Textos sobre Cem

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Textos de cem escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Coração Incoerente

A superior sapi√™ncia das na√ß√Ķes j√° formulou esta lei naquele seu fino ad√°gio: O cora√ß√£o n√£o sente o que os olhos n√£o v√™em. A mais pequenina dor que diante de n√≥s se produz e diante de n√≥s geme, p√Ķe na nossa alma uma comisera√ß√£o e na nossa carne um arrepio, que lhe n√£o dariam as mais pavorosas cat√°strofes passadas longe, noutro tempo ou sob outros c√©us. Um homem ca√≠do a um po√ßo na minha rua mais ansiadamente me sobressalta que cem mineiros sepultados numa mina da Sib√©ria: – e um carro esmagando a pata de um c√£o, em frente √† nossa janela, √© um caso infinitamente mais aflitivo do que a her√≥ica e admir√°vel Joana d’Arc queimada na pra√ßa de Rouen.

Qual é a Nossa Puerilidade Actual?

Que se pensar√° de n√≥s daqui a cem anos? Como se sentir√° o que hoje sentimos? Porque tudo envelhece t√£o incrivelmente cedo. Quando se rel√™ uma revista de h√° vinte, trinta anos, n√£o s√£o bem os assuntos que envelheceram mas a maneira como se √© nele, com eles. √Č-se ent√£o ing√©nuo, como n√£o sabemos explicar. Tudo perde ent√£o viabilidade, √© um ser-se infantil, um modo rid√≠culo de relacionamento com a vida. As ideias podem talvez persistir. Mas encarquilharam ao muito sol que apanharam, s√£o quebradi√ßas, fr√°geis no modo de existirem, f√ļteis e pueris como uma moda que passou. √Č a altura de vir ao de cima o que era ent√£o invis√≠vel e √© agora a parcela que lan√ßamos nas nossas contas de homens. √Č a altura de isso se separar do rid√≠culo em que se encarnou e de viver por si na significa√ß√£o que teve.

M√ļsica e Literatura

No M√©xico, enquanto escrevia ¬ęCem Anos de Solid√£o¬Ľ ‚ÄĒ entre 1965 e 1966 -, s√≥ tive dois discos que se gastaram de tanto serem ouvidos: os Prel√ļdios de Debussy e ¬ęA hard day’s night¬Ľ dos Beatles. Mais tarde, quando por fim tive em Barcelona quase tantos como sempre quis, pareceu-me demasiado convencional a classifica√ß√£o alfab√©tica e adoptei para minha comodidade privada a ordem por instrumentos: o violoncelo, que √© o meu favorito, de Vivaldi a Brahms; o violino, desde Corelli at√© Sch√Ķnberg; o cravo e o piano, de Bach a Bart√≥k. At√© descobrir o milagre de que tudo o que soa √© m√ļsica, inclu√≠dos os pratos e os talheres no lava-loi√ßas, sempre que criem a ilus√£o de nos indicar por onde vai a vida.

A minha limita√ß√£o era que n√£o podia escrever com m√ļsica porque prestava mais aten√ß√£o ao que ouvia do que ao que escrevia, e ainda hoje assisto a muito poucos concertos porque sinto que na cadeira se estabelece uma esp√©cie de intimidade um pouco impudica com vizinhos estranhos. No entanto, com o tempo e as possibilidades de ter boa m√ļsica em casa, aprendi a escrever com um fundo musical de acordo com o que escrevo.

