Passagens de Joel Neto

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O problema deste tempo (…) √© o Bem reduzir-se tantas vezes √† categoria de efeito colateral do Mal.

√Č melhor esperares antes de absolveres um pobre velho. Tempos houve que este homem n√£o foi um pobre velho.

Os Conselhos Mais Absurdos

As pessoas trocavam os conselhos mais absurdos. Incapazes de se escutarem, passavam as conversas a falar de si pr√≥prias, em apaixonadas manifesta√ß√Ķes de egotismo que tornavam insuport√°veis at√© os encontros mais promissores. Para al√©m de tudo, bastava um homem em sarilhos rom√Ęnticos manifestar o seu desespero, que logo irrompia, de entre os amigos, os conhecidos e os conhecidos de conhecidos, uma s√©rie de vampiros com uma esp√©cie de amor√≥metro na m√£o, determinados a provar a inexist√™ncia da gra√ßa (¬ęN√£o. isso n√£o √© amor. N√£o a amas. N√£o amas tu, nem te ama ela a ti¬Ľ), na ignor√Ęncia absoluta da multiplicidade de formas que o amor assume e no desejo incontido de limitar o mundo √†s escassas emo√ß√Ķes suscept√≠veis de penetrarem a coura√ßa da sua apatia.

Se alguém tende a sacralizar a cultura popular, é por uma razão muito simples: porque não tem pernas para a cultura erudita.

H√° muito tempo que vinha tomando aten√ß√£o a conversas daquela natureza: entre oper√°rios ao almo√ßo, entre uma esteticista e uma cliente, entre dois gravatas que se cruzavam no quiosque, entre mi√ļdas bebendo copos na rua. Ningu√©m se ouvia. E talvez a explica√ß√£o at√© estivesse na escola, que ensinara a participa√ß√£o, mesmo a alarve, quando a intelig√™ncia, muito provavelmente, se encontrava no sil√™ncio. Em todo o caso, n√£o se podia entender este mundo sem considerar a solid√£o – e essa √© que era a trag√©dia.

As crianças, nem é preciso dizê-lo, são crudelíssimas. Nascem selvagens, infinitamente mais mesquinhas do que pretendeu Rousseau Рe naquelas idades, desprovidas tantas vezes dos mais básicos códigos de socialização (que muitas não chegarão a integrar), estão ainda perigosamente próximas da irracionalidade absoluta.

No fundo, era tudo t√£o maquinal e coreografado, tudo t√£o simples e ing√©nuo, que j√° n√£o podia ofender ningu√©m, aquele primeiro acto da nossa farsa anual. Mas a verdade √© que por detr√°s da com√©dia se ocultavam m√°goas antigas, demasiado antigas – e que, nessas m√°goas, todos √©ramos, ao mesmo tempo, v√≠timas e algozes. Cada fam√≠lia seu manic√īmio, dizia o povo, e talvez at√© o dissesse bem.

Limitou-se a esticar o braço para receber o cumprimento da mulher, como se só agora ela se tivesse lembrado de o fazer. Sentiu a mão dela na sua, tépida como um pequeno pássaro febril, e teve a estranha certeza de que não voltaria a partir.

Um homem passa por tudo: coisas boas e coisas m√°s, casamentos e div√≥rcios, nascimentos e mortes – e n√£o consegue, no fim, construir um olhar suficientemente ir√≥nico que o livre do azedume? Ou √© est√ļpido ou a vida foi-lhe especialmente ingrata – e, como tr√™s quartos dos velhos maus que conhe√ßo s√£o pelo menos de classe m√©dia, portanto fundamentalmente ricos, eu come√ßava a confiar mais na primeira hip√≥tese.

[Sobre os A√ßores] O cheiro doce do h√ļmus, aquela delicada combina√ß√£o de erva molhada, leite morno e bosta de vaca, provocava-lhe uma inesperada sensa√ß√£o de bem-estar.

Os ignorantes gostam de ser snobes porque tamb√©m eles respeitam mais os snobes. V√™em um ignorante igual a eles, mas exacerbando maneirismos, e de pronto pensam de si para si: ¬ęEste tipo, afinal, √© selecto.¬Ľ Os ignorantes aprendem depressa a palavra ¬ęselecto¬Ľ. √Č outra das suas ferramentas para serem selectos. Ou snobes.

Talvez não se pudesse amar uma casa como a uma pessoa. Mas podia-se, mesmo assim, amar através de uma casa as pessoas com quem se fora feliz nela.

Talvez deva ter presente que um homem não pode mudar de geografia para fugir às pessoas. Aqui também há pessoas. De resto, para onde quer que esse homem fuja, haverá sempre ele próprio.

