Passagens de Jean-Paul Sartre

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As Descri√ß√Ķes dos Romances

Jean-Paul Sartre: De um modo geral, aliás, já não sei muito bem porque se escrevem romances. Queria falar do que pensei ser a literatura e além disso do que abandonei.
Simone de Beauvoir: Fale; é muito interessante
Jean-Paul Sartre: Ao princípio, pensava que a literatura era o romance. Dissemo-lo.
Simone de Beauvoir: Sim, uma narrativa, e ao mesmo tempo via-se o mundo através. Isto dá qualquer coisa que nenhum ensaio sociológico, nenhuma estatística, pode dar.
Jean-Paul Sartre: Dá o individual, dá o pessoal, dá o particular. Um romance dará esta sala, por exemplo, a cor dessa parede, desses cortinados, da janela, e só ele o pode dar. E foi do que eu gostei, os objectos serem nomeados e muito próximos no seu carácter individual. Eu sabia que todos os sítios descritos existiam ou tinham existido, que por conseguinte era mesmo a verdade.
Simone de Beauvoir: Embora voc√™ n√£o gostasse muito das descri√ß√Ķes liter√°rias. Nos seus romances h√° descri√ß√Ķes, de vez em quando, mas sempre muito ligadas √† ac√ß√£o, √† maneira como as pessoas as v√™em.
Jean-Paul Sartre: E breves.
Simone de Beauvoir: Sim. Uma pequena metáfora, três palavrinhas para indicar qualquer coisa, não verdadeiramente uma descrição.

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O Cerne da Escrita e da Leitura

Não se é escritor por se ter preferido dizer certas coisas, mas por se ter preferido dizê-las duma certa maneira. E o estilo faz, evidentemente, o valor da prosa. Mas deve passar despercebido. Uma vez que as palavras são transparentes e que o olhar as atravessa, seria absurdo meter entre elas vidros despolidos. Aqui, a beleza é apenas uma força doce e insensível.
Num quadro, brilha antes de mais nada; num livro, esconde-se, age por persuas√£o como o encanto duma voz ou dum rosto, n√£o obriga, faz curvar sem que se d√™ por isso e pensa-se ceder aos argumentos quando afinal se √© solicitado por um encanto impercept√≠vel. A cerim√≥nia da missa n√£o √© a f√©, ela disp√Ķe a isso; a harmonia das palavras, a sua beleza, o equil√≠brio das frases, disp√Ķem as paix√Ķes do leitor sem que ele d√™ por isso, ordenam-nas como a missa, como a m√ļsica, como uma dan√ßa; se acaba por as considerar em si mesmas, perde o sentido, apenas restam oscila√ß√Ķes aborrecidas.

A caracter√≠stica da consci√™ncia √© que ela √© uma descompress√£o de ser. √Č imposs√≠vel com efeito defini-la como coincid√™ncia consigo.

Quando muitos homens estão juntos, é preciso separá-los pelos ritos, senão matam-se uns aos outros.

Ainda que f√īssemos surdos e mudos como uma pedra, a nossa pr√≥pria passividade seria uma forma de ac√ß√£o.

A Imortalidade Pela Literatura, a Filosofia Como Meio de a Aceder

Simone de Beauvoir: Com que contava para sobreviver Рna medida em que pensava sobreviver: com a literatura ou com a filosofia? Como sentia a sua relação com a literatura e a filosofia? Prefere que as pessoas gostem da sua filosofia ou da sua literatura, ou quer que gostem das duas?
Jean-Paul Sartre: Claro que responderei: que gostem das duas. Mas h√° uma hierarquia, e a hierarquia √© a filosofia em segundo e a literatura em primeiro. Desejo obter a imortalidade pela literatura, a filosofia √© um meio de aceder a ela. Mas aos meus olhos ela n√£o tem em si um valor absoluto, porque as circunst√Ęncias mudar√£o e trar√£o mudan√ßas filos√≥ficas. Uma filosofia n√£o √© v√°lida por enquanto, n√£o √© uma coisa que se escreve para os contempor√Ęneos; ela especula sobre realidades intemporais; ser√° for√ßosamente ultrapassada por outros porque fala da eternidade; fala de coisas que ultrapassam de longe o nosso ponto de vista individual de hoje; a literatura, pelo contr√°rio, inventaria o mundo presente, o mundo que se descobre atrav√©s das leituras, das conversas, das paix√Ķes, das viagens; a filosofia vai mais longe; ela considera que as paix√Ķes de hoje, por exemplo, s√£o paix√Ķes novas que n√£o existiam na Antiguidade;

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A linguagem não é um fenómeno superposto ao ser-para-o-outro: é originalmente o ser-para-o-outro, ou seja, o facto de que uma subjectividade se experimenta como objecto para o outro.

Quando, alguma vez, a liberdade irrompe numa alma humana, os deuses deixam de poder seja o que for contra esse homem.