Textos sobre Tipos

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Textos de tipos escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A Disputa das Ideias

Temos cada vez mais tipos de ordem e cada vez menos ordem. (…) Depois de todos os esfor√ßos do passado, entr√°mos num per√≠odo de retrocesso. V√™ bem como as coisas se passam hoje: quando um homem importante lan√ßa uma nova ideia no mundo, ela √© imediatamente apanhada por um mecanismo de divis√£o, constitu√≠do por simpatia e repulsa. Primeiro v√™m os admiradores e arrancam grandes bocados, os que lhes conv√™m, a essa ideia, e despeda√ßam o mestre como as raposas a presa; a seguir, os advers√°rios destroem as partes fracas, e em pouco tempo o que resta de um grande feito mais n√£o √© do que uma reserva de aforismos de que amigos e inimigos se servem a seu bel-prazer. O resultado √© uma ambiguidade generalizada. N√£o h√° Sim a que se n√£o junte um N√£o. Podes fazer o que quiseres, que encontras sempre vinte das mais belas ideias a favor e, se quiseres, vinte que s√£o contra. Quase somos levados a acreditar que √© como no amor e no √≥dio, ou na fome, em que os gostos t√™m de ser diferentes, para que cada um fique com o seu bocado.

Seguro Emocional

Com frequência, comento com os meus alunos da licenciatura em psicanálise e psicologia multifocal que uma das tarefas mais nobres e relevantes do Eu é mapear, esquadrinhar os nossos fantasmas e reeditar as nossas janelas traumáticas. De outro modo, podemos fazer parte do rol dos que falam sobre maturidade mas são verdadeiras crianças no território da emoção, pois não sabem ser minimamente criticados, contrariados e, além disso, têm a necessidade neurótica de poder e de que o mundo gravite na sua órbita.

Certa vez, perguntei a executivos das cinquenta empresas psicologicamente mais saud√°veis do pa√≠s: ¬ęQuem tem algum tipo de seguro?¬Ľ Todos responderam que tinham. Em seguida, indaguei: ¬ęQuem tem um seguro emocional?¬Ľ Ningu√©m arriscou levantar a m√£o. Foram sinceros. Como podemos falar de empresas saud√°veis sem mencionar os mecanismos b√°sicos para proteger a emo√ß√£o? S√≥ fazemos um seguro daquilo que nos √© caro. Mas, infelizmente, a mais importante propriedade tem tido um valor irrelevante.

Em geral, estes profissionais s√£o √≥timos para a empresa, mas carrascos de si mesmos. Acertam no trivial, mas erram muito no essencial. E eu? E o leitor? Ainda que possamos dizer que a mente humana √© a mais complexa de todas as ¬ęempresas¬Ľ,

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Conselhos para o Ensino

Vou falar de quest√Ķes que, independentemente do espa√ßo e do tempo, sempre estiveram e sempre estar√£o relacionadas com a educa√ß√£o. Nesta tentativa n√£o posso dizer que sou uma autoridade, particularmente t√£o inteligente e bem-intencionado como os homens que ao longo do tempo trataram dos problemas da educa√ß√£o e que certamente exprimiram repetidas vezes os seus pontos de vista acerca destas mat√©rias. Com que base posso eu, um leigo no √Ęmbito da pedagogia, arranjar coragem para exprimir opini√Ķes sem qualquer fundamento, excepto a minha experi√™ncia pessoal e a minha convic√ß√£o pessoal? Quando se trata de uma mat√©ria cient√≠fica, √© f√°cil uma pessoa sentir-se tentada a ficar calada com base nestas considera√ß√Ķes.
Contudo, tratando-se de assuntos respeitantes ao ser humano, é diferente. Neste caso, o conhecimento apenas da verdade não é suficiente; pelo contrário, este conhecimento deve ser continuamente renovado à custa de um esforço contínuo, sob pena de se perder. Lembra uma estátua de mármore no deserto que está continuamente em perigo de ser enterrada pela areia em movimento. As mãos de serviço têm de estar continuamente a trabalhar para que o mármore continue indefinidamente a brilhar ao sol. A este grupo de mãos também pertencem as minhas.
A escola sempre foi o mais importante meio de transferência da riqueza da tradição de uma geração para a seguinte.