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As Virtudes da Cidade

Amo o ru√≠do e a constante agita√ß√£o das grandes cidades. O movimento cont√≠nuo obriga √† observa√ß√£o dos costumes. O ladr√£o, por exemplo, ao ver toda a actividade humana, pensa involuntariamente que √© um patife, e esta imagem alegre em movimento pode vir a melhorar a sua natureza decadente e arruinada. O bo√©mio sente-se talvez mais modesto e pensativo quando v√™ todas as for√ßas produtivas, e o devasso diz possivelmente a si mesmo, quando lhe salta aos olhos a docilidade das massas, que n√£o √© mais do que um sujeito miser√°vel, est√ļpido e vaidoso, que s√≥ sabe ufanar-se com soberba. As grandes cidades ensinam, educam, e n√£o com doutrinas roubadas aos livros. N√£o h√° aqui nada de acad√©mico, o que √© lisonjeiro, pois o saber acumulado rouba-nos a coragem.
E depois h√° aqui tanto que incentiva, que sustenta e ajuda. Quase n√£o conseguimos diz√™-lo. √Č t√£o dif√≠cil dar uma express√£o viva ao que √© refinado e bom. Agradecemos as nossas vidas modestas, sentimo-nos sempre um pouco gratos quando somos empurrados, quando temos pressa. Quem tem tempo para esbanjar n√£o sabe o que o tempo significa, √© por natureza um ingrato. Nas grandes cidades qualquer mo√ßo de recados conhece o valor do tempo e nenhum ardina quer perder o seu tempo.

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Controlar o Desejo de Posse

√Č dif√≠cil, sen√£o imposs√≠vel, determinar os limites dos nossos desejos razo√°veis em rela√ß√£o √† posse. Pois o con¬≠tentamento de cada pessoa, a esse respeito, n√£o repousa numa quantidade absoluta, mas meramente relativa, a sa¬≠ber, na rela√ß√£o entre as suas pretens√Ķes e a sua posse. Por isso, esta √ļltima, considerada nela mesma, √© t√£o vazia de sen¬≠tido quanto o numerador de uma fra√ß√£o sem denomina¬≠dor. Um homem que nunca alimentou a aspira√ß√£o a cer¬≠tos bens, n√£o sente de modo algum a sua falta e est√° com¬≠pletamente satisfeito sem eles; enquanto um outro, que possui cem vezes mais do que o primeiro, sente-se infe¬≠liz, porque lhe falta uma s√≥ coisa √† qual aspira.
A esse respeito, cada um tem um horizonte pr√≥prio daquilo que pode alcan√ßar, e as suas pretens√Ķes v√£o at√© onde vai esse horizonte. Quando algum objecto se apresenta a ele nos limites desse horizonte, de modo que possa ter confian¬≠√ßa em alcan√ß√°-lo, sente-se feliz; pelo contr√°rio, sente-se in¬≠feliz quando dificuldades advindas o privam de seme¬≠lhante perspectiva. Aquilo que reside al√©m desse hori¬≠zonte n√£o faz efeito sobre ele. Eis por que as grandes posses do rico n√£o inquietam o pobre, e, por outro lado, o muito que j√° possui,

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O Juízo Final

Chegou o miserável milionário no céu e, impacientemente, esperou a sua vez de ser julgado. Introduziram-no numa sala, noutra sala, noutra sala, até que se viu frente a uma luz ofuscante, na qual pouco a pouco foi dintinguindo a figura santa do pai dos Homens. Em voz tonitroante este, tendo à direita, Pedro, e, à esquerda, uma figura que ele não conhecia, julgou sumariamente dois outros pecadores que estavam à sua frente. E, afinal, dirigiu-se a ele:
РQue fez você de bom na sua vida ?
– Bem, eu nasci, cresci, amei, casei, tive filhos, vivi.
РOra Рdisse o Senhor Рisso são actos sociais e biológicos a que você estava destinado. Quero saber que bondade específica e determinada você teve para com o seu semelhante.
– Bem – disse o milion√°rio – eu criei ind√ļstrias, comprei fazendas, dei emprego a muita gente, melhorei as condi√ß√Ķes sociais de muita gente.
– N√£o, isso n√£o serve – disse o Todo-Poderoso – essas ac√ß√Ķes estavam impl√≠citas ao acto de voc√™ enriquecer. Voc√™ as praticou porque precisava viver melhor. N√£o foram intrinsecamente boas ac√ß√Ķes, desprendidas, n√£o servem.
O milionário escarafunchou o cérebro e não encontrou nada.

