Textos sobre Lugares

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Textos de lugares escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Considera√ß√Ķes Sobre a Amizade

√Č a insufici√™ncia do nosso ser que faz nascer a amizade, e √© a insufici√™ncia da pr√≥pria amizade que a faz perecer. Est√°-se sozinho, sente-se a pr√≥pria mis√©ria, sente-se necessidade de apoio, procura-se quem lhe favore√ßa os gostos, um companheiro nos prazeres e nos pesares; quer-se um homem de quem se possa possuir o cora√ß√£o e o pensamento. Ent√£o a amizade parece ser o que de mais doce h√° no mundo; tem-se o que se desejou, logo se muda de ideia. Quando se v√™ de longe algum bem, ele fixa de in√≠cio os nossos desejos, e quando se chega a ele, sente-se o seu nada. A nossa alma, de que ele prendia a vista na dist√Ęncia, n√£o pode repousar-se nele quando v√™ mais adiante: assim a amizade, que de longe limitava todas as nossas pretens√Ķes, cessa de limit√°-las de perto; n√£o preenche o vazio que prometera preencher; deixa-nos necessidades que nos distraem e nos levam a outros bens.
Ent√£o a gente torna-se negligente, dif√≠cil, exige-se logo como um tributo as complac√™ncias que de in√≠cio eram recebidas como um dom. √Č do car√°cter dos homens apropriar-se a pouco e pouco at√© das gra√ßas de que beneficiam; uma longa posse acostuma-os naturalmente a olhar as coisas que possuem como sendo deles;

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Conhecer-se a Si Próprio

Conhece-te a ti pr√≥prio – eis o que √© dif√≠cil. Ainda posso conhecer os outros, mas a mim mesmo n√£o consigo conhecer-me. Um fio – instintos e um fantasma… Dos outros fa√ßo ideia mais ou menos aproximada, de mim n√£o fa√ßo ideia nenhuma.
H√° uma disparidade entre mim e mim. H√° em mim o homem correcto, o homem igual a todos os homens – e o homem que l√° dentro sonha, grita e √© capaz, por insignific√Ęncias, de imaginar um terramoto ou de desejar uma cat√°strofe. O que eu me tenho desfeito dos meus inimigos – o que √© razo√°vel – mas dos meus amigos que me fazem sombra!…
O meu verdadeiro ser n√£o √© aquele que compus, recalcando l√° para o fundo os instintos e as paix√Ķes; o meu verdadeiro ser √© uma √°rvore desgrenhada – √© o fantasma que nos momentos de exalta√ß√£o me leva a rasto para actos que reprovo. S√≥ a custo o contenho. Parece que est√° morto, e est√° mais vivo que o histri√£o que represento. Asseguro este simulcaro at√© √† cova com os h√°bitos de compress√£o que adquiri. N√£o sei se a maior parte dos homens √© assim – eu sou assim: sou um fantasma desesperado.

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O Homem de Car√°cter

Os homens de car√°cter s√£o a consci√™ncia da sociedade a que pertencem. A medida natural dessa for√ßa √© a resist√™ncia √†s circunst√Ęncias. Os homens impuros julgam a vida pela vers√£o reflectida nas opini√Ķes, nos acontecimentos e nas pessoas. N√£o s√£o capazes de prever a ac√ß√£o at√© que ela se concretize. Todavia, o elemento moral da ac√ß√£o preexistia no autor e a sua qualidade, boa ou m√°, era de f√°cil predi√ß√£o. Tudo na natureza √© bipolar, ou tem um p√≥lo positivo e um p√≥lo negativo. H√° um macho e uma f√™mea, um esp√≠rito e um facto, um norte e um sul. O esp√≠rito √© o positivo, o facto √© o negativo. A vontade √© o norte, a ac√ß√£o √© o p√≥lo sul. O car√°cter pode ser classificado como tendo o seu lugar natural no norte. Distribui as correntes magn√©ticas do sistema. Os esp√≠ritos fracos s√£o atra√≠dos para o p√≥lo sul, ou p√≥lo negativo. S√≥ v√™em na ac√ß√£o o lucro, ou o preju√≠zo que podem encerrar.