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A Não-Violência e a Cobardia não Têm nada a Ver uma com a outra

A n√£o-viol√™ncia e a cobardia n√£o t√™m nada a ver uma com a outra. Acredito que um homem armado dos p√©s √† cabe√ßa seja um cobarde no seu cora√ß√£o. A posse de armas pressup√Ķe um factor de medo, para n√£o dizer de cobardia. Mas a verdadeira n√£o-viol√™ncia √© imposs√≠vel sem a posse de uma aut√™ntica aus√™ncia de medo. (…) A n√£o-viol√™ncia nunca deveria ser utilizada como escudo da cobardia. √Č uma arma destinada aos valentes.

(…) A prova de fogo da n√£o-viol√™ncia est√° em n√£o deixar para tr√°s nenhum tipo de rancor durante um conflito n√£o-violento e, no final, em fazer com que os inimigos se convertam em amigos.

Dominar ou Morrer

Uma esp√©cie nasce, um tipo fixa-se e torna-se forte sob a longa luta com condi√ß√Ķes desfavor√°veis essencialmente constantes. Inversamente, sabe-se pelas experi√™ncias dos criadores de gado que as esp√©cies que foram superalimentadas e, de um modo geral, tiveram demasiada protec√ß√£o e cuidados, logo tendem marcadamente para a varia√ß√£o de tipos e abundam em prod√≠gios e monstruosidades (tamb√©m em v√≠cios monstruosos). Considere-se agora uma comunidade aristocr√°tica, por exemplo uma antiga polis grega ou Veneza como institui√ß√£o volunt√°ria ou involunt√°ria, destinada √† selec√ß√£o: h√° ali homens convivendo dependentes uns dos outros e que querem impor a sua esp√©cie, em geral porque se t√™m que impor ou de contr√°rio correm o terr√≠vel risco de serem exterminados.

Diferentes Caminhos para uma Felicidade Sempre Insuficiente

O objectivo para o qual o princ√≠pio do prazer nos impele ‚ÄĒ o de nos tornarmos felizes ‚ÄĒ n√£o √© ating√≠vel; contudo, n√£o podemos ‚ÄĒ ou melhor, n√£o temos o direito ‚ÄĒ de desistir do esfor√ßo da sua realiza√ß√£o de uma maneira ou de outra. Caminhos muito diferentes podem ser seguidos para isso; alguns dedicam-se ao aspecto positivo do objectivo, o atingir do prazer; outros o negativo, o evitar da dor. Por nenhum destes caminhos conseguimos atingir tudo o que desejamos. Naquele sentido modificado em que vimos que era ating√≠vel, a felicidade √© um problema de gest√£o da libido em cada indiv√≠duo. N√£o h√° uma receita soberana nesta mat√©ria que sirva para todos; cada um deve descobrir por si qual o m√©todo atrav√©s do qual poder√° alcan√ßar a felicidade. Toda a esp√©cie de factores ir√° influenciar a sua escolha. Depende da quantidade de satisfa√ß√£o real que ele ir√° encontrar no mundo externo, e at√© onde acha necess√°rio tornar-se independente dele. Por fim, na confian√ßa que tem em si pr√≥prio do seu poder de modificar conforme os seus desejos. Mesmo nesta fase, a constitui√ß√£o mental do indiv√≠duo tem um papel decisivo, para al√©m de quaisquer considera√ß√Ķes externas. O homem que √© predominantemente er√≥tico ir√° escolher em primeiro lugar rela√ß√Ķes emocionais com os outros;

