Textos sobre Semelhantes

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Textos de semelhantes escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Da Liberdade

A: Eis uma bateria de canh√Ķes que atira junto aos nossos ouvidos; tendes a liberdade de ouvi-la e de a n√£o ouvir?
B: √Č claro que n√£o posso evitar ouvi-la.
A: Desejaríeis que esse canhão decepasse a vossa cabeça e as da vossa mulher e da vossa filha que estivessem convosco?
B: Que espécie de proposição me fazeis? Eu jamais poderia, no meu são juízo, desejar semelhante coisa. Isso é-me impossível.
A: Muito bem; ouvis necessariamente esse canhão e, também necessariamente, não quereis morrer, vós e a vossa família, de um tiro de canhão; não tendes nem o poder de não o ouvir nem o poder de querer permanecer aqui.
B: Isso é evidente.
A: Em consequência, destes uma trintena de passos a fim de vos colocardes ao abrigo do canhão: tivestes o poder de caminhar comigo estes poucos passos?
B: Nada mais verdadeiro.
A: E se f√īsseis paral√≠tico? N√£o ter√≠eis podido evitar ficar exposto a essa bateria; n√£o ter√≠eis o poder de estar onde agora estais: ter√≠eis ent√£o necessariamente ouvido e recebido um tiro de canh√£o e necessariamente estar√≠eis morto?
B: Nada mais claro.
A: Em que consiste, pois,

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O Começo de Todas as Histórias

O come√ßo de todas as hist√≥rias √©, no princ√≠pio, rid√≠culo. Parece n√£o haver esperan√ßa de que esta coisa acabada de nascer, ainda incompleta e tenra em todas as suas articula√ß√Ķes, seja capaz de se manter viva na organiza√ß√£o completa do mundo, que, como todas as organiza√ß√Ķes completas, luta por se fechar. Contudo, n√£o podemos esquecer que a hist√≥ria, se tiver uma justifica√ß√£o para existir, tem dentro de si a sua pr√≥pria organiza√ß√£o completa at√© antes de estar completamente formada; por esta raz√£o n√£o h√° motivo para desesperar com o princ√≠pio de uma hist√≥ria; num caso semelhante, os pais teriam de desesperar com o beb√© porque n√£o tinham nenhuma inten√ß√£o de trazer para o mundo este ser rid√≠culo e pat√©tico.
√Č claro que nunca sabemos se h√° raz√£o ou n√£o para o desespero que sentimos. Mas reflectindo sobre isso podemos obter um certo apoio; sofri anteriormente da falta deste conhecimento.

Serenidade da Alma

N√£o examinar o que se passa na alma dos outros dificilmente far√° o infort√ļnio de algu√©m; mas os que n√£o seguem com aten√ß√£o os movimentos das suas pr√≥prias almas s√£o fatalmente desditosos.
(…) Ser semelhante ao promont√≥rio contra o qual v√™m quebrar as vagas e que permanece firme enquanto, √† sua volta, espumeja o furor das ondas.
РQue desgraça ter-me acontecido isto!
Não, não é assim que se deve falar, mas desta maneira:
– Que felicidade, apesar do que me aconteceu, eu n√£o me mortificar, n√£o me deixar abater pelo presente nem me assustar pelo futuro!
Na verdade, coisa idêntica poderia suceder a toda a gente, mas bem poucos a suportariam sem se mortificarem. Por que razão considerar este acontecimento infortunado e aquele outro feliz?
Em resumo, chamas de infort√ļnio para o ser humano aquilo que n√£o √© um obst√°culo √† sua natureza? E consideras um obst√°culo √† natureza do ser humano aquilo que n√£o vai contra a vontade da sua natureza? Que queres, ent√£o? Conheces bem essa vontade; aquilo que te sucede impede-te, por acaso, de ser justo, magn√Ęnimo, s√≥brio, reflectido, prudente, sincero, modesto, livre, e de possuir as outras virtudes cuja posse assegura √† natureza do ser humano a felicidade que lhe √© pr√≥pria?

