Passagens sobre Noite

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Frases sobre noite, poemas sobre noite e outras passagens sobre noite para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

O Encanto da Vida

Todas as noites acordado at√© desoras, √† espera da √ļltima cena de pancadaria num jogo de futebol, do √ļltimo insulto num debate parlamentar, do √ļltimo discurso demag√≥gico num com√≠cio eleitoral, da √ļltima pirueta dum cabotino entrevistado, da √ļltima farsa no palco internacional. Crucifica√ß√Ķes masoquistas, que a prud√™ncia desaconselha e a imprud√™ncia imp√Ķe. Vou deste mundo farto de o conhecer e faminto de o descobrir.

Mas n√£o h√° perspic√°cia, nem const√Ęncia de aten√ß√£o capazes de lhe prefigurar os imprevistos. O que acontece hoje excede sempre o que sucedeu ontem. A viol√™ncia, o facciosismo, a ambi√ß√£o de poder, a crueldade e o exibicionismo n√£o t√™m limites. Felizmente que a abnega√ß√£o, a generosidade e o altru√≠smo tamb√©m n√£o. E o encanto da vida √© precisamente esse: nenhum excesso nela ser previs√≠vel. Nem no mal nem no bem. E n√£o me canso de o verificar, de surpresa em surpresa, √† luz dos acontecimentos.

Quando julgo que estou devidamente informado sobre o amor, sobre o ódio, sobre a santidade, sobre a perfídia, sobre as virtudes e os defeitos humanos, acabo por concluir que soletro ainda o á-bê-cê da realidade. Cabeçudo como sou, teimo na aprendizagem. Hoje fizeram-me a revelação surpreendente de que um avarento meu conhecido,

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Amar e Ser Livre ao mesmo Tempo

Tudo o que posso dizer √© que estou louco por ti. Tentei escrever uma carta e n√£o consegui. Estou constantemente a escrever-te… Na minha cabe√ßa, e os dias passam, e eu imagino o que pensar√°s. Espero impacientemente por te ver. Falta tanto para ter√ßa-feira! E n√£o s√≥ ter√ßa-feira… Imagino quando poder√°s ficar uma noite… Quando te poderei ter durante mais tempo… Atormenta-me ver-te s√≥ por algumas horas e, depois, ter de abdicar de ti. Quando te vejo, tudo o que queria dizer desaparece… O tempo √© t√£o precioso e as palavras sup√©rfluas… Mas fazes-me t√£o feliz… porque eu consigo falar contigo. Adoro o teu brilhantismo, as tuas prepara√ß√Ķes para o voo, as tuas pernas como um torno, o calor no meio das tuas pernas. Sim, Anais, quero desmascarar-te. Sou demasiado galante contigo. Quero olhar para ti longa e ardentemente, pegar no teu vestido, acariciar-te, examinar-te. Sabes que tenho olhado escassamente para ti? Ainda h√° demasiado sagrado agarrado a ti.

A tua carta… Ah, estas moscas! Fazes-me sorrir. E fazes-me adorar-te tamb√©m. √Č verdade, n√£o te dou o devido valor. √Č verdade. Mas eu nunca disse que n√£o me d√°s o devido valor. Acho que deve haver um erro no teu ingl√™s.

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Gazel do Amor Imprevisto

O perfume ninguém compreendia
da escura magnólia de teu ventre.
Ninguém sabia que martirizavas
entre os dentes um colibri de amor.

Mil pequenos cavalos persas dormem
na praça com luar de tua fronte,
enquanto eu enlaçava quatro noites,
inimiga da neve, a tua cinta.

Entre gesso e jasmins, o teu olhar
era um p√°lido ramo de sementes.
Procurei para dar-te, no meu peito,
as letras de marfim que dizem sempre,

sempre, sempre; jardim em que agonizo,
teu corpo fugitivo para sempre,
teu sangue arterial em minha boca,
tua boca j√° sem luz para esta morte.