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A Adopção de Novas Ideias

Que um ou v√°rios homens inventem uma nova ideia ou um novo sentimento n√£o faz alterar o cariz da hist√≥ria, o tom dos tempos, como a cor do Atl√Ęntico n√£o muda porque um pintor de marinhas limpa nele o seu pincel carregado de vermelh√£o. Mas se, de s√ļbito, uma massa ingente de homens adopta aquela ideia e vibra com aquele sentimento, ent√£o a √°ria da hist√≥ria, a face dos tempos tinge-se de um novo colorido. Pois bem: as massas ingentes de homens n√£o adoptam uma ideia nova, n√£o vibram com o seu peculiar sentimento simplesmente porque se lhes fa√ßa pr√©dicas. √Č preciso que essa ideia e esse sentimento se achem neles pr√©-formados, inatos, prontos. Sem essa predisposi√ß√£o radical, espont√Ęnea da massa, todo o pregador seria um pregador no deserto.
Daqui que as mudan√ßas hist√≥ricas sup√Ķem o nascimento de um tipo de homem diferente em mais ou menos do que antes havia; isto √©, sup√Ķem a mudan√ßa de gera√ß√Ķes.

Crítica e Auto-Crítica

Assim como o homem carrega o peso do pr√≥prio corpo sem o sentir, mas sente o de qualquer outro corpo que quer mover, tamb√©m n√£o nota os pr√≥prios defeitos e v√≠cios, mas s√≥ os dos outros. Entretanto, cada um tem no seu pr√≥ximo um espelho, no qual v√™ claramente os pr√≥prios v√≠cios, defeitos, maus h√°bitos e repugn√Ęncias de todo o tipo. Por√©m, na maioria da vezes, faz como o c√£o, que ladra diante do espelho por n√£o saber que se v√™ a si mesmo, crendo ver outro c√£o.
Quem critica os outros trabalha em prol da sua pr√≥pria melhoria. Portanto, quem tem a inclina√ß√£o e o h√°bito de submeter secretamente a conduta dos outros, e em geral tamb√©m as suas ac√ß√Ķes e omiss√Ķes, a uma atenta e severa cr√≠tica, trabalha na verdade em prol da pr√≥pria melhoria e do pr√≥prio aperfei√ßoamento, pois possui o suficiente de justi√ßa, ou de orgulho e vaidade, para evitar o que ami√ļde censura com tanto rigor.

Suportar a Adversidade

Das ocorr√™ncias indesejadas, falando de maneira gen√©rica, algumas acarretam naturalmente dor e vexa√ß√£o, mas, na maior parte dos casos, √© falsa a no√ß√£o que nos habituou a nos enfadarmos com elas. Como espec√≠fico contra este tipo de ocorr√™ncia, √© conveniente ter √† m√£o um dito de Menandro: ¬ęNada te aconteceu de facto enquanto n√£o te importares muito com o ocorrido¬Ľ. Isso quer dizer que n√£o h√° motivo para o teu corpo e a tua alma se mostrarem afectados se, por exemplo, o teu pai √© de baixa extrac√ß√£o, a tua mulher cometeu adult√©rio, tu mesmo te viste privado de alguma coroa honor√≠fica ou privil√©gio especial, pois nada disso te impede de prosperar de corpo ou alma.
Para a primeira categoria – doen√ßas, priva√ß√Ķes, a morte de amigos ou filhos -, que parece acarretar naturalmente dor e vexa√ß√£o, esta linha de Eur√≠pedes deve estar √† m√£o: “Ai! por que ai? √Č o quinh√£o da mortalidade que nos coube”. Nenhum outro argumento l√≥gico pode romper de forma t√£o efectiva a espiral descendente das nossas emo√ß√Ķes, do que a reflex√£o de que somente atrav√©s da compuls√£o comum da Natureza, um dos elementos da sua constitui√ß√£o f√≠sica, √© que o homem se torna vulner√°vel √† Fortuna;

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A Base e o Progresso da Civilização

