Textos sobre H√°bitos

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Textos de hábitos escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A Subfelicidade

O que mais d√≥i n√£o √© ‚Äď desengana-te ‚Äď a infelicidade. A infelicidade d√≥i. Magoa. Martiriza. √Č intensa; faz gritar, sofrer, saltar, chorar. Mas a infelicidade n√£o √© o que mais d√≥i. A infelicidade √© infeliz ‚Äď mas n√£o √© o que mais d√≥i.

O que mais d√≥i √© a subfelicidade. A felicidade mais ou menos, a felicidade que n√£o se faz felicidade, que fica sempre a meio de se ser. A quase felicidade. A subfelicidade n√£o magoa ‚Äď vai magoando; a subfelicidade n√£o martiriza ‚Äď vai martirizando. N√£o √© intensa ‚Äď mas √© imensa; faz gritar, sofrer, saltar, chorar ‚Äď mas em sil√™ncio, em surdina, em anonimato. Como se n√£o fosse. Mas √©: a subfelicidade √©. A subfelicidade faz-te ficar ref√©m do que tens ‚Äď mas nem assim te impede de te sentires apeado do que n√£o tens e gostarias de ter. Do que est√° ali, sempre ali, sempre √† m√£o de semear ‚Äď e que, mesmo assim, nunca consegues tocar. A subfelicidade √© o piso -1 da felicidade. E n√£o h√° elevador algum que te leve a subir de piso. Tens de ser tu a pegar nas tuas perninhas e a subir as escadas. Anda da√≠.

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Uma Declaração de Amor

Uma declara√ß√£o de amor n√£o √© acontecimento do dom√≠nio p√ļblico, uma baleia que vara na praia sob o sol dos desastres e convoca multid√Ķes, desalinhando h√°bitos quotidianos; uma declara√ß√£o de amor √© um acto de grande intimidade que ergue um v√©u transparente de onde brotam mel e p√°ssaros azuis. As palavras directas ou indirectas, ditas ou escritas, suscitam a car√≠cia √ļnica, irrepet√≠vel, a leve percuss√£o que desenha no sil√™ncio a imagem do que se ama. E assim ter√° de se guardar. Num lugar seguro onde os sismos n√£o possam encontrar o mapa do tesouro.

Vida Ilusória

Ao mesmo tempo que a realidade √© uma f√°bula, simula√ß√Ķes e enganos s√£o considerados como as verdades mais s√≥lidas. Se os homens se detivessem a observar apenas as realidades, e n√£o se permitissem ser enganados, a vida, comparada com as coisas que conhecemos, seria como um conto de fadas ou as hist√≥rias das Mil e Uma Noites.
Se respeit√°ssemos apenas o que √© inevit√°vel e tem direito a ser, a m√ļsica e a poesia ressoariam pelas ruas fora. Quando somos calmos e s√°bios, percebemos que s√≥ as coisas grandes e dignas t√™m exist√™ncia permanente e absoluta, que os pequenos medos e os pequenos prazeres n√£o passam de sombra da realidade, o que √© sempre estimulante e sublime. Por fecharem os olhos e dormirem, por consentirem ser enganados pelas apar√™ncias, os homens em toda a parte estabelecem e confinam as suas vidas di√°rias de rotina e h√°bito em cima de funda√ß√Ķes puramente ilus√≥rias.

Felicidade e Prazer

Devemos estudar os meios de alcan√ßar a felicidade, pois, quando a temos, possu√≠mos tudo e, quando n√£o a temos, fazemos tudo por alcan√ß√°-la. Respeita, portanto, e aplica os princ√≠pios que continuadamente te inculquei, convencendo-te de que eles s√£o os elementos necess√°rios para bem viver. Pensa primeiro que o deus √© um ser imortal e feliz, como o indica a no√ß√£o comum de divindade, e n√£o lhe atribuas jamais car√°cter algum oposto √† sua imortalidade e √† sua beatitude. Habitua-te, em segundo lugar, a pensar que a morte nada √©, pois o bem e o mal s√≥ existem na sensa√ß√£o. De onde se segue que um conhecimento exacto do facto de a morte nada ser nos permite fruir esta vida mortal, poupando-nos o acr√©scimo de uma ideia de dura√ß√£o eterna e a pena da imortalidade. Porque n√£o teme a vida quem compreende que n√£o h√° nada de tem√≠vel no facto de se n√£o viver mais. √Č, portanto, tolo quem declara ter medo da morte, n√£o porque seja tem√≠vel quando chega, mas porque √© tem√≠vel esperar por ela.
√Č tolice afligirmo-nos com a espera da morte, visto ser ela uma coisa que n√£o faz mal, uma vez chegada. Por conseguinte, o mais pavoroso de todos os males,

