Textos sobre Ocupação

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Textos de ocupação escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A Vaidade Acompanha-nos Até na Morte

Sendo o termo da vida limitado, n√£o tem limite a nossa vaidade; porque dura mais, do que n√≥s mesmos, e se introduz nos aparatos √ļltimos da morte. Que maior prova, do que a f√°brica de um elevado mausol√©u? No sil√™ncio de uma urna depositam os homens as suas mem√≥rias, para com a f√© dos m√°rmores fazerem seus nomes imortais: querem que a sumptuosidade do t√ļmulo sirva de inspirar venera√ß√£o, como se fossem rel√≠quias as suas cinzas, e que corra por conta dos jaspes a continua√ß√£o do respeito. Que fr√≠volo cuidado! Esse triste resto daquilo, que foi homem, j√° parece um √≠dolo colocado em um breve, mas soberbo domic√≠lio, que a vaidade edificou para habita√ß√£o de uma cinza fria, e desta declara a inscri√ß√£o o nome, e a grandeza. A vaidade at√© se estende a enriquecer de adornos o mesmo pobre horror da sepultura.

Vivemos com vaidade, e com vaidade morremos; arrancando os √ļltimos suspiros, estamos dispondo a nossa pompa f√ļnebre, como se em hora t√£o fatal o morrer n√£o bastasse para ocupa√ß√£o; nessa hora, em que estamos para deixar o mundo, ou em que o mundo est√° para nos deixar, entramos a compor, e a ordenar o nosso acompanhamento,

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Existir Eficazmente

Esta necessidade de estar s√≥, de n√£o sentir que te pedem seja o que for, que te separam de ti pr√≥prio. Este horror a que tenham o m√≠nimo direito sobre ti, de que to fa√ßam sentir… Esta evidente impertin√™ncia dos outros, quando esperam qualquer coisa, quando take for granted alguma coisa de ti.
Tornas-te de s√ļbito distante, apagas-te, ficas r√≠gido, repeles. Incapaz de dizer uma boa palavra. P√Ķes ponto final e afastas-te.
Rancor contra aqueles que tiveste de eliminar dessa maneira e que, por piedade, por espírito de sacrifício, tens de voltar a aceitar.

A sa√ļde interior que d√£o a profiss√£o pol√≠tico-moral e o contacto com as massas n√£o √© diferente da que prov√©m de qualquer ocupa√ß√£o, de qualquer actividade a que um homem se consagre. Quando escreves e te entregas inteiramente √† tua arte, sentes-te sereno, equilibrado, feliz.

O Amor é de outro Reino

O amor √© de outro reino. (…) Da amizade, do amor, do encontro de duas pessoas que se sentem bem uma ao lado da outra, fazendo amor, falando de amor, trocando amor, conversando de amor, falando de nada, falando de pequenas hist√≥rias c√≥digo de ministros com aventuras de aventuras sem ministros conversa alta e baixa de livros e de quadros de compras e de ninharias conversas trocadas em mi√ļdos ouvindo m√ļsica sem escutar m√ļsica que ajuda o amor o amor precisa de ajudas de ir √†s cavalitas de andas de muita coisa simples amor √© um segredo que deve ser alimentado nas horas vagas alimentado nas horas de trabalho nas horas mais isoladas amor √© uma ocupa√ß√£o de vinte e quatro horas com dois turnos pela mesma pessoa com desconfian√ßas e descobertas com cegueiras e lumineiras amor de tocar no mais √≠ntimo na beleza de um encanto escondido rec√īndito que todos no mundo fizeram pais de padres m√£es de bispos av√≥s de cardeais amor agarrado intrometido de falus com prazer de alegria amor que n√£o se sabe o que vai dar que nunca se sabe o que vai dar amor t√£o amor.