Os homens mais felizes e mais √ļteis s√£o feitos de um conjunto harmonioso de actividades intelectuais e morais. E √© a qualidade destas actividades e a igualdade do seu desenvolvimento que que conferem a este tipo a sua superioridade sobre os outros. Mas a sua intensidade determina o n√≠vel social de um dado indiv√≠duo e faz dele um comerciante ou um director de banco, um pequeno m√©dico ou um professor c√©lebre, um presidente de uma junta de freguesia ou um presidente dos Estados Unidos. O desenvolvimento de seres humanos completos dever ser o objectivo dos nossos esfor√ßos. S√≥ neles pode assentar uma civiliza√ß√£o s√≥lida.
Existe ainda uma classe de homens que, apesar de tão desarmónicos como os criminosos e os loucos, são indispensáveis à sociedade moderna. São os génios. Estes indivíduos caracterizam-se pelo crescimento monstruoso de uma das actividades psicológicas. Um grande artista, um grande cientista, um grande filósofo é geralmente um homem comum em que uma função se hipertrofiou. Pode também ser comparado a um tumor que se tivesse desenvolvido num organismo normal. Estes seres não equilibrados são, em geral, infelizes. Mas produzem grandes obras, das quais toda a sociedade beneficia. A sua desarmonia gera o progresso da civilização.

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As Três Espécies de Portugueses

Há três espécies de Portugal, dentro do mesmo Portugal; ou, se se preferir, há três espécies de português. Um começou com a nacionalidade: é o português típico, que forma o fundo da nação e o da sua expansão numérica, trabalhando obscura e modestamente em Portugal e por toda a parte de todas as partes do Mundo. Este português encontra-se, desde 1578, divorciado de todos os governos e abandonado por todos. Existe porque existe, e é por isso que a nação existe também.

Outro √© o portugu√™s que o n√£o √©. Come√ßou com a invas√£o mental estrangeira, que data, com verdade poss√≠vel, do tempo do Marqu√™s de Pombal. Esta invas√£o agravou-se com o Constitucionalismo, e tornou-se completa com a Rep√ļblica. Este portugu√™s (que √© o que forma grande parte das classes m√©dias superiores, certa parte do povo, e quase toda a gente das classes dirigentes) √© o que governa o pa√≠s. Est√° completamente divorciado do pa√≠s que governa. √Č, por sua vontade, parisiense e moderno. Contra sua vontade, √© est√ļpido.

Há um terceiro português, que começou a existir quando Portugal, por alturas de El-Rei D. Dinis, começou, de Nação, a esboçar-se Império. Esse português fez as Descobertas,

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Distinguem-se quatro tipos de temperamento: o de quem é fácil de provocar e fácil de pacificar Рesse ganha o que perde; o de quem é difícil de provocar e difícil de pacificar Рesse perde o que ganha; o de quem é difícil de provocar e fácil de pacificar Рesse é um santo; o de quem é fácil de provocar e difícil de pacificar Рesse é um perverso.

A Moral entre a Verdade e a Subjectividade

Um homem que busca a verdade torna-se s√°bio; um homem que pretende dar r√©dea solta √† sua subjectividade torna-se, talvez, escritor; e que far√° um homem que busca algo que se situa entre essas duas hip√≥teses? Mas tais exemplos, os de algo que est√° ¬ęentre¬Ľ, encontramo-los em qualquer senten√ßa moral, a come√ßar pela mais simples e mais conhecida: ¬ęn√£o matar√°s¬Ľ. V√™-se imediatamente que n√£o √© nem uma verdade nem uma experi√™ncia subjectiva. Sabe-se que, em muitos aspectos, nos conformamos estritamente a ela, mas que, por outro lado, se aceitam numerosas excep√ß√Ķes, ainda que perfeitamente delimitadas; no entanto, num grande n√ļmero de casos de um terceiro tipo – por exemplo na imagina√ß√£o, na esfera dos desejos, nas pe√ßas de teatro ou no prazer que experimentamos ao ler as not√≠cias dos jornais – deixamo-nos oscilar descontroladamente entre a avers√£o e a atrac√ß√£o.
Por vezes aquilo a que n√£o podemos chamar nem verdade nem experi√™ncia pessoal recebe o nome de imperativo. Tais imperativos foram associados aos dogmas da religi√£o ou da lei, concedendo-lhes assim o car√°cter de uma verdade derivada, mas os romancistas narram as excep√ß√Ķes, a come√ßar pelo sacrif√≠cio de Abra√£o e terminando na bela mulher jovem que matou o amante a tiro,

