ela apenas d√° a mat√©ria com que se faz o bom e o mau, d√°-nos o material de coisas que, nas nossas m√£os, se transformam em boas ou m√°s.
O nosso espírito é mais poderoso do que toda a espécie de fortuna, ele é quem conduz a nossa vida no bom ou no mau sentido,

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A Vantagem do Esquecimento

O esquecimento n√£o √© s√≥ uma vis inertioe, como cr√™em os esp√≠ritos superfinos; antes √© um poder activo, uma faculdade moderadora, √† qual devemos o facto de que tudo quanto nos acontece na vida, tudo quanto absorvemos, se apresenta √† nossa consci√™ncia durante o estado da ¬ędigest√£o¬Ľ (que poderia chamar-se absor√ß√£o f√≠sica), do mesmo modo que o mult√≠plice processo da assimilia√ß√£o corporal t√£o pouco fatiga a consciencia. Fechar de quando em quando as portas e janelas da consci√™ncia, permanecer insens√≠vel √†s ruidosas lutas do mundo subterr√Ęneo dos nossos org√£os; fazer sil√™ncio e t√°bua rasa da nossa consci√™ncia, a fim de que a√≠ haja lugar para as fun√ß√Ķes mais nobres para governar, para rever, para pressentir (porque o nosso organismo √© uma verdadeira oligarquia): eis aqui, repito, o of√≠cio desta faculdade activa, desta vigilante guarda encarregada de manter a ordem f√≠sica, a tranquilidade, a etiqueta. Donde se coligue que nenhuma felicidade, nenhuma serenidade, nenhuma esperan√ßa, nenhum gozo presente poderiam existir sem a faculdade do esquecimento.

A Lamenta√ß√£o √© Completamente In√ļtil

N√£o h√° d√ļvida de que √© in√ļtil e prejudicial lamentarmo-nos perante o mundo. Resta saber se n√£o √© igualmente in√ļtil e prejudicial lamentarmo-nos perante n√≥s pr√≥prios. Evidentemente. De facto, ningu√©m se lamentar√° perante si pr√≥prio, a fim de se incitar √† piedade, o que nada significaria, dado que a piedade √©, por defini√ß√£o, o voluptuso encontro de dois esp√≠ritos. Para qu√™, ent√£o? N√£o para obter favores, porque o √ļnico favor que um esp√≠rito pode fazer a si pr√≥prio √© conceder-se indulg√™ncia, e toda a gente percebe quanto √© prejudicial que a vontade seja indulgente para com a sua pr√≥pria e lament√°vel fraqueza.
Resta a hipótese de o fazermos para extrair verdades do nosso coração amolecido pela ternura. Mas a experiência ensina que as verdades surgem apenas em virtude de uma pacata e severa busca, que surpreende a consciência numa atitude inesperada e a vê, como de um filme que parasse de repente, estupefacta, mas não emocionada.
Basta, portanto.

O Verdadeiro Emprego da Nossa Raz√£o

De resto, o verdadeiro emprego da nossa raz√£o para a conduta da vida n√£o consiste sen√£o em examinar e considerar sem paix√£o o valor de todas as perfei√ß√Ķes, tanto do corpo quanto do esp√≠rito, que podem ser adquiridas atrav√©s da nossa conduta, a fim de que, sendo normalmente obrigados a privar-nos de algumas para ter as outras, sempre escolhamos as melhores.

O Gosto pela Simplicidade

Cansado às vezes do artificialismo que domina hoje em todos os géneros, enfadado com os chistes, os lances espirituosos, com as troças e com todo esse espírito que se quer colocar nas menores coisas, digo comigo mesmo: se eu pudesse encontrar um homem que não fosse espirituoso, com quem não fosse preciso sê-lo, um homem ingénuo e modesto, que falasse somente para se fazer entender e para exprimir os sentimentos do seu coração, um homem que só tivesse a razão e um pouco de naturalidade: com que ardor eu correria para descansar na sua conversa ao invés do jargão e dos epigramas do resto dos homens! Como é que acontece perder-se o gosto pela simplicidade a ponto de não mais se perceber que ele foi perdido? Não há virtudes nem prazeres que dela não retirem encantos e as suas graças mais tocantes.

Assim come√ßam todos os amores: assim vai at√© ao altar a menina que se casa; acompanham-a at√© l√° quim√©ricas legi√Ķes de esp√≠ritos l√ļcidos, cujas asas se enla√ßam, para a embalarem num coxim ideal de aspira√ß√Ķes e santos desejos. E, depois, √© muito triste v√™-la, passados dois meses, a fazer um rol de roupa suja, a acertar a gravata do marido, que vai ver o cambio, ou, oh ess√™ncia do materialismo! a pregar um bot√£o nas cal√ßas conjugais! Esta √© a ordem do mundo, leitores! Cinjamos os rins de sil√≠cio, cubramo-nos de saco, e baixemos a cabe√ßa ao mundo conveniente, qual ele √©, porque o m√©todo √© uma necessidade prima, at√© no romance.

Corpo e Espírito

A maior parte das pessoas tem um corpo que, ou √© desleixado, formado e deformado pelo acaso, e que parece quase n√£o ter rela√ß√£o com o seu esp√≠rito e o seu car√°cter, ou ent√£o √© recoberto pela m√°scara do desporto que lhe d√° o aspecto daquelas horas em que ele tirou f√©rias de si pr√≥prio. Essas s√£o aquelas horas em que um homem desfia o sonho diurno da sua boa figura, que foi buscar √†s revistas do grande mundo da eleg√Ęncia e da beleza. Todos esses jogadores de t√©nis, cavaleiros e corredores de autom√≥veis, bronzeados e musculosos, com ares de baterem todos os recordes, apesar de, em geral, dominarem apenas razoavelmente a sua especialidade, essas damas bem vestidas ou bem despidas, sonham sonhos diurnos, e s√≥ se distinguem do comum dos mortais que t√™m sonhos despertos porque o seu sonho n√£o permanece encerrado no c√©rebro, mas sai para o ar livre, como projec√ß√£o da alma das massas, configurada de forma corp√≥rea, dram√°tica, quase apetecia dizer, na linguagem de fen√≥menos ocultos mais que suspeitos, ideopl√°stica. Mas t√™m em comum com os vulgares construtores de fantasias uma certa banalidade dos seus sonhos, tanto no que se refere ao conte√ļdo como √† proximidade do estado de vig√≠lia.

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