N√£o h√° Felicidade sem Verdadeira Vida Interior

A vida intelectual ocupará, de preferência, o homem dotado de capacida­des espirituais, e adquire, mediante o incremento inin­terrupto da visão e do conhecimento, uma coesão, uma intensificação, uma totalidade e uma plenitude cada vez mais pronunciadas, como uma obra de arte amadurecen­do aos poucos. Em contrapartida, a vida prática dos ou­tros, orientada apenas para o bem-estar pessoal, capaz de incremento apenas em extensão, não em profundeza, contrasta em tristeza, valendo-lhes como fim em si mesmo, enquanto para o homem de capacida­des espirituais é apenas um meio.
A nossa vida pr√°tica, real, quando as paix√Ķes n√£o a movimentam, √© tediosa e sem sabor; mas quando a movi¬≠mentam, logo se torna dolorosa. Por isso, os √ļnicos feli¬≠zes s√£o aqueles aos quais coube um excesso de intelec¬≠to que ultrapassa a medida exigida para o servi√ßo da sua vontade. Pois, assim, eles ainda levam, ao lado da vida real, uma intelectual, que os ocupa e entret√©m ininter¬≠ruptamente de maneira indolor e, no entanto, vivaz. Pa¬≠ra tanto, o mero √≥cio, isto √©, o intelecto n√£o ocupado com o servi√ßo da vontade, n√£o √© suficiente; √© necess√°rio um excedente real de for√ßa, pois apenas este capacita a uma ocupa√ß√£o puramente espiritual, n√£o subordinada ao ser¬≠vi√ßo da vontade.

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O Vazio da Pressa e do Dinamismo

A pressa, o nervosismo, a instabilidade, observados desde o surgimento das grandes cidades, alastram-se nos dias de hoje de uma forma t√£o epid√©mica quanto outrora a peste e a c√≥lera. Nesse processo manifestam-se for√ßas das quais os passantes apressados do s√©culo XIX n√£o eram capazes de fazer a menor ideia. Todas as pessoas t√™m necessariamente algum projecto. O tempo de lazer exige que se o esgote. Ele √© planeado, utilizado para que se empreenda alguma coisa, preenchido com vistas a toda esp√©cie de espect√°culo, ou ainda apenas com locomo√ß√Ķes t√£o r√°pidas quanto poss√≠vel. A sombra de tudo isso cai sobre o trabalho intelectual. Este √© realizado com m√° consci√™ncia, como se tivesse sido roubado a alguma ocupa√ß√£o urgente, ainda que meramente imagin√°ria. A fim de se justificar perante si mesmo, ele d√°-se ares de uma agita√ß√£o febril, de um grande af√£, de uma empresa que opera a todo vapor devido √† urg√™ncia do tempo e para a qual toda a reflex√£o ‚ÄĒ isto √©, ele mesmo ‚ÄĒ √© um estorvo. Com frequ√™ncia tudo se passa como se os intelectuais reservassem para a sua pr√≥pria produ√ß√£o precisamente apenas aquelas horas que sobram das suas obriga√ß√Ķes, sa√≠das, compromissos, e divertimentos inevit√°veis.

Sobre a Reforma

Lan√ßar-me-ia num discurso demasiado longo se referisse aqui em particular todas as raz√Ķes naturais que levam os velhos a retirarem-se dos neg√≥cios do mundo: as mudan√ßas de humor, de condi√ß√Ķes f√≠sicas e o enfraquecimento org√Ęnico levam as pessoas e a maior parte dos animais, a afastarem-se pouco a pouco dos seus semelhantes. O orgulho, que √© insepar√°vel do amor-pt√≥prio, substitui-se-lhes √† raz√£o: j√° n√£o pode ser lisonjeado pela maior parle das coisas que lisonjeiam os outros, porque a experi√™ncia lhe fez conhecer o valor do que todos os homens desejam na juventude e a impossibilidade de o continuar a disfrutar; as diversas vias que parecem abertas aos jovens para alcan√ßar grandeza, prazeres, reputa√ß√£o e tudo o mais que eleva os homens, est√£o-lhes vedadas, quer pela fortuna ou pela sua conduta, quer pela inveja ou pela injusti√ßa dos outros; o caminho de reingresso nessas vias √© demasiado longo e demasiado √°rduo para quem j√° se perdeu nelas; as dificuldades parecem-lhes imposs√≠veis de ultrapassar e a idade j√° lhes n√£o permite tais pretens√Ķes. Tornam-se insens√≠veis √† amizade, n√£o s√≥ porque talvez nunca tenham encontrado nenhuma verdadeira, mas tamb√©m porque viram morrer grande n√ļmero de amigos que ainda n√£o tinham tido tempo nem ocasi√£o de desiludir a sua amizade e,