Não podem vislumbrar um princípio, a não ser que este se abrigue noutra pessoa. Não desejam ser amáveis mas amados. Os de carácter gostam de ouvir falar dos seus defeitos; aos outros aborrecem as faltas;

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O Livre Arbítrio

Um homem é dotado de livre arbítrio e de três maneiras: em primeiro lugar, era livre quando quis esta vida; agora não pode evidentemente rescindi-la, pois ele não é o que a queria outrora, excepto na medida em que completa a sua vontade de outrora, vivendo.
Em segundo lugar, é livre pelo facto de poder escolher o caminho desta vida e a maneira de o percorrer.
Em terceiro lugar, √© livre pelo facto de na qualidade daquele que vier a ser de novo um dia, ter a vontade de se deixar ir custe o que custar atrav√©s da vida e de chegar assim a ele pr√≥prio e isso por um caminho que pode sem d√ļvida escolher, mas que, em todo o caso, forma um labirinto t√£o complicado que toca nos menores recantos desta vida.
São esses os tês aspectos do livre arbítrio que, por se oferecerem todos ao mesmo tempo formam apenas um e de tal modo que não há lugar para um arbítrio, quer seja livre ou servo.

O Egoísmo do Homem das Cidades

A mis√©ria parece uma secre√ß√£o do progresso, da civiliza√ß√£o. N√£o √© nos campos (at√© em plena crise), onde a vida √© simples e sem ambi√ß√Ķes, que a mis√©ria se torna aflitiva, dram√°tica. A sua trag√©dia sem rem√©dio desenvolve-se antes nas cidades, nas grandes capitais, tanto mais insens√≠veis e duras quanto mais civilizadas. A mecaniza√ß√£o, o automatismo do progresso que transforma os homens em m√°quinas, isolam-no brutalmente substituindo os seus gestos e impulsos afectivos por complicadas e frias engrenagens. O homem das cidades, modelado, esculpido na pr√≥pria luta com os outros que lhe disputam o seu lugar ao sol, √© talvez, sem reparar, a encarna√ß√£o do pr√≥prio ego√≠smo.

Pensamos de Mais e Sentimos de Menos

Queremos todos ajudar-nos uns aos outros. Os seres humanos são assim. Queremos viver a felicidade dos outros e não a sua infelicidade. Não queremos odiar nem desprezar ninguém. Neste mundo há lugar para toda a gente. E a boa terra é rica e pode prover às necessidades de todos.
O caminho da vida pode ser livre e belo, mas desvi√°mo-nos do caminho. A cupidez envenenou a alma humana, ergueu no mundo barreiras de √≥dio, fez-nos marchar a passo de ganso para a desgra√ßa e a carnificina. Descobrimos a velocidade, mas prendemo-nos demasiado a ela. A m√°quina que produz a abund√Ęncia empobreceu-nos. A nossa ci√™ncia tornou-nos c√≠nicos; a nossa intelig√™ncia, cru√©is e impiedosos. Pensamos de mais e sentimos de menos. Precisamos mais de humanidade que de m√°quinas. Se temos necessidade de intelig√™ncia, temos ainda mais necessidade de bondade e do√ßura. Sem estas qualidades, a vida ser√° violenta e tudo estar√° perdido.
O avi√£o e a r√°dio aproximaram-nos. A pr√≥pria natureza destes inventos √© um apelo √† fraternidade universal, √† uni√£o de todos. Neste momento, a minha voz alcan√ßa milh√Ķes de pessoas atrav√©s do mundo, milh√Ķes de homens sem esperan√ßa, de mulheres, de crian√ßas, v√≠timas dum sistema que leva os homens a torturar e a prender pessoas inocentes.