Tradução de Oscar Mendes

Nada é Suficiente para se Morrer

– Nunca pensou escrever um romance?
– Sou um autor de folhetos, acho que interrogativos, e sobretudo um muito interrogativo leitor de perguntas. Mais nada.
– Basta para uma vida ?
– Nem sei se basta para uma verdadeira morte. Nada √© suficiente para se morrer. Ou √© suficiente cruzar os olhos com os de uma leoa materna. Ou brandir esse pequeno objecto el√©ctrico, embora seja t√£o pequeno e a noite por todos os lados do quarto pare√ßa intermin√°vel. Conheci um homem, um psiquiatra descontente ‚ÄĒ s√£o raros, os psiquiatras descontentes, conhe√ßo-os muito contentes a ganhar para enlouquecer as pessoas, rende tanto como a pol√≠tica, trata-se de pol√≠tica, a sinistra pol√≠tica dos tratamentos ‚ÄĒ, vivia numa ilha, este, descontente, adorava falar de estrelas, constela√ß√Ķes, sabia tudo, mas era, digamos, estelarmente irredut√≠vel: estava contra a ordem celeste. Mandou substituir o tecto do quarto de dormir por uma ab√≥bada com um sistema electr√≥nico de corpos celestes, deslocados, todos, relativamente √† estrutura natural, aut√≥nomos entre si. Ali era a lua nas suas fases e as Ursas e o Cruzeiro do Sul e a estrela Arcturus: um sistema de teclas permitia acender aquilo que se desejasse. O que vigorava era um c√©u dele,

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Um Fado: Palavras Minhas

Palavras que disseste e j√° n√£o dizes,
palavras como um sol que me queimava,
olhos loucos de um vento que soprava
em olhos que eram meus, e mais felizes.

Palavras que disseste e que diziam
segredos que eram lentas madrugadas,
promessas imperfeitas, murmuradas
enquanto os nossos beijos permitiam.

Palavras que dizias, sem sentido,
sem as quereres, mas só porque eram elas
que traziam a calma das estrelas
√† noite que assomava ao meu ouvido…

Palavras que n√£o dizes, nem s√£o tuas,
que morreram, que em ti j√° n√£o existem
‚ÄĒ que s√£o minhas, s√≥ minhas, pois persistem
na memória que arrasto pelas ruas.

Que por Ti Perdi

O mar dentro da √°rvore, as nuvens
dentro da terra sem fim,
a luz. A luz dentro doutra luz
que limitava as m√£os e as abria
para outras m√£os dentro de um olhar.

Batem na fornalha os ventos.
Um c√°lice de vidro grosso com o licor
de fermentação caseira. Um prato
com avel√£s e nozes e folhas de medronho.
Nas margens as portadas corridas
ganham um halo de candeeiros de rua
que se difunde na fluorescência do televisor,
na palidez rubra das pequenas luzes do r√°dio.

A √ļltima claridade do dia mistura-se
à primeira da noite.
Este vento na auto-estrada onde rebenta a chuva
não me vai forçar o coração; nem estas sebes
ladeadas de cimento suspender√£o o voo
do que sou até ao que não és. Mas será
a carícia que no cinto treme, o calor do pescoço
descoberto, os vimes da cadeira donde te levantas
quando estou quase para me sentar.

Entre veios de relva desigual,
valados por cuidar abrigam
máquinas de desolação.
Forma√ß√Ķes de patos atravessam
o vidro polido do postigo.

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h√°-de flutuar uma cidade…

h√°-de flutuar uma cidade no crep√ļsculo da vida
pensava eu… como seriam felizes as mulheres
à beira mar debruçadas para a luz caiada
remendando o pano das velas espiando o mar
e a longitude do amor embarcado

por vezes
uma gaivota pousava nas √°guas
outras era o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
os dias lent√≠ssimos… sem ningu√©m

e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentado √† porta… dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua
assim envelheci… acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solid√£o

(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no
coração. mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)

um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive d√ļvidas que alguma vez me visite a felicidade

Vós, Ninfas Da Gangética Espessura

Vós, Ninfas da gangética espessura,
cantai suavemente, em vez sonora,
um grande Capit√£o, que a roxa Aurora
dos filhos defendeu da noite escura.

Ajuntou-se a caterva negra e dura,
que na √Āurea Quersoneso afouta mora,
para lançar do caro ninho fora
aqueles que mais podem que a ventura.

