Passagens sobre Mal

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Frases sobre mal, poemas sobre mal e outras passagens sobre mal para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Conv√©m, portanto, avaliar todos os prazeres e sofrimentos de acordo com o crit√©rio dos benef√≠cios e dos danos. H√° ocasi√Ķes em que utilizamos um bem como se fosse um mal e, ao contr√°rio, um mal como se fosse um bem.

Os Verdadeiros Males

Vejo uma objec√ß√£o a qualquer esfor√ßo para melhorar a condi√ß√£o humana: √© que os homens s√£o talvez indignos dele. Mas repilo-a sem dificuldade: enquanto o sonho de Cal√≠gula se mantiver irrealiz√°vel e todo o g√©nero humano se n√£o reduzir a uma √ļnica cabe√ßa oferecida ao cutelo, teremos que o tolerar, conter e utilizar para os nossos fins; sem d√ļvida que o nosso interesse ser√° servi-lo. O meu processo baseava-se numa s√©rie de observa√ß√Ķes feitas desde h√° muito tempo em mim pr√≥prio: toda a explica√ß√£o l√ļcida me convenceu sempre, toda a delicadeza me conquistou, toda a felicidade me tornou moderado. E nunca prestei grande aten√ß√£o √†s pessoas bem intencionadas que dizem que a felicidade excita, que a liberdade enfraquece e que a humanidade corrompe aqueles sobre quem √© exercida. Pode ser: mas, no estado habitual do mundo, √© como recusar a alimenta√ß√£o necess√°ria a um homem emagrecido com receio de que alguns anos depois ele possa sofrer de superabund√Ęncia. Quando se tiver diminu√≠do o mais poss√≠vel as servid√Ķes in√ļteis, evitado as desgra√ßas desnecess√°rias, continuar√° a haver sempre, para manter vivas as virtudes her√≥icas do homem, a longa s√©rie de verdadeiros males, a morte, a velhice, as doen√ßas incur√°veis, o amor n√£o correspondido,

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A liberdade da imprensa n√£o faz sentir o seu poder apenas sobre as opini√Ķes pol√≠ticas, mas tamb√©m sobre todas as opini√Ķes dos homens. N√£o modifica somente as leis, mas os costumes (…) Amo-a pela considera√ß√£o dos males que impede, mais ainda do que pelos bens que produz.

Quando há apego ao bem, este deixa de ser bem; quando não há apego, até o mal deixa de ser mal. O verdadeiro bem está presente onde não há apego algum, tal como nas águas que correm ou nas nuvens que flutuam. Em outras palavras, o verdadeiro bem transcende o apego.

A Inutilidade do Viajar

Que utilidade pode ter, para quem quer que seja, o simples facto de viajar? N√£o √© isso que modera os prazeres, que refreia os desejos, que reprime a ira, que quebra os excessos das paix√Ķes er√≥ticas, que, em suma, arranca os males que povoam a alma. N√£o faculta o discernimento nem dissipa o erro, apenas det√©m a aten√ß√£o momentaneamente pelo atractivo da novidade, como a uma crian√ßa que pasma perante algo que nunca viu! Al√©m disso, o cont√≠nuo movimento de um lado para o outro acentua a instabilidade (j√° de si consider√°vel!) do esp√≠rito, tornando-o ainda mais inconstante e incapaz de se fixar. Os viajantes abandonam ainda com mais vontade os lugares que tanto desejavam visitar; atravessam-nos voando como aves, v√£o-se ainda mais depressa do que vieram. Viajar d√°-nos a conhecer novas gentes, mostra-nos forma√ß√Ķes montanhosas desconhecidas, plan√≠cies habitualmente n√£o visitadas, ou vales irrigados por nascentes inesgot√°veis; proporciona-nos a observa√ß√£o de algum rio de caracter√≠sticas invulgares, como o Nilo extravasando com as cheias de Ver√£o, o Tigre, que desaparece √† nossa vista e faz debaixo de terra parte do seu curso, retomando mais longe o seu abundante caudal, ou ainda o Meandro, tema favorito das lucubra√ß√Ķes dos poetas, contorcendo-se em incont√°veis sinuosidades,

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Viver é Caminhar Breve Jornada

DESPREOCUPA√á√ÉO DO VIVER DISTRA√ćDO A QUEM A MORTE CHEGA INESPERADA

Viver é caminhar breve jornada,
e morte viva é, Lico, a nossa vida,
ontem p’ra o fr√°gil corpo amanhecida,
cada instante, no corpo sepultada.

Nada que, ao ser, é pouco, e será nada
em pouco tempo, que ambiciosa olvida;
pois, da vaidade mal persuadida,
deseja duração, terra animada.