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A Profundidade do Ser

E de vez em quando descer √† gravidade de mim, √† profundidade do meu ser. E verificar ent√£o que tudo se transfigura. Que √© que significa este garatujar quase gratuito, este riso superficial, todo este modo de ser menor? A melancolia profunda, t√£o de dentro que ela se iguala √† alegria sem medida. Espa√ßo rarefeito de n√≥s, √© o lugar da grandeza do homem, do que √© nele fundamental, o lugar do aparecimento de Deus. Mas Deus n√£o me aparece – aparece apenas a inunda√ß√£o que me vem da infinita beatitude, da grandeza e do assombro. N√≥s vivemos habitualmente √† superf√≠cie de n√≥s, ligados ao que √© da vida imediata, enredados nas mil futilidades com que se nos enchem os dias. Mas de vez em quando, o abismo da natureza, um livro ou uma m√ļsica que dos abismos vem, abre-nos aos p√©s um precip√≠cio hiante e tudo se dilui num sentir que est√° antes e abaixo e mais longe que esse tudo. H√° uma harmonia que em n√≥s espera por um som, um acorde, uma palavra, para imediatamente se organizar e envolver-nos. E a√≠ somos verdade para a infinidade dos s√©culos.

Retrato de Mónica

M√≥nica √© uma pessoa t√£o extraordin√°ria que consegue simultaneamente: ser boa m√£e de fam√≠lia, ser chiqu√≠ssima, ser dirigente da ¬ęLiga Internacional das Mulheres In√ļteis¬Ľ, ajudar o marido nos neg√≥cios, fazer gin√°stica todas as manh√£s, ser pontual, ter imensos amigos, dar muitos jantares, ir a muitos jantares, n√£o fumar, n√£o envelhecer, gostar de toda a gente, gostar dela, dizer bem de toda a gente, toda a gente dizer bem dela, coleccionar colheres do s√©c. XVII, jogar golfe, deitar-se tarde, levantar-se cedo, comer iogurte, fazer ioga, gostar de pintura abstracta, ser s√≥cia de todas as sociedades musicais, estar sempre divertida, ser um belo exemplo de virtudes, ter muito sucesso e ser muito s√©ria.
Tenho conhecido na vida muitas pessoas parecidas com a Mónica. Mas são só a sua caricatura. Esquecem-se sempre ou do ioga ou da pintura abstracta.
Por trás de tudo isto há um trabalho severo e sem tréguas e uma disciplina rigorosa e constante. Pode-se dizer que Mónica trabalha de sol a sol.
De facto, para conquistar todo o sucesso e todos os gloriosos bens que possui, Mónica teve que renunciar a três coisas: à poesia, ao amor e à santidade.

A poesia é oferecida a cada pessoa só uma vez e o efeito da negação é irreversível.

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Nada é Certo

Ningu√©m avan√ßa pela vida em linha recta. Muitas vezes, n√£o paramos nas esta√ß√Ķes indicadas no hor√°rio. Por vezes, sa√≠mos dos trilhos. Por vezes, perdemo-nos, ou levantamos voo e desaparecemos como p√≥. As viagens mais incr√≠veis fazem-se √†s vezes sem se sair do mesmo lugar. No espa√ßo de alguns minutos, certos indiv√≠duos vivem aquilo que um mortal comum levaria toda a sua vida a viver. Alguns gastam um sem n√ļmero de vidas no decurso da sua estadia c√° em baixo. Alguns crescem como cogumelos, enquanto outros ficam inelut√°velmente para tr√°s, atolados no caminho. Aquilo que, momento a momento, se passa na vida de um homem √© para sempre insond√°vel. √Č absolutamente imposs√≠vel que algu√©m conte a hist√≥ria toda, por muito limitado que seja o fragmento da nossa vida que decidamos tratar.

