Passagens de Manoel de Oliveira

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Para os budistas, quando morre uma pessoa, a alma sai e pode instalar-se num gato. Falei com o Dalai Lama e pus-lhe essa questão: se a pessoa morre e a alma passa de um humano para uma fera, não perde a evolução do raciocínio? Disse-me que não, pois o que conta é o esforço. Percebi que a vida, em si mesmo, é um esforço enorme em tudo que fazemos. Mas é ele que activa a imaginação.

A televis√£o √© diferente. A televis√£o √© p√ļblica e o cinema √© cativo, privado. A televis√£o pode passar o cinema ou uma pe√ßa de teatro, mas a sua fun√ß√£o √© p√ļblica, √© mostrar os acontecimentos que correm, como um jornal, quase.

As Mulheres S√£o Profundamente Diferentes dos Homens

S√£o profundamente diferentes, felizmente. At√© o c√©rebro tem uma outra organiza√ß√£o. A mulher √© extraordin√°ria… Gosto muito da est√°tua da V√©nus de Milo, a√≠ √© que est√° o sentido. N√£o h√° nada dela que eu tire para o sexo. O sexo √© um prazer, um v√≠cio, como fumar, tomar caf√©, beber uma droga. A V√©nus de Milo: a gente n√£o sabe a posi√ß√£o das m√£os, mas o seio √© muito bonito, nada provocativo, nem a cara, que √© muito serena, muito feminina; mas o ventre √© o que sobressai mais. E √© o ventre onde se gera a humanidade. A Agustina Bessa-Lu√≠s diz mesmo que Cristo, Deus, nasceu do ventre da mulher. Veja a import√Ęncia que tem e que se n√£o d√° √† mulher: a de criar humanidade. E essa est√°tua, por coincid√™ncia, √© a mais conhecida de todas as do mundo ocidental.

N√£o h√° outra forma de arte que se aproxime mais da vida do que o cinema. E o cinema √© tamb√©m uma s√≠ntese de todas as artes ‚Äď como a pr√≥pria vida, que cont√©m em si todos os aspectos ‚Äď, seja a escultura, a pintura ou a pr√≥pria m√ļsica.

A pol√≠tica √© uma coisa que tem de interessar as pessoas, porque n√≥s vivemos debaixo dela, portanto estamos interessados na ac√ß√£o dela: que n√£o nos incomode, que n√£o nos perturbe, que n√£o nos chateie…

O que √© que nos d√° o progresso? Uma coisa s√≥: conforto. S√≥ conforto. O homem da caverna tinha de matar o boi…

Eu acho que no artista, e mesmo fora do artista, na vida, o subconsciente resolve muita coisa e trabalha tudo. E de vez em quando atira uma coisa para o consciente. Est√° tudo guardado nessa grande mala que herdamos, que vem no sangue.

O Futuro da Espécie Humana

N√£o sei se as popula√ß√Ķes est√£o a aumentar ou a diminuir. √Č claro que, com o aborto, com a p√≠lula, com as “camisas de V√©nus”, com a soma dessas coisas todas, a procria√ß√£o diminui, a velhice aumenta; a receita dos impostos diminui, porque h√° menos jovens no trabalho e h√° mais velhos a ser remunerados. √Č preciso que a popula√ß√£o aumente sempre e que n√£o se fa√ßa a desertifica√ß√£o da prov√≠ncia, como est√° a acontecer. Tiram escolas, hospitais e as pessoas desertificam essas cidades. Porque √© da prov√≠ncia, da cultura da terra, que n√≥s vivemos, e ela est√° desertificada.

[Mas eu referia-me mesmo à sobrevivência do planeta Terra. Acha que ele está em perigo?]

Está em perigo, claro. De tal modo que a gente pergunta: onde está a inteligência do homem? Há um progresso, é certo, mas esse progresso encaminha-se para a morte.