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O Desejo e a Posse

Um homem n√£o se sente totalmente privado dos bens aos quais nunca sonhou aspirar, mas fica muito satisfeito mesmo sem eles, enquanto outro que possua cem vezes mais do que o primeiro sente-se infeliz quando lhe falta uma √ļnica coisa que tenha desejado. A esse respeito, cada um tem tamb√©m um horizonte pr√≥prio daquilo que lhe √© poss√≠vel atingir, e as suas pretens√Ķes t√™m uma extens√£o semelhante a esse horizonte. Quando determinado objecto, situado dentro desses limites, se lhe apresenta de modo que o fa√ßa acreditar na possibilidade de alcan√ß√°-lo, o homem sente-se feliz; em contrapartida, sentir-se-√† infleliz quando eventuais dificuldades lhe tirarem tal possibilidade. Tudo o que estiver situado externamente a esse campo visual n√£o agir√° de forma alguma sobre ele. Por esse motivo, as grandes propriedades dos ricos n√£o perturbam o pobre, e, por outro lado, para o rico cujos prop√≥sitos tenham fracassado, serve de consolo as muitas coisas que j√° possui. (A riqueza assemelha-se √† √°gua do mar; quanto mais dela se bebe, mais sede se tem. O mesmo vale para a gl√≥ria).

O facto de que o nosso humor habitual não resulte muito diferente do anterior após a perda de uma riqueza ou do bem-estar,

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Conseguir Escrever

O of√≠cio de escritor √© talvez o √ļnico que se torna mais dif√≠cil √† medida que mais se pratica. A facilidade com que me sentei a escrever aquele conto n√£o se pode comparar com o trabalho que me d√° agora escrever uma p√°gina. Quanto ao meu m√©todo de trabalho, √© bastante coerente com isto que vos estou a dizer. Nunca sei quanto vou poder escrever nem o que vou escrever. Espero que me ocorra alguma coisa e, quando me ocorre uma ideia que ache boa para a escrever, ponho-me a dar-lhe voltas na cabe√ßa e deixo-a ir amadurecendo. Quando a tenho terminada (e √†s vezes passam muitos anos, como no caso de Cem Anos de Solid√£o, que passei dezanove anos a pensar), quando a tenho terminada, repito, ent√£o sento-me a escrev√™-la e √© a√≠ que come√ßa a parte mais dif√≠cil e a que mais me aborrece. Porque o mais delicioso da hist√≥ria √© conceb√™-la, ir arredondando-a, dando-lhe voltas e mais voltas, de maneira que na altura de nos sentarmos a escrev√™-la j√° n√£o nos interessa muito, ou pelo menos a mim n√£o me interessa muito; a ideia que d√° voltas.

Os Deuses Reclinados

… Por todos os lados as est√°tuas de Buda, de Lorde Buda… As severas, verticais, carcomidas est√°tuas, com um dourado de resplendor animal, com uma dissolu√ß√£o como se o ar as desgastasse… Crescem-lhes nas faces, nas pregas das t√ļnicas, nos cotovelos, nos umbigos, na boca e no sorriso pequenas m√°culas: fungos, porosidades, vest√≠gios excrement√≠cios da selva… Ou ent√£o as jacentes, as imensas jacentes, as est√°tuas de quarenta metros de pedra, de granito areento, p√°lidas, estendidas entre as sussurrantes frondes, inesperadas, surgindo de qualquer canto da selva, de qualquer plataforma circundante… Adormecidas ou n√£o adormecidas, est√£o ali h√° cem anos, mil anos, mil vezes mil anos… Mas s√£o suaves, com uma conhecida ambiguidade ultraterrena, aspirando a ficar e a ir-se embora… E aquele sorriso de suav√≠ssima pedra, aquela majestade imponder√°vel, mas feita de pedra dura, perp√©tua, para quem sorriem, para quem, sobre a terra sangrenta?… Passaram as camponesas que fugiam, os homens do inc√™ndio, os guerreiros mascarados, os falsos sacerdotes, os turistas devoradores…

E manteve-se no seu lugar a est√°tua, a imensa pedra com joelhos, com pregas na t√ļnica de pedra, com o olhar perdido e n√£o obstante existente, inteiramente inumana e de alguma forma tamb√©m humana, de alguma forma ou de alguma contradi√ß√£o estatu√°ria,