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Virtudes Inconscientes

Todas as qualidades pessoais de que um homem tem consci√™ncia – sobretudo quando sup√Ķe que os que o rodeiam as v√™em, que saltam aos olhos dos outros -, est√£o submetidas a leis da evolu√ß√£o completamente diferentes daquelas que regem as qualidades que ele conhece mal ou n√£o conhece, as qualidades que a sua finura dissimula ao observador mais subtil e que parecem entrincheirar-se atr√°s da cortina do nada. Assim como a delicada gravura que esculpe a escama da serpente: seria um erro ver nela ou uma arma ou um ornamento, porque s√≥ √© poss√≠vel descobri-la ao microsc√≥pio, por consequ√™ncia com um olho cuja pot√™ncia √© devida a tais artif√≠cios que os animais para os quais ela teria por sua vez servido de arma ou de ornamento n√£o possuem semelhante!
As nossas qualidade morais visíveis e, nomeadamente, aquelas que nós acreditamos serem tais, seguem o seu caminho; e as do mesmo nome que se não vêem, que não podem portanto servir-nos de arma ou de ornamento, seguem assim o seu caminho, provavelmente completamente diferente, decoradas de linhas, de finuras e de esculturas que poderiam talvez dar prazer a um deus munido com um microscópio divino. Eis por exemplo o nosso zelo,

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O Princípio da Simpatia e Antipatia

O princípio da simpatia e antipatia tende ao máximo a pecar por severidade excessiva. Tende ele a aplicar castigo em muitos casos em que é injusto fazê-lo, e, em casos em que se justifica uma punição, a aplicar severidade maior do que a merecida. Não existe acto algum imaginável, por mais trivial e por menos censurável que seja, que o princípio da simpatia e antipatia não encontre algum motivo para punir. Quer se trate de diferenças de gosto, quer se trate de diferenças de opinião, sempre se encontra motivo para punir. Não existe nenhum desacordo, por mais trivial que seja, que a perseverança não consiga transformar num incidente sério. Cada qual se torna, aos olhos do seu semelhante, um inimigo e, se a lei o permitir, um criminoso. Este é um dos aspectos sob os quais a espécie humana se distingue Рpara seu desabono Рdos animais.
Por princ√≠pio de simpatia e antipatia entendo o princ√≠pio que aprova ou desaprova certas ac√ß√Ķes, n√£o na medida em que estas tendem a aumentar ou a diminuir a felicidade da parte interessada, mas simplesmente pelo facto de que algu√©m se sente disposto a aprov√°-las ou reprov√°-las.Os partid√°rios deste princ√≠pio mant√™m que a aprova√ß√£o ou a reprova√ß√£o constituem uma raz√£o suficiente em si mesma,

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A √ānsia de Protagonismo Social

Qual o sentido de tamanha azáfama neste mundo? Qual a finalidade da avareza e da ambição, da perseguição de riqueza, do poder e da proeminência? Satisfazer as necessidades da natureza? O salário do mais humilde trabalhador pode satisfazê-las. Quais serão então as vantagens desse grande objectivo da vida humana a que chamamos melhorar a nossa condição?
Ser observado, ser correspondido, ser notado com simpatia, complac√™ncia e aprova√ß√£o, s√£o tudo vantagens que podemos propor-nos retirar da√≠. O homem rico compraz-se na sua riqueza porque sente que ela faz recair as aten√ß√Ķes do mundo sobre si. O homem pobre, pelo contr√°rio, envergonha-se da sua pobreza. Sente que ela o coloca fora do horizonte dos seus semelhantes. Sentir que n√£o somos notados representa necessariamente uma desilus√£o para os desejos mais candentes da natureza humana. O homem pobre sai e volta a entrar despercebido, e permanece na mesma obscuridade seja no meio de uma multid√£o seja no recato do seu covil. O homem de n√≠vel e distin√ß√£o, pelo contr√°rio, √© visto por todo o mundo. Toda a gente anseia por v√™-lo. As suas ac√ß√Ķes s√£o objecto de aten√ß√Ķes p√ļblicas. Raro ser√° o gesto, rara a palavra que ele deixe escapar que passe despercebida.

