Textos sobre Estilo

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Textos de estilo escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

O Cerne da Escrita e da Leitura

Não se é escritor por se ter preferido dizer certas coisas, mas por se ter preferido dizê-las duma certa maneira. E o estilo faz, evidentemente, o valor da prosa. Mas deve passar despercebido. Uma vez que as palavras são transparentes e que o olhar as atravessa, seria absurdo meter entre elas vidros despolidos. Aqui, a beleza é apenas uma força doce e insensível.
Num quadro, brilha antes de mais nada; num livro, esconde-se, age por persuas√£o como o encanto duma voz ou dum rosto, n√£o obriga, faz curvar sem que se d√™ por isso e pensa-se ceder aos argumentos quando afinal se √© solicitado por um encanto impercept√≠vel. A cerim√≥nia da missa n√£o √© a f√©, ela disp√Ķe a isso; a harmonia das palavras, a sua beleza, o equil√≠brio das frases, disp√Ķem as paix√Ķes do leitor sem que ele d√™ por isso, ordenam-nas como a missa, como a m√ļsica, como uma dan√ßa; se acaba por as considerar em si mesmas, perde o sentido, apenas restam oscila√ß√Ķes aborrecidas.

Dói-me a Vida aos Poucos

Estou num daqueles dias em que nunca tive futuro. H√° s√≥ um presente im√≥vel com um muro de ang√ļstia em torno. A margem de l√° do rio nunca, enquanto √© a de l√°, √© a de c√°, e √© esta a raz√£o intima de todo o meu sofrimento. H√° barcos para muitos portos, mas nenhum para a vida n√£o doer, nem h√° desembarque onde se esque√ßa. Tudo isto aconteceu h√° muito tempo, mas a minha m√°goa √© mais antiga.
Em dias da alma como hoje eu sinto bem, em toda a consciência do meu corpo, que sou a criança triste em quem a vida bateu. Puseram-me a um canto de onde se ouve brincar. Sinto nas mãos o brinquedo partido que me deram por uma ironia de lata. Hoje, dia catorze de Março, às nove horas e dez da noite, a minha vida sabe a valer isto.
No jardim que entrevejo pelas janelas caladas do meu sequestro, atiraram com todos os balouços para cima dos ramos de onde pendem; estão enrolados muito alto, e assim nem a ideia de mim fugido pode, na minha imaginação, ter balouços para esquecer a hora.
Pouco mais ou menos isto, mas sem estilo,

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O Saber Ajuda em Todas as Actividades

O mero fil√≥sofo √© geralmente uma personalidade pouco admis¬≠s√≠vel no mundo, pois sup√Ķe-se que ele em nada contribui para o be¬≠nef√≠cio ou para o prazer da sociedade, porquanto vive distante de toda comunica√ß√£o com os homens e envolto em princ√≠pios e no√ß√Ķes igualmente distantes de sua compreens√£o. Por outro lado, o mero ig¬≠norante √© ainda mais desprezado, pois n√£o h√° sinal mais seguro de um esp√≠rito grosseiro, numa √©poca e uma na√ß√£o em que as ci√™ncias florescem, do que permanecer inteiramente destitu√≠do de toda esp√©cie de gosto por estes nobres entretenimentos. Sup√Ķe-se que o car√°cter mais perfeito se encontra entre estes dois extremos: conserva igual capacidade e gosto para os livros, para a sociedade e para os neg√≥cios; mant√©m na conversa√ß√£o discernimento e delicadeza que nascem da cultura liter√°ria; nos neg√≥cios, a probidade e a exatid√£o que resultam naturalmente de uma filosofia conveniente. Para difundir e cultivar um car√°cter t√£o aperfei√ßoado, nada pode ser mais √ļtil do que as com¬≠posi√ß√Ķes de estilo e modalidade f√°ceis, que n√£o se afastam em demasia da vida, que n√£o requerem, para ser compreendidas, profunda apli¬≠ca√ß√£o ou retraimento e que devolvem o estudante para o meio de homens plenos de nobres sentimentos e de s√°bios preceitos,

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O Subjectivo é Objectivo, e o Objectivo é Subjectivo