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A Moderação é o Caminho para a Felicidade

Se a princ√≠pio a profus√£o e a variedade de divers√Ķes parecem contribuir para a felicidade, se a uniformidade de uma vida igual parece a princ√≠pio enfastiante, considerando-se melhor, percebe-se, pelo contr√°rio, que o h√°bito mais doce da alma consiste numa modera√ß√£o de gozo que deixa pouco espa√ßo ao desejo e ao desgosto.

A Verdade Simbólica

Quando a inteligência aborda o estudo da vida, necessariamente trata o ser vivo como o inerte, aplicando a esse novo objecto as mesmas formas, transportando para esse novo domínio os mesmos hábitos que deram tão certo no antigo. E tem razão em fazer isso, pois somente sob essa condição o ser vivo oferecerá à nossa acção o mesmo campo que a matéria inerte. Mas a verdade à qual se chega assim torna-se absolutamente relativa à nossa faculdade de agir. Nada mais é do que uma verdade simbólica.

O Antagonismo Racial

O elemento puramente instintivo n√£o constitui sen√£o uma pequena parte do √≥dio racial e n√£o √© dif√≠cil de vencer. O medo do que √© estrangeiro, que √© a sua principal ess√™ncia, desaparece com a familiaridade. Se nenhum outro elemento o formasse, toda a perturba√ß√£o desapareceria logo que pessoas de ra√ßas diferentes se habituassem umas √†s outras. Mas h√° sempre pretextos para se odiarem os grupos estrangeiros. Os seus h√°bitos s√£o diferentes dos nossos e portanto (em nossa opini√£o) piores. Se triunfam, √© porque nos roubam as oportunidades; se n√£o triunfam, √© porque s√£o miser√°veis vagabundos. A actual popula√ß√£o do mundo descende dos sobreviventes de longos s√©culos de guerras e por instinto est√° √† espreita de ocasi√Ķes de hostilidade colectiva.

O desejo de ter um inimigo fixa-se no cora√ß√£o desse instinto racista e constr√≥i √† sua volta um edif√≠cio monstruoso de crueldade e de loucura. Tais conflitos representam hoje uma cat√°strofe universal e n√£o j√° somente, como outrora, um desastre para os vencidos: da√≠ as inquieta√ß√Ķes do nosso tempo. √Č por isso que √© mais importante do que nunca conseguir um certo grau de dom√≠nio racional sobre os nossos sentimentos destruidores.

Em geral o ódio racial tem duas origens,

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A Maneira como cada um Pensa Determina a sua Maneira de Viver

A vida n√£o √© governada por actos ou circunst√Ęncias extr√≠nsecos, vindos de fora. Cada um de n√≥s cria a sua pr√≥pria vida pelos pensamentos que tem. Marco Aur√©lio afirmou: – ¬ęA nossa vida √© o que os nossos pensamentos fazem dela.¬Ľ Emerson disse: – ¬ęO homem √© o que pensa ser.¬Ľ Jesus Cristo ensinou: – ¬ęO que um homem pensa no seu cora√ß√£o √© o que ele √©.¬Ľ Um simples pensamento n√£o constr√≥i ou destr√≥i uma vida, mas um h√°bito de pensar pode faz√™-lo. N√£o podemos pensar em derrota e sair vitoriosos. Um h√°bito fixo de esperan√ßa √© a cura para um cora√ß√£o preocupado e perturbado. Podemos fazer mais contra n√≥s ou a nosso fazer que qualquer for√ßa estranha.
A maneira como cada um pensa determina a sua maneira de viver. Todo o pensamento bom contribui com a sua quota-parte para o resultado final da nossa vida. Um simples pensamento tido pela manh√£ pode encher o dia inteiro de alegria e de sol, ou de tristeza e des√Ęnimo. Quantos dias n√£o t√™m sido deprimentes devido a um pensamento inconsiderado ou mal√©volo. Voc√™ nunca poder√° ser melhor ou mais elevado que o seu melhor pensamento.