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N√£o Ser√° Tempo de Voltarmos aos Sentidos?

N√£o somos apenas o nosso corpo, estamos tamb√©m integrados num corpus social, que solicita, expande e reprime a nossa sensibilidade. Basta ouvir aquele que foi o maior te√≥rico da comunica√ß√£o do s√©culo XX, Marshall McLuhan, para perceber at√© que ponto isso √© aproveitado pela sociedade de comunica√ß√£o global, para quem o indiv√≠duo passa a ser uma presa. O que diz McLuhan sobre a televis√£o, por exemplo, √© imensamente elucidativo: ¬ęUm dos efeitos da televis√£o √© retirar a identidade pessoal. S√≥ por ver televis√£o, as pessoas tornam-se num grupo coletivo de iguais. Perdem o interesse pela singularidade pessoal.¬Ľ Se repararmos, os meios que lideram a comunica√ß√£o humana contempor√Ęnea (da televis√£o ao telefone, do e-mail √†s redes sociais) interagem apenas com aqueles dos nossos sentidos que captam sinais √† dist√Ęncia: fundamentalmente a vis√£o e a audi√ß√£o. Origina-se assim uma descontrolada hipertrofia dos olhos e ouvidos, sobre os quais passa a recair toda a responsabilidade pela participa√ß√£o no real. ¬ęViste aquilo?¬Ľ, ¬ęj√° ouviste a √ļltima do…¬Ľ: os nossos quotidianos s√£o continuamente bombardeados pela press√£o do ver e do ouvir. O mesmo se passa com a locomo√ß√£o: seja a pilotar um avi√£o, a conduzir um autom√≥vel, ou seja o pe√£o a deslocar-se nas art√©rias das cidades modernas,

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A Melhor Máquina fica aquém do Homem mais Embrutecido

Pode-se de facto conceber que uma m√°quina seja feita de tal forma que profira palavras e at√© que profira algumas a respeito das ac√ß√Ķes corporais que provocar√£o alguma mudan√ßa nos seus √≥rg√£os; de tal forma que, se for tocada nalgum lugar, ela pergunte o que lhe querem dizer, se tocada noutro, ela grite que a est√£o a magoar e coisas semelhantes; mas n√£o conseguir√° organiz√°-las diversamente para corresponder ao sentido de tudo o que for dito na sua presen√ßa, como os homens mais embrutecidos podem fazer.

O Amor-Próprio como Fonte de Todos os Males

√Č preciso n√£o confundir o amor-pr√≥prio e o amor de si mesmo, duas paix√Ķes muito diferentes pela sua natureza e pelos seus efeitos. O amor de si mesmo √© um sentimento natural que leva todo o animal a velar pela sua pr√≥pria conserva√ß√£o, e que, dirigido no homem pela raz√£o e modificado pela piedade, produz a humanidade e a virtude. O amor-pr√≥prio √© apenas um sentimento relativo, fact√≠cio e nascido na sociedade, que leva cada indiv√≠duo a fazer mais caso de si do que de qualquer outro, que inspira aos homens todos os males que se fazem mutuamente, e que √© a verdadeira fonte da honra.
Bem entendido isso, repito que, no nosso estado primitivo, no verdadeiro estado de natureza, o amor-pr√≥prio n√£o existe; porque, cada homem em particular olhando a si mesmo como o √ļnico espectador que o observa, como o √ļnico ser no universo que toma interesse por ele, como o √ļnico juiz do seu pr√≥prio m√©rito, n√£o √© poss√≠vel que um sentimento que teve origem em compara√ß√Ķes que ele n√£o √© capaz de fazer possa germinar na sua alma.
Pela mesma raz√£o, esse homem n√£o poderia ter √≥dio nem desejo de vingan√ßa, paix√Ķes que s√≥ podem nascer da opini√£o de alguma ofensa recebida.

