Textos sobre Imaginação

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Textos de imaginação escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Concebemos apenas √Ātomos em Compara√ß√£o com a Realidade das Coisas

A primeira coisa que se oferece ao homem ao contemplar-se a si pr√≥prio, √© o seu corpo, isto √©, certa parcela de mat√©ria que lhe √© peculiar. Mas, para compreender o que ela representa e a fix√°-la dentro dos seus justos limites, precisa de a comparar a tudo o que se encontra acima ou abaixo dela. Que n√£o se atenha, pois, a olhar para os objetos que o cercam, simplesmente, mas a contemplar a natureza inteira na sua alta e plena majestosidade. Considere esta brilhante luz colocada acima dele como uma l√Ęmpada eterna para iluminar o universo, e que a Terra lhe apare√ßa como um ponto na √≥rbita ampla deste astro e maravilhe-se de ver que essa amplitude n√£o passa de um ponto insignificante na rota dos outros astros que se espalham pelo firmamento. E se nossa vista a√≠ se det√©m, que a nossa imagina√ß√£o n√£o pare; mais rapidamente se cansar√° ela de conceber, que a natureza de revelar . Todo esse mundo vis√≠vel √© apenas um tra√ßo percept√≠vel na amplid√£o da natureza, que nem sequer nos √© dado a conhecer de um modo vago. Por mais que ampliemos as nossas concep√ß√Ķes e as projectemos al√©m de espa√ßos imagin√°veis, concebemos t√£o somente √°tomos em compara√ß√£o com a realidade das coisas.

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Simplicidade e Perseverança

O que pensas que foi a vida dos homens que se conseguiram erguer acima do comum? Um combate cont√≠nuo. Se se tratar de um escritor, para escrever, uma luta contra a pregui√ßa (que ele sente tanto como o homem comum): e isto porque o seu g√©nio quer manifestar-se – e ele n√£o obedece apenas ao desejo v√£o de se tornar c√©lebre, mas ao apelo da sua consci√™ncia. Calem-se portanto os que trabalham com frieza: poder-se-√° imaginar o que √© trabalhar sob a influ√™ncia da inspira√ß√£o? Que medo, que hesita√ß√£o sentimos em despertar esse le√£o adormecido, cujos rugidos fazem estremecer todo o nosso ser! Mas, voltando atr√°s: ser firme, simples e verdadeiro – eis o √ļtil ensinamento de todos os momentos.

Amar e Ser Livre ao mesmo Tempo

Tudo o que posso dizer √© que estou louco por ti. Tentei escrever uma carta e n√£o consegui. Estou constantemente a escrever-te… Na minha cabe√ßa, e os dias passam, e eu imagino o que pensar√°s. Espero impacientemente por te ver. Falta tanto para ter√ßa-feira! E n√£o s√≥ ter√ßa-feira… Imagino quando poder√°s ficar uma noite… Quando te poderei ter durante mais tempo… Atormenta-me ver-te s√≥ por algumas horas e, depois, ter de abdicar de ti. Quando te vejo, tudo o que queria dizer desaparece… O tempo √© t√£o precioso e as palavras sup√©rfluas… Mas fazes-me t√£o feliz… porque eu consigo falar contigo. Adoro o teu brilhantismo, as tuas prepara√ß√Ķes para o voo, as tuas pernas como um torno, o calor no meio das tuas pernas. Sim, Anais, quero desmascarar-te. Sou demasiado galante contigo. Quero olhar para ti longa e ardentemente, pegar no teu vestido, acariciar-te, examinar-te. Sabes que tenho olhado escassamente para ti? Ainda h√° demasiado sagrado agarrado a ti.

A tua carta… Ah, estas moscas! Fazes-me sorrir. E fazes-me adorar-te tamb√©m. √Č verdade, n√£o te dou o devido valor. √Č verdade. Mas eu nunca disse que n√£o me d√°s o devido valor. Acho que deve haver um erro no teu ingl√™s.

