Textos sobre Calma

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Textos de calma escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

O Medo do Aborrecimento

O género de aborrecimento de que sofre a população das cidades modernas está intimamente ligado à sua separação da vida da Terra. Essa separação torna o seu viver ardente, poeirento e ansioso, tal como uma peregrinação no deserto. Nos que são suficientemente ricos para escolher o seu género de vida, o estigma peculiar de insuportável aborrecimento que os distingue é devido, por muito paradoxal que isso possa parecer, ao seu medo do aborrecimento. Ao fugirem do aborrecimento que é fecundo, são vítimas de outro de natureza pior. Uma vida feliz deve ser, em grande medida, uma vida tranquila, pois só numa atmosfera calma pode existir o verdadeiro prazer.

A Inteligência e o Sentido Moral

A intelig√™ncia √© quase in√ļtil para aqueles que s√≥ a possuem a ela. O intelectual puro √© um ser incompleto, infeliz, pois √© incapaz de atingir aquilo que compreende. A capacidade de apreender as rela√ß√Ķes das coisas s√≥ √© fecunda quando associada a outras actividades, como o sentido moral, o sentido afectivo, a vontade, o racioc√≠nio, a imagina√ß√£o e uma certa for√ßa org√Ęnica. S√≥ √© utiliz√°vel √† custa de esfor√ßo.
Os detentores da ciência preparam-se longamente realizando um duro trabalho. Submetem-se a uma espécie de ascetismo. Sem o exercício da vontade, a inteligência mantém-se dispersa e estéril. Uma vez disciplinada, torna-se capaz de perseguir a verdade. Mas só a atinge plenamente se for ajudada pelo sentido moral. Os grandes cientistas têm sempre uma profunda honestidade intelectual. Seguem a realidade para onde quer que ela os conduza. Nunca procuram substituí-la pelos seus próprios desejos, nem ocultá-la quando se torna opressiva. O homem que quiser contemplar a verdade deve manter a calma dentro de si mesmo. O seu espírito deve ser como a água serena de um lago. As actividades afectivas, contudo, são indispensáveis ao progresso da inteligência. Mas devem reduzir-se a essa paixão que Pasteur chamava deus inteiror, o entusiasmo.

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As Janelas da Memória

A mem√≥ria humana n√£o √© lida globalmente, como a mem√≥ria dos computadores, mas por √°reas espec√≠ficas a que chamo de janelas. Atrav√©s das janelas vemos, reagimos, interpretamos… Quantas vezes tentamos lembrar-nos de algo que n√£o nos vem √† ideia? Nesse caso, a janela permaneceu fechada ou inacess√≠vel.

A janela da mem√≥ria √©, portanto, um territ√≥rio de leitura num determinado momento existencial. Em cada janela pode haver centenas ou milhares de informa√ß√Ķes e experi√™ncias. O maior desafio de uma mulher, e do ser humano em geral, √© abrir o m√°ximo de janelas em cada situa√ß√£o. Se ela abre diversas janelas, poder√° dar respostas inteligentes. Se as fecha, poder√° dar respostas inseguras, med√≠ocres, est√ļpidas, agressivas. Somos mais instintivos e animalescos quando fechamos as janelas, e mais racionais quando as abrimos.

O mundo dos sentimentos possui as chaves para abrir as janelas. O medo, a tens√£o, a ang√ļstia, o p√Ęnico, a raiva e a inveja podem fech√°-las. A tranquilidade, a serenidade, o prazer e a afetividade podem abri-las. A emo√ß√£o pode fazer os intelectuais reagirem como crian√ßas agressivas e as pessoas simples reagirem como elegantes seres humanos. Sob um foco de tens√£o, como perdas e contrariedades, uma mulher serena pode ficar irreconhec√≠vel.