Assaz dif√≠cil √© decidir o que seja objectivamente a verdade, mas, no trato com os homens, n√£o h√° que se deixar aterrorizar por isso. Existem crit√©rios que para o primeiro s√£o suficientes. Um dos mais seguros consiste em objectar a algu√©m que uma asser√ß√£o sua √© “demasiado subjectiva”. Se se utilizar, e com aquela indigna√ß√£o em que ressoa a furiosa harmonia de todas as pessoas sensatas, ent√£o h√° motivo para se ficar alguns instantes em paz consigo. Os conceitos do subjectivo e objectivo inverteram-se por completo. Diz-se objectiva a parte incontroversa do fen√≥meno a sua ef√≠gie inquestionavelmente aceite, a fachada composta de dados classificados, portanto, o subjectivo; e denomina-se subjectivo o que tal desmorona, acede √† experi√™ncia espec√≠fica da coisa, se livra das opini√Ķes convencionais a seu respeito e instaura a rela√ß√£o com o objecto em substitui√ß√£o da decis√£o maiorit√°ria daqueles que nem sequer chegam a intu√≠-lo, e menos ainda a pens√°-lo – logo, o objectivo.
A futilidade da objecção formal da relatividade subjectiva patenteia-se no seu próprio terreno, o dos juízos estéticos. Quem alguma vez, pela força da sua precisa reacção em face da seriedade da disciplina de uma obra artística, se submete à sua lei formal imanente,

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A Hipocrisia do Amor ao Povo

Estes amam o povo, mas n√£o desejariam, por interesse do pr√≥prio amor, que sa√≠sse do passo em que se encontra; deleitam-se com a ingenuidade da arte popular, com o imperfeito pensamento, as supersti√ß√Ķes e as lendas; v√™em-se generosos e sens√≠veis quando se debru√ßam sobre a classe inferior e traduzem, na linguagem adamada, o que dela julgam perceber; √© muito interessante o animal que examinam, mas que n√£o tente o animal libertar-se da sua condi√ß√£o; estragaria todo o quadro, toda a equilibrada posi√ß√£o; em nome da est√©tica e de tudo o resto conv√©m que se mantenha.
H√° tamb√©m os que adoram o povo e combatem por ele mas pouco mais o julgam do que um meio; a meta a atingir √© o dom√≠nio do mesmo povo por que parecem sacrificar-se; bate-lhes no peito um cora√ß√£o de altos senhores; se vieram parar a este lado da batalha foi porque os acidentes os repeliram das trincheiras opostas ou aqui viram maneira mais segura de satisfazer o v√£o desejo de mandar; nestes n√£o encontraremos a frase preciosa, a afectada sensibilidade, o retoque liter√°rio; preferem o estilo de barricada; mas, como nos outros, √© o som do oco tambor ret√≥rico o √ļltimo que se ouve.

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O Estilo é um Reflexo da Vida

Qual a causa que provoca, em certas √©pocas, a decad√™ncia geral do estilo ? De que modo sucede que uma certa tend√™ncia se forma nos esp√≠ritos e os leva √† pr√°tica de determinados defeitos, umas vezes uma verborreia desmesurada, outras uma linguagem sincopada quase √† maneira de can√ß√£o? Porque √© que umas vezes est√° na moda uma literatura altamente fantasiosa para l√° de toda a verosimilhan√ßa, e outras a escrita em frases abruptas e com segundo sentido em que temos de subentender mais do que elas dizem? Porque √© que nesta ou naquela √©poca se abusa sem restri√ß√Ķes do direito √† met√°fora? Eis o rol dos problemas que me p√Ķes. A raz√£o de tudo isto √© t√£o bem conhecida que os Gregos at√© fizeram dela um prov√©rbio: o estilo √© um reflexo da vida! De facto, assim como o modo de agir de cada pessoa se reflecte no modo como fala, tamb√©m sucede que o estilo liter√°rio imita os costumes da sociedade sempre que a moral p√ļblica √© contestada e a sociedade se entrega a sofisticados prazeres. A corrup√ß√£o do estilo demonstra plenamente o estado de dissolu√ß√£o social, caso, evidentemente, tal estilo n√£o seja apenas a pr√°tica de um ou outro autor,

