Passagens de Joel Neto

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Frases, pensamentos e outras passagens de Joel Neto para ler e compartilhar. Os melhores escritores est√£o em Poetris.

As Ilhas e as Flores

Percorreu um trilho ao longo da manh√£ e sentou-se a comer entre as az√°leas. Quando um dia voltasse a partir, talvez nada lhe fizesse tanta falta como as flores. As hort√™nsias e as √°rvores-de-fogo, as beladonas e as cam√©lias, as magn√≥lias e as olaias: encantava-o a cad√™ncia a que floriam naquela ilha ‚ÄĒ e depois ainda havia os hibiscos, os jarros e os mantos infinitos de erva azeda, sempre prontos a acorrer a algum sobressalto da meteorologia, para que nunca faltasse a cor.
Podia dizer-se o que se quisesse sobre as ilhas, menos que fossem claustrofóbicas. Não as ilhas onde houvesse flores.

√Č uma vingan√ßa (…) E movida pelo amor, que √© a esp√©cie mais devastadora.

As Entranhas da Terra na Vida de um Homem

Ao fim dos primeiros dias de trabalho, deu por si de p√© no centro do corredor, percorrendo as divis√Ķes com o olhar, e julgou perceber melhor a massa de que era feito o seu povo. Tudo oxidava. Os metais oxidavam, as madeiras oxidavam, as paredes e os tecidos e os objectos oxidavam ‚ÄĒ e o que n√£o oxidava enchia-se de salitre, ressequia ao sol ou, sobrevivendo aos abalos de terra, tombava √† f√ļria do vento. E, no entanto, havia algo de belo nisso tamb√©m, como se ao cabo de uma s√≥ vida um homem pudesse dizer, sem grande esfor√ßo meton√≠mico, que as entranhas da Terra se revolviam no interior do seu pr√≥prio est√īmago.

A Velha Angra

Olhou sobre a velha Angra, aninhada aos p√©s do Monte Brasil, as arauc√°rias erguendo-se contra o c√©u cinzento. Esquadrinhou com o olhar as suas ruas, os seus solares e pal√°cios, as suas igrejas. Imaginou marinheiros e mercadores, saltimbancos e aventureiros a caminho das sete partidas do mundo. Charlat√£es bebiam vinho com mission√°rios, soldados negociavam servi√ßos com prostitutas, piratas persuadiam navegadores ao servi√ßo do rei sobre novas e mais rent√°veis rotas, de encontro ao Vento Carpinteiro. Havia escravos e b√™bedos, burocratas e crian√ßas furtivas, freiras e casais de condenados com destino ao Brasil, e toda essa gente circulava pela cidade como se fosse o seu sangue, incerto e veloz, bombeado por um cora√ß√£o descompassado que era o pr√≥prio movimento do mar, furioso, naufragando naus e gale√Ķes como numa tela de Vernet.

A Mulher por quem Esperara tantos Anos

Alguma coisa dentro dele voltou a si. Foi como se, de repente, estivessem efectivamente ali os dois. E, reacendendo a luz, encostou os lábios aos dela e sentiu, enfim, o calor que deles se emitia, e o sabor da sua boca, e o seu cheiro, e teve consciência de que aquela que se deitava na cama consigo não era apenas uma mulher bela, mas uma mulher, a mulher por quem esperara tantos anos.

Tiraram ambos o que lhes restava de roupa, lançando-a ao chão, e tocaram-se suavemente. Havia uma admiração entre eles, como se se descobrissem, e todavia era também tal qual se conhecessem de há muito, as superfícies mais sadias como as primeiras rugosidades dos seus corpos.

Tacteavam-se devagar, atentos às luzes e às sombras de cada recanto que esquadrinhavam, e ao fim de alguns momentos beijavam-se de novo, ele abraçando-a na sua totalidade, açambarcando-a, e ela sorrindo por entre o vento da noite, a chuva e os terramotos sorrindo com ela, e a humidade salgada dos seus peitos, e o mar que se atirava furioso contra aquela terra, e o primeiro suor do seu pescoço.

