Textos sobre Sagrado

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Textos de sagrado escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Proibir Demasiado Prejudica a Lei

Penso que um excesso de decretos e de interditos prejudica a autoridade da lei. Podemos observ√°-lo: onde existem poucas proibi√ß√Ķes, estas s√£o obedecidas; onde a cada passo se trope√ßa em coisas proibidas, sente-se rapidamente a tenta√ß√£o de as infringir. Al√©m disso, n√£o √© preciso ser-se anarquista para se ver que as leis e os decretos, do ponto de vista da sua origem, n√£o gozam de qualquer car√°cter sagrado ou invulner√°vel. Por vezes s√£o pobres de conte√ļdo, insuficientes, ofensivas do nosso sentido de justi√ßa, ou nisso se tornam com o tempo, e ent√£o, dada a in√©rcia geral dos dirigentes, n√£o resta outro meio de corrigir essas leis caducas sen√£o infringi-las de boa vontade! Para mais, √© prudente, quando se pretende manter o respeito por leis e decretos, n√£o promulgar sen√£o aqueles cuja observa√ß√£o ou infrac√ß√£o possam ser facilmente controladas.

O Vil Metal

Tim√£o: Ouro amarelo, fulgurante, ouro precioso! (…) Basta uma por√ß√£o dele para fazer do preto, branco; do feio, belo; do errado, certo; do baixo, nobre; do velho, jovem; do cobarde, valente. √ď deuses!, por que isso? O que √© isso, √≥ deuses? (…) [O ouro] arrasta os sacerdotes e os servos para longe do seu altar, arranca o travesseiro onde repousa a cabe√ßa dos √≠ntegros. Esse escravo dourado ata e desata v√≠nculos sagrados; aben√ßoa o amaldi√ßoado; torna ador√°vel a lepra repugnante; nomeia ladr√Ķes e confere-lhes t√≠tulos, genuflex√Ķes e a aprova√ß√£o na bancada dos senadores. √Č isso que faz a vi√ļva anci√£ casar-se de novo (…). Venha, mineral execr√°vel, prostituta vil da humanidade (…) eu o farei executar o que √© pr√≥prio da sua natureza.

Somos Vítimas de uma Prolongada Servidão Colectiva

Produto de dois s√©culos de falsa educa√ß√£o fradesca e jesu√≠tica, seguidos de um s√©culo de pseudo-educa√ß√£o confusa, somos as v√≠timas individuais de uma prolongada servid√£o colectiva. Fomos esmagados (…) por liberais para quem a liberdade era a simples palavra de passe de uma seita reaccion√°ria, por livres-pensadores para quem o c√ļmulo do livre-pensamento era impedir uma prociss√£o de sair, de ma√ß√£os para quem a Ma√ßonaria (longe de a considerarem a deposit√°ria da heran√ßa sagrada da Gnose) nunca foi mais do que uma Carbon√°ria ritual. Produto assim de educa√ß√Ķes dadas por criaturas cuja vida era uma perp√©tua trai√ß√£o √†quilo que diziam que eram, e √†s cren√ßas ou ideias que diziam servir, t√≠nhamos que ser sempre dos arredores…

O √ďpio

…Havia ruas inteiras dedicadas ao √≥pio… Os fumadores deitavam-se sobre baixas tarimbas… Eram os verdadeiros lugares religiosos da √ćndia… N√£o tinham nenhum luxo, nem tape√ßarias, nem coxins de seda… Era tudo madeira por pintar, cachimbos de bambu e almofadas de lou√ßa chinesa… Pairava ali uma atmosfera de dec√™ncia e austeridade que n√£o existia nos templos… Os homens adormecidos n√£o faziam movimento ou ru√≠do… Fumei um cachimbo… N√£o era nada… Era um fumo caliginoso, morno e leitoso… Fumei quatro cachimbos e estive cinco dias doente, com n√°useas que vinham da espinha dorsal, que me desciam do c√©rebro… E um √≥dio ao sol, √† exist√™ncia… O castigo do √≥pio… Mas aquilo n√£o podia ser tudo… Tanto se dissera, tanto se escrevera, tanto se vasculhara nas maletas e nas malas, tentando apanhar nas alf√Ęndegas o veneno, o famoso veneno sagrado… Era preciso vencer a repugn√Ęncia… Devia conhecer o √≥pio, provar o √≥pio, afim de dar o meu testemunho… Fumei muitos cachimbos, at√© que conheci… N√£o h√° sonhos, n√£o h√° imagens, n√£o h√° paroxismos… H√° um enfraquecimento met√≥dico, como se uma nota infinitamente suave se prolongasse na atmosfera… Um desvanecimento, um v√°cuo dentro de n√≥s… Qualquer movimento do cotovelo, da nuca, qualquer som distante de carruagem,