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O que Distingue um Amigo Verdadeiro

N√£o se pode ter muitos amigos. Mesmo que se queira, mesmo que se conhe√ßam pessoas de quem apetece ser amiga, n√£o se pode ter muitos amigos. Ou melhor: nunca se pode ser bom amigo de muitas pessoas. Ou melhor: amigo. A preocupa√ß√£o da alma e a ocupa√ß√£o do espa√ßo, o tempo que se pode passar e a aten√ß√£o que se pode dar ‚ÄĒ todas estas coisas s√£o finitas e t√™m de ser partilhadas. N√£o chegam para mais de um, dois, tr√™s, quatro, cinco amigos. √Č preciso saber partilhar o que temos com eles e n√£o se pode dividir uma coisa j√° de si pequena (n√≥s) por muitas pessoas.

Os amigos, como acontece com os amantes, também têm de ser escolhidos. Pode custar-nos não ter tempo nem vida para se ser amigo de alguém de quem se gosta, mas esse é um dos custos da amizade. O que é bom sai caro. A tendência automática é para ter um máximo de amigos ou mesmo ser amigo de toda a gente. Trata-se de uma espécie de promiscuidade, para não dizer a pior. Não se pode ser amigo de todas as pessoas de que se gosta. Às vezes, para se ser amigo de alguém,

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√Č por ter Esp√≠rito que me Aborre√ßo

√Č preciso esconjurar, da forma que nos for poss√≠vel, este diabo de vida que n√£o sei porque √© que nos foi dada e que se torna t√£o facilmente amarga se n√£o opusermos ao t√©dio e aos aborrecimentos uma vontade de ferro. √Č preciso, numa palavra, agitar este corpo e este esp√≠rito que se delapidam um ao outro na estagna√ß√£o e numa indol√™ncia que se confunde com um torpor. √Č preciso passar, necessariamente, do descanso ao trabalho – e reciprocamente: s√≥ assim estes parecer√£o, ao mesmo tempo, agrad√°veis e salutares. Um desgra√ßado que trabalhe sem cessar, sob o peso de tarefas inadi√°veis, deve ser, sem d√ļvida, extremamente infeliz, mas um indiv√≠duo que n√£o fa√ßa mais do que divertir-se n√£o encontrar√° nas suas distrac√ß√Ķes nem prazer nem tranquilidade; sente que luta contra o t√©dio e que este o prende pelos cabelos – como se fosse um fantasma que se colocasse sempre por detr√°s de cada distrac√ß√£o e espreitasse por cima do nosso ombro.
Não julgue, cara amiga, que eu só porque trabalho regularmente estou isento das investidas deste terrível inimigo; penso que, quando se tem uma certa disposição de espírito, é preciso termos uma imensa energia de forma a não nos deixarmos absorver e conseguir escapar,

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Os Falsos Cultos

A maior parte das pessoas, ao entregarem-se √†s chamadas ocupa√ß√Ķes intelectuais, considerando como tais o ler e o escrever (n√£o o escrever cartas, mas o escrever como autor), n√£o fazem de modo algum o que julgam fazer: porque nem embelezam a sua cultura – ¬ęampliar¬Ľ a sua cultura, como se costuma dizer, √© um disparate horroroso – nem agu√ßam o seu entendimento, nem enriquecem a sua experi√™ncia, e n√£o produzem mais nem nada mais importante que aqueles rapazes que remexem a terra √† beira de um charco, deitam pedras para a √°gua turva, etc., em suma, um nada em grande az√°fama.
Nenhum bocado da superf√≠cie de uma figura pode ser criado sen√£o a partir do seu √Ęmago.