A partir daí, o mundo desapareceu. E havia medo e alegria,

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Ser Escritor

E, então, porque não podemos viver de outra maneira, escrevemos. E cai-nos o cabelo e apodrecem-nos os dentes, como dizia Flannery O’Connor.

E somos uns chatos. E somos maus maridos e maus filhos e maus amigos. E sentimos culpa, e sentimo-nos indignos de estima, e continuamos, mesmo assim, a n√£o responder quando falam connosco.

E n√£o telefonamos nos anos, nem aparecemos nos churrascos, nem vamos ao caf√©. E, se vamos, a √ļnica coisa de que falamos √© disso: do livro. E tudo aquilo sobre que se conversa pode servir ao livro, caso contr√°rio n√£o nos importa.

E somos os maiores quando um par√°grafo nos sai bem, e ficamos de rastos quando n√£o encontramos um verbo. E sabemos que tem de ser mesmo assim, porque se n√£o for o romance fica uma merda. Mas sentimos culpa na mesma.

E não pagamos as contas, e esquecemo-nos de pedir a garrafa do gás, e calçamos meias de pares diferentes. E de repente queremos fumar dois maços de cigarros e beber meia garrafa de uísque, sozinhos no jardim, a olhar para a noite e a chorar.

E temos de fazer um esforço para mudar de roupa,

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O facto √© que as emo√ß√Ķes dos pobres eram mais francas, mais gratuitas e inapel√°veis – e que, de cada vez que eu o recapitulava, lembrava-me da minha pr√≥pria fam√≠lia.

A Cantiga do Optimismo

N√£o embarquem na cantiga do optimismo. Sempre que poss√≠vel, vejam as coisas pelo lado ruim. Desejem o melhor, mas n√£o deixem nunca de esperar o pior. E saibam que dois ter√ßos das conquistas do Homem se fizeram, mais do que pelo optimismo dos seus autores, em resultado do pessimismo dos vizinhos daqueles. Os comp√™ndios ir√£o contra v√≥s. Dir-vos-√£o que s√£o c√≠nicos, escapistas, pobres cultores da ideia de supremacia do mal sobre o bem, tristes conformistas destinados ao imobilismo e mais nada. N√£o acreditem. Se h√° uma coisa capaz de mover montanhas, √© ter ao lado um sacana a dizer ¬ęN√£o consegues, p√°, d√™s as voltas que deres n√£o consegues¬Ľ – e, ali√°s, n√≥s pr√≥prios concordarmos com ele. Em todo o caso, o mal exerce efectivamente supremacia sobre o bem. Voc√™s sabem que as crian√ßas choram antes de rir – e que. muito antes de aprenderem o potencial sedutor de um sorriso, j√° conhecem as virtudes chantag√≠sticas de uma boa gritaria.

N√£o pensem que o m√©todo √© meu. Insinuou-o Voltaire, no seu Candide, √† revelia dos optimistas taralhoucos que vieram antes e depois dele, como Leibniz ou Godwin. Gramsci tratou da exegese. O verdadeiro segredo? O verdadeiro m√©todo? ¬ę√Č preciso atrair violentamente a aten√ß√£o para o presente do modo como ele √©.

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Um homem pode ser infiel à sua mulher e, no entanto, amá-la eterna e incondicionalmente. Uma mulher infiel simplesmente já não ama o seu marido.