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A Ociosidade

Assim como vemos as terras em repouso, se n√©dias e f√©rteis, dar origem √† prolifera√ß√£o de cem mil esp√©cies de ervas selvagens e in√ļteis, sendo necess√°rio, para as manter cultiv√°veis, dom√°-las e destin√°-las a certas sementes por forma a que delas tiremos proveito; e assim como vemos as mulheres, que por si s√≥s produzem informes amontoados e peda√ßos de carne, terem, para proporcionar uma boa e natural gera√ß√£o, de ser fecundadas por outra semente, assim vemos que se passa o mesmo com os nossos esp√≠ritos. Se n√£o os ocuparmos com algum objecto que os freie e constranja, lan√ßar-se-√£o eles, desregrados, a percorrer √† toa os campos bravios da imagina√ß√£o:

Tal como a √°gua que tremula em vasilhas de bronze reflecte a luz do sol ou a imagem radiante da lua, cintila√ß√Ķes voando pelos ares e atingindo os artesoados tectos – Virg√≠lio, Eneida

E não há loucura ou desvario que eles não produzam em tal agitação:

Inventam irreais apari√ß√Ķes como nos sonhos dos doentes – Hor√°cio, Ars Poetica

A alma que não tem um ponto de mira perde-se, pois, como sói dizer-se, é não estar em parte nenhuma em todo o lado estar.

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Emoção e Poesia

Quem quer que seja de algum modo um poeta sabe muito bem qu√£o mais f√°cil √© escrever um bom poema (se os bons poemas se acham ao alcance do homem) a respeito de uma mulher que lhe interessa muito do que a respeito de uma mulher pela qual est√° profundamente apaixonado. A melhor esp√©cie de poema de amor √©, em geral, escrita a respeito de uma mulher abstracta. Uma grande emo√ß√£o √© por demais ego√≠sta; absorve em si pr√≥pria todo o sangue do esp√≠rito, e a congest√£o deixa as m√£os demasiado frias para escrever. Tr√™s esp√©cies de emo√ß√Ķes produzem grande poesia – emo√ß√Ķes fortes, por√©m r√°pidas, captadas para a arte t√£o logo passaram; emo√ß√Ķes fortes e profundas ao serem lembradas muito tempo depois; e emo√ß√Ķes falsas, isto √©, emo√ß√Ķes sentidas no intelecto. N√£o a insinceridade, mas sim, uma sinceridade traduzida, √© a base de toda a arte.
O grande general que pretende ganhar uma batalha para o império do seu país e para a história do seu povo não deseja Рnão pode desejar ter muitos dos seus soldados assassinados (mortos). Contudo, uma vez que tenha penetrado na contemplação da sua estratégia, escolherá (sem um pensamento para os seus homens) o golpe melhor,

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O Tempo e o Espírito

O tempo, embora faça desabrochar e definhar animais e plantas com assombrosa pontualidade, não tem sobre a alma do homem efeitos tão simples. A alma do homem, aliás, age de forma igualmente estranha sobre o corpo do tempo. Uma hora, alojada no bizarro elemento do espírito humano, pode valer cinquenta ou cem vezes mais que a sua duração medida pelo relógio; em contrapartida, uma hora pode ser fielmente representada no mostrador do espírito por um segundo.

Estamos Neuróticos

Faz sentido que se esteja a enviar para o espa√ßo uma sonda para explorar Plut√£o enquanto aqui as pessoas morrem de fome? Estamos neur√≥ticos. N√£o s√≥ existe desigualdade na distribui√ß√£o da riqueza como tamb√©m na satisfa√ß√£o das necessidades b√°sicas. N√£o nos orientamos por um sentido de racionalidade m√≠nima. A Terra est√° rodeada de milhares de sat√©lites, podemos ter em casa cem canais de televis√£o, mas para que nos serve isto neste mundo onde tantos morrem? √Č uma neurose colectiva, as pessoas j√° n√£o sabem o que √© que lhes √© essencial para a sua felicidade.