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O Homem é o Animal Menos Preparado

A capacidade do homem para o pensamento abstracto, que parece faltar √† maioria dos outros mam√≠feros, conferiu-lhe sem d√ļvida o seu actual dom√≠nio sobre a superf√≠cie da Terra ‚Äď um dom√≠nio disputado apenas por centenas de milhares de tipos de insectos e organismos microsc√≥picos. Este pensamento abstracto √© o respons√°vel pela sua sensa√ß√£o de superioridade e pelo que, sob esta sensa√ß√£o, corresponde a uma certa medida de realidade, pelo menos dentro de estreitos limites. Mas o que √© frequentemente subestimado √© o facto de que a capacidade de desempenhar um acto n√£o √©, de forma alguma, sin√≥nima de seu exerc√≠cio salubre. √Č f√°cil observar que a maior parte do pensamento do homem √© est√ļpida, sem sentido e injuriosa para ele. Na realidade, de todos os animais, ele parece o menos preparado para tirar conclus√Ķes apropriadas nas quest√Ķes que afectam mais desesperadamente o seu bem-estar.
Tente imaginar um rato, no universo das ideias dos ratos, chegando a no√ß√Ķes t√£o ocas de plausibilidade como, por exemplo, o Swedenborgianismo, a homeopatia ou a telepatia mental. O instinto natural do homem, de facto, nunca se dirige para o que √© s√≥lido e verdadeiro; prefere tudo que √© especioso e falso. Se uma grande na√ß√£o moderna se confrontar com dois problemas antag√≥nicos ‚Äď um deles baseado em argumentos prov√°veis e racionais,

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Devo à Paisagem as Poucas Alegrias que Tive no Mundo

Devo √† paisagem as poucas alegrias que tive no mundo. Os homens s√≥ me deram tristezas. Ou eu nunca os entendi, ou eles nunca me entenderam. At√© os mais pr√≥ximos, os mais amigos, me cravaram na hora pr√≥pria um espinho envenenado no cora√ß√£o. A terra, com os seus vestidos e as suas pregas, essa foi sempre generosa. √Č claro que nunca um panorama me interessou como gargarejo. √Č mesmo um favor que pe√ßo ao destino: que me poupe √† degrada√ß√£o das habituais paneladas de prosa, a descrever de cor caminhos e florestas. As dobras, e as cores do ch√£o onde firmo os p√©s, foram sempre no meu esp√≠rito coisas sagradas e √≠ntimas como o amor. Falar duma encosta coberta de neve sem ter a alma branca tamb√©m, retratar uma folha sem tremer como ela, olhar um abismo sem fundura nos olhos, √© para mim o mesmo que gostar sem l√≠ngua, ou cantar sem voz. Vivo a natureza integrado nela. De tal modo, que chego a sentir-me, em certas ocasi√Ķes, pedra, orvalho, flor ou nevoeiro. Nenhum outro espect√°culo me d√° semelhante plenitude e cria no meu esp√≠rito um sentido t√£o acabado do perfeito e do eterno. Bem sei que h√° gente que encontra o mesmo universo no jogo dum m√ļsculo ou na linha dum perfil.