A Vida Vazia da Cidade

Instal√°mo-nos, portanto, na cidade. A√≠ toda a vida √© suport√°vel para as pessoas infelizes. Um homem pode viver cem anos na cidade, sem dar por que morreu e apodreceu h√° muito. Falta tempo para o exame de consci√™ncia. As ocupa√ß√Ķes, os neg√≥cios, os contactos sociais, a sa√ļde, as doen√ßas e a educa√ß√£o das crian√ßas preenchem-nos o tempo. T√£o depressa se tem de receber visitas e retribu√≠-las, como se tem de ir a um espect√°culo, a uma exposi√ß√£o ou a uma confer√™ncia.
De facto, na cidade aparece a todo o momento uma celebridade, duas ou três ao mesmo tempo que não se pode deixar de perder. Tão depressa se tem de seguir um regime, tratar disto ou daquilo, como se tem de falar com os professores, os explicadores, as governantas. A vida torna-se assim completamente vazia.

Necessidade de Ocupar a Vida

Aqueles que não têm necessidade de prover às suas próprias necessidades, e por isso deixam essa preocupação para os outros, não são geralmente capazes de prover, ou de maneira nenhuma ou então só com enorme dificuldade e de modo menos satisfatório que os outros, a uma necessidade importantíssima, que seja como for têm. Refiro-me à necessidade de ocupar a vida: a qual é muito maior do que todas as necessidades específicas, às quais, ocupando-a, se provê; e é também maior do que a necessidade de viver. Aliás, viver, em si mesmo, não é uma necessidade, porque desacompanhado da felicidade não é um bem. Pelo que, sendo-nos dada a vida, a maior e primeira necessidade é conduzi-la com a menor infelicidade possível. Ora, por um lado, a vida desocupada ou vazia é infelicíssima. Por outro lado, o modo de ocupação com o qual a vida se torna menos infeliz do que com qualquer outro é o que consiste em prover às próprias necessidades.

Um Século de Discursos sem Resultados

O eterno ¬ędeficit¬Ľ; o mist√©rio tenebroso das contas e da d√≠vida p√ļblica; o espectro da bancarrota; a quebra da moeda; o ¬ędeficit¬Ľ da balan√ßa comercial; a insufici√™ncia econ√≥mica; a mis√©ria agr√≠cola; a irriga√ß√£o do Alentejo; o repovoamento florestal; as estradas; os portos; o analfabetismo; o abandono das popula√ß√Ķes rurais; a pesca; a marinha mercante ; a administra√ß√£o colonial; a instru√ß√£o e rearmamento do Ex√©rcito; a reconstru√ß√£o da marinha de guerra; a viciosa educa√ß√£o da gente portuguesa; a emigra√ß√£o; o quadro das nossas rela√ß√Ķes internacionais; a quest√£o religiosa ‚ÄĒ tudo isto absorveu literalmente um s√©culo de discursos, toneladas de artigos e n√£o deu um passo, salvo sempre o respeito pelos esfor√ßos honestos e realiza√ß√Ķes parciais √ļteis, entre as quais se destacam o fomento das comunica√ß√Ķes e a ocupa√ß√£o colonial.

A Vida é um Sonho um Pouco Menos Inconstante

Se sonhássemos todas as noites a mesma coisa, ela afectar-nos-ia tanto como os objectos que vemos todos os dias. E, se um artista estivesse seguro de sonhar todas as noites, durante doze horas, que é um rei, creio que seria quase tão feliz como um rei que sonhasse todas as noites, durante doze horas, que era um artista.
Se sonh√°ssemos todas as noites que somos perseguidos por inimigos, e agitados por esses fantasmas penosos, e se pass√°ssemos todos os dias em diversas ocupa√ß√Ķes, como quando se faz uma viagem, sofrer-se-ia quase tanto como se isso fosse verdadeiro, e apreender-se-ia o dormir como se apreende o despertar quando se teme entrar em semelhantes desgra√ßas realmente. E, com efeito, isto faria pouco mais ou menos o mesmo mal que a realidade.
Mas, porque os sonhos s√£o todos diferentes, e porque mesmo um se diversifica, o que se v√™ neles afecta bem menos que o que se v√™ acordado, por causa da continuidade, que n√£o √© contudo t√£o cont√≠nua e igual que n√£o mude tamb√©m, mas menos bruscamente, a n√£o ser raramente, como quando se viaja; e ent√£o diz-se: ¬ęParece-me que sonho¬Ľ; pois a vida √© um sonho um pouco menos inconstante.