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A Moda

As varia√ß√Ķes da sensibilidade sob a influ√™ncia das modifica√ß√Ķes do meio, das necessidades, das preocupa√ß√Ķes, etc., criam um esp√≠rito p√ļblico que varia de uma gera√ß√£o para outra e mesmo muitas vezes no espa√ßo de uma gera√ß√£o. Esse esp√≠rito publico, rapidamente dilatado por contacto mental, determina o que se chama a moda. Ela √© um possante factor de propaga√ß√£o da maior parte dos elementos da vida social, das nossas opini√Ķes e das nossas cren√ßas.
Não é só o vestuário que se submete às suas vontades. O teatro, a literatura, a política, a arte, as próprias idéias científicas lhe obedecem, e é por isso que certas obras apresentam um fundo de semelhança que permite falar do estilo de uma época.
Em virtude da sua acção inconsciente, submetemo-nos à moda sem que o percebamos. Os espíritos mais independentes a ela não se podem subtrair. São muito raros os artistas, os escritores que ousam produzir uma obra muito diferente das ideias do dia.
A influência da moda é tão pujante que ela obriga-nos, por vezes, a admirar coisas sem interesse e que parecerão mesmo de uma fealdade extrema, alguns anos mais tarde. O que nos impressiona numa obra de arte é muito raramente a obra em si mesma,

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Virtudes Ociosas e Bolorentas

Mais que amor, dinheiro e fama, dai-me a verdade. Sentei-me a uma mesa onde a comida era fina, os vinhos abundantes e o serviço impecável, mas onde faltavam sinceridade e verdade, e com fome me fui embora do inóspito recinto. A hospitalidade era fria como os sorvetes. Pensei que nem havia necessidade de gelo para conservá-los. Gabaram-me a idade do vinho e a fama da safra, mas eu pensava num vinho muito mais velho, mais novo e mais puro, de uma safra mais gloriosa, que eles não tinham e nem sequer podiam comprar.
O estilo, a casa com o terreno em volta e o ¬ęentretenimento¬Ľ n√£o representam nada para mim. Visitei o rei, mas ele deixou-me √† espera no vest√≠bulo, comportando-se como um homem incapaz de hospitalidade. Na minha vizinhan√ßa havia um homem que morava no oco de uma √°rvore e cujas maneiras eram r√©gias. Teria feito bem melhor visitando-o a ele.

A Desordem da Minha Natureza

(…) enfrentei pela primeira vez o meu ser natural enquanto decorriam os meus noventa anos. Descobri que a minha obsess√£o de que cada coisa estivesse no seu lugar, cada assunto no seu tempo, cada palavra no seu estilo, n√£o era o pr√©mio merecido de uma mente ordenada mas, pelo contr√°rio, um sistema completo de simula√ß√£o inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza. Descobri que n√£o sou disciplinado por virtude, mas como reac√ß√£o contra a minha neglig√™ncia; que pare√ßo generoso para encobrir a minha mesquinhez, que passo por prudente por ser pessimista, que sou conciliador para n√£o sucumbir √†s minhas c√≥leras reprimidas, que s√≥ sou pontual para que n√£o se saiba que pouco me importa o tempo alheio. Descobri, por fim, que o amor n√£o √© um estado de alma mas um signo do Zod√≠aco.

A Certeza Entra Com Vigor

Quem quer defender o falso tem motivo suficiente para entrar com mansidão e apresentar-se como defensor de um estilo refinado de vida. Quem sente que está do lado certo tem que entrar com vigor. Uma certeza com boas maneiras é coisa que não faz sentido.

O Objectivo da Arte não é Ser Compreensível

Toda a arte é expressão de qualquer fenómeno psíquico. A arte, portanto, consiste na adequação, tão exacta quanto caiba na competência artística do fautor, da expressão à cousa que quer exprimir. De onde se deduz que todos os estilos são admissíveis, e que não há estilo simples nem complexo, nem estilo estranho nem vulgar.
H√° ideias vulgares e ideias elevadas, h√° sensa√ß√Ķes simples e sensa√ß√Ķes complexas; e h√° criaturas que s√≥ t√™m ideias vulgares, e criaturas que muitas vezes t√™m ideias elevadas. Conforme a ideia, o estilo, a express√£o. N√£o h√° para a arte crit√©rio exterior. O fim da arte n√£o √© ser compreens√≠vel, porque a arte n√£o √© a propaganda pol√≠tica ou imoral.