A Má Consciência como Inibição dos Instintos

A m√° consci√™ncia √© para mim o estado m√≥rbido em que devia ter ca√≠do o homem quando sofreu a transforma√ß√£o mais radical que alguma vez houve, a que nele se produziu quando se viu acorrentado √† argola da sociedade e da paz. √Ä maneira dos peixes obrigados a adaptarem-se a viver em terra, estes semianimais, acostumados √† vida selvagem, √† guerra, √†s correrias e aventuras, viram-se obrigados de repente a renunciar a todos os seus nobres instintos. For√ßavam-nos a irem pelo seu p√©, a ¬ęlevarem-se a si mesmos¬Ľ, quando at√© ent√£o os havia levado a √°gua: esmagava-os um peso enorme. Sentiam-se inaptos para as fun√ß√Ķes mais simples; neste mundo novo e desconhecido n√£o tinham os seus antigos guias estes instintos reguladores, inconscientemente fal√≠veis; viam-se reduzidos a pensar, a deduzir, a calcular, a combinar causas e efeitos. Infelizes! Viam-se reduzidos √† sua ¬ęconsci√™ncia¬Ľ, ao seu √≥rg√£o mais fraco e mais coxo! Creio que nunca houve na terra desgra√ßa t√£o grande, mal-estar t√£o horr√≠vel!
Acrescente-se a isto que os antigos instintos n√£o haviam renunciado de vez √†s suas exig√™ncias. Mas era dif√≠cil e ami√ļde imposs√≠vel satisfaz√™-las; era preciso procurar satisfa√ß√Ķes novas e subterr√Ęneas. Os instintos sob a enorme for√ßa repressiva, volvem para dentro,

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Vejo, logo Existo

Sou um visual. O que na memória trago, trago-o visualmente, se susceptível é de assim ser trazido. Mesmo ao querer evocar em mim uma qualquer voz, um perfume qualquer, não evito que antes que ela ou ele me vislumbre no horizonte do espírito, me apareça à visão rememorativa a pessoa que fala, a coisa donde o perfume partiu. Não dou isto por absolutamente certo; pode ser que, radicada em mim de vez a persuasão de que sou um visual, no lugar final do sofisma que é a escuridão íntima do ser me fosse desde então impossível evitar que a ideia de que sou um visual não levantasse imediatamente uma imagem falsamente inspiradora. Seja como for, o menos que sou, é um visual predominantemente. Vejo, e vendo, vivo.

A Temporalidade

A temporalidade √© evidentemente uma estrutura organizada, e esses tr√™s pretensos “elementos” do tempo, passado, presente , futuro, n√£o devem ser considerados como uma colec√ß√£o de “dados” cuja soma deve ser feita – por exemplo, como uma s√©rie infinita de “agora”, alguns dos quais ainda n√£o s√£o, outros que n√£o s√£o mais -, mas como momentos estruturados de uma s√≠ntese original. Sen√£o encontraremos, em primeiro lugar, este paradoxo: o passado n√£o √© mais, o futuro ainda n√£o √©, quanto ao presente instant√Ęneo, todos sabem que ele n√£o √© tudo, √© o limite de uma divis√£o infinita, como o ponto sem dimens√£o.

Tudo é Divino

H√° uma elasticidade c√≥smica, se assim lhe posso chamar, que √© extremamente enganadora. D√° ao homem a ilus√£o tempor√°ria de que √© capaz de mudar as coisas. Mas o homem acaba sempre por tornar a cair em si. √Č a√≠, na sua pr√≥pria natureza, que pode e deve praticar-se a transmuta√ß√£o, e em nenhum outro lugar. E quando um homem percebe a que ponto √© isto verdade, reconciliando-se com todas as apar√™ncias do mal, da fealdade, da mentira e da frustra√ß√£o; a partir de ent√£o, deixa de aplicar ao mundo a sua imagem pessoal de tristeza e dor, de pecado e corrup√ß√£o.
Eu poderia, √© certo, formular tudo isto de modo muito mais simples, dizendo que, aos olhos de Deus, tudo √© divino. E quando digo tudo, √© mesmo tudo o que quero dizer. Quando olhamos as coisas a tal luz, a palavra ¬ętransmuta√ß√£o¬Ľ adquire um sentido ainda maior: pressup√Ķe que o nosso bem-estar depende do nosso entendimento espiritual, do modo como nos servimos da vis√£o divina que possu√≠mos.

