Cita√ß√Ķes de Jean-Marie Gustave Le Cl√©zio

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Frases, pensamentos e outras cita√ß√Ķes de Jean-Marie Gustave Le Cl√©zio para ler e compartilhar. Os melhores escritores est√£o em Poetris.

O horror n√£o √© inimagin√°vel, n√£o tem a cara de um monstro nem as asas de morcego de um dem√≥nio. √Č calmo e tranquilo, e √© dur√°vel, durando dias e noites, meses; anos, talvez. N√£o √© mortal. Ele ataca os olhos, s√≥ os olhos.

O Estado de Transe

O estado de transe √© um estado quase normal no ser humano; basta muito pouco para provoc√°-lo. Uma coisa de nada, um pouco de √°lcool no sangue, um pouco de droga, excesso de oxig√©nio, a c√≥lera, o cansa√ßo. Mas este estado √© interessante na medida em que √© orient√°vel. Trata-se de um balan√ßo, mas esse lan√ßa m√£o das regi√Ķes desconhecidas do nosso esp√≠rito. De facto, n√£o h√° fundamentalmente nenhuma diferen√ßa, entre um homem intoxicado pelo √°lcool e um santo que se entregue ao √™xtase. E no entanto h√° apesar de tudo uma diferen√ßa: a da interpreta√ß√£o. O momento de loucura √© preparado por uma etapa onde o assunto √© mergulhado numa esp√©cie de vacila√ß√£o da consci√™ncia, de excita√ß√£o cerebral violenta. √Č esse momento que fabrica verdadeiramente o √™xtase e lhe d√° o sentido. Enquanto o √™xtase em si mesmo √© cego. √Č o vazio total, sem ascens√£o nem queda. A calma plana. Tanto quanto se possa dizer que o santo nunca conhecer√° Deus. Aproxima-O, depois regressa. E estas duas etapas s√£o as que s√£o. Entre as duas, √© o nada. O vazio, a amn√©sia completa. No momento X do √™xtase, o santo e o intoxicado s√£o semelhantes, est√£o no mesmo local.

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A Sociedade Destroça o Indivíduo

Trata-se dum conjunto, dum todo, a sociedade, e, podre, uma vez que √© preciso contar com ela ao mesmo tempo que se n√£o deve contar. Quer dizer, √© como um conjunto est√°vel, composto por elementos inst√°veis. Ora √© imposs√≠vel viver no interior, sem sofrer essa instabilidade, esse monte de mentiras. Surge ent√£o o medo de utilizar o m√≠nimo pormenor que participe dessa instabilidade. √Č a revolta. Voc√™ duvida do valor das palavras, dos gestos, do que representam as palavras, das ideias, das simples associa√ß√Ķes de ideias, dos sonhos e at√© da realidade, das sensa√ß√Ķes mais claras, mais agudas. Voc√™ duvida mesmo da sua d√ļvida, da organiza√ß√£o que toma, da forma que adopta. N√£o lhe fica nada, nada. J√° n√£o √© nada, √© um camale√£o, um eco, uma sombra. Isso √© obra da sociedade, compreende?

J.-M. G.

O Absoluto do Ser

РDeus não é bom?
– N√£o, para falar com propriedade, Deus n√£o √© bom: √©. Bom, mau, s√£o pobres palavras que se aplicam a um conjunto de regras respeitantes a alguns pormenores da nossa vida material. Porque √© que Deus seria limitado pelas nossas pobres palavras e valores? N√£o, Deus n√£o √© bom. √Č mais do que isso. √Č a forma mais rica, mais completa, mais poderosa do ser, de qualquer maneira. Torna concreta a abstrac√ß√£o mesmo da forma do ser. E penso que o ¬ęenvisagement¬Ľ do ser n√£o podia ser poss√≠vel se Deus n√£o lhe tivesse dado anteriormente o seu estado. Deus √© a cria√ß√£o. √Č pois um princ√≠pio inextingu√≠vel, n√£o orientado, a pr√≥pria vida. Lembrem-se das palavras: ¬ęEu sou Aquele que sou¬Ľ. Nenhuma outra palavra humana compreendeu e relatou melhor a forma divina. Intemporal, n√£o, nem sequer intemporal e infinita. O princ√≠pio. O facto de que h√° qualquer coisa no lugar onde n√£o havia nada.
– Mas ent√£o, Deus n√£o tem necessidade…
– E at√© mesmo para l√° de toda a express√£o. Se quiser, eu sou Deus. N√£o h√° d√ļvida a sustentar, pergunta a fazer. Voc√™ existe. Portanto √© Deus. Voc√™ n√£o pode existir de outro modo.

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O encanto principal da poesia é a lição da miragem, ou seja, mostrar o movimento frágil e vibrante da criação, em que a palavra está, de certa forma, numa quinta-essência humana, orando.