Somos Iguais Hoje ao que Fomos Outrora

РEu também aprecio os livros de História. Ensinam-nos que, basicamente, somos iguais hoje ao que fomos outrora. Pode haver diferenças insignificantes em termos de vestuário e de estilo de vida, mas não há grande diferença no que pensamos e fazemos. No fundo, os seres humanos não passam de veículos, ou locais de passagem, para os genes. De geração em geração, correm dentro de nós até nos esgotarem, como cavalos de corrida. Os genes não pensam no bem e no mal. Não querem saber se somos felizes ou infelizes. Para eles, não passamos de um meio para atingir um fim. Só pensam no que é mais eficaz do seu ponto de vista.
РApesar de tudo, não conseguimos deixar de pensar no bem e no mal. Não é o que está a dizer?
A senhora anuiu.
– Precisamente. As pessoas ¬ęt√™m¬Ľ de pensar nessas coisas. Mas os genes s√£o o que controla a base da forma como vivemos. Como √© natural, as contradi√ß√Ķes surgem.

Um Cérebro Sempre Jovem

A sociedade est√° a ser varrida por um movimento chamado nova velhice. A norma social para as pessoas de idade era passiva e sombria; confinadas a cadeiras de baloi√ßo, esperava-se que entrassem em decl√≠nio f√≠sico e mental. Agora o inverso √© verdade. As pessoas mais velhas t√™m expetativas mais elevadas de que permanecer√£o ativas e com vitalidade. Consequentemente, a defini√ß√£o de velhice mudou. Num inqu√©rito perguntou-se a uma amostra de baby boomers: “Quando tem in√≠cio a velhice?” A resposta m√©dia foi aos 85. √Ä medida que aumentam as expetativas, o c√©rebro deve claramente manter-se a par e adaptar-se √† nova velhice. A antiga teoria do c√©rebro fixo e estagnado sustentava ser inevit√°vel um c√©rebro que envelhecesse. Supostamente as c√©lulas cerebrais morriam continuamente ao longo do tempo √† medida que uma pessoa envelhecia, e a sua perda era irrevers√≠vel.

Agora que compreendemos qu√£o flex√≠vel e din√Ęmico √© o c√©rebro, a inevitabilidade da perda celular j√° n√£o √© v√°lida. No processo de envelhecimento ‚ÄĒ que progride √† raz√£o de 1% ao ano depois dos trinta anos de idade ‚ÄĒ n√£o h√° duas pessoas que envelhe√ßam de maneira igual. At√© os g√©meos id√™nticos, nascidos com os mesmos genes, ter√£o muito diferentes padr√Ķes de atividade gen√©tica aos setenta anos,

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Para um Grande Espírito Nada há que Seja Grande

Evitai tudo quanto agrade ao vulgo, tudo quanto o acaso proporciona; diante de qualquer bem fortuito parai com desconfian√ßa e receio: tamb√©m a ca√ßa ou o peixe se deixa enganar por esperan√ßas falacciosas. Julgais que se trata de benesses da sorte? S√£o armadilhas! Quem quer que deseje passar a vida em seguran√ßa evite quanto possa estes benef√≠cios escorregadios nos quais, pobres de n√≥s, at√© nisto nos enganamos: ao julgar possu√≠-los, deixamo-nos apanhar! Esta corrida leva-nos para o abismo; a √ļnica sa√≠da para uma vida ¬ęelevada¬Ľ, √© a queda!
E mais: nem sequer poderemos parar quando a fortuna começa a desviar-nos da rota certa, nem ao menos ir a pique, cair instantaneamente: não, a fortuna não nos faz tropeçar, derruba-nos, esmaga-nos.
Prossegui, pois, um estilo de vida correcto e saud√°vel, comprazendo o corpo apenas na medida do indispens√°vel √† boa sa√ļde. Mas h√° que trat√°-lo com dureza, para ele obedecer sem custo ao esp√≠rito: limite-se a comida a matar a fome, a bebida a extinguir a sede, a roupa a afastar o frio, a casa a servir de abrigo contra as intemp√©ries. Que a habita√ß√£o seja feita de ramos ou de pedras coloridas importadas de longe, √© pormenor sem interesse: ficai sabendo que para abrigar um homem t√£o bom √© o colmo como o ouro!