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Um Amor Verdadeiro

Admitamos: o amor é um assunto que já foi falado e voltado a falar, trivializado e dramatizado ao ponto de as pessoas não saberem já o que é e o que não é. A maioria de nós não consegue vê-lo porque temos as nossas ideias preconcebidas sobre o que é (é suposto ser mais forte do que nós e arrebatar-nos) e como aparece (num embrulho alto, magro, bem-humorado e charmoso). Por isso, se o amor não aparecer envolvido na nossa fantasia, não o conseguimos reconhecer.

Mas tenho a certeza do seguinte: o amor est√° em todo o lado. √Č poss√≠vel amar e ser amado independentemente do s√≠tio onde estamos. O amor existe sob todas as formas. √Äs vezes vou at√© ao jardim da minha casa e sinto o amor a vibrar em todas as minhas √°rvores. Est√° sempre dispon√≠vel.

J√° vi tantas mulheres (incluindo eu) confundidas pela ideia de um romance, acreditando que s√≥ ser√£o pessoas completas se encontrarem algu√©m que complete as suas vidas. Se pensarmos bem, n√£o √© uma ideia maluca? Voc√™, sozinho, tem de preencher com amor esses espa√ßos vazios e destru√≠dos. Como diz Ralph Waldo Emerson: ¬ęNada lhe poder√° dar paz a n√£o ser voc√™ mesmo.¬Ľ

Nunca esquecerei o momento em que estava a limpar uma gaveta e me deparei com doze p√°ginas que me obrigaram a parar.

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O Que Mais Contribui para a Felicidade

J√° reconhecemos em geral que aquilo que somos contribui muito mais para a felicidade do que aquilo que temos ou representamos. Importa saber o que algu√©m √© e, por conseguinte, o que tem em si mesmo, pois a sua individualidade acompanha-o sempre e por toda a parte, e tinge cada uma das suas viv√™ncias. Em todas as coisas e ocasi√Ķes, o indiv√≠duo frui, em primeiro lugar, apenas a si mesmo. Isso j√° vale para os deleites f√≠sicos e muito mais para os intelectuais. Por isso, a express√£o inglesa to enjoy one’s self √© bastante acertada; com ela, dizemos, por exemplo, he enjoys himself at Paris, portanto, n√£o ¬ęele frui Paris¬Ľ, mas ¬ęele frui a si em Paris¬Ľ. Entretanto, se a individualidade √© de m√° qualidade, ent√£o todos os deleites s√£o como vinhos deliciosos numa boca impregnada de fel.
Assim, tanto no bem quanto no mal, tirante os casos graves de infelicidade, importa menos saber o que ocorre e sucede a alguém na vida, do que a maneira como ele o sente, portanto, o tipo e o grau da sua susceptibilidade sob todos os aspectos. O que alguém é e tem em si mesmo, ou seja, a personalidade e o seu valor,

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Toda a Virtude Assenta na Justa Medida

Toda a virtude assenta na justa medida, e a justa medida baseia-se em propor√ß√Ķes determinadas. A firmeza n√£o pode sequer tentar elevar-se, e o mesmo se dir√° da confian√ßa, da verdade, da lealdade. Pode acrescentar-se alguma coisa √†quilo que √© perfeito? Nada, de outro modo n√£o seria perfeito, pois algo se lhe acrescentou. Nada, por conseguinte, se pode adicionar √† virtude, pois se tal fosse poss√≠vel era porque algo lhe faltava. Tamb√©m a honestidade n√£o √© pass√≠vel de qualquer acr√©scimo, pois o que √© a honestidade decorre do racioc√≠nio acima exposto. E quanto ao mais, o respeito pelas normas sociais, a justi√ßa, a legalidade, n√£o achas que s√£o conceitos do mesmo tipo, definidos por crit√©rios igualmente rigorosos? Para uma coisa ser suscept√≠vel de acr√©scimo essa coisa tem de ser imperfeita. Todo o bem obedece a esta mesma lei: o interesse privado e o interesse p√ļblico s√£o t√£o dissoci√°veis como, que sei eu?, aquilo que merece o louvor se n√£o distingue do que merece o nosso esfor√ßo. Por conseguinte, todas as virtudes s√£o t√£o iguais entre si como todas as realiza√ß√Ķes da virtude e todos os homens dotados dessas virtudes.