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A Certeza do Nosso Amor

A certeza do nosso amor era calma. Ao escrever, algo de nós se tocava. Ao escrever, sentia-a passar por mim, sentia-a atravessar-me. Depois, fechava os olhos e via-a sorrir. Ainda dentro de mim, mas um pouco do seu rosto de anjo e da lonjura do seu olhar e dos seus gestos brandos a existir na página, no texto. Às vezes, levantava-me, segurava as folhas a tremerem-me na mão e lia devagar. Após cada frase, parava e ouvia-a lida na memória. Ela era o texto. Cada palavra a dizia, cada palavra era o nome dos seus gestos e de tudo o que em si era belo. Ela era o sentido das palavras. Ela não era nem material, nem imaterial. Ela era o sentido das palavras. Nem sequer terra, nem sequer céu, estrelas, noite. Existia para lá do que podemos tocar ou entender. Ela era aquilo que existia, porque era sentida por mim. Existia dentro de mim e existia no texto para quem o lesse. Existia porque existia, porque existia para ser sentida. As noites passavam e conhecíamo-nos. Por ela estar dentro de mim e dentro do texto escrito pela minha mão, cheguei a pensar que era parte de mim. Enganei-me. Ela era maior do que eu.

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Nada é Tão Fatigante Como a Indecisão

A fadiga (do homem da cidade) √© devida a inquieta√ß√Ķes que poderiam ser evitadas por uma melhor filosofia da vida e um pouco mais de disciplina mental. A maior parte dos homens e mulheres n√£o governam eficazmente os seus pensamentos. Quero com isto dizer que eles n√£o podem deixar de pensar nos assuntos que os atormentam, mesmo quando nesse momento nenhuma solu√ß√£o lhes podem dar. Os homens levam muitas vezes para a cama as suas inquieta√ß√Ķes em mat√©rias de neg√≥cios e, durante a noite, quando deviam ganhar novas for√ßas para enfrentar os dissabores do dia seguinte, √© nelas que pensam, repetidas vezes, embora nesse instante nada possam fazer; e pensam nos problemas que os inquietam, n√£o de forma a encontrar uma linha de conduta firme para o dia seguinte, mas nessa semi-dem√™ncia que caracteriza as agitadas medita√ß√Ķes da ins√≥nia.
De manh√£, qualquer coisa dessa dem√™ncia nocturna persiste ainda neles, obscurece-lhes o julgamento, rouba-lhes a calma, de forma que qualquer obst√°culo os enfurece. O homem sensato s√≥ pensa nas suas inquieta√ß√Ķes quando julga de interesse faz√™-lo; no restante tempo pensa noutras coisas e √† noite n√£o pensa em coisa nenhuma. N√£o quero dizer que numa grande crise, por exemplo, quando a ru√≠na est√° iminente,

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Um Certo Grau de Desafogo

Depressa compreendi como para um homem na minha posi√ß√£o se tornava indispens√°vel uma certa riqueza. Seria t√£o desagrad√°vel para mim ter uma excessiva fortuna, como n√£o ter nenhuma. A dignidade e o respeito pr√≥prios s√£o insepar√°veis de um certo grau de desafogo. Eis o que eu aprecio, aquilo de que eu necessito – mais do que as pequenas comodidades que uma riqueza relativa permite. O que se segue a esta necessidade de independ√™ncia √© a tranquilidade de esp√≠rito: √© sentir-se livre dos cuidados e dos empreendimentos ign√≥beis que acarretam sempre as dificuldades monet√°rias. √Č necess√°ria uma grande prud√™ncia para chegar a este estado fundamental e mantermo-nos nele; √© preciso ter constantemente em mente a necessidade desta calma e desta falta de preocupa√ß√Ķes materiais, que nos permite entregarmo-nos completamente aos empreendimentos mais elevados e que impede que a nossa alma e o nosso esp√≠rito se degradem.