Os Juízos Ligeiros da Imprensa

Incontestavelmente foi a imprensa, com a sua maneira superficial e leviana de tudo julgar e decidir, que mais concorreu para dar ao nosso tempo o funesto e j√° irradic√°vel h√°bito dos ju√≠zos ligeiros. Em todos os s√©culos se improvisaram estouvadamente opini√Ķes: em nenhum, por√©m, como no nosso, essa improvisa√ß√£o impudente se tornou a opera√ß√£o corrente e natural do entendimento. Com excep√ß√£o de alguns fil√≥sofos mais met√≥dicos, ou de alguns devotos mais escrupulosos, todos n√≥s hoje nos desabituamos, ou antes nos desembara√ßamos alegremente do penoso trabalho de reflectir. √Č com impress√Ķes que formamos as nossas conclus√Ķes. Para louvar ou condenar em pol√≠tica o facto mais complexo, e onde entrem factores m√ļltiplos que mais necessitem de an√°lise, n√≥s largamente nos contentamos com um boato escutado a uma esquina. Para apreciar em literatura o livro mais profundo, apenas nos basta folhear aqui e al√©m uma p√°gina, atrav√©s do fumo ondeante do charuto.
O m√©todo do velho Cuvier, de julgar o mastodonte pelo osso, √© o que adoptamos, com magn√≠fica inconsci√™ncia, para decidir sobre os homens e sobre as obras. Principalmente para condenar, a nossa ligeireza √© fulminante. Com que espl√™ndida facilidade exclamamos, ou se trate de um estadista, ou se trate de um artista: ¬ę√Č uma besta!

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A Natureza do Homem

A natureza est√° muitas vezes escondida, algumas vezes vencida, raramente extinta. A for√ßa torna a natureza mais violenta na reac√ß√£o; a doutrina e o discurso fazem a natureza menos exigente; mas s√≥ o h√°bito altera e subjuga a natureza. Aquele que deseja vencer a sua natureza, n√£o tente dar a si pr√≥prio tarefas muito grandes ou muito pequenas; porque as primeiras podem desanim√°-lo com frequentes frustra√ß√Ķes, e as segundas dar-lhe-√£o insignificantes progressos, apesar de serem bem sucedidas. No princ√≠pio, ir√° praticando com auxiliares, como os nadadores se socorrem de b√≥ias e coletes; mas, ao fim de algum tempo, dever√° realizar o treino entre dificuldades, como os dan√ßarinos fazem com os socos. Isto porque resulta sempre maior perfei√ß√£o quando o exerc√≠cio √© mais √°rduo do que a pr√°tica.
(…) N√£o √© m√° a antiga regra que mandava curvar a natureza at√© ao extremo oposto, para que ela se rectificasse; subentendendo-se, por√©m, que o extremo oposto n√£o seja o v√≠cio. O homem n√£o se deve for√ßar a um h√°bito com cont√≠nua persist√™ncia, mas com alguma interrup√ß√£o; porque a pausa refor√ßa a nova investida; e se o homem que n√£o √© perfeito estiver sempre a exercitar-se, ser√° t√£o perito nos seus erros como nas suas virtudes,

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A Racionalidade como Solução de Todos os Males do Mundo