√Č Preciso Repensar a Nossa Vida

√Č preciso repensar a nossa vida. Repensar a cafeteira do caf√©, de que nos servimos de manh√£, e repensar uma grande parte do nosso lugar no universo. Talvez isso tenha a ver com a posi√ß√£o do escritor, que √© uma posi√ß√£o universal, no lugar de Deus, acima da condi√ß√£o humana, a nomear as coisas para que elas existam. Para que elas possam existir‚Ķ Isto tem a ver com o poeta, sobretudo, que √© um demiurgo. Ou tem esse lado. Numa forma simples, essa maneira de redimensionar o mundo passa por um aspecto muito profundo, que n√£o tem nada a ver com aquilo que existe √† flor da pele. Tem a ver com uma experi√™ncia radical do mundo.
Por exemplo, com aquela que eu faço de vez em quando, que é passar três dias como se fosse cego. Por mais atento que se seja, há sempre coisas que nos escapam e que só podemos conhecer de outra maneira, através dos outros sentidos, que estão menos treinados… Reconhecer a casa através de outros sentidos, como o tacto, por exemplo. Isso é outra dimensão, dá outra profundidade. E a casa é sempre o centro e o sentido do mundo. A partir daí,

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A Melhor Máquina fica aquém do Homem mais Embrutecido

Pode-se de facto conceber que uma m√°quina seja feita de tal forma que profira palavras e at√© que profira algumas a respeito das ac√ß√Ķes corporais que provocar√£o alguma mudan√ßa nos seus √≥rg√£os; de tal forma que, se for tocada nalgum lugar, ela pergunte o que lhe querem dizer, se tocada noutro, ela grite que a est√£o a magoar e coisas semelhantes; mas n√£o conseguir√° organiz√°-las diversamente para corresponder ao sentido de tudo o que for dito na sua presen√ßa, como os homens mais embrutecidos podem fazer.

Censura Amiga

A amizade penetra nos menores detalhes da nossa vida, o que torna frequentes as ocasi√Ķes de ofensas e melindres: o s√°bio deve evit√°-las, destru√≠-las ou suport√°-las quando necess√°rio for. A √ļnica ocasi√£o em que n√£o devemos deixar de ofender um amigo, √© quando se trata de lhe dizer a verdade e de lhe provar assim a nossa fidelidade. Porque n√£o devemos deixar de sobreavisar os nossos amigos, ainda quando se trate de os repreender. E n√≥s mesmos devemos levar isto em boa vontade, quando tais repreens√Ķes s√£o ditadas pelo bem querer.
Todavia, sou for√ßado a confess√°-lo, como disse o nosso Ter√™ncio no seu Adriana: ¬ęA benevol√™ncia gera a amizade; a verdade, o √≥dio¬Ľ. Sem d√ļvida a verdade √© molesta se produz o √≥dio, este veneno da amizade. Mas a magnanimidade √©-o ainda mais, porque para a indulg√™ncia culp√°vel, pelas faltas de um amigo, ela deixa-o precipitar-se nas suas ru√≠nas. Mas a falta mais grave √© a que despreza a verdade e se deixa conduzir ao mal pela adula√ß√£o. Este ponto reclama toda a nossa vigil√Ęncia e aten√ß√£o. Afastemos o √°cido das nossas advert√™ncias, a inj√ļria dos nossos reproches; que a nossa complac√™ncia (sirvo-me volunt√°rio da express√£o de Ter√™ncio) seja farta de urbanidade;

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Mérito e Auto-Suficiência

Só os baixos méritos podem ser enumerados. Temei, quando os vossos amigos vos disserem o que fizeste bem e narrarem tudo; mas quando permanecerem com olhares incertos e tímidos de respeito e certo descontentamento e silenciarem por muitos anos a sua opinião, podeis começar a ter confiança. Os que vivem para o futuro devem parecer egoístas aos que vivem para o presente.