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O Sagrado e o Alcançável

Sem uma palavra a escrever, Martim no entanto n√£o resistiu √† tenta√ß√£o de imaginar o que lhe aconteceria se o seu poder fosse mais forte que a prud√™ncia. ¬ęE se de repente eu pudesse?¬Ľ, indagou-se ele. E ent√£o n√£o conseguiu se enganar: o que quer que conseguisse escrever seria apenas por n√£o conseguir escrever ¬ęa outra coisa¬Ľ. Mesmo dentro do poder, o que dissesse seria apenas por impossibilidade de transmitir uma outra coisa. A Proibi√ß√£o era muito mais funda…, surpreendeu-se Martim.
Como se vê, aquele homem terminara por cair na profundeza que ele sempre sensatamente evitara.
E a escolha tornou-se ainda mais funda: ou ficar com a zona sagrada intacta e viver dela Рou traí-la pelo que ele certamente terminaria conseguindo e que seria apenas isso: o alcançável.
Como quem n√£o conseguisse beber a √°gua do rio sen√£o enchendo o c√īncavo das pr√≥prias m√£os – mas j√° n√£o seria a silenciosa √°gua do rio, n√£o seria o seu movimento fr√≠gido, nem a delicada avidez com que a √°gua tortura pedras, n√£o seria aquilo que √© um homem de tarde junto do rio depois de ter tido uma mulher. Seria o c√īncavo das pr√≥prias m√£os. Preferia ent√£o o sil√™ncio intacto.

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O Nosso C√≥digo √Čtico e Moral Desculpabiliza-nos Perante a Recusa de Aliviarmos o Sofrimento Alheio

Eu não desviava os olhos de minha mãe, sabia que, quando estivessem à mesa, não me seria permitido ficar até ao fim da refeição, e que, para não contrariar meu pai, a mamã não me deixaria beijá-la várias vezes diante dos outros, como se fosse no meu quarto.
(…) antes de tocarem a sineta para o jantar, meu av√ī teve a ferocidade inconsciente de dizer: ¬ęO pequeno parece cansado; deveria ir deitar-se. E depois, jantamos tarde hoje.¬Ľ E meu pai,(…) disse: ¬ęSim. Anda, vai deitar-te.¬Ľ Eu quis beijar a mam√£; nesse instante ouviu-se a sineta do jantar. ¬ęN√£o, n√£o, deixa a tua m√£e em paz, voc√™s j√° se despediram bastante, essas demonstra√ß√Ķes s√£o rid√≠culas. Anda, sobe!¬Ľ E eu tive de partir sem vi√°tico; tive de subir cada degrau ¬ęcontra o cora√ß√£o¬Ľ, subindo contra o meu cora√ß√£o, que desejava voltar para junto de minha m√£e porque ela n√£o lhe havia dado, com um beijo, licen√ßa de me acompanhar.
(…) J√° no meu quarto, tive de (…) cerrar os postigos, cavar o meu pr√≥prio t√ļmulo enquanto virava as cobertas, vestir o sud√°rio da minha camisa de dormir. Mas antes de sepultar-me no leito de ferro (…), veio-me um impulso de revolta e resolvi tentar um ardil de condenado.

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O Poeta Age em Qualquer Ambiente

Não reclamo para mim qualquer privilégio de solidão: só a tive quando ma impuseram como condição terrível da minha vida. E escrevi então os meus livros como os escrevi, rodeado pela adorável multidão, pela infinita e rica multidão do homem. Nem a solidão nem a sociedade podem alterar os requisitos do poeta, e os que se reclamam de uma ou de outra exclusivamente falseiam a sua condição de abelhas que constroem há séculos a mesma célula fragrante, com o mesmo alimento de que o coração humano necessita. Mas não condeno os poetas da solidão nem os altifalantes do grito colectivo: o silêncio, o som, a separação e integração dos homens, todo este material para que as sílabas da poesia se juntem, precipitando a combustão de um fogo indelével, de uma comunicação inerente, de uma herança sagrada que há mil anos se traduz na palavra e se eleva no canto.