A racionalidade pode ser definida como o h√°bito de considerar todos os nossos desejos relevantes, e n√£o apenas aquele que sucede ser o mais forte no momento. (…) A racionalidade completa √©, sem d√ļvida, ideal inating√≠vel; por√©m, enquanto continuarmos a classificar alguns homens como lun√°ticos, √© claro que achamos uns mais racionais que outros. Acredito que todo o progresso s√≥lido no mundo consiste de um aumento de racionalidade, tanto pr√°tica como te√≥rica. Pregar uma moralidade altru√≠stica parece-me um tanto in√ļtil, porque s√≥ falar√° aos que j√° t√™m desejos altru√≠sticos. Mas pregar racionalidade √© um tanto diferente, porque ela nos ajuda, de modo geral, a satisfazer os nossos pr√≥prios desejos, quaisquer que sejam. O homem √© racional na propor√ß√£o em que a sua intelig√™ncia orienta e controla os seus desejos.
Acredito que o controle dos nossos actos pela intelig√™ncia √©, afinal, o que mais importa e a √ļnica coisa capaz de preservar a possibilidade de vida social, enquanto a ci√™ncia expande os meios de que dispomos para nos ferir e destruir. O ensino, a imprensa, a pol√≠tica, a religi√£o – numa palavra, todas as grandes for√ßas do mundo – est√£o actualmente do lado da irracionalidade; est√£o nas m√£os dos homens que lisonjeiam Populus Rex com o fito de desencaminh√°-lo.

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Crítica e Auto-Crítica

Assim como o homem carrega o peso do pr√≥prio corpo sem o sentir, mas sente o de qualquer outro corpo que quer mover, tamb√©m n√£o nota os pr√≥prios defeitos e v√≠cios, mas s√≥ os dos outros. Entretanto, cada um tem no seu pr√≥ximo um espelho, no qual v√™ claramente os pr√≥prios v√≠cios, defeitos, maus h√°bitos e repugn√Ęncias de todo o tipo. Por√©m, na maioria da vezes, faz como o c√£o, que ladra diante do espelho por n√£o saber que se v√™ a si mesmo, crendo ver outro c√£o.
Quem critica os outros trabalha em prol da sua pr√≥pria melhoria. Portanto, quem tem a inclina√ß√£o e o h√°bito de submeter secretamente a conduta dos outros, e em geral tamb√©m as suas ac√ß√Ķes e omiss√Ķes, a uma atenta e severa cr√≠tica, trabalha na verdade em prol da pr√≥pria melhoria e do pr√≥prio aperfei√ßoamento, pois possui o suficiente de justi√ßa, ou de orgulho e vaidade, para evitar o que ami√ļde censura com tanto rigor.

Como Vemos os Outros

N√≥s temos em toda a vida, especialmente na esfera da comunica√ß√£o espiritual, o h√°bito errado de emprestarmos √†s outras pessoas muito daquilo que nos √© pr√≥prio, como se tivesse de ser mesmo assim. Mas como elas, al√©m disso, nos mostram tamb√©m o que t√™m de si pr√≥prias, da√≠ resultam, dado que n√≥s procuramos criar uma unidade com as duas partes, aut√™nticos monstros, semelhantes √†queles que, numa casa com muitos cantos, a luz de uma lanterna produz com uma parte de sombras e uma parte de objectos reais. N√£o h√° nenhuma opera√ß√£o mais √ļtil mas, ao mesmo tempo, mais dif√≠cil que deduzir da imagem do outro aquilo que inconscientemente lhe foi emprestado. No entanto, s√≥ assim fazemos dos outros verdadeiras pessoas – ou, dito de uma forma mais breve: o homem julga compreender os homens quando acrescenta a uma suposta e ilimitada analogia com o seu pr√≥prio eu ainda alguma coisa que √© contr√°ria a esse eu. √Č a experi√™ncia que leva cada um a poder lidar com pessoas que tem de imaginar, na sua ess√™ncia, diferentes de si mesmo.

Evitar o Sofrimento

Privamo-nos para mantermos a nossa integridade, poupamos a nossa sa√ļde, a nossa capacidade de gozar a vida, as nossas emo√ß√Ķes, guardamo-nos para alguma coisa sem sequer sabermos o que essa coisa √©. E este h√°bito de reprimirmos constantemente as nossas puls√Ķes naturais √© o que faz de n√≥s seres t√£o refinados. Porque √© que n√£o nos embriagamos? Porque a vergonha e os transtornos das dores de cabe√ßa fazem nascer um desprazer mais importante que o prazer da embriaguez. Porque √© que n√£o nos apaixonamos todos os meses de novo? Porque, por altura de cada separa√ß√£o, uma parte dos nossos cora√ß√Ķes fica desfeita. Assim, esfor√ßamo-nos mais por evitar o sofrimento do que na busca do prazer.