O Mundo dos Solteiros

Agora a s√©rio: voc√™ conhece algum solteiro verdadeiramente satisfeito com a sua condi√ß√£o de solteiro? Eu n√£o. Conhe√ßo v√°rios solteiros que se dizem satisfeitos com a sua condi√ß√£o de solteiros, mas que de bom grado imediatamente se casariam. N√£o se casam por in√©rcia, por cobardia, muitas vezes por falta de sorte – mas √© por uma vida a dois que suspiram. √Č da natureza humana. Uma coisa √© estar entre casamentos. Outra √© ser solteiro. E o solteiro cool √© uma constru√ß√£o t√£o artificial como o da gordinha ¬ęmuito¬Ľ simp√°tica. Voc√™ conhece alguma gordinha ¬ęmuito¬Ľ simp√°tica em que essa t√£o √≥bvia simpatia n√£o seja excessiva, provavelmente fabricada – e mensageira sobretudo de uma profunda solid√£o? Eu n√£o.

(…) √Č um mundo sombrio, o mundo dos solteiros – um mundo de ansiedades, de cinismo, de ressentimento, de ego√≠smo. Se os solteiros solit√°rios s√£o tristes, ali√°s, os solteiros greg√°rios s√£o-no ainda mais. Voc√™ j√° foi a algum jantar em que os presentes fossem maioritariamente solteiros? Eu j√°. E, sempre que fui, voltei deprimido. Ia deprimido – e deprimido voltei. √ćamos deprimidos – e deprimidos volt√°mos. Todos. Fizemos o que pudemos, claro: troc√°mos palavras, troc√°mos solidariedades, troc√°mos mimos. No fim, nada.

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Não foi só a ternura, foi o sexo. Sexo não apenas na sua dimensão espiritual, mas carnal. Sexo na sua pequena morte, o mundo inteiro reduzido ao corpo. Nunca me tinha acontecido.

Qualquer pessoa, velha ou nova. Não se iluda quanto ao grau de maldade que pode reunir-se numa criança de nove anos.

Todos os dias me rio um bocado. Se o humor é uma visão do mundo, mais do que um estado de espírito, então é isso que eu quero ter: uma visão do mundo. E rio-me. Rio-me das idiossincrasias de um empregado de café e da mímica de um palhaço na televisão. Rio-me de uma história plena de agudeza ou apenas de uma torneira que pinga. Rio-me Рrio-me muito.

Pensando bem, a mais ténue fronteira entre a sanidade e a loucura não poderá traçar-se noutro lugar senão aí mesmo: na possibilidade de, para além de tudo o mais, um homem continuar a admirar o seu pai. Pobres daqueles que não o consigam nunca.

Um casamento pode sobreviver a um homem infiel e pode sobreviver a uma mulher infiel tamb√©m. Um casamento s√£o duas pessoas que est√£o juntas ‚Äď e, felizmente, as raz√Ķes por que as pessoas est√£o juntas n√£o se reduzem ao sentimento.

√Äs vezes ocorria-lhe aquele poema de Pessoa em que um homem se punha √† janela da sua meninice apenas para descobrir que nem ele era j√° o mesmo homem, nem a janela a mesma janela. A inf√Ęncia, dizia a si pr√≥prio, havia-se tornado um bem de demasiado valor. N√£o podia dar-se ao luxo de concluir que tamb√©m ela era mentira.

A Formação como Homem

Nos dias melhores, permitia-se acreditar que, se ela deixava as portas abertas entre as salas p√ļblicas e privadas, era sobretudo por causa dele. Mas, detectada a sua presen√ßa, tudo nos gestos dela passava a ser ponderado em fun√ß√£o de o deixar de fora daquela intimidade.

De resto, sempre que ouvia os movimentos de Luísa no jardim, saía-lhe ao caminho com uma desculpa qualquer. Uns dias estava nervosa, resplandecente, elegante como um cavalo de corrida. Outros estava triste e silenciosa. E, contudo, era como se as coisas continuassem a ganhar vida à sua passagem. As coisas e ele próprio, sonhando em plena meia-idade, como se ainda não fosse demasiado tarde para concluir a sua formação como homem.

Esotérico ou não, supersticioso ou outra coisa qualquer, se achas que estás na pista de alguma coisa, vai em frente. Não te deixes abater por nada nem por ninguém.