A Disposição da Razão

N√£o s√£o apenas as febres, as beberagens e os grandes infort√ļnios que abatem o nosso julgamento; as menores coisas do mundo o transtornam. E n√£o se deve duvidar, ainda que n√£o o sent√≠ssemos, que, se a febre cont√≠nua pode arrasar a nossa alma, a ter√ß√£ tamb√©m lhe cause alguma altera√ß√£o de acordo com o seu ritmo e propor√ß√£o. Se a apoplexia entorpece e extingue totalmente a vis√£o da nossa intelig√™ncia, n√£o se deve duvidar que a coriza a ofusque; e consequentemente mal podemos encontrar uma √ļnica hora da vida em que o nosso julgamento esteja na sua devida disposi√ß√£o, estando o nosso corpo sujeito a tantas muta√ß√Ķes cont√≠nuas e guarnecido de tantos tipos de recursos que (acredito nos m√©dicos) √© muito dif√≠cil que n√£o haja sempre algum deles andando torto.
De resto, essa doença não se revela tão facilmente se não for totalmente extrema e irremediável, pois a razão segue sempre em frente, mesmo torta, mesmo manca, mesmo desancada, tanto com a mentira como com a verdade. Assim, é difícil descobrir-lhe o erro e o desarranjo. Chamo sempre de razão essa aparência de raciocínio que cada qual forja em si Рessa razão por cuja condição pode haver cem raciocínios contrários em torno de um mesmo assunto,

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A Amizade Verdadeira e Genuína

Do mesmo modo que o papel-moeda circula no lugar da prata, tamb√©m no mundo, no lugar da estima verdadeira e da amizade aut√™ntica, circulam as suas demonstra√ß√Ķes exteriores e os seus gestos imitados do modo mais natural poss√≠vel. Por outro lado, poder-se-ia perguntar se h√° pessoas que de facto merecem essa estima e essa amizade. Em todo o caso, dou mais valor aos abanos de cauda de um c√£o leal do que a cem daquelas demonsta√ß√Ķes e gestos.
A amizade verdadeira e genu√≠na pressup√Ķe uma participa√ß√£o intensa, puramente objectiva e completamente desinteressada no destino alheio; participa√ß√£o que, por sua vez, significa identificarmo-nos de facto com o amigo. Ora, o ego√≠smo pr√≥prio √† natureza humana √© t√£o contr√°rio a tal sentimento, que a amizade verdadeira pertence √†quelas coisas que n√£o sabemos se s√£o mera f√°bula ou se de facto existem em algum lugar, como as serpentes marinhas gigantes. Todavia, h√° muitas rela√ß√Ķes entre os homens que, embora se baseiem essencialmente em motivos ego√≠stas e ocultos de diversos tipos, passam a ter um gr√£o daquela amizade verdadeira e genu√≠na, o que as enobrece ao ponto de poderem, com certa raz√£o, ser chamadas de amizade nesse mundo de imperfei√ß√Ķes. Elas elevam-se muito acima dos v√≠nculos ordin√°rios,

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A Minha Mulher, Matilde Urrutia

A minha mulher √© provinciana como eu. Nasceu numa cidade do Sul, em Chill√°n, famosa pela sorte de possuir uma bela cer√Ęmica camponesa e pela infelicidade de sofrer frequentemente terr√≠veis terramotos. Falando para ela, disse-lhe tudo nos meus Cem Sonetos de Amor.
Talvez estes versos definam o que ela significa para mim. A terra e a vida nos juntaram.
Embora isto n√£o interesse a ningu√©m, somos felizes. Dividimos o nosso tempo comum em longas perman√™ncias na solit√°ria costa do Chile. N√£o no Ver√£o, porque o litoral ressequido pelo sol se mostra amarelo e des√©rtico; antes no Inverno, quando, em estranha flora√ß√£o, a terra se veste com as chuvas e o frio, de verde e amarelo, de azul e de p√ļrpura. Subimos algumas vezes do solit√°rio e selv√°tico oceano para a nervosa cidade de Santiago, na qual sofremos juntamente com a complicada exist√™ncia dos outros.