Poupar a Vontade

Em compara√ß√£o com o comum dos homens, poucas coisas me atingem, ou, dizendo melhor, me prendem; pois √© razo√°vel que elas atinjam, contanto que n√£o nos possuam. Tenho grande zelo em aumentar pelo estudo e pela reflex√£o esse privil√©gio de insensibilidade, que em mim √© naturalmente muito saliente. Desposo – e consequentemente me apaixono por – poucas coisas. A minha vis√£o √© clara, mas detenho-a em poucos objectos; a sensibilidade, delicada e male√°vel. Mas a apreens√£o e aplica√ß√£o, tenho-a dura e surda: dificilmente me envolvo. Tanto quanto posso, emprego-me todo em mim; por√©m mesmo nesse objecto eu refrearia e suspenderia de bom grado a minha afei√ß√£o para que ela n√£o se entregasse por inteiro, pois √© um objecto que possuo por merc√™ de outr√©m e sobre o qual a fortuna tem mais direito do que eu. De maneira que at√© a sa√ļde, que tanto estimo, ser-me-ia preciso n√£o a desejar e n√£o me dedicar a ela t√£o desenfreadamente a ponto de achar insuport√°veis as doen√ßas. Devemos moderar-nos entre o √≥dio e o amor √† voluptuosidade; e Plat√£o receita um caminho mediano de vida entre ambos.
Mas √†s paix√Ķes que me distraem de mim e me prendem alhures, a essas certamente me oponho com todas as minhas for√ßas.

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Um Segredo de um Casamento Feliz

Desde que a Maria João e eu fizemos dez anos de casados que estou para escrever sobre o casamento. Depois caí na asneira de ler uns livros profissionais sobre o casamento e percebi que eu não percebo nada sobre o casamento.

Confesso que a minha ambição era a mais louca de todas: revelar os segredos de um casamento feliz. Tendo descoberto que são desaconselháveis os conselhos que ia dar, sou forçado a avisar que, quase de certeza, só funcionam no nosso casamento.

Mas vou dá-los à mesma, porque nunca se sabe e porque todos nós somos muito mais parecidos do que gostamos de pensar.

O casamento feliz n√£o √© nem um contrato nem uma rela√ß√£o. Rela√ß√Ķes temos n√≥s com toda a gente. √Č uma cria√ß√£o. √Č criado por duas pessoas que se amam.

O nosso casamento √© um filho. √Č um filho inteiramente dependente de n√≥s. Se n√≥s nos separarmos, ele morre. Mas n√£o deixa de ser uma terceira entidade.

Quando esse filho é amado por ambos os casados Рque cuidam dele como se cuida de um filho que vai crescendo -, o casamento é feliz. Não basta que os casados se amem um ao outro.

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√Čs como o Ar que Respiro

Qual √© a for√ßa extraordin√°ria que possuis? ‚ÄĒ pergunto muitas vezes a mim mesmo. Dois ou tr√™s princ√≠pios crist√£os inabal√°veis ‚ÄĒ e por tr√°s milhares de seres que desapareceram ignorados, cumprindo a vida ignorada. Nem sequer se debateram. Entregaram-se. Confiaram. A mulher portuguesa comunica ao lar a ternura com que os p√°ssaros aquecem o ninho. Sua vida d√° luz, para alumiar os outros. Foi assim com t√£o pequenos meios, que me ensinaste. Com uma palavra e mais nada, com um simples olhar, com sil√™ncio e mais nada. Uma atitude fazia-me pensar. E mal sabes tu quando Os teus dedos √°geis trabalhavam a meu lado, teciam ao mesmo tempo o pano grosso de casa e a nossa vida espiritual.

E como tu milhares de seres t√™em cumprido a vida em sil√™ncio, aceitando-a sem exageros. Nas m√£os das mulheres at√© as coisas vulgares que se fazem na aldeia, cozer o p√£o, lan√ßar a teia ‚ÄĒ assumem um car√°cter sagrado. Elas passam desconhecidas e disp√Ķem dum poder extraordin√°rio. Mant√™em a vida ordenada com um sorriso t√≠mido. A mulher est√° mais perto que n√≥s da natureza e de Deus.

Cada vez me aproximo mais de ti. O que h√° de puro em mim a ti o devo.