Ningu√©m tem medo da morte. Ao nascer, n√£o h√° outra finalidade certa que n√£o seja a morte. Hoje, na minha idade, penso que a morte, quer para um religioso e crente, como eu sou, quer para um leigo, ser√° a √ļnica entrada para o absoluto.

A cr√≠tica √© indispens√°vel. Mais importante ainda √© um complemento. Por isso, o filme s√≥ est√° acabado depois de ser visto. Por algum p√ļblico e de prefer√™ncia pelos cr√≠ticos. S√£o eles que v√£o acabar o filme. Como h√° muito de inconsciente no trabalho de um artista, √© o cr√≠tico que vai buscar esse lado, de que o artista nem se deu conta.

Estive agora no M√©xico e vi escrito nas paredes de um museu um pensamento dos maias, muito simples, muito correcto, mas ao mesmo tempo perfeito, profundo. Dizia: “Semeia para colheres, colhe para comeres, come para viveres”. √Č um fundamento da vida. A gente vive no sentido inverso: vive para comer, come para colher e colhe porque semeia. Aqui p√Ķe-se o problema do que transcende isso.

Nenhuma arte simula a vida como o cinema. Todavia, n√£o √© uma vida. Tamb√©m n√£o √© propriamente uma arte. Porque √© uma acumula√ß√£o, uma s√≠ntese de todas as artes. O cinema n√£o existia sem a pintura, sem a literatura, sem a dan√ßa, sem a m√ļsica, sem o som, sem a imagem, tudo isto √© um conjunto de todas as artes, de todas sem exce√ß√£o.

N√£o h√° movimento sem tempo. Mesmo parado, o tempo passa, n√£o √© preciso que se mova, porque tudo se move, o tempo corre. O tempo √© movimento em si. E a imagem…

Para mim os poetas chegam mais longe do que os filósofos. As suas poesias contêm segredos que vão para além. A nossa inteligência não é capaz de os desvendar, a gente sente, mas não desvenda.

√Č preciso que as pessoas estejam profundamente bem-educadas. A Educa√ß√£o √© fundamental. No aspecto das prioridades governamentais, por exemplo, penso que o que deve estar em 1¬ļ lugar √© a Sa√ļde. Um pa√≠s sem Sa√ļde n√£o vale nada. Em 2¬ļ lugar est√° a Educa√ß√£o e a seguir a Arte porque √© o complemento da Educa√ß√£o, √© a condi√ß√£o humana. √Č essencial conhecer isto, sem isto n√£o se pode funcionar. E depois vem o resto…

A Identidade é o Fundamental

Sempre pensei que a identidade √© o fundamental. (…) Sem identidade n√£o se √©. E a gente tem que ser, isso √© que √© importante. Mas a identidade obriga depois √† dignidade. Sem identidade n√£o h√° dignidade, sem dignidade n√£o h√° identidade, sem estas duas n√£o h√° liberdade. A liberdade imp√Ķe, logo de come√ßo, o respeito pelo pr√≥ximo. Isto pode explicar um pouco os limites da pr√≥pria vida. Quer dizer, √© prefer√≠vel morrer a perverter a dignidade.

Parar √© morrer e isto √© aplic√°vel hoje. O pior de tudo √© parar, quer dizer, n√£o se fazerem coisas, n√£o se fazer nada, ficar com medo, retrair-se, etc. Esta ideia do povo, diante da crise, correr a tirar o dinheiro dos bancos, com medo de o perder, agrava terrivelmente a situa√ß√£o. √Č um erro parar, n√£o continuar a despertar as coisas.

Sem identidade n√£o se √©. E a gente tem que ser, isso √© que √© importante. Mas a identidade obriga depois √† dignidade. Sem identidade n√£o h√° dignidade, sem dignidade n√£o h√° identidade, sem estas duas n√£o h√° liberdade. A liberdade imp√Ķe, logo de come√ßo, o respeito pelo pr√≥ximo. Isto pode explicar um pouco os limites da pr√≥pria vida.