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Somos Uma Surpresa Para Nós Próprios

Como ser√£o em privado as pessoas que conhecemos? Quanta surpresa se o soub√©ssemos. Porque n√≥s, instintivamente, tendemos a julg√°-las id√™nticas dentro e fora de si. Mas o que somos por fora √© o que aceitamos que o seja e √© o que os outros estabeleceram. Tal fanfarr√£o na pra√ßa p√ļblica pode ser um chilro piegas quando l√° n√£o est√° ou um medricas quando a coisa √© a s√©rio (N√£o dizia Arist√≥teles que os grandes atletas eram maus soldados?). Ou inversamente. O que aceita para si a imagem exterior de um mole, de um t√≠bio, de um encolhido de comportamento – no interior de si, e quando for caso disso, pode ser um obstinado de dente rilhado. H√° um estilo de se ser que se adopta por conven√ß√£o generalizada, orienta√ß√£o de uma √©poca, obriga√ß√£o protocolar no modo de nos manifestarmos.
(…) As regras de comportamento em grandezas chegam s√≥ √† porta da rua ou ao menos da do quarto ou seguramente √† da casa de banho. E da√≠ para dentro, vale tudo, ou seja a regra somos n√≥s. E √© ent√£o que sabemos quem somos ou quem √© aquele que consentimos que seja ou em que medida respeitamos em n√≥s o que respeitamos nos outros.

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A Aprendizagem da Apreciação da Poesia

Pode-se dizer que toda a poesia parte das emo√ß√Ķes experimentadas pelos seres humanos nas rela√ß√Ķes consigo pr√≥prios, uns com os outros, com entes divinos e com o mundo √† sua volta; por isso, ocupa-se tamb√©m do pensamento e da ac√ß√£o que a emo√ß√£o provoca, e de que a emo√ß√£o resulta. Todavia, por mais primitiva que seja a fase de express√£o e de aprecia√ß√£o, a fun√ß√£o da poesia nunca pode ser unicamente despertar estas mesmas emo√ß√Ķes no audit√≥rio do poeta.
Na poesia mais primitiva, ou na frui√ß√£o mais rudimentar da poesia, a aten√ß√£o do ouvinte dirige-se para o assunto; o efeito da arte po√©tica sente-se sem o ouvinte estar totalmente c√īnscio desta arte. Com o desenvolvimento da consci√™ncia da linguagem h√° outra fase em que o ouvinte, que pode nessa altura ter-se transformado no leitor, est√° consciente de um duplo interesse numa hist√≥ria por si pr√≥pria e no modo como √© contada: isto √©, torna-se consciente do estilo. Ent√£o podemos sentir deleite na discrimina√ß√£o entre os modos como diferentes poetas tratar√£o o mesmo assunto; uma aprecia√ß√£o que n√£o √© simplesmente de melhor ou pior, mas de diferen√ßas entre estilos que s√£o igualmente admirados. Numa terceira fase de desenvolvimento, o assunto pode recuar para √ļltimo plano: em vez de ser o prop√≥sito do poema,

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Escutar o Nosso Corpo

O equil√≠brio √© a base da sa√ļde. Embora seja indiscut√≠vel que uma dieta rica em vitaminas, o exerc√≠cio f√≠sico e a medita√ß√£o s√£o essenciais para uma vida saud√°vel, n√£o existe uma f√≥rmula universal que se aplique a todos os casos. Precisamos de prestar aten√ß√£o ao corpo, √† mente e ao cora√ß√£o singulares que existem em cada um de n√≥s para descobrirmos as nossas necessidades espec√≠ficas. A verdadeira sa√ļde cresce connosco e transforma-se ao longo do tempo. Manter o estado natural de equil√≠brio f√≠sico e emocional √© fundamental para atingirmos um n√≠vel de consci√™ncia superior.
Escutar o nosso corpo √© o primeiro passo para alcan√ßarmos a sa√ļde integral e identificar o nosso bi√≥tipo e tend√™ncias emocionais – os doshas – √© um excelente come√ßo. A partir do momento em que nos consciencializamos das nossas necessidades f√≠sicas podemos adequar dietas e programas de exerc√≠cio √† nossa medida. A verdadeira sa√ļde n√£o se exprime atrav√©s de uma defini√ß√£o gen√©iica mas sim de um equil√≠brio distinto de predisposi√ß√Ķes gen√©ticas, comportamentos adquiridos, idade e perce√ß√Ķes.