Levada por um falso pensamento,
por esperança enganadora e cega,
tropeçará no próprio monumento.

Como o que, distraído, o mar navega,
e, sem se mover, voa com o vento,
e, antes que pense em abeirar-se, chega.

Tradução de José Bento

Atravesso o presente de olhos vendados,mal podendo pressentir aquilo que estou vivendo… S√≥ mais tarde,quando a venda √© retirada,percebo o que foi vivido e compreendo o sentido do que se passou…

Para Que Serve a Filosofia?

O leitor ocupado perguntar√° para que serve a filosofia. Pergunta vergonhosa, que n√£o fazemos √† po√©tica, essa outra constru√ß√£o imaginativa de um mundo mal conhecido. Se a poesia nos revela a beleza que os nossos olhos ineducados n√£o v√™em, e se a filosofia nos d√° os meios de compreender e perdoar, n√£o lhes pe√ßamos mais – isso vale todas as riquezas da Terra. A filosofia n√£o enche a nossa carteira, n√£o nos ergue √†s dignidades do Estado; √© at√© bastante descuidosa destas coisas. Mas de que vale engordar a carteira, subir a altos postos e permanecer na ignor√Ęncia ing√©nua, desapetrechado de esp√≠rito, brutal na conduta, inst√°vel no car√°cter, ca√≥tico nos desejos e cegamente infeliz?
A maturidade é tudo. Talvez que a filosofia nos dê, se lhe formos fiéis, uma sadia unidade de alma. Somos negligentes e contraditórios no nosso pensar; talvez ela possa classificar-nos, dar-nos coerência, libertar-nos da fé e dos desejos contraditórios.
Da unidade de espírito pode vir essa unidade de carácter e propósitos que faz a personalidade e dá ordem e dignidade à vida. Filosofia é conhecimento harmónico, criador da vida harmónica; é disciplina que nos leva à serenidade e à liberdade. Saber é poder, mas só a sabedoria é liberdade.

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Nunca Te Intitules Filósofo

Nunca te intitules Filósofo nem fales demasiado sobre os Princípios com os iletrados; faz, antes, o que deles decorre. Assim, num banquete, não discutas como devem as pessoas comer, mas come como é devido. Lembra que Sócrates evitava inteiramente a ostentação. As pessoas vinham a ele encaminhadas a filósofos, e ele próprio as encaminhava, tão bem suportava ser desdenhado. Da mesma maneira, se alguma conversa relativa a princípios ocorrer entre os iletrados, procura guardar silêncio. Pois corres o risco de vomitar o que digeriste mal. E quando alguém te disser que não sabes nada e tu não te apoquentares com isso, podes estar certo que estás finalmente no bom caminho.

Todos Nós Hoje Nos Desabituamos do Trabalho de Verificar

Todos n√≥s hoje nos desabituamos, ou antes nos desembara√ßamos alegremente, do penoso trabalho de verificar. √Č com impress√Ķes flu√≠das que formamos as nossas maci√ßas conclus√Ķes. Para julgar em Pol√≠tica o facto mais complexo, largamente nos contentamos com um boato, mal escutado a uma esquina, numa manh√£ de vento. Para apreciar em Literatura o livro mais profundo, atulhado de ideias novas, que o amor de extensos anos fortemente encadeou‚ÄĒapenas nos basta folhear aqui e al√©m uma p√°gina, atrav√©s do fumo escurecedor do charuto. Principalmente para condenar, a nossa ligeireza √© fulminante. Com que soberana facilidade declaramos‚ÄĒ¬ęEste √© uma besta! Aquele √© um maroto!¬Ľ Para proclamar‚ÄĒ¬ę√Č um g√©nio!¬Ľ ou ¬ę√Č um santo!¬Ľ of erecemos uma resist√™ncia mais considerada. Mas ainda assim, quando uma boa digest√£o ou a macia luz dum c√©u de Maio nos inclinam √† benevol√™ncia, tamb√©m concedemos bizarramente, e s√≥ com lan√ßar um olhar distra√≠do sobre o eleito, a coroa ou a aur√©ola, e a√≠ empurramos para a popularidade um magan√£o enfeitado de louros ou nimbado de raios. Assim passamos o nosso bendito dia a estampar r√≥tulos definitivos no dorso dos homens e das coisas. N√£o h√° ac√ß√£o individual ou colectiva, personalidade ou obra humana, sobre que n√£o estejamos prontos a promulgar rotundamente uma opini√£o bojuda E a opini√£o tem sempre,

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O casamento, se queres saber a verdade,
é um mal, mas um mal necessário.