Hábito e Inércia

Ao princípio, somos carne animada pela alma; a meio caminho, meias máquinas; perto do fim, autómatos rígidos e gelados como cadáveres. Quando a morte chega, encontramo-nos em tudo semelhantes aos mortos. Esta petrificação progressiva é obra do hábito.
O hábito torna-nos cegos às maravilhas do mundo Рindiferentes e inconscientes perante os milagres quotidianos -, embota a força dos sentidos e dos sentimentos Рtorna-nos escravos dos costumes, mesmo tristes e culpados: suprime a vista, espanto, fogo e liberdade. Escravos, frígidos, insensatos, cegos: tudo propriedade dos cadáveres. A subjugação aos hábitos é uma subjugação da morte; um suicídio gradual do espírito.
O h√°bito suprime as cores, incrusta, esconde: partes da nossa vida afundam-se gradualmente na inconsci√™ncia e deixam de ser vida para se tornarem pe√ßas de um mecanismo imprevisto. O c√≠rculo do espont√Ęneo reduz-se; a liberdade e novidade decaem na monotonia do vulgar.
√Č como se o sangue se tornasse, a pouco e pouco, s√≥lido como os ossos e a alma um sistema de correias e rodas. A mat√©ria n√£o passa de esp√≠rito petrificado pelos h√°bitos. Nasce-se esp√≠rito e mat√©ria e termina-se apenas como mat√©ria. A casca converteu em madeira a pr√≥pria linfa.
A casca é necessária para proteger o albume,

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A Justiça em Estado Puro

Quero que me ensinem tamb√©m o valor sagrado da justi√ßa ‚ÄĒ da justi√ßa que apenas tem em vista o bem dos outros, e para si mesma nada reclama sen√£o o direito de ser posta em pr√°tica. A justi√ßa nada tem a ver com a ambi√ß√£o ou a cobi√ßa da fama, apenas pretende merecer aos seus pr√≥prios olhos. Acima de tudo, cada um de n√≥s deve convencer-se de que temos de ser justos sem buscar recompensa. Mais ainda: cada um de n√≥s deve convencer-se de que por esta inestim√°vel virtude devemos estar prontos a arriscar a vida, abstendo-nos o mais poss√≠vel de quaisquer considera√ß√Ķes de comodidade pessoal. N√£o h√° que pensar qual vir√° a ser o pr√©mio de um acto justo; o maior pr√©mio est√° no facto de ele ser praticado. Mete tamb√©m na tua ideia aquilo que h√° pouco te dizia: n√£o interessa para nada saber quantas pessoas est√£o a par do teu esp√≠rito de justi√ßa. Fazer publicidade da nossa virtude significa que nos preocupamos com a fama, e n√£o com a virtude em si.

O Pensador

N√£o h√° nenhuma vida verdadeiramente intelectual em que a pol√©mica n√£o seja um acidente, um desn√≠vel entre o engenho e a cultura adquirida, por um lado, e, por outro, o meio ambiente; o pensador n√£o √©, por estrutura, polemista, embora n√£o fuja ante a pol√©mica, nem a considere inferior; o seu dom√≠nio √© no campo da paz, n√£o entre os instrumentos de guerra; quando a batalha se oferece sabe, como o fil√≥sofo antigo, marchar com a calma e a severa repress√£o dos instintos que o mundo inteiro, ante a sua profiss√£o, tem o direito de exigir; o seu dever de cidad√£o imp√Ķe-lhe que tome, ao ecoar da voz b√°rbara, a lan√ßa que defende as oliveiras sagradas e os r√≠tmicos templos. A sua linha, por√©m, o fio de cumeadas por que se alongam os seus passos melhores comportam apenas uma inven√ß√£o superadora, um perp√©tuo oferecer aos seus amigos humanos de toda a descoberta possibilidade de um caminho mais belo e mais nobre. V√™-se como um guia e um observador de horizontes que se estendam para al√©m dos limites do mar e dos limites do c√©u; a sua miss√£o √© a de p√īr ao alcance de todos os que novamente contemplaram os seus olhos e de os ajudar a percorrer a estrada que abriu ou desvendou;

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A Import√Ęncia da Mulher no Progresso da Civiliza√ß√£o