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O Mérito da Monotonia

A capacidade para suportar uma vida mais ou menos mon√≥tona deve ser adquirida desde a inf√Ęncia. A este respeito, os pais modernos s√£o bastante censur√°veis; proporcionam aos filhos demasiados prazeres passivos, tais como espect√°culos e guloseimas, e n√£o compreendem a import√Ęncia que tem para uma crian√ßa um dia ser igual a outro dia, excepto, √© claro, nalgumas raras ocasi√Ķes. Em geral, os prazeres da inf√Ęncia deveriam ser aqueles que a pr√≥pria crian√ßa descobrisse no seu ambiente por meio de algum esfor√ßo e imagina√ß√£o.
Os prazeres que excitam e ao mesmo tempo n√£o implicam qualquer exerc√≠cio f√≠sico, o teatro por exemplo, s√≥ lhes seriam facultados muito raramente. A excita√ß√£o √© da mesma natureza dos narc√≥ticos que cada vez se tornam mais exigentes, e a passividade f√≠sica durante a excita√ß√£o √© contr√°ria ao instinto. Uma crian√ßa desenvolve-se melhor quando, tal como uma jovem planta, a deixam tranquila no mesmo solo. Demasiadas viagens, demasiadas variedades de impress√Ķes, n√£o s√£o boas para as crian√ßas e tornam-nas mais tarde, quando forem crescidas, incapazes de suportar uma monotonia fecunda. N√£o quero dizer que a monotonia tenha algum m√©rito em si mesma; quero s√≥mente afirmar que algumas coisas boas n√£o s√£o poss√≠veis sen√£o quando h√° um certo grau de monotonia.

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A √önica Coisa Duradoura Que Podes Criar

A mam√£ costumava dizer-lhe que tinha muita pena. As pessoas tinham andado a trabalhar durante tantos anos para fazer do mundo um s√≠tio organizado e seguro. Ningu√©m percebera como ele se iria tornar aborrecido. Com todo o mundo dividido em propriedades, com os limites de velocidade e as divis√Ķes por zonas, com tudo regulado e tributado, com todas as pessoas analisadas e recenseadas e rotuladas e registadas. Ningu√©m tinha deixado muito espa√ßo para a aventura, exceptuando, talvez, a do g√©nero que se pode comprar. Numa montanha-russa. Num cinema. No entanto, isso seria sempre uma excita√ß√£o falsa. Sabes que os dinossauros n√£o v√£o comer os m√≠udos. Os referendos recusaram com os seus votos qualquer hip√≥tese de um desastre falso ainda maior. E porque n√£o existe a possibilidade de um desastre verdadeiro, ficamos sem nenhuma hip√≥tese de termos uma salva√ß√£o verdadeira. Entusiasmo verdadeiro. Excita√ß√£o a s√©rio. Alegria. Descoberta. Inven√ß√£o.
As leis que nos dão segurança, estas mesmas leis condenam-nos ao aborrecimento. Sem acesso ao verdadeiro caos, nunca teremos paz verdadeira.

A n√£o ser que tudo possa ficar pior, nunca poder√° ficar melhor.
Isto eram tudo coisas que a mam√£ lhe costumava dizer.
E dizia-lhe mais:

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Intragável é Estar Parado

Intragável é estar parado. Não mudar. Aguentar. Sobreviver. Permanecer. Mesmo que seja pouco, mesmo que seja insuficiente. Manter tudo como está apenas para não correr o risco de ficar pior. Intragável é não perdoar, não ilibar. E só criticar, só apontar, só atacar. E não criar, não refazer, não imaginar. Intragável é não acreditar. Intragável é o que não é maravilhoso, o que não é delicioso, o que não é fantástico, monumental, abençoado, miraculoso, espantoso. Intragável é acordar para o dia a recusar o dia, a não querer o dia, a não apetecer o dia, a não pensar nas mil e uma maneiras de o tornar inesquecível. Deixar estar. Não mexer, não querer a ferida se for através da ferida que se chega à cura. Ser cauteloso, prevenido. Intragável é o que não é exagerado, o que não é desproporcionado, o que não parece incomportável. Se não parece incomportável, é insuportável. Não quero. Não admito. Não me admito. Intragável é repetir. Hoje como réplica exacta de ontem e como réplica exacta de amanhã. As mesmas coisas, as mesmas palavras, os mesmos actos, os mesmos movimentos. Sempre igual. Sempre o mesmo. Intragável é continuar por continuar, andar por andar, viver por viver.