O Triunfo dos Imbecis

N√£o nos deve surpreender que, a maior parte das vezes, os imbecis triunfem mais no mundo do que os grandes talentos. Enquanto estes t√™m por vezes de lutar contra si pr√≥prios e, como se isso n√£o bastasse, contra todos os med√≠ocres que detestam toda e qualquer forma de superioridade, o imbecil, onde quer que v√°, encontra-se entre os seus pares, entre companheiros e irm√£os e √©, por esp√≠rito de corpo instintivo, ajudado e protegido. O est√ļpido s√≥ profere pensamentos vulgares de forma comum, pelo que √© imediatamente entendido e aprovado por todos, ao passo que o g√©nio tem o v√≠cio ter√≠vel de se contrapor √†s opini√Ķes dominantes e querer subverter, juntamente com o pensamento, a vida da maioria dos outros.
Isto explica por que as obras escritas e realizadas pelos imbecis s√£o t√£o abundante e solicitamente louvadas – os ju√≠zes s√£o, quase na totalidade, do mesmo n√≠vel e dos mesmos gostos, pelo que aprovam com entusiasmo as ideias e paix√Ķes med√≠ocres, expressas por algu√©m um pouco menos med√≠ocre do que eles.
Este favor quase universal que acolhe os frutos da imbecilidade instruída e temerária aumenta a sua já copiosa felicidade. A obra do grande, ao invés, só pode ser entendida e admirada pelos seus pares,

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Saber Falar √†s Multid√Ķes

Longos discursos, agitar de punhos, socos na mesa, e resolu√ß√Ķes expressas com emo√ß√£o mas desligadas das condi√ß√Ķes objectivas, n√£o produzem ac√ß√£o de massas e podem provocar grande dano √† organiza√ß√£o e √† luta que servimos.
(…) H√° uma fase na vida de todo o reformador social em que ele troveja nas tribunas, principalmente para se livrar de informa√ß√£o mal digerida que se lhe acumulou na cabe√ßa, uma tentativa para impressionar as multid√Ķes, em vez de iniciar uma exposi√ß√£o calma e simples de princ√≠pios e ideias, cuja verdade universal se evidencia pela experi√™ncia pessoal e estudo mais aprofundado.

A actividade vence o frio; a inactividade vence o calor; assim, com a sua calma

A actividade vence o frio; a inactividade vence o calor; assim, com a sua calma, vai o s√°bio corrigindo tudo no mundo.

A Moralidade dos Homens Exaustos

Parte do conservantismo da idade madura decorre da intelig√™ncia, que afinal percebe a complexidade das institui√ß√Ķes e as imperfei√ß√Ķes do desejo; e parte vem do enfraquecimento das energias, o que explica a imaculada moralidade dos homens exaustos. A princ√≠pio com incredulidade, depois com desepero, vamos percebendo que o nosso reservat√≥rio de energia j√° n√£o se enche com a facilidade antiga; ou, como disse Schopenhauer, come√ßamos a consumir o capital em vez da renda do capital. Essa descoberta anuvia por alguns anos o homem maduro e indu-lo a deblaterar contra a brevidade da vida e a impossibilidade de realiza√ß√£o de grandes obras. Est√° ele j√° no alto da colina, de onde v√™, l√° no fundo, o fim inevit√°vel – a morte. At√© aquele momento n√£o admitia a morte, s√≥ pensando nela como um tema acad√©mico, de desinteresse para os cofres. Subitamente tudo muda e come√ßa a v√™-la de perto, e por mais que se esforce para n√£o descer a colina, h√° que desc√™-la. Os seus olhos voltam-se para o passado, para os dias em que tudo era ascens√£o descuidosa; e compraz-se na companhia dos mo√ßos e crian√ßas porque deles haure, passageira e incompletamente embora, um pouco do divino esquecimento da morte.

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Toda a Comunidade nos Torna Vulgares

Viver com uma imensa e orgulhosa calma; sempre para al√©m. – Ter e n√£o ter, arbitrariamente, os seus afectos, o seu pr√≥ e contra, condescender com eles por umas horas; montar sobre eles como em cavalos, frequentemente como em burros; – √© que se deve saber aproveitar a sua estupidez tal como a sua fogosidade. Conservar os seus trezentos primeiros planos; tamb√©m os √≥culos escuros; pois h√° casos em que ningu√©m nos deve olhar nos olhos e muito menos ainda nas nossas ¬ęraz√Ķes¬Ľ. E escolher, para companhia, aquele v√≠cio matreiro e sereno, a cortesia. E ficar senhor das suas quatro virtudes, a coragem, a perspic√°cia, a simpatia, a solid√£o. Pois a solid√£o √© entre n√≥s uma virtude, como tend√™ncia e impulso sublimes do asseio que adivinha como, no contacto de homem para homem – ¬ęem sociedade¬Ľ – tudo √©, inevitavelmente, sujo, Toda a comunidade nos torna de qualquer modo, em qualquer parte, em qualquer altura – ¬ęvulgares¬Ľ.

