Citação de

DragÔes e Duendes

Nada a fazer: virasse-se um homem para onde se virasse, todos os filmes e todos os livros e todas as peças de teatro e tudo o mais que se houvesse inventado para contar histĂłrias e obrigar-nos a perdermo-nos e a reencontrarmo-nos e a perdermo-nos e a reencontrarmo-nos nelas pareciam agora girar em torno de dragĂ”es e ĂĄguias colossais, de fadas e de elfos, de duendes e de vampiros, de mutantes com duas cabeças e de extraterrestres assassinos que nos pousavam no quintal para fazer amizade e, Ă  traição, subjugar o Homo sapiens. Algures ao longo do caminho, pegĂĄramos no velho rapaz-conhece-rapariga, envergonhĂĄramo-nos dele e prometĂȘramos a nĂłs prĂłprios jamais voltar a deixar-nos fascinar pela pungĂȘncia desse encontro, pela força desse inesperado cruzamento entre dois seres que se surpreendem mutuamente e, de repente, tivessem de viver juntos para sempre ou de imediato matar-se um ao outro. E, portanto, ali andava eu, todas as noites, aborrecendo-me de morte com as aventuras de um hobbit, bocejando com a saga dos goblins azuis e adormecendo ao compasso de um feiticeiro ĂłrfĂŁo que, de varinha em riste, salvava a cena por mais um dia, embora no dia seguinte os hobbits e os goblins e os dragĂ”es e os duendes e a puta que os pariu voltassem, todos juntos, para nos atormentar, ao gĂ©nero humano e a mim em particular.