Fartamo-nos Sempre dos Pesadelos dos Outros

Fartamo-nos sempre dos pesadelos dos outros e dos gritos no quarto ao lado pela madrugada, sejam de quem forem. Conseguimos ouvir durante um tempo, segurar na m√£o, esquecer as horas, oferecer um calmante, um copo de √°gua; mas, se queremos realmente continuar a viver de verdade, n√£o temos rem√©dio sen√£o acabar por colocar qualquer tipo de barreira a tudo isso, tapar os ouvidos e, seja como for, alhear-nos. Fugir dali, deixando a s√≥s quem geme. √Č como abandonar um ferido na valeta quando o inimigo se aproxima a passos largos e n√£o faz sentido correr o risco de ficar a contempl√°-lo a esvair-se em sangue.

O Preço do Amor

N√£o √© f√°cil estar apaixonado por uma mulher e fazer alguma coisa de jeito. √Čs devorado pela ansiedade. N√£o conv√©m deixares-te embei√ßar por uma mulher que se mostre dif√≠cil de conquistar, isso e como passar o resto da vida a tentar escalar o Everest. Escolhe uma mulher que possas conservar sem muito esfor√ßo. Quanto a mulheres boas, podemos compr√°-las. Por meia d√ļzia de euros, arranjas uma russa de dezoito anos, dessas que nem nos filmes se veem. Fodes, pagas e regressas a casa para jantar com a fam√≠lia, com a tua mulher, que cozinha bem e fode mal, mas que n√£o lhe passa pela cabe√ßa separar-se de ti, entre outras coisas porque ningu√©m a olha com particular interesse. Ela vai √†s reuni√Ķes de pais na escola, controla as AMPAS, as APLAS, todas essas associa√ß√Ķes que nem sei como se chamam, esses servi√ßos, esse jarg√£o, esse lixo social-democrata que os do PP copiam com entusiasmo porque soa a fam√≠lia moderna e feliz, e tamb√©m um pouco a Opus Dei, e mete os mi√ļdos na ordem e sabe escolher o detergente mais eficaz no Mercadona e o melhor queijo e o melhor foie gras de fabrico pr√≥prio da charcutaria. Passa-te as camisas a ferro e cose-te os bot√Ķes.

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Da Profundidade do Espírito

A profundeza √© o termo da reflex√£o. Quem quer que tenha o esp√≠rito verdadeiramente profundo, deve ter a for√ßa de fixar o pensamento fugidio; de ret√™-lo sob os olhos para considerar-lhe o fundo, e reduzir a um ponto uma longa cadeia de ideias; √© principalmente √†queles a quem esse esp√≠rito foi dado que a clareza e a justeza s√£o necess√°rias. Quando lhes faltam essas vantagens, as suas vistas ficam embara√ßadas com ilus√Ķes e cobertas de obscuridades. No entanto, como tais esp√≠ritos v√™em sempre mais longe do que os outros nas coisas da sua al√ßada, julgam-se tamb√©m mais pr√≥ximos da verdade do que os demais homens; mas estes, n√£o os podendo seguir nas suas sendas tenebrosas, nem remontar das consequ√™ncias at√© a altura dos princ√≠pios, s√£o frios e desdenhosos para com esse tipo de esp√≠rito que n√£o podem mensurar.
E, mesmo entre as pessoas profundas, como algumas o são em relação às coisas do mundo e outras nas ciências ou numa arte particular, preferindo cada qual o objecto cujos usos melhor conhece, isso também é, de todos os lados, matéria de dissensão.
Finalmente, nota-se um ci√ļme ainda mais particular entre os esp√≠ritos vivazes e os esp√≠ritos profundos, que s√≥ possuem um na falta do outro;

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