Aprender a Ser Feliz

√Č imposs√≠vel exigir a estabilidade plena da energia ps√≠quica, pois ela organiza-se, desorganiza-se (caos) e reorganiza-se continuamente. N√£o existem pessoas que sejam sempre calmas, alegres e serenas. Nem mesmo existem pessoas ansiosas, irritadas e incoerentes permanentemente. Ningu√©m √© emocionalmente est√°tico, a n√£o ser que esteja morto. Devemos reagir e comportar-nos segundo determinado padr√£o para n√£o sermos inst√°veis, mas este padr√£o reflectir√° sempre uma emo√ß√£o flutuante.

A pessoa mais tranquila perderá a paciência. A pessoa mais ansiosa terá momentos de calma. Só os computadores são rigorosamente estáveis. Por isso, eles são lógicos, programáveis e, portanto, de baixa complexidade. Nós, pelo contrário, somos tão complexos que a nossa disposição, humor e interesses mudam com frequência. Devemos estar preparados para enfrentar os problemas internos e externos. Devemos ter consciência de que os problemas nunca vão desaparecer nesta sinuosa e bela existência. Podemos evitar alguns, outros porém são imprevisíveis.

Mas os problemas existem para serem resolvidos e n√£o para nos controlarem. Infelizmente, muitos s√£o controlados por eles. A melhor maneira de ter dignidade diante das dificuldades e dos sofrimentos existenciais √© extrair li√ß√Ķes deles. Caso contr√°rio, o sofrimento √© in√ļtil. Ser feliz, do ponto de vista da psicologia, n√£o √© ter uma vida perfeita,

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Respeite a Você Mais do que aos Outros

N√£o pense que a pessoa tem tanta for√ßa assim a ponto de levar qualquer esp√©cie de vida e continuar a mesma. (…) Nem sei como lhe explicar minha alma. Mas o que eu queria dizer √© que a gente √© muito preciosa, e que √© somente at√© um certo ponto que a gente pode desistir de si pr√≥pria e se dar aos outros e √†s circunst√Ęncias. (…) Pretendia apenas lhe contar o meu novo car√°cter, ou falta de car√°cter. (…) Querida, quase quatro anos me transformaram muito. Do momento em que me resignei, perdi toda a vivacidade e todo interesse pelas coisas. Voc√™ j√° viu como um touro castrado se transforma num boi? Assim fiquei eu… em que pese a dura compara√ß√£o… Para me adaptar ao que era inadapt√°vel, para vencer minhas repulsas e meus sonhos, tive que cortar meus grilh√Ķes – cortei em mim a forma que poderia fazer mal aos outros e a mim. E com isso cortei tamb√©m minha for√ßa. Espero que voc√™ nunca me veja assim resignada, porque √© quase repugnante. (…) Uma amiga, um dia desses, encheu-se de coragem, como ela disse, e me perguntou: voc√™ era muito diferente, n√£o era? Ela disse que me achava ardente e vibrante,