Matilde canta com voz poderosa as minhas can√ß√Ķes.
Eu dedico-lhe quanto escrevo e quanto tenho. Não é muito, mas ela está contente.
Vejo-a agora a enterrar os sapatos min√ļsculos na lama do jardim e, em seguida, a enterrar tamb√©m as suas min√ļsculas m√£os na profundidade da planta.
Da terra,

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A Sociabilidade é Proporcional à Vulgaridade

O homem inteligente aspirar√°, antes de tudo, √† aus√™ncia de dor, √† serenidade, ao sossego e ao √≥cio, logo, procurar√° uma vida tranquila, modesta e o menos conflituosa poss√≠vel; por conseguinte, ap√≥s travar algum conhecimento com aqueles que chamamos de homens, escolher√° o reatraimento e, no caso de um grande esp√≠rito, at√© a solid√£o. Pois, quanto mais algu√©m tem em si mesmo, menos precisa do mundo exterior e menos tamb√©m os outros lhe podem ser √ļteis. Por isso, a emin√™ncia do esp√≠rito conduz √† insociabilidade. Sim, se a qualidade da sociedade pudesse ser substitu√≠da pela quantidade, valeria a pena viver at√© no grande mundo, mas infelizmente cem n√©scios empilhados n√£o d√£o um √ļnico homem razo√°vel. J√° aquele que est√° no outro extremo, assim que a necessidade lhe permitir recobrar o √Ęnimo, procurar√° passatempo e companhia a qualquer pre√ßo, e a tudo se acomodar√° facilmente, de nada fugindo a n√£o ser de si.
Pois √© na solid√£o, onde cada um est√° entregue a si mesmo, que se mostra o que ele tem em si mesmo. Nela, sob a p√ļrpura, o simpl√≥rio suspira, carregando o fardo irremov√≠vel da sua m√≠sera individualidade, enquanto o mais talentoso povoa e vivifica com os seus pensamentos o ambiente mais ermo.

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Como te Tens Lembrado Hoje de Mim?

O que tens tu feito, amor? Andar√°s, como segunda-feira, cavaleiro andante a flirtar √†s janelas das ruas do Alto do Pina, com damas de cem anos?… Cem anos, pelo menos… Eu creio mesmo que tu disseste mais alguns… Sempre est√°s uma prenda, um espertalh√£o… Tenho que te educar convenientemente e ensinar-te que damas de cem anos e mulheres que fazem queijadas, n√£o servem, ou pelo menos n√£o devem servir, a quem tem a suprema felicidade de possuir uma mulher como eu, que sou uma p√©rola, ou por outra: um colar de p√©rolas, como ontem gentilmente me chamaste… Est√°s de acordo, n√£o √© verdade?

A tua pequenina fera está há imenso tempo ansiosa que a chuva acabe, para deitar o focinhito fora do covil, ao menos por cinco minutos; mas não há meio, o diabo da chuva continua a cair sem piedade e daqui a pouco a ferazinha sai mesmo com chuva e tudo. Há tanto tempo que não saio! Em horas de concentração de consciência, eu ponho-me a pensar que nunca julguei capaz que um homem pudesse fazer da Miss América, como muita gente me chamava dantes, esta burguezinha pacata, que, detrás dos vidros duma janela, passa a vida a fazer rendas,

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A Universalidade de uma Opini√£o

A universalidade de uma opinião, tomada seriamente, não constitui nem uma prova, nem um fundamento provável, da sua exactidão. Aqueles que a afirmam devem considerar que: 1) o distanciamento no tempo rouba a força comprobatória dessa universalidade; caso contrário, precisariam de evocar todos os antigos equívocos que alguma vez foram universalmente considerados verdade: por exemplo, estabelecer o sistema ptolemaico ou o catolicismo em todos os países protestantes; 2) o distanciamento no espaço tem o mesmo efeito: caso contrário, a universalidade de opinião entre os que confessam o budismo, o cristianismo e o islamismo os constrangerá.
O que então se chama de opinião geral é, a bem da verdade, a opinião de duas ou três pessoas; e disso nos convenceríamos se pudéssemos testemunhar como se forma tal opinião universalmente válida.
Achar√≠amos ent√£o que foram duas ou tr√™s pessoas a supor ou apresentar e a afirmar num primeiro momento, e que algu√©m teve a bondade de julgar que elas teriam verificado realmente a fundo tais coloca√ß√Ķes: o preconceito de que estes seriam suficientemente capazes induziu, em princ√≠pio, alguns a aceitar a mesma opini√£o: nestes, por sua vez, acreditaram muitos outros, aos quais a pr√≥pria indol√™ncia aconselhou: melhor acreditar logo do que fazer controles trabalhosos.

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