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O Perigo da Leitura Excessiva

Quando lemos, outra pessoa pensa por n√≥s: repetimos apenas o seu processo mental. Ocorre algo semelhante quando o estudante que est√° a aprender a escrever refaz com a pena as linhas tra√ßadas a l√°pis pelo professor. Sendo assim, na leitura, o trabalho de pensar √©-nos subtra√≠do em grande parte. Isso explica o sens√≠vel al√≠vio que experimentamos quando deixamos de nos ocupar com os nossos pensamentos para passar √† leitura. Por√©m, enquanto lemos, a nossa cabe√ßa, na realidade, n√£o passa de uma arena dos pensamentos alheios. E quando estes se v√£o, o que resta? Essa √© a raz√£o pela qual quem l√™ muito e durante quase o dia inteiro, mas repousa nos intervalos, passando o tempo sem pensar, pouco a pouco perde a capacidade de pensar por si mesmo – como algu√©m que sempre cavalga e acaba por desaprender a caminhar. Tal √© a situa√ß√£o de muitos eruditos: √† for√ßa de ler, estupidificaram-se. Pois ler constantemente, retomando a leitura a cada instante livre, paralisa o esp√≠rito mais do que o trabalho manual cont√≠nuo, visto que, na execu√ß√£o deste √ļltimo, √© poss√≠vel entregar-se aos seus pr√≥prios pensamentos.
No entanto, como uma mola que, pela press√£o constante acarretada por meio de um corpo estranho,

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Amor Desmistificado

O sentimento de um homem apaixonado produz por vezes efeitos c√≥micos ou tr√°gicos, porque em ambos os casos, √© dominado pelo esp√≠rito da esp√©cie que o domina ao ponto de o arrancar a si pr√≥prio; os seus actos n√£o correspondem √† sua individualidade. Isto explica, nos n√≠veis superiores do amor, essa natureza t√£o po√©tica e sublimadora que caracteriza os seus pensamentos, essa eleva√ß√£o transcendente e hiperf√≠sica, que parece faz√™-lo afastar da finalidade meramente f√≠sica do seu amor. √Č porque o impelem ent√£o o g√©nio da esp√©cie e os seus interesses superiores.
Recebeu a miss√£o de iniciar uma s√©rie indefinida de gera√ß√Ķes dotadas de determinadas caracter√≠sticas e constitu√≠das por certos elementos que s√≥ se podem encontrar num √ļnico pai e numa √ļnica m√£e; s√≥ essa uni√£o pode dar exist√™ncia √† gera√ß√£o determinada que a objectiva√ß√£o da vontade expressamente exige. O sentimento que o amante tem de agir em circunst√Ęncias de semelhantes transcend√™ncia, eleva-o de tal modo sobre as coisas terrestres e mesmo acima de si pr√≥prio, e tranforma-lhe os desejos f√≠sicos numa apar√™ncia de tal modo suprasens√≠vel, que o amor √© um acontecimento po√©tico, mesmo na exist√™ncia do homem mais prosaico, o que o faz cair por vezes em rid√≠culo.

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Tremo Sempre Diante do Amor

Nadia, deves ter visto a falta de jeito com que no √ļltimo momento te pedi o n√ļmero do telefone e este endere√ßo de correio eletr√≥nico para onde te escrevo, e deves ter-te apercebido tamb√©m da peregrina desculpa: os dois sabemos que podes conseguir de mil outras maneiras diferentes 05 livros que fiquei de te emprestar. H√°-os em muitos lados. Toda a gente os tem. Pode at√© acontecer que j√° fa√ßam parte da tua biblioteca h√° anos e que neste momento estejas a olhar as suas lombadas da cadeira onde est√°s sentada enquanto me l√™s; e tamb√©m pode acontecer, na realidade n√£o me admiraria nada, que seja eu quem n√£o os tem nem os teve nunca. Durante o jantar n√£o conseguia tirar os olhos de ti, mas isso j√° tu sabes. Perante isso, apenas posso esperar que o resto dos comensais, especialmente os teus amigos, n√£o se tenham apercebido de at√© que ponto me eram indiferentes as restantes pessoas e conversas. Como viste, tenho j√° um longo caminho percorrido. Sou um homem com passado, como se costuma dizer, embora isso n√£o fa√ßa com que seja mais f√°cil para mim escrever uma carta como esta. Porque isto √© uma carta, n√£o √© verdade?