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Julgar sem Ira

Não há paixão que tanto abale a integridade dos julgamentos quanto a cólera. Ninguém hesitaria em punir de morte o juiz que, por cólera, houvesse condenado o seu criminoso; por que será mais permitido aos pais e aos professores açoitar as crianças e castigá-las estando encolerizados? Isso já não é correcção: é vingança. O castigo faz papel de remédio para as crianças; e toleraríamos um médico que estivesse animado e encolerizado contra o seu paciente?
N√≥s mesmos, para agir bem, n√£o dever√≠amos p√īr a m√£o nos nossos servi√ßais enquanto nos perdurar a c√≥lera. Enquanto o pulso nos bater e sentirmos emo√ß√£o, adiemos o acerto; as coisas na verdade v√£o parecer-nos diferentes quando estivermos calmos e arrefecidos: agora √© a paix√£o que comanda, √© a paix√£o que fala, n√£o somos n√≥s. Atrav√©s dela as faltas parecem-nos maiores, como os corpos no meio do nevoeiro. Quem tiver fome fa√ßa uso de alimento; mas quem quiser fazer uso do castigo n√£o deve sentir fome nem sede dele. E, al√©m disso, as puni√ß√Ķes que se fazem com pondera√ß√£o e discernimento s√£o muito mais bem aceites e com melhor proveito por quem as recebe. De outra forma, ele n√£o considera que foi condenado justamente,

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A Multid√£o Embrutece

Assim que muitos homens se encontram juntos, perdem-se. A multidão transporta as suas unidades do presente para o passado e precipita-as de cima para baixo: trata-se de um recuo e uma decadência.
Todo o homem, l√° dentro, converte-se noutro – mas pior. Nas multid√Ķes, a uni√£o √© constitu√≠da pelos inferiores e fundada nas partes inferiores de todas as almas. S√£o florestas em que os ramos altos n√£o se entrela√ßam, mas apenas, em baixo na escurid√£o, as ra√≠zes terrosas. Todos perdem o que os torna diferentes e melhores, enquanto o antigo r√ļstico – que, entre obst√°culos, morda√ßas e a√ßaimos, parecia aniquilado – acorda e muge. Em todas as multid√Ķes, como em toda a Humanidade, os med√≠ocres s√£o infinitamente mais que os grandes, os calmos que os violentos, os simples que os profundos, os primitivos que os civilizados, e √© a maioria que cria a alma comum que imbrica e nivela todo o agrupamento de homens.
Aquele que em cada um forma o seu superior n√£o pode conformar-se e fundir-se – √© a pessoa √ļnica e, portanto, incomunic√°vel. Toda a pessoa se op√Ķe √†s outras, existe enquanto √© diferente, n√£o se pode liquefazer num todo. Mas h√° em cada um de n√≥s,

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Conselho aos Pais

A pior traição que podemos cometer perante o moço que se aproxima para que lhe digamos a Verdade é ocultar-lhe que para nós essa verdade se encontra tão longínqua e velada como a ele se apresenta. Se lhe damos por certeza o que se mostra duvidoso enganamos a confiança que o levou a dirigir-se-nos; se lhe não fizermos ver todas as fendas dos paços reais arriscamos a sua e a nossa alma a um desastre que nenhum tempo futuro poderá reparar. Os que julgou mais nobres enganaram-no; era cego, pediu guia, e levaram-no a abismos; nunca mais a sua mão se estenderá aberta e franca a mãos humanas. Quanto a nós mesmos, que valor tem a causa se para lhe darmos dinamismo a deformamos, a mergulhamos em parte na sombra da mentira?
N√£o √© nosso ideal, e por isso lutamos, formar os bandos inconscientes e os prontos cad√°veres que √†s nossas ordens obede√ßam; salvar-se-√° o mundo pelos esp√≠ritos claros, tenazes ante o certo, ante o incerto corajosos; s√≥ eles sabem medir no seu justo valor e vencer galhardamente toda a barreira levantada; s√≥ eles encontram, como base do ser, a marcha calma e a energia inesgot√°vel. √Č ilus√≥ria toda a reforma do colectivo que se n√£o apoie numa renova√ß√£o individual;