Casamento e Amor

Um casamento pode sobreviver a um homem infiel e pode sobreviver a uma mulher infiel tamb√©m. Um casamento s√£o duas pessoas que est√£o juntas ‚Äď e, felizmente, as raz√Ķes por que as pessoas est√£o juntas n√£o se reduzem ao sentimento. Coisa diferente, por√©m, √© o amor propriamente dito. Um homem pode ser infiel √† sua mulher e, no entanto, am√°-la eterna e incondicionalmente. Uma mulher infiel simplesmente j√° n√£o ama o seu marido. Pode gostar dele. Pode ter pena dele. Pode estimar a vida que os dois t√™m juntos: as rotinas, os objectos, os lugares, os cheiros, as pessoas. Mas pode viver sem eles tamb√©m – e sabe-o. Porque, sendo t√£o capaz como o homem de ausentar-se do seu corpo, n√£o ser√° capaz nunca de ausentar-se das suas emo√ß√Ķes. E porque, se o fizer, j√° n√£o encontrar√° o caminho de regresso.

Saber Zangar-se

O que me parece √© que as pessoas, em geral, como que deixaram de saber zangar-se. Deixaram de saber zangar-se com aquilo que consideram errado ‚Äď e, pior ainda, deixaram de saber diz√™-lo na cara umas das outras. A n√£o ser, naturalmente, que haja uma agenda.

Ainda nos zangamos muito, √© verdade. Mas zangamo-nos mal. Com a maior das facilidades nos zangamos contra inimigos abstractos, como ¬ęo Governo¬Ľ, ¬ęo capitalismo selvagem¬Ľ ou mesmo apenas ¬ęa crise¬Ľ. Com a maior das facilidades nos zangamos com aqueles que entendemos como nossos subordinados, no trabalho e na vida em geral (afinal, os nossos ¬ęsuperiores¬Ľ acabam de p√īr-nos a pata em cima. algu√©m vai ter de pagar a conta). Com aqueles que est√£o, de alguma forma, em ascendente sobre n√≥s, j√° n√£o nos zangamos: amuamos, que √© a forma mais cobarde de nos zangarmos. Aos nossos iguais simplesmente n√£o dizemos nada: engolimos e tornamos a engolir, convencendo-nos de que do outro lado est√°, afinal, um pobre diabo, t√£o pobre que nem sequer merece uma zanga ‚Äď e, quando enfim nos zangamos, √© para dar-lhe um tiro na cabe√ßa, como todos os dias nos mostram os jornais.

A impress√£o com que eu fico √© que tudo isto vem dessa mania das social skills e do team building e dos demais chav√Ķes moderninhos que os gurus dos livros de Economia nos enfiaram pela garganta abaixo,

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Habituara-se a olhar para si mesmo como um homem instru√≠do o suficiente para condescender com a crueldade de que a ignor√Ęncia sempre se revestia.

Um homem muda de mulher, muda de partido, muda de religião, muda de tudo aquilo que quiser, até de sexo, mas de clube é que não muda nunca.

As Ilhas e as Flores

Percorreu um trilho ao longo da manh√£ e sentou-se a comer entre as az√°leas. Quando um dia voltasse a partir, talvez nada lhe fizesse tanta falta como as flores. As hort√™nsias e as √°rvores-de-fogo, as beladonas e as cam√©lias, as magn√≥lias e as olaias: encantava-o a cad√™ncia a que floriam naquela ilha ‚ÄĒ e depois ainda havia os hibiscos, os jarros e os mantos infinitos de erva azeda, sempre prontos a acorrer a algum sobressalto da meteorologia, para que nunca faltasse a cor.
Podia dizer-se o que se quisesse sobre as ilhas, menos que fossem claustrofóbicas. Não as ilhas onde houvesse flores.

√Č uma vingan√ßa (…) E movida pelo amor, que √© a esp√©cie mais devastadora.

As Entranhas da Terra na Vida de um Homem

Ao fim dos primeiros dias de trabalho, deu por si de p√© no centro do corredor, percorrendo as divis√Ķes com o olhar, e julgou perceber melhor a massa de que era feito o seu povo. Tudo oxidava. Os metais oxidavam, as madeiras oxidavam, as paredes e os tecidos e os objectos oxidavam ‚ÄĒ e o que n√£o oxidava enchia-se de salitre, ressequia ao sol ou, sobrevivendo aos abalos de terra, tombava √† f√ļria do vento. E, no entanto, havia algo de belo nisso tamb√©m, como se ao cabo de uma s√≥ vida um homem pudesse dizer, sem grande esfor√ßo meton√≠mico, que as entranhas da Terra se revolviam no interior do seu pr√≥prio est√īmago.