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A Cólera dos Bondosos e a Cólera das Almas Fracas

Podemos distinguir duas esp√©cies de c√≥lera: uma que √© muito s√ļbita e se manifesta muito no exterior, mas mesmo assim tem pouco efeito e pode facilmente ser apaziguada; e outra que inicialmente n√£o aparece tanto, por√©m corr√≥i mais o cora√ß√£o e tem efeitos mais perigosos. Os que t√™m muita bondade e muito amor s√£o mais sujeitos √† primeira. Pois ela n√£o prov√©m de um √≥dio profundo, e sim de uma s√ļbita avers√£o que os surpreende, porque, sendo levados a imaginar que as coisas devem desenrolar-se da forma como julgam ser a melhor, t√£o logo acontece de forma diferente; eles ficam admirados e frequentemente se ofendem com isso, mesmo que a coisa n√£o os atinja pessoalmente, porque, tendo muita afei√ß√£o, interessam-se por aqueles a quem amam, da mesma forma que por si mesmos. Assim, o que para outra pessoa seria apenas motivo de indigna√ß√£o √© para eles um motivo de c√≥lera. E como a inclina√ß√£o que t√™m para amar faz que tenham muito calor e muito sangue no cora√ß√£o, a avers√£o que os surpreende n√£o pode impelir para este t√£o pouca bile que isso n√£o cause inicialmente uma grande emo√ß√£o no sangue. Mas tal emo√ß√£o pouco dura, porque a for√ßa da surpresa n√£o se prolonga e porque,

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Liberdade e Eternidade

A liberdade que √†s vezes sentia n√£o vinha de reflex√Ķes n√≠tidas, mas de um estado como feito de percep√ß√Ķes por demais org√Ęnicas para serem formuladas em pensamentos. √Äs vezes no fundo da sensa√ß√£o tremulava uma ideia que lhe dava leve consci√™ncia de sua esp√©cie e de sua cor.

O estado para onde deslizava quando murmurava: eternidade. O pr√≥prio pensamento adquiria uma qualidade de eternidade. Aprofundava-se magicamente e alargava-se, sem propriamente um conte√ļdo e uma forma, mas sem dimens√Ķes tamb√©m. A impress√£o de que se conseguisse manter-se na sensa√ß√£o por mais uns instantes teria uma revela√ß√£o ‚ÄĒ facilmente, como enxergar o resto do mundo apenas inclinando-se da terra para o espa√ßo. Eternidade n√£o era s√≥ o tempo, mas algo como a certeza enraizadamente profunda de n√£o poder cont√™-lo no corpo por causa da morte; a impossibilidade de ultrapassar a eternidade era eternidade; e tamb√©m era eterno um sentimento em pureza absoluta, quase abstracto. Sobretudo dava ideia de eternidade a impossibilidade de saber quantos seres humanos se sucederiam ap√≥s seu corpo, que um dia estaria distante do presente com a velocidade de um b√≥lido.

Definia eternidade e as explica√ß√Ķes nasciam fatais como as pancadas do cora√ß√£o. Delas n√£o mudaria um termo sequer,

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A Idade da Derrota Aceite

Tenho sessenta anos. N√£o te iludas: n√£o estou ainda bastante fraco para ceder √†s imagina√ß√Ķes do medo, quase t√£o absurdas como as da esperan√ßa e seguramente muito mais penosas. Se fosse preciso enganar-me a mim mesmo, preferia que fosse no sentido da confian√ßa; n√£o perderia mais com isso e sofreria menos. Este fim t√£o pr√≥ximo n√£o √© necessariamente imediato; deito-me ainda, todas as noites, com a esperan√ßa de chegar √† manh√£ seguinte. Adentro dos limites intranspon√≠veis de que te falei h√° pouco, posso defender a minha posi√ß√£o passo a passo e recuperar mesmo algumas polegadas do terreno perdido. N√£o deixo por isso de ter chegado √† idade em que a vida se torna, para cada homem, uma derrota aceite. Dizer que os meus dias est√£o contados n√£o significa nada; sempre assim foi; √© assim para todos n√≥s. Mas a incerteza do lugar, do tempo e do modo, que nos impede de distinguir bem o fim para o qual avan√ßamos sem cessar, diminui para mim √† medida que a minha doen√ßa mortal progride. Qualquer pessoa pode morrer de um momento para o outro, mas o doente sabe que passados dez anos j√° n√£o ser√° vivo.
A minha margem de hesitação já não se alonga em anos,