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Uma Vida Calma e Tranquila

A primeira pergunta que Di√≥genes fez a Alexandre √© a primeira pergunta que qualquer pessoa inteligente deve fazer a si pr√≥pria. Di√≥genes n√£o desperdi√ßou um √ļnico momento.
РAlexandre, estás a tentar conquistar o mundo inteiro. Então e tu? Terás tempo suficiente, depois de conquistares o mundo, para te conheceres a ti próprio? Tens certezas sobre o amanhã ou sobre o próximo momento?
Alexandre nunca tinha conhecido um homem assim. Ele já tinha vencido grandes reis e imperadores, mas percebeu que Diógenes era um homem muito poderoso. Baixando os olhos, Alexandre respondeu:
– N√£o te posso dizer que esteja certo sobre o momento seguinte. Mas posso prometer-te uma coisa: quando tiver conquistado o mundo, vou desejar descansar e viver uma vida calma, tal como tu.
Di√≥genes estava a gozar um banho de sol matinal junto a um rio, rodeado por bonitas √°rvores. Ele riu-se… por vezes penso que o seu riso ainda deve continuar a ecoar.
Pessoas como Diógenes pertencem à eternidade. As suas assinaturas não são feitas na água.
Alexandre sentiu-se ofendido e perguntou-lhe porque se estava a rir.
– √Č muito simples! – respondeu Di√≥genes. – Se eu posso descansar e viver uma vida calma sem ter conquistado o mundo,

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Aprender a Ver

Aprender a ver – habituar os olhos √† calma, √† paci√™ncia, ao deixar-que-as-coisas-se-aproximem-de-n√≥s; aprender a adiar o ju√≠zo, a rodear e a abarcar o caso particular a partir de todos os lados. Este √© o primeiro ensino preliminar para o esp√≠rito: n√£o reagir imediatamente a um est√≠mulo, mas sim controlar os instintos que p√Ķem obst√°culos, que isolam. Aprender a ver, tal como eu o entendo, √© j√° quase o que o modo afilos√≥fico de falar denomina vontade forte: o essencial nisto √©, precisamente, o poder n√£o ¬ęquerer¬Ľ, o poder diferir a decis√£o. Toda a n√£o-espiritualidade, toda a vulgaridade descansa na incapacidade de opor resist√™ncia a um est√≠mulo ‚ÄĒ tem que se reagir, seguem-se todos os impulsos. Em muitos casos esse ter que √© j√° doen√ßa, decad√™ncia, sintoma de esgotamento, ‚ÄĒ quase tudo o que a rudeza afilos√≥fica designa com o nome de ¬ęv√≠cio¬Ľ √© apenas essa incapacidade fisiol√≥gica de n√£o reagir. ‚ÄĒ Uma aplica√ß√£o pr√°tica do ter-aprendido-a-ver: enquanto discente em geral, chegar-se-√° a ser lento, desconfiado, teimoso. Ao estranho, ao novo de qualquer esp√©cie deixar-se-o-√° aproximar-se com uma tranquilidade hostil, ‚ÄĒ afasta-se dele a m√£o. O ter abertas todas as portas, o servil abrir a boca perante todo o facto pequeno,

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O Sucesso para um Grande Amor

Estou contente porque a minha querida n√£o tem ainda o afecto exclusivo e √ļnico que h√°-de sentir um dia por um homem, apesar de todas as suas teorias que h√°-de ver voar, voar para t√£o longe ainda!… E no entanto, elas s√£o t√£o verdadeiras! Ainda assim, minha querida J√ļlia, uma das coisas melhores da nossa vida de t√£o prosaico s√©culo, √© o amor, o grande e discutido amor, o nosso encanto e o nosso mist√©rio; as nossas p√©talas de rosa e a nossa coroa de espinhos. O amor √ļnico, doce e sentimental da nossa alma de portugueses, o amor de que fala J√ļlio Dantas, ¬ęuma ternura casta, uma ternura s√£¬Ľ de que ¬ęo peito que o sente √© um sacr√°rio estrela¬≠do¬Ľ, como diz Junqueiro; o amor que √© a raz√£o √ļnica da vida que se vive e da alma que se tem; a paix√£o delicada que d√° beijos ao luar e alma a tudo, desde o olhar ao sorriso, ‚ÄĒ √© ainda uma coisa nobre, bela e digna! Digna de si, do seu sentir, do seu grande cora√ß√£o, ao mesmo tempo violento e calmo. Esse amor que ¬ęem sendo triste, canta, e em sendo alegre, chora¬Ľ, esse amor h√°-de senti-lo um dia,

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