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O Ideal da Amizade

A camaradagem, o companheirismo, √†s vezes, parecem amizade. Os interesses comuns por vezes criam situa√ß√Ķes humanas que s√£o semelhantes √† amizade. E as pessoas tamb√©m fogem da solid√£o, entrando em todo o tipo de intimidades de que, a maior parte das vezes, se arrependem, mas durante algum tempo podem estar convencidas de que essa intimidade √© uma esp√©cie de amizade. Naturalmente, nesses casos n√£o se trata de verdadeira amizade. Uma pessoa imagina que a amizade √© um servi√ßo. O amigo, assim como o namorado, n√£o espera recompensa pelos seus sentimentos. N√£o quer contrapartidas, n√£o considera a pessoa que escolheu para ser seu amigo como uma criatura irreal, conhece os seus defeitos e assim o aceita, com todas as suas consequ√™ncias. Isso seria o ideal.

Perdoar e Esquecer

Perdoar e esquecer equivale a jogar pela janela experi√™ncias adquiridas com muito custo. Se uma pessoa com quem temos liga√ß√£o ou conv√≠vio nos faz algo de desagrad√°vel ou irritante, temos apenas de nos perguntar se ela nos √© ou n√£o valiosa o suficiente para aceitarmos que repita segunda vez e com frequ√™ncia semelhante tratamento, e at√© de maneira mais grave. Em caso afirmativo, n√£o h√° muito a dizer, porque falar ajuda pouco. Temos, portanto, de deixar passar essa ofensa, com ou sem reprimenda; todavia, devemos saber que agindo assim estaremos a expor-nos √† sua repeti√ß√£o. Em caso negativo, temos de romper de modo imediato e definitivo com o valioso amigo ou, se for um servente, dispens√°-lo. Pois, quando a situa√ß√£o se repetir, ser√° inevit√°vel que ele fa√ßa exactamente a mesma coisa, ou algo inteiramente an√°logo, apesar de, nesse momento, nos assegurar o contr√°rio de modo profundo e sincero. Pode-se esquecer tudo, tudo, menos a si mesmo, menos o pr√≥prio ser, pois o car√°cter √© absolutamente incorrig√≠vel e todas as ac√ß√Ķes humanas brotam de um princ√≠pio √≠ntimo, em virtude do qual, o homem, em circunst√Ęncias iguais, tem sempre de fazer o mesmo, e n√£o o que √© diferente. (…) Por conseguinte,

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O Perigo nas Rela√ß√Ķes Humanas

Nas rela√ß√Ķes humanas o perigo √© coisa de todos os dias. Deves precaver-te bem contra este perigo, deves estar sempre de olhos bem abertos: n√£o h√° nenhum outro t√£o frequente, t√£o constante, t√£o enganador! A tempestade amea√ßa antes de rebentar, os edif√≠cios estalam antes de cair por terra, o fumo anuncia o inc√™ndio pr√≥ximo: o mal causado pelo homem √© s√ļbito e disfar√ßa-se com tanto mais cuidado quanto mais pr√≥ximo est√°. Fazes mal em confiar na apar√™ncia das pessoas que se te dirigem: t√™m rosto humano, mas instintos de feras. S√≥ que nestas apenas o ataque directo √© perigoso; se nos passam adiante n√£o voltam atr√°s √† nossa procura. Ali√°s, somente a necessidade as instiga a fazer mal; a fome ou o medo √© que as for√ßam a lutar. O homem, esse, destr√≥i o seu semelhante por prazer. Tu, contudo, pensando embora nos perigos que te podem vir do homem, pensa tamb√©m nos teus deveres enquanto homem. Evita, por um lado, que te fa√ßam mal, evita, por outro, que fa√ßas tu mal a algu√©m. Alegra-te com a satisfa√ß√£o dos outros, comove-te com os seus dissabores, nunca te esque√ßas dos servi√ßos que deves prestar, nem dos perigos a evitar. Que ganhar√°s tu vivendo segundo esta norma?