Se na hist√≥ria n√£o procurarmos s√≥ uma data ou um facto descarnado, mas tentarmos nela descobrir alguma coisa mais, um princ√≠pio harm√≥nico e as leis que governam esses factos, ainda nas suas menores evolu√ß√Ķes, veremos que a hist√≥ria da civiliza√ß√£o da mulher, do seu desenvolvimento e da sua moralidade, anda sempre ligada aos factos do desenvolvimento da civiliza√ß√£o e da moralidade dos povos: veremos que aonde a sua condi√ß√£o se amesquinha, onde desce em dignidade, onde a mulher em vez do triplo e sagrado car√°cter de amante, esposa e m√£e passa a ser escrava sem liberdade nem vontade, s√≥ destinada a saciar as paix√Ķes brutais dum senhor devasso, a√≠ tamb√©m veremos descer o n√≠vel da civiliza√ß√£o e moralidade: √† do√ßura dos costumes suceder a fereza e a brutalidade; e em vez do amor, essa flor do sentimento pura e recatada, s√≥ apareceram a paix√£o instintiva e brutal, necessidade puramente f√≠sica do animal que obedece √† lei da reprodu√ß√£o, √† devassid√£o e √† poligamia!

Génio, Talento e Celebridade

Pode-se supor que a presen√ßa no mesmo homem de mais de um elemento intelectual facilitaria a sua imediata celebridade. At√© certo limite √© assim, mas o √© at√© um limite menor do que se poderia conjecturar na ociosidade da hip√≥tese. Um homem dotado ao mesmo tempo de grande g√©nio e de grande intelig√™ncia (como Shakespeare), ou de grande g√©nio e grande talento (como Milton), n√£o acumula na sua √©poca ou na seguinte os resultados do g√©nio e os resultados de outra qualidade. √Č que estes diferentes elementos intelectuais est√£o misturados por coexistirem no homem, e derrama-se na subst√Ęncia da intelig√™ncia ou do talento o sagrado veneno do g√©nio; a bebida √© amarga, embora retenha algo do seu gosto comum. Os antigos misturavam mel com vinho e achavam isso gostoso; mas o n√©ctar n√£o pode fazer qualquer vinho gostoso ao paladar da gente comum.
Um homem que pudesse ter em si pr√≥prio, em certo grau, g√©nio, talento e intelig√™ncia, estaria preparado para produzir impacto no seu tempo pela sua intelig√™ncia, na sua √©poca pelo seu talento e na generalidade dos futuros tempos e √©pocas pelo seu g√©nio. Mas como o seu g√©nio afectaria o seu talento e o seu talento e o seu g√©nio a sua intelig√™ncia –

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Porque Escreves Descuidadamente?

Quem escreve descuidadamente faz, antes de mais, a confissão de que não dá grande valor aos seus pensamentos. Porque o entusiasmo que inspira a persistente resistência necessária para descobrir a forma mais clara, mais eficaz e mais atraente de expressar os nossos pensamentos é gerada simplesmente pela convicção do seu peso e da sua verdade Рtal como só utilizamos escrínios de prata ou de ouro para as coisas sagradas ou obras de arte de valor incalculável.
Poucos escrevem da mesma forma que um arquitecto constrói, traçando antecipadamente um plano e pensando-o até aos mais ínfimos pormenores. A maioria escreve como joga dominó: as frases ligam-se entre si como as peças de dominó, uma a uma, em parte deliberadamente, em parte por acaso.

O Ideal Português como Ideal para o Mundo

Tr√™s pontos, segundo Cam√Ķes, sobre os quais temos que meditar, e ver como √©. Ponto n√ļmero 1: √© preciso que os corpos se apaziguem para que a cabe√ßa possa estar livre para entender o mundo √† volta. Enquanto n√≥s estamos perturbados com existir um corpo que temos que alimentar, temos que fartar, que temos de tratar o melhor poss√≠vel, cometendo para isso muitas coisas extremamente dif√≠ceis, nessa altura, quando a nossa cabe√ßa estiver inteiramente livre e l√≠mpida, n√≥s podemos ouvir aquilo que Cam√Ķes chama ¬ęa voz da deusa¬Ľ. E que faz a voz da deusa? Arranca √†queles marinheiros as limita√ß√Ķes do tempo e as limita√ß√Ķes do espa√ßo. Arranca-os √†s limita√ß√Ķes do tempo o que faz que eles saibam qual vai ser o futuro de Portugal. E arranca-os √†s limita√ß√Ķes do espa√ßo porque eles v√™em todo o mundo ao longe, o universo que est√° ao longe, a deusa lho mostra, embora com o sistema errado, digamos assim, ou imperfeito, de Ptolomeu, e eles est√£o portanto inteiramente fora do espa√ßo. Aquilo que foi o ideal dos gregos, e que os gregos nunca conseguiram realizar. Ent√£o o que √© que aconteceu? Aconteceu que um dia houve outro portugu√™s que tinha ido para o Brasil,