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Para o Jornalista, Tudo o que é Provável é Verdade

¬ęPara o jornalista, tudo o que √© prov√°vel √© verdade¬Ľ. Trata-se dum axioma estupendo, como tudo o que Balzac inventa. Reflectindo nele, n√≥s percebemos quantas falsidades se explicam e quantas arranhadelas na sensibilidade se resumem a fanfarronices e n√£o a conhecimento dos factos. Em geral, o pequeno jornalista √© um profeta da Imprensa no que toca a banalidades, e um imprudente no que se refere a coisas s√©rias. Quando Balzac refere que a cr√≠tica s√≥ serve para fazer viver o cr√≠tico, isto estende-se a muitas outras tend√™ncias do jornalista: o folhetinista, que √© o que Camilo fazia nas gazetas do Porto (…). Eu pr√≥pria n√£o estou isenta duma soma de articulismos, de recursos √† blague, de gra√ßas adapt√°veis, de frequenta√ß√£o do lado mau da imagina√ß√£o, de rid√≠culos, de fastidiosos conselhos, de discursos convencionais, de condena√ß√Ķes f√°ceis, de birras imbecis, de poesia de barbeiro, de eleg√Ęncias chatas, de canibalismo vulgar, de panfletismo ¬ębom cidad√£o¬Ľ. Quando n√£o sou nada disso, sou assunto para jornais, mas n√£o sou jornalista.

A Moral Pura

A moral pura √© √ļnica e universal: n√£o sofreu altera√ß√Ķes ao longo dos tempos, nem altera√ß√Ķes nem melhorias. N√£o depende de factores hist√≥ricos, econ√≥micos, sociol√≥gicos ou culturais, ou seja, n√£o depende do que quer que seja. N√£o √© determin√°vel mas determinante. N√£o √© condicionada, √© condicionante. Para ser mais claro, √© um absoluto. Uma moral observ√°vel √© sempre, na pr√°tica, o resultado da mistura, em propor√ß√Ķes vari√°veis, de elementos de moral pura e elementos de origem mais obscura, quase sempre religiosa. Quanto maior √© a propor√ß√£o de elementos de moral pura, tanto mais longa e feliz ser√° a exist√™ncia de uma sociedade que suporte essa moral. Se fosse poss√≠vel imaginar uma sociedade que se regesse pelos princ√≠pios puros da moral universal, ent√£o essa sociedade duraria o que dura o mundo.

O que é uma Pessoa Religiosamente Iluminada

Em vez de perguntar o que √© a religi√£o, prefiro perguntar o que caracteriza as aspira√ß√Ķes de uma pessoa que me d√° a impress√£o de ser religiosa: uma pessoa que √© religiosamente iluminada parece-me algu√©m que, utilizando as suas melhores capacidades, se libertou das grilhetas dos seus desejos ego√≠stas e est√° preocupado com pensamentos, sentimentos e aspira√ß√Ķes a que se agarra devido ao seu estreito valor superpessoal. Parece-me que o que √© importante √© a for√ßa deste conte√ļdo superpessoal e a profundidade da convic√ß√£o relativa ao seu significado esmagador, independentemente de se fazer alguma tentativa para reunir este conte√ļdo com um ser divino, pois de outro modo n√£o seria poss√≠vel considerar Buda e Spinoza personalidades religiosas. De igual modo, uma pessoa religiosa √© devota no sentido de que n√£o tem quaisquer d√ļvidas sobre o significado e o car√°cter desses objectos e fins superpessoais, que n√£o necessitam nem garantem uma fundamenta√ß√£o racional (…)
A ci√™ncia s√≥ pode ser criada por aqueles que est√£o profundamente imbu√≠dos de uma aspira√ß√£o de verdade e compreens√£o. Todavia, a origem deste sentimento nasce na esfera da religi√£o. A esta esfera pertence tamb√©m a f√© na possibilidade de as regula√ß√Ķes v√°lidas para o mundo real serem racionais,