D√ļvida

Amas-me a mim? Perdoa,
√Č imposs√≠vel! N√£o,
N√£o h√° quem se condoa
Da minha solid√£o.

Como podia eu, triste,
Ah! inspirar-te amor
Um dia que me viste,
Se √© que me viste… flor!

Tu, bela, fresca e linda
Como a aurora, ou mais
Do que a aurora ainda,
Mal ouves os meus ais!

Mal ouves, porque as aves
Só saltam de manhã
Seus c√Ęnticos suaves;
E tu és sua irmã!

De noite apenas trina
O triste rouxinol:
Toda a mais ave inclina
O colo ao p√īr do Sol.

Porquê? Porque é ditosa!
Porquê? Porque é feliz!
E a que sorri a rosa?
Ao mesmo a que sorris…

À luz dourada e pura
Do astro criador:
À noite, não, que é escura,
Causa-lhe a ela horror.

Ora uma nuvem negra,
Uma pesada cruz,
Uma alma que se alegra
Só quando vê a luz

De que ele, o Sol, inunda
O mar, quando se p√Ķe,
Imagem moribunda
De um cora√ß√£o que foi…

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Tudo Tem de Ser a Favor da Humanidade

Quando fiz o Crist√≥v√£o Colombo, e depois fiz uma apresenta√ß√£o em Fran√ßa, defendi que a hip√≥tese de o navegador ter nascido em Portugal n√£o era uma quest√£o de patriotismo. O m√©rito est√° na pessoa, seja ela de que nacionalidade for. E o m√©rito de qualquer pessoa d√° m√©rito √† na√ß√£o a que pertence, e d√° m√©rito √† humanidade. Essas figuras n√£o s√£o cativas delas pr√≥prias. √Č isto o fundo humanista, porque tudo tem de ser a favor da humanidade. Se for contra, √© mau. Isso √© muito importante. √Č assim que, quando um realizador portugu√™s recebe um pr√©mio, est√° a receb√™-lo a cinematografia portuguesa, est√° a receb√™-lo Portugal, a Europa, o mundo cinematogr√°fico. Isto n√£o √© assim t√£o individual como parece. Quando se fala muito de Cam√Ķes, estamos a falar dos portugueses, mas tamb√©m do m√©rito dos humanos. As pessoas est√£o obcecadas com o patriotismo: “Eu √© que sou.” N√£o √© nada disso. O humanismo √© que √© fundamental e, √†s vezes, √© esquecido. Mesmo nos partidos pol√≠ticos, que muitas vezes caem no sectarismo. A natureza humana, em qualquer um dos partidos, √© sempre a mesma. N√£o muda. √Č nela que est√° o mal e o bem. Mas concordo com a exist√™ncia dos partidos,

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Amores, Amores

N√£o sou eu t√£o tola
Que caia em casar;
Mulher não é rola
Que tenha um só par:
Eu tenho um moreno,
Tenho um de outra cor,
Tenho um mais pequeno,
Tenho outro maior.

Que mal faz um beijo,
Se apenas o dou,
Desfaz-se-me o pejo,
E o gosto ficou?
Um deles por graça
Deu-me um, e, depois,
Gostei da chalaça,
Paguei-lhe com dois.

Abraços, abraços,
Que mal nos far√£o?
Se Deus me deu braços,
Foi essa a raz√£o:
Um dia que o alto
Me vinha abraçar,
Fiquei-lhe de um salto
Suspensa no ar.

Vivendo e gozando,
Que a morte é fatal,
E a rosa em murchando
N√£o vale um real:
Eu sou muito amada,
E h√° muito que sei
Que Deus n√£o fez nada
Sem ser para quê.

Amores, amores,
Deix√°-los dizer;
Se Deus me deu flores,
Foi para as colher:
Eu tenho um moreno,
Tenho um de outra cor,
Tenho um mais pequeno,
Tenho outro maior.

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O Que Diz A Morte

Deixai-os vir a mim, os que lidaram;
Deixai-os vir a mim, os que padecem;
E os que cheios de mágoa e tédio encaram
As pr√≥prias obras v√£s, de que escarnecem…

Em mim, os Sofrimentos que n√£o saram,
Paix√£o, D√ļvida e Mal, se desvanecem.
As torrentes da Dor, que nunca param,
Como num mar, em mim desaparecem. –

Assim a Morte diz. Verbo velado,
Silencioso intérprete sagrado
Das cousas invisíveis, muda e fria,

√Č, na sua mudez, mais retumbante
Que o clamoroso mar; mais rutilante,
Na sua noite, do que a luz do dia.