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Ser Devasso é Pior do que não Ter Domínio de Si

Uma vez que alguns prazeres s√£o necess√°rios e outros n√£o s√£o, e s√£o necess√°rios apenas at√© certo ponto, sem admitir excesso nem defeito, e uma vez que o mesmo se passa com os desejos e os sofrimentos necess√°rios, – devasso √© quem persegue o excesso no prazer ou prazeres excessivos, e, na verdade, quando os persegue por decis√£o pr√≥pria em vista do excesso e n√£o de qualquer outra consequ√™ncia da√≠ resultante. √Č for√ßoso que algu√©m deste g√©nero n√£o tenha nenhuma disposi√ß√£o natural para se arrepender do que faz, de tal sorte que √© incur√°vel. Pois, na verdade, quem for capaz de se arrepender pode ser curado. Quem n√£o sente falta nenhuma [destes prazeres] √© o oposto do devasso. Mas quem se encontrava na disposi√ß√£o interm√©dia √© temperado. De modo semelhante [devasso] √© tamb√©m quem foge aos sofrimentos do corpo [causados pela insatisfa√ß√£o do desejo], n√£o por lhes sucumbir, mas por uma decis√£o tomada pelo pr√≥prio.
Há também os que não chegam a tomar nenhuma decisão. Estes são obrigados a perseguir o prazer, e a procurar escapar ao sofrimento causado pelo desejo insatisfeito. Há assim diferenças entre esses dois modos de ceder ao prazer ora por uma decisão tomada ou sem decisão prévia.

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Bem Supremo e Raz√£o

Quando a experi√™ncia me ensinou que os acontecimentos ordin√°rios da vida s√£o f√ļteis e v√£os e me apercebi de que tudo que era para mim causa ou objecto de receio n√£o tem em si mesmo nada de bom ou de mau, a n√£o ser na medida da como√ß√£o que excita na alma, resolvi, finalmente, indagar se existia um bem verdadeiro e suscept√≠vel de se comunicar, qualquer coisa enfim cuja descoberta e posse me trouxessem para sempre um j√ļbilo continuo e soberano.
(…) O que nos ocupa mais frequentemente na vida e que os homens, como pode concluir-se dos seus actos, consideram ser o bem supremo pode reduzir-se a três coisas: riqueza, fama, prazer dos sentidos.
Ora cada um deles distrai o espírito de tal modo que mal pode pensar noutro bem. (…)
РPelo prazer sensual se detém a alma como se repousasse num bem verdadeiro, o que a impede em absoluto de pensar noutra coisa; após o prazer vem a extrema tristeza, que, se não suspende o pensamento, perturba e embota. A busca da fama e da riqueza não absorve menos o espírito, sobretudo quando a riqueza é desejada por si mesma, conferindo-lhe, então, a categoria de bem supremo.

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Atenção aos Detalhes do Comportamento dos Outros