Subestimamos com alguma frequ√™ncia a import√Ęncia de uma boa noite de sono. As distra√ß√Ķes induzidas pelo ego -listas de tarefas pendentes, problemas financeiros, crises familiares e medos –

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Pensar o Meu País

Pensar o meu pa√≠s. De repente toda a gente se p√īs a um canto a meditar o pa√≠s. Nunca o t√≠nhamos pensado, pens√°ramos apenas os que o governavam sem pensar. E de s√ļbito foi isto. Mas para se chegar ao pa√≠s tem de se atravessar o espesso nevoeiro da mediocralhada que o infestou. Ser√° que a democracia exige a mediocridade? Mas os povos civilizados dizem que n√£o. N√≥s √© que temos um estilo de ser med√≠ocres. N√£o √© quest√£o de se ser ignorante, incompetente e tudo o mais que se pode acrescentar ao estado em bruto. N√£o √© quest√£o de se ser est√ļpido. Temos saber, temos intelig√™ncia. A quest√£o √© s√≥ a do equil√≠brio e harmonia, a quest√£o √© a do bom senso. H√° um modo profundo de se ser que fica vivo por baixo de todas as cataplasmas de verniz que se lhe aplicarem. H√° um modo de se ser grosseiro, sem ao menos se ter o rasgo de assumir a grosseria. E o resultado √© o rid√≠culo, a f√≠fia, a ¬ęfuga do p√© para o chinelo¬Ľ. O Espanhol √© um ¬ęb√°rbaro¬Ľ, mas assume a barbaridade. N√≥s somos uns camp√≥nios com a obsess√£o de parecermos civilizados. O Franc√™s √© um ser artificioso,

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O Substrato Afectivo Eterno

A familiaridade com um autor é a adesão ao mundo por ele criado. Podemos esquecer Рe esquecemos Рas subtilezas de estilo, o virtuosismo da composição, mas perdura por anos e anos, e às vezes para sempre, uma certa personagem, um certo lance, uma frase que nos faz estremecer, pois é predominantemente a este nível que um texto revela a sua comunicabilidade essencial. Isto é: a estima por um autor resulta sobretudo de ingredientes que nos impressionaram a sensibilidade, o que equivale a dizer: o privilégio de durar na memória dos homens tem, em regra, um substrato afectivo.

Não Tenho Ninguém em Quem Confiar

Estou cansado de confiar em mim pr√≥prio, de me lamentar a mim mesmo, de me apiedar, com l√°grimas, sobre o meu pr√≥prio eu. Acabo de ter uma esp√©cie de cena com a tia Rita acerca de F. Coelho. No fim dela senti de novo um desses sintomas que cada vez se tornam mais claros e sempre mais horr√≠veis em mim: uma vertigem moral. Na vertigem f√≠sica h√° um rodopiar do mundo externo em rela√ß√£o a n√≥s: na vertigem moral, um rodopiar do mundo interior. Parece-me perder, por momentos, o sentido da verdadeira rela√ß√£o das coisas, perder a compreens√£o, cair num abismo de suspens√£o mental. √Č uma pavorosa sensa√ß√£o esta de uma pessoa se sentir abalada por um medo desordenado.
Estes sentimentos v√£o-se tornando comuns, parecem abrir-me o caminho para uma nova vida mental, que acabar√° na loucura. Na minha fam√≠lia n√£o h√° compreens√£o do meu estado mental ‚ÄĒ n√£o, nenhuma. Riem-se de mim, escarnecem-me, n√£o me acreditam. Dizem que o que eu pretendo √© mostrar-me uma pessoa extraordin√°ria. Nada fazem para analisar o desejo que leva uma pessoa a querer ser extraordin√°ria. N√£o podem compreender que entre ser-se e desejar-se ser extraordin√°rio n√£o h√° sen√£o a diferen√ßa da consci√™ncia que √© acrescentada ao facto de se querer ser extraordin√°rio.

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