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A Grande Literatura

Os romances nunca serão totalmente imaginários nem totalmente reais. Ler um romance é confrontar-se tanto com a imaginação do autor quanto com o mundo real cuja superfície arranhamos com uma curiosidade tão inquieta. Quando nos refugiamos num canto, nos deitamos numa cama, nos estendemos num divã com um romance nas mãos, a nossa imaginação passa o tempo a navegar entre o mundo daquele romance e o mundo no qual ainda vivemos. O romance nas nossas mãos pode-nos levar a um outro mundo onde nunca estivemos, que nunca vimos ou de que nunca tivemos notícia. Ou pode-nos levar até às profundezas ocultas de um personagem que, na superfície, parece-se às pessoas que conhecemos melhor. Estou a chamar a atenção para cada uma dessas possibilidades isoladas porque há uma visão que acalento, de tempos a tempos, que abarca os dois extremos. Às vezes tento conjurar, um a um, uma multidão de leitores recolhidos num canto e aninhados nas suas poltronas com um romance nas mãos; e também tento imaginar a geografia de sua vida quotidiana. E então, diante dos meus olhos, milhares, dezenas de milhares de leitores vão tomando forma, distribuídos por todas as ruas da cidade, enquanto eles lêem, sonham os sonhos do autor,

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Cartas Trocadas para o Marido e para o Amante

Anais,

Uma terr√≠vel asneira foi feita. Enviaste a carta para o Hugo, no dia em que chegaste, e mandaste-lhe a minha. O Hugo est√° freneticamente a tentar entrar em contacto comigo. Mandou a Am√©lia aqui, que deixou debaixo da porta o bilhete que junto. Ela esteve aqui de manh√£ e outra vez esta noite. Pensei de manh√£ que era o pr√≥prio Hugo e que ele tinha vindo para me “apanhar”… Por isso, n√£o abri a porta.

J√° que eu tinha recebido a carta dele na noite anterior (a tua carta para ele), tive um pressentimento de que as cartas tinham sido postas nos envelopes errados e fiquei apreensivo. Esta noite enviei-lhe a sua carta para o n√ļmero 18 da Ave. de Versailles, sem dar a minha morada. N√£o posso dizer nesta carta se chegarei a receber a que me era devida. Espero que sim. Suponho que ele saiba tudo agora. Mas estou a evit√°-lo, porque n√£o quero admitir nem negar. Ele deve estar furioso, mas, ao mesmo tempo, num estado terr√≠vel. Eu pr√≥prio estou exausto de apreens√£o. Trouxe o Fred para ficar aqui comigo, porque at√© o Hugo partir vou estar em pulgas. Sei que, se ele me matasse,

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Não Somos Capazes de Distinguir o que é Bom e o que é Mau

Quantas vezes um pretenso desastre n√£o foi a causa inicial de uma grande felicidade! Quantas vezes, tamb√©m, uma conjuntura saudada com entusiasmo n√£o constituiu apenas um passo em direc√ß√£o ao abismo ‚ÄĒ elevando um pouco mais ainda algu√©m em posi√ß√£o eminente, como se em tal posi√ß√£o pudesse estar certo de cair dela sem risco! A pr√≥pria queda, ali√°s, n√£o tem em si mesma nada de mal se tomares em considera√ß√£o o limite para l√° do qual a natureza n√£o pode precipitar ningu√©m. Est√° bem perto de n√≥s o termo de tudo quanto h√°, est√° bem perto, garanto-te, o limite desta exist√™ncia donde o venturoso se julga expulso e o desgra√ßado liberto; n√≥s √© que, ou por esperan√ßas ou por receios desmesurados, a fazemos mais extensa do que realmente √©. Se agires com sabedoria, medir√°s tudo em fun√ß√£o da condi√ß√£o humana, e assim limitar√°s o espa√ßo tanto das alegrias como dos receios. Vale bem a pena privarmo-nos de duradouras alegrias a troco de n√£o sentirmos duradouros receios!
Por que motivo procuro eu restringir este mal que √© o medo? √Č que n√£o h√° raz√£o v√°lida para temeres o que quer que seja; n√≥s, isso sim, deixamo-nos abalar e atormentar apenas por v√£s apar√™ncias.