Devemos ter muito cuidado para n√£o emitir uma opini√£o demasiado favor√°vel de um homem que acabamos de conhecer; pelo contr√°rio, na maioria das vezes, seremos desiludidos, para nossa pr√≥pria vergonha ou at√© para nosso dano. A esse respeito, uma senten√ßa de S√©neca merece ser mencionada: Podem-se obter provas da natureza de um car√°cter tamb√©m a partir de miudezas. Justamente nestas √© que o homem, quando n√£o se procura conter, √© que revela o seu car√°cter. Nas ac√ß√Ķes mais insignificantes, em simples maneiras, pode-se ami√ļde observar o seu ego√≠smo ilimitado, sem a menor considera√ß√£o para com os outros e que, em seguida, embora dissimulado, n√£o se desmente nas grandes coisas.
N√£o se deve perder semelhante oportunidade. Quando algu√©m procede sem considera√ß√£o nos pequenos acontecimentos e circunst√Ęncias da vida di√°ria, intentando obter vantagens ou comodidade, em preju√≠zo de outrem, nas coisas em que se aplica a m√°xima de a lei n√£o se ocupa com ninharias, ou ainda apropriando-se do que existe para todos, etc., podemos convencer-nos de que no cora√ß√£o de tal indiv√≠duo n√£o reside justi√ßa alguma; ele ser√° um patife tamb√©m nas grandes situa√ß√Ķes, caso as suas m√£os n√£o sejam atadas pela lei e pela autoridade. N√£o lhe permitamos, pois,

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Saber Terminar uma Amizade Indesej√°vel

Sucede, tamb√©m, como por calamidade, que algumas vezes √© necess√°rio romper uma amizade: porque passo agora das amizades dos s√°bios √†s liga√ß√Ķes vulgares. Muitas vezes quando os v√≠cios se revelam num homem, os seus amigos s√£o as suas v√≠timas como todos os outros: contudo √© sobre eles que recai a vergonha. √Č preciso, pois, desligar-se de tais amizades ‚ÄĒ, afrouxando o la√ßo pouco a pouco e, como ouvi dizer a Cat√£o, √© necess√°rio descoser antes que despeda√ßar, a menos que se n√£o haja produzido um esc√Ęndalo de tal modo intoler√°vel, que n√£o fosse nem justo nem honesto, nem mesmo poss√≠vel, deixar de romper imediatamente.

Mas se o car√°cter e os gostos vierem a mudar, o que acontece muitas vezes; se algum dissentimento pol√≠tico separar dois amigos (n√£o falo mais, repito-o, das amizades dos s√°bios, mas das afei√ß√Ķes vulgares), √© preciso tomar cuidado em, desfazendo a amizade, n√£o a substituir logo pelo √≥dio. Nada mais vergonhoso, com efeito, que estar em guerra com aquele que se amou por muito tempo.
(…) Apliquemo-nos, pois, antes de tudo, em afastar toda a causa de ruptura: se contudo, acontecer alguma, que a amizade pare√ßa antes extinta do que estrangulada. Temamos sobretudo que ela n√£o se transforme em √≥dio violento,

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A Intimidade na Amizade

Se dois homens ou duas mulheres t√™m de partilhar por algum tempo o mesmo espa√ßo (em viagem, numa carruagem-cama ou numa pens√£o superlotada), n√£o √© raro nascerem nessas situa√ß√Ķes amizades muito singulares. Cada um tem a sua maneira especial de lavar os dentes, de se curvar para descal√ßar os sapatos ou de encolher as pernas para dormir. A roupa interior, e o resto do vestu√°rio, embora semelhantes, revelam, no pormenor, in√ļmeras pequenas diferen√ßas a um olhar atento. A princ√≠pio – provavelmente devido ao individualismo excessivo do modo de vida actual – existe qualquer coisa como uma resist√™ncia semelhante a uma leve repugn√Ęncia e que rejeita uma aproxima√ß√£o maior, uma ofensa contra a pr√≥pria personalidade, at√© ao momento em que essa resist√™ncia √© superada para dar lugar a uma comunidade que revela uma estranha origem, como uma cicatriz. Muitas pessoas mostram-se, depois de uma tal transforma√ß√£o, mais alegres do que normalmente s√£o; a maior parte mais inofensivas; uma boa parte delas mais faladoras; e quase todas mais am√°veis. A sua personalidade mudou, quase se poderia dizer que foi trocada, subcutaneamente, por outra, menos marcada: no lugar do eu surge o primeiro ind√≠cio de um n√≥s, claramente sentido como um mal-estar e uma diminui√ß√£o,

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