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A Fonte da Harmonia

A boa disposi√ß√£o e a alegria de um c√£o, o seu amor incondicional pela vida e a prontid√£o dele para a celebrar a todo o momento contrasta muito com o estado de esp√≠rito do dono – deprimido, ansioso, sobrecarregado de problemas, perdido em pensamentos, ausente do √ļnico lugar e do √ļnico tempo que existe: o Aqui e o Agora. E uma pessoa interroga-se: vivendo com algu√©m assim, como consegue o c√£o manter-se t√£o equilibrado e s√£o, t√£o cheio de alegria?

Quando apreendemos a Natureza apenas através da mente, do pensamento, não somos capazes de sentir a sua força de viver e de existir. Vemos somente a parte física, a matéria, e não nos apercebemos da vida interior Рo mistério sagrado. O pensamento reduz a Natureza a uma mercadoria que se usa na busca de benefícios ou de conhecimento ou de qualquer outro fim utilitário. A floresta ancestral passa a ser vista apenas como madeira, o pássaro como um objecto de investigação, a montanha como alguma coisa para se explorar ou conquistar.

Quando se apreende a Natureza, deve-se permitir que hajam momentos sem pensamento, sem a intervenção da mente. Ao aproximarmo-nos da Natureza desta maneira, ela responde-nos e,

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O Progresso Real não se Deve aos Génios

√Č opini√£o, pode dizer-se, universal, que o conhecimento humano deve a maior parte do seu progresso √†queles g√©nios supremos que surgem de quando em quando, um agora, outro depois, que s√£o quase milagres da natureza. Eu, pelo contr√°rio, penso que ele deva a sua maior parte aos g√©nios comuns, e muito pouco aos extraordin√°rios. Um destes, suponhamos, depois de ter preenchido com a erudi√ß√£o a √°rea do conhecimento dos seus contempor√Ęneos, avan√ßa no saber, digamos, dez passos em frente. Os outros homens, por√©m, n√£o s√≥ n√£o se aprestam a segui-lo como, a maior parte das vezes, isto para n√£o dizer pior, se riem do seu progresso.
Entretanto muitos g√©nios med√≠ocres, valendo-se em parte, talvez, dos pensamentos e das descobertas daquele extraordin√°rio, mas principalmente atrav√©s de estudos deles pr√≥prios, d√£o um passo em conjunto; e, nesse passo, dada a pequenez do espa√ßo, isto √©, a reduzida novidade das suas opini√Ķes, e tamb√©m devido ao elevado n√ļmero daqueles que s√£o os seus autores, ao fim de alguns anos s√£o universalmente seguidos. Assim, avan√ßando, como √© seu h√°bito, a pouco e pouco, e por obra e a exemplo de outros intelectos med√≠ocres, os homens completam, finalmente, o d√©cimo passo; e as opini√Ķes daquele g√©nio extraordin√°rio s√£o geralmente aceites como verdadeiras em todos os pa√≠ses civilizados.

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Sou um Verdadeiro Solit√°rio

O meu sentido ardente de justi√ßa social e de dever social estiveram sempre em estranho desacordo com uma marcada car√™ncia de necessidade directa de liga√ß√£o com os homens e com as comunidades humanas. Sou um verdadeiro solit√°rio (¬ęEinsp√§nner¬Ľ), que nunca pertenceu inteiramente e de todo o cora√ß√£o ao Estado, √† P√°tria, ao c√≠rculo dos amigos ou at√© mesmo √† fam√≠lia mais chegada, mas antes pelo contr√°rio experimentou sempre, em rela√ß√£o a todas essas liga√ß√Ķes, um sentimento indom√°vel de estranheza e de √Ęnsia de isolamento, um sentimento que com a idade mais se intensifica. Apercebemo-nos nitidamente, mas sem o lamentarmos, que nos √© limitada a conviv√™ncia em sociedade com outros seres humanos. Um homem desta natureza perde, de certo modo, uma parte da sua maneira de ser inocente e despreocupada mas ganha em se sentir largamente independente das opini√Ķes, dos h√°bitos e ju√≠zos dos homens, e n√£o cai na tenta√ß√£o de estabelecer o seu equil√≠brio numa base t√£o pouco s√≥lida.