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O Aborrecimento e a Agitação

Uma das caracter√≠sticas essenciais do aborrecimento consiste no contraste entre as circunst√Ęncias presentes e outras mais agrad√°veis que exercem uma for√ßa irresist√≠vel sobre a imagina√ß√£o. √Č tamb√©m essencial que as faculdades do indiv√≠duo n√£o estejam inteiramente ocupadas. Fugir diante de inimigos que pretendem tirar-nos a vida, deve ser desagrad√°vel, mas certamente n√£o √© aborrecido. Um homem tamb√©m n√£o se sente aborrecido quando √© executado, a n√£o ser que tenha uma coragem quase sobre-humana. Da mesma maneira nunca ningu√©m bocejou ao pronunciar o seu primeiro discurso na C√Ęmara dos Lordes, salvo o falecido duque de Devonshire, que por isso mesmo se tornou c√©lebre. O aborrecimento √© essencialmente um desejo frustrado de aventuras, n√£o necess√°riamente agrad√°veis, mas pelo menos de incidentes que permitam √† v√≠tima do t√©dio distinguir um dia dos outros dias. O oposto do aborrecimento √©, numa palavra, n√£o o prazer, mas sim a agita√ß√£o.

A Razão da Minha Esperança

Meu bom amigo,

Sei que tens sofrido bastante.

Não posso esquecer que um dia me ensinaste: que leal é quem não abandona; que devemos procurar ser pessoas dignas de confiança, mais do que tentar encontrar alguém assim; e, que a vontade de amar já é, em si mesma, amor.

Permite-me que partilhe contigo, hoje, algumas ideias a respeito dos momentos dif√≠ceis…

S√£o muitas as provas que na vida servem para testar quem somos, a for√ßa que temos em n√≥s e o nosso valor. Algumas vezes uma pedra gigante vem cair mesmo diante de n√≥s… outras vezes s√£o s√©ries infind√°veis de pequenos obst√°culos no caminho… longas etapas que nos obrigam a seguir adiante sem descansar, em percursos onde quase nunca se v√™ o horizonte.
A agita√ß√£o permanente em que vivemos leva muitos a desistir de encontrar refer√™ncias mais adiante, mas √© preciso que nos afastemos do tempo para assim encontrarmos a posi√ß√£o mais segura, elevando-nos acima dos momentos passageiros para os compreender melhor. No meio da confus√£o √© preciso ver para al√©m do que se pode olhar… estabelecer os alicerces sobre o que √© s√≥lido, ainda que seja preciso escavar muito mais fundo do que o normal…

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Disposição Aleatória

Não posso conceber uma vida sem trabalho como verdadeiramente aprazível; para mim, viver através da imaginação e trabalhar significam a mesma coisa; nada mais me contenta. Seria a receita da felicidade, se não fosse o pensamento horrível de que a produtividade depende por completo de uma disposição aleatória; que poderemos, com efeito, empreender no decurso de um dia ou de um período em que as ideias se recusam e as palavras não querem alinhar-se?

(…) Todo o trabalho sistem√°tico √© incompat√≠vel com os meus dons e as minhas tend√™ncias. Todos os meus est√≠mulos resultam das impress√Ķes que recebo em contacto com os meus doentes.

A Companhia do Amor

O que eu sinto n√£o seria para si uma coisa nova de que necessitasse uma clara afirma√ß√£o; √© o mesmo que eu sentia quando passe√°vamos ambos nas areias da Costa Nova. Ou antes, n√£o √© o mesmo sentimento: √© outro mais belo, mais completo; porque tendo, apesar de tudo, ficado comigo, desde que nos separ√°mos, e tendo sido o doce e fiel companheiro da minha vida desde ent√£o – esse sentimento penetrou-me de um modo mais absoluto e mais absorvente, exaltou-se e idealizou-se, e de tal sorte me invadiu todo que eu cheguei a n√£o ter pensamento, ideia, esperan√ßa, plano, a que n√£o estivesse misturada a sua imagem. E na Costa Nova ainda n√£o era assim. Dizer porque √© que eu, apesar de tudo, insistia em pensar em si, n√£o sei. O facto de n√£o serem dependentes da vontade os movimentos do cora√ß√£o n√£o √© uma suficiente explica√ß√£o: porque eu podia resistir √† importunidade desta ideia, e em lugar disso abandonava-me a ela como √† minha √ļnica alegria. Devo portanto concluir que havia um pressentimento latente, uma vaga quase certeza, uma f√© secreta de que a afinidade que existe entre as nossas naturezas se viria um dia a manifestar apesar de tudo,

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