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O Mal da Cidade

O Homem pensa ter na Cidade a base de toda a sua grandeza e s√≥ nela tem a fonte de toda a sua mis√©ria. V√™, Jacinto! Na Cidade perdeu ele a for√ßa e beleza harmoniosa do corpo, e se tornou esse ser ressequido e escanifrado ou obeso e afogado em unto, de ossos moles como trapos, de nervos tr√©mulos como arames, com cangalhas, com chin√≥s, com dentaduras de chumbo, sem sangue, sem fibra, sem vi√ßo, torto, corcunda – esse ser em que Deus, espantado, mal pode reconhecer o seu esbelto e rijo e nobre Ad√£o! Na cidade findou a sua liberdade moral: cada manh√£ ela lhe imp√Ķe uma necessidade, e cada necessidade o arremessa para uma depend√™ncia: pobre e subalterno, a sua vida √© um constante solicitar, adular, vergar, rastejar, aturar; rico e superior como um Jacinto, a Sociedade logo o enreda em tradi√ß√Ķes, preceitos, etiquetas, cerim√≥nias, praxes, ritos, servi√ßos mais disciplinares que os dum c√°rcere ou dum quartel… A sua tranquilidade (bem t√£o alto que Deus com ela recompensa os Santos) onde est√°, meu Jacinto? Sumida para sempre, nessa batalha desesperada pelo p√£o, ou pela fama, ou pelo poder, ou pelo gozo, ou pela fugidia rodela de ouro!
Alegria como a haver√° na Cidade para esses milh√Ķes de seres que tumultuam na arquejante ocupa√ß√£o de desejar –

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A Ocupação Militar

N√£o h√° ocupa√ß√£o t√£o agrad√°vel como a militar; ocupa√ß√£o tanto nobre na execu√ß√£o (pois a mais forte, generosa e magn√≠fica de todas as virtudes √© a valentia) quanto nobre na sua causa: n√£o h√° utilidade mais leg√≠tima nem mais geral do que a protec√ß√£o da tranquilidade e da grandeza do seu pa√≠s. Agrada-vos a companhia de tantos homens, nobres, jovens, activos, a vis√£o frequente de tantos espect√°culos tr√°gicos, a liberdade desse conv√≠vio sem artif√≠cios e uma forma de vida viril e sem cerim√≥nia, a variedade de mil actividades diversas, essa fogosa harmonia da m√ļsica guerreira que vos alimenta e aquece os ouvidos e a alma, a honra desse exerc√≠cio, mesmo a sua rudeza e dificuldade, que Plat√£o considera t√£o pouca que na sua rep√ļblica a reparte com as mulheres e as crian√ßas.
Oferecei-vos para os pap√©is e os riscos pessoais de acordo com o que julgais sobre o seu brilho e a sua import√Ęncia, soldado volunt√°rio, e vedes quando mesmo a vida √© justificadamente empregue neles, penso que √© belo morrer combatendo (Virg√≠lio). Temer os perigos gerais que envolvem uma multid√£o em que tantas pessoas incorrem, n√£o ousar o que tantas esp√©cies de indiv√≠duos ousam √© pr√≥prio de um √Ęnimo desmedidamente frouxo e inferior.

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A Aspiração de Todo o Bom Português

Enquanto a aspira√ß√£o de todo o bom portugu√™s for, na frase de um escritor, um casamento rico e um emprego p√ļblico; enquanto o diploma for o caminho mais seguro e c√≥modo para uma coloca√ß√£o certa embora pouco rendosa, e nos n√£o disserem como um ingl√™s ilustre a um professor da Fran√ßa que lhe mostrava os numerosos certificados das suas habilita√ß√Ķes: ¬ęN√≥s n√£o precisamos de diplomas, Senhor, precisamos de homens¬Ľ; enquanto for uma inferioridade a vida de trabalho e um sinal de distin√ß√£o a ociosidade, uma popula√ß√£o numerosa e f√ļtil h√°-de cursar as escolas secund√°rias e superiores, e tudo o que exige trabalho e rasgada iniciativa ser√° abandonado; a agricultura, o com√©rcio, a ind√ļstria, todas as fontes de riqueza nacional ficar√£o desaproveitadas, desprezadas, a meterem d√≥, quando podiam ser a honrosa ocupa√ß√£o de tantos e a salva√ß√£o e a prosperidade de todos n√≥s.