(…) A face que se me apresenta o car√°cter √© a auto-sufici√™ncia. Reverencio a pessoa que √© muito rica de car√°cter, porque n√£o posso conceb√™-la solit√°ria, ou pobre, ou exilada, ou infeliz, ou protegida, mas um eterno protetor, benfeitor e bem-aventurado. O car√°cter √© centralidade, impossibilidade de ser deslocado ou posto √† margem. Um homem deve dar-nos a ideia de massa.
A sociedade √© fr√≠vola e divide o seu dia em fragmentos, a sua conversa√ß√£o em cerim√≥nias e derivativos. Mas visitando um homem talentoso, considerarei perdido o meu tempo se se limitar a amabilidades e cerim√≥nias; antes, ele dever√° saber colocar-se solenemente no seu lugar e deixar-me julgar, por assim dizer, a sua resist√™ncia; saber que encontrei um valor novo e positivo! – grande deleite para n√≥s ambos. J√° √© muito ele n√£o aceitar as opini√Ķes e usan√ßas convencionais.

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O Desejo de Criar

Diotima: Qual √©, S√≥crates, na sua opini√£o, a causa deste amor, deste desejo? Voc√™ j√° observou em que estranha crise se encontram todos os animais, os que voam e os que marcham, quando s√£o tomados pelo desejo de procriar? Como ficam doentes e possu√≠dos de desejo, primeiro no momento de se ligarem, depois, quando se torna necess√°rio alimentar os filhos? (… ) Tanto no caso dos humanos como no dos animais, a natureza mortal busca, na medida do poss√≠vel, perpetuar-se e imortalizar-se. Apenas desse modo, por meio da procria√ß√£o, a natureza mortal √© capaz da imortalidade, deixando sempre um jovem no lugar do velho. [… ] Pois saiba, S√≥crates, que o mesmo vale para a ambi√ß√£o dos homens. Voc√™ ficar√° assombrado com a sua misteriosa irracionalidade, a n√£o ser que compreenda o que eu disse, e reflicta sobre o que se passa com eles quando s√£o tomados pela ambi√ß√£o e pelo desejo de gl√≥ria eterna. √Č pela fama, mais ainda que pelos seus filhos, que eles se disp√Ķem a encarar todos os riscos, suportar fadigas, esbanjar fortunas e at√© mesmo sacrificar as suas vidas. [… ] Aqueles cujo instinto criador √© f√≠sico recorrem de prefer√™ncia √†s mulheres e revelam o seu amor dessa maneira,

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O Mal Saltitante

A morte √© apenas uma consequ√™ncia da nossa maneira de viver. Vivemos de pensamento em pensamento, de sensa√ß√£o em sensa√ß√£o. Os nossos pensamentos e as nossas sensa√ß√Ķes n√£o correm tranquilamente como um rio, ¬ęocorrem-nos¬Ľ, caem em n√≥s como pedras. Se te observares bem, sentir√°s que a alma n√£o √© algo que vai mudando de cor em grada√ß√Ķes progressivas, mas que os pensamentos saltam dela como algarismos saindo de um buraco negro. Neste momento tens um pensamento ou uma sensa√ß√£o, e no seguinte aparece outro, diferente, como que sa√≠do do nada. Se deres aten√ß√£o, at√© podes sentir o instante entre dois pensamentos, quando tudo se torna negro. Esse instante, uma vez apreendido, √© para n√≥s o mesmo que a morte.
Pois a nossa vida resume-se a definir marcos e a saltar de um para o outro, diariamente, passando por milhares de instantes de morte. De certo modo, vivemos apenas nos pontos de repouso. √Č por isso que temos esse medo rid√≠culo da morte irrevers√≠vel, porque ela √©, em absoluto, o lugar sem marcos, o abismo insond√°vel em que ca√≠mos. Na verdade, ela √© a nega√ß√£o absoluta daquela maneira de viver.
Mas isto só é assim quando visto da perspectiva desta vida,

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