Passagens de Cesare Pavese

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O homem interessa-se tão pouco pelo próximo que até mesmo o cristianismo recomenda fazer o bem por amor a Deus.

A Noite

Mas a noite ventosa, a noite límpida
que a lembrança somente aflorava, está longe,
é uma lembrança. Perdura uma calma de espanto,
feita também ela de folhas e de nada. Desse tempo
mais distante que as recorda√ß√Ķes apenas resta
um vago recordar.

As vezes volta à luz do dia,
na imóvel luz dos dias de Verão,
aquele espanto remoto.

Pela janela vazia
o menino olhava a noite nas colinas
frescas e negras, e espantava-se de as ver assim t√£o juntas:
vaga e límpida imobilidade. Entre a folhagem
que sussurrava na escurid√£o, apareciam as colinas
onde todas as coisas do dia, as ladeiras
e as árvores e os vinhedos, eram nítidas e mortas
e a vida era outra, de vento, de céu,
e de folhas e de coisa nenhuma.

Às vezes regressa
na imóvel calma do dia a recordação
daquele viver absorto, na luz assombrada.

Tradução de Carlos Leite

O Rápido Passar do Tempo é Sinal de Inactividade

O √≥cio torna lentas as horas e velozes os anos. A actividade torna r√°pida as horas e lentos os anos. A inf√Ęncia √© a actividade m√°xima, porque ocupada em descobrir o mundo na sua diversidade.
Os anos tornam-se longos na recorda√ß√£o se, ao repens√°-los, encontramos numerosos factos a desenvolver pela fantasia. Por isso, a inf√Ęncia parece longu√≠ssima. Provavelmente, cada √©poca da vida √© multiplicada pelas sucessivas reflex√Ķes das que se lhe seguem: a mais curta √© a velhice, porque nunca ser√° repensada.
Cada coisa que nos aconteceu √© uma riqueza inesgot√°vel: todo o regresso a ela a aumenta e acresce, dota de rela√ß√Ķes e aprofunda. A inf√£ncia n√£o √© apenas a inf√Ęncia vivida, mas a ideia que fazemos dela na juventude, na maturidade, etc. Por isso, parece a √©poca mais importante, visto ser a mais enriquecida por considera√ß√Ķes sucessivas.
Os anos são uma unidade da recordação; as horas e os dias, uma unidade da experiência.

N√£o h√° absolutamente ningu√©m que fa√ßa um sacrif√≠cio sem esperar uma compensa√ß√£o. √Č tudo uma quest√£o de mercado.

Agimos Sempre no Sentido do Destino

No fundo, a sabedoria do destino √© a nossa pr√≥pria. Porque a acompanhamos com uma consci√™ncia incessante daquilo que, no fundo, nos √© permitido fazer. Podemos estar sujeitos a algumas tenta√ß√Ķes mas nunca nos enganamos. Agimos sempre no sentido do destino. As duas coisas formam uma s√≥.
Quem se engana é porque ainda não compreende o seu destino. Quer dizer, não compreende qual a resultante de todo o seu passado Рo qual lhe indica o futuro. Mas quer o compreenda ou não, indica-lho à mesma. Cada vida é aquilo que devia ser.

O Castigo do Egoísta

Quem não sabe viver com caridade e abraçar a dor dos outros, tem como castigo sentir com violência intolerável a dor própria. A dor só pode suportar-se tornando-a comum e compartilhando-a com os outros que sofrem. O castigo do egoísta está em só disso se aperceber sob a férula (castigo), tentando em vão aprender a caridade, por interesse.

O que não se soube fazer com a força virgem dos vinte e cinco anos, como é possível fazê-lo com as taras dos trinta?

A um homem que sofre, tratamo-lo como a um b√™bedo. ¬ęV√°, vamos l√°, basta, reage, assim n√£o, basta…¬Ľ.

A mulher gosta de saber despertar o desejo no homem, mas fica horrorizada se lhe reconhecem essa capacidade.

As coisas são descobertas por meio das lembranças que se têm delas. Relembrar uma coisa significa vê-la Рapenas agora Рpela primeira vez.

As Desvantagens das Nossas Paix√Ķes

Quanto mais um homem se emaranha numa paix√£o, tanto mais os acontecimentos, em si indiferentes, se traduzem para ele em dor, enganando justamente, pela sua indiferen√ßa, a avidez tensa em que esse homem se encontra. Um ambicioso sofrer√° porque uma pessoa c√©lebre n√£o lhe reconheceu import√Ęncia; essa mesma pessoa c√©lebre tentar√° insuflar escr√ļpulos de tenta√ß√£o a algum evang√©lico de quem procurar√° a conversa√ß√£o; escr√ļpulos que, por sua vez, irritar√£o um individualista, que ser√° atingido por eles, malgrado seu. A inveja, ambi√ß√£o ruminada, est√° na base de todas as ang√ļstias que sofremos. N√£o toleramos que uma coisa aconte√ßa indiferentemente, por acaso, escapando √† nossa chancela.
Qualquer género de fervor acarreta consigo a tendência para sentir uma lei preestabelecida na vida, uma lei que castiga os que abusam ou descuram esse mesmo fervor. Um estado de paixão Рmesmo que fosse a embriaguez da absoluta autodeterminação Рorganiza e anima de tal forma o Universo que toda a desgraça, parece, depois, provocada por uma ruptura do equilíbrio vital dessa paixão difusa, que, assim, se defende como um corpo vivo. E, segundo o temperamento de cada um, teremos a sensação de que abusámos, ou de que fomos inferiores; de qualquer forma, sentir-nos-emos organicamente punidos pela própria lei da paixão e do Universo.

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Vingarmo-nos de um mal de que fomos vítimas é privarmo-nos do conforto de gritarmos contra a injustiça.