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Nenhuma Lei é Sagrada Para Mim

Nenhuma lei pode ser sagrada para mim, excepto a da minha natureza. Bom ou mau s√£o apenas nomes, prontamente transfer√≠veis disto para aquilo; a √ļnica coisa certa √© aquela que est√° de acordo com a minha consci√™ncia; a √ļnica coisa errada, a que est√° contra ela. Na presen√ßa de qualquer oposi√ß√£o, o homem deve comportar-se como se tudo fosse nominal e ef√©mero, excepto ele. Envergonho-me de pensar qu√£o facilmente capitulamos diante de bandeiras e nomes, de grandes sociedades e institui√ß√Ķes mortas. Todo o homem decente e bem falante afecta-me e cativa-me mais do que o devido. Eu deveria manter-me √≠ntegro e honesto, e dizer a rude verdade de todas as maneiras.

O Tabu e a Met√°fora

A metáfora é provavelmente a potência mais fértil que o homem possui. A sua eficiência chega a raiar os confins da taumaturgia e parece uma ferramenta de criação que Deus deixou esquecida dentro de uma das suas criaturas na ocasião em que a formou, como o cirurgião distraído deixa um instrumento no ventre do operado.
Todas as demais potências nos mantêm inscritos no interior do real, do que já é. O mais que podemos fazer é somar ou subtrair as coisas entre si. Só a metáfora nos facilita a evasão e cria entre as coisas reais recifes imaginários, floração de leves ilhas.
√Č verdadeiramente estranha a exist√™ncia no homem desta actividade mental que consiste em substituir uma coisa por outra, n√£o tanto no esfor√ßo de chegar √† segunda como no intento de esquivar a primeira. A met√°fora escamoteia um objecto mascarando-o por meio de outro, e n√£o teria sentido se n√£o v√≠ssemos nela um instinto que induz o homem a evitar as realidades.
Ao interrogar-se sobre qual poderia ser a origem da metáfora, um psicólogo recentemente descobriu, surpreendido, que uma das suas raízes se encontra no espírito do tabu. Houve uma época em que o medo foi a máxima inspiração humana,

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Símios Aperfeiçoados

√Č preciso viver em estado de preven√ß√£o. N√£o ir na enxurrada do colectivismo e morrer afogado num bairro econ√≥mico ou numa col√≥nia balnear, resistir √†s press√Ķes pol√≠ticas mirabolantes, quer sejam de uma banda ou de outra, manter a condi√ß√£o do homem-artista em luta com o homem-massa foi sempre o que em mim se tornou claro desde que aos poucos tomei posse da minha personalidade. √Č fatal que se caminhe para a sanidade de vida das classes baixas, √© humano que isso se fa√ßa, no entanto tamb√©m √© humano, mais talvez, que se lute desesperadamente para que a condi√ß√£o mais sagrada do homem evolua libertando-se das massas satisfeitas com a assist√™ncia m√©dica, televis√£o e funeral pago. Essa massa vai criar um novo esp√≠rito animal, vai catalogar-se em Darwin e, convencidos que essa massa est√° feliz, constatamos ao fim de pouco tempo que esses grandes grupos de popula√ß√Ķes standardizadas deixaram de pensar e o seu sentir √© apenas tactual, sem nada de sublima√ß√£o em momentos mais √≠ntimos.
O mundo que pensa, do artista e do intelectual, tem de libertar-se do incómodo desses homens que trouxeram como contribuição para a humanidade uma ideia abstracta do colectivo em marcha, que passaram a emitir sons,

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