Um Único Estilo de Vida não é Viver, é Ser

N√£o nos devemos apegar assim t√£o fortemente √†s nossas tend√™ncias e temperamento. O nosso talento principal √© sabermos aplicar-nos a pr√°ticas diversas. O estar vinculado, e necessariamente obrigado, a um √ļnico estilo de vida n√£o √© viver, √© ser. As almas mais belas s√£o as que t√™m mais variedade e flexibilidade.
Se me fosse poss√≠vel constituir-me a meu modo, n√£o haveria nenhuma forma, por melhor que fosse, na qual eu me quisesse fixar de sorte que n√£o fosse capaz de dela me apartar. A vida √© um movimento desigual, irregular e multiforme. N√£o √© ser amigo, e muito menos senhor, de si mesmo, deixar-se incessantemente conduzir por si e estar preso √†s pr√≥prias inclina√ß√Ķes que n√£o possa desviar-se delas nem torc√™-las – √© ser escravo de si pr√≥prio.
Digo-o neste momento por não me poder facilmente desembaraçar da importunidade da minha alma que consiste em ela normalmente não saber ocupar-se senão do que a absorve, nem aplicar-se senão por inteiro e de forma tensa. Por mais trivial que seja o assunto que se lhe dê, ela logo o aumenta e estica a ponto de ter de se empenhar nele com todas as forças. A sua ociosidade é-me, por esta causa,

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Vida Real e Actividade Intelectual

O que, em √ļltima inst√Ęncia, importa para o nosso bem-estar √© aquilo que preenche e ocupa a consci√™ncia. No geral, toda a ocupa√ß√£o puramente intelectual proporcionar√°, ao esp√≠rito capaz de a executar, muito mais do que a vida real com as suas altern√Ęncias constantes entre sucesso e fracasso, acompanhados de abalos e tormentos. Decerto, no entanto, para tal ocupa√ß√£o j√° s√£o exigidas disposi√ß√Ķes intelectuais preponderantes. Al√©m disso, deve-se observar que, assim como a vida activa voltada para o exterior nos distrai e desvia dos estudos, retirando do esp√≠rito a tranquilidade e a concentra√ß√£o necess√°rias, a ocupa√ß√£o espiritual incessante tamb√©m nos torna mais ou menos inaptos para as agita√ß√Ķes e tumultos da vida real. Dessa maneira, √© aconselh√°vel suspender inteiramente tal ocupa√ß√£o por algum tempo, quando surgirem circunst√Ęncias que exijam de algum modo uma actividade pr√°tica e en√©rgica.

A Guerra é Deus

Pouco interessa o que os homens pensam da guerra, disse o juiz. A guerra perdura. √Č o mesmo que perguntar-lhes o que acham da pedra. A guerra sempre esteve presente. Antes de o homem existir, a guerra j√° estava √† espera dele. O of√≠cio supremo a aguardar o seu supremo art√≠fice. Sempre foi assim e sempre assim ser√°. Assim e n√£o de outra forma.
(…) Os homens nasceram para jogar. Nada mais. Todo o garoto sabe que a brincadeira √© uma ocupa√ß√£o mais nobre do que o trabalho. Sabe tamb√©m que a excel√™ncia ou m√©rito de um jogo n√£o √© inerente ao jogo em si, mas reside, isso sim, no valor daquilo que os jogadores arriscam. Os jogos de azar exigem que se fa√ßam apostas, sem o que n√£o fazem sequer sentido. Os desportos implicam medir a destreza e a for√ßa dos advers√°rios e a humilha√ß√£o da derrota e o orgulho da vit√≥ria constituem em si mesmos aposta suficiente, pois traduzem o valor dos contendores e definem-nos. Por√©m, quer se trate de contendas cuja sorte se decide pelo azar quer pelo m√©rito, todos os jogos anseiam elevar-se √† condi√ß√£o da guerra, pois nesta aquilo que se aposta devora tudo,

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