Mas um forte Le√£o, com pouca gente,
a multidão tão fera como nécia
destruindo castiga e torna fraca.

Pois, ó Ninfas, cantai! que claramente
mais do que Leonidas fez em Grécia,
o nobre Leonis fez em Malaca.

Visita-me Enquanto não Envelheço

visita-me enquanto não envelheço
toma estas palavras cheias de medo e surpreende-me
com teu rosto de Modigliani suicidado

tenho uma varanda ampla cheia de malvas
e o marulhar das noites povoadas de peixes voadores

ver-me antes que a bruma contamine os alicerces
as pedras nacaradas deste vulc√£o a lava do desejo
subindo à boca sulfurosa dos espelhos

antes que desperte em mim o grito
dalguma terna Jeanne Hébuterne a paixão
derrama-se quando tua ausência se prende às veias
prontas a esvaziarem-se do rubro ouro

perco-te no sono das marítimas paisagens
estas feridas de barro e quartzo
os olhos escancarados para a infind√°vel √°gua

com teu sabor de a√ß√ļcar queimado em redor da noite
sonhar perto do coração que não sabe como tocar-te

Estou Completamente de Pernas para o Ar

Anais, tornaste-te uma parte t√£o vital de mim que estou completamente de pernas para o ar, se isto quer dizer algo. N√£o sei o que escrevo… S√≥ que te amo, que tenho de te ter exclusivamente, ferozmente, possessivamente. N√£o sei o que quero. Tenho demasiado, acho. Esmagaste-me e mimaste-me. Continuo a pedir-te coisas cada vez mais dif√≠ceis. Espero que fa√ßas milagres. N√£o sabes como sinto a falta daquelas noites que pass√°mos juntos… O quanto elas significaram para mim. Outras vezes √©s s√≥ um fantasma, um espectro. Chegas e fico doente de desejo, um desejo de te possuir, de te ter sempre √† minha volta, a falar comigo naturalmente, a mover-te como se fosses uma parte de mim.

A Lucidez da Velhice

A mocidade √© noivado, como a velhice √© viuvez. Um jovem, por mais marido que seja, √© noivo ainda; e um velho, embora casado, √© j√° vi√ļvo… um solit√°rio guardando as cinzas duma flor. Mas dessas cinzas o seu esp√≠rito se alimenta. Alimenta-se de pureza, pois a cinza √© o que resta dum inc√™ndio, essa purifica√ß√£o suprema. Por isso, a consci√™ncia √© um atributo da velhice, e tamb√©m a ci√™ncia. A consci√™ncia √© a ci√™ncia connosco, a ci√™ncia identificada ao nosso ser, que entra no pleno conhecimento de si mesmo, e do seu poder representativo do Universo. A velhice √© uma noite maravilhosa em que brilham as nossas ideias, uma atmosfera l√≠mpida ou varrida pelo z√©firo da morte, a √ļnica Deusa verdadeira.

Cheiro De Esp√°dua

“Quando a valsa acabou, veio √† janela,
Sentou-se. O leque abriu. Sorria e arfava,
Eu, viração da noite, a essa hora entrava
E estaquei, vendo-a decotada e bela.

Eram os ombros, era a esp√°dua, aquela
Carne rosada um mimo! A arder na lava
De improvisa paix√£o, eu, que a beijava,
Hauri sequiosa toda a essência dela!

Deixei-a, porque a vi mais tarde, oh! ci√ļme!
Sair velada da mantilha. A esteira
Sigo, até que a perdi, de seu perfume.

E agora, que se foi, lembrando-a ainda,
Sinto que à luz do luar nas folhas, cheira
Este ar da noite √†quela esp√°dua linda!”

A Noite n√£o me Deu nenhum Sossego

Como voltar feliz ao meu trabalho
se a noite n√£o me deu nenhum sossego?
A noite, o dia, cartas dum baralho
sempre trocadas neste jogo cego.

Eles dois, inimigos de m√£os dadas,
me torturam, envolvem no seu cerco
de fadiga, de d√ļbias madrugadas:
e tu, quanto mais sofro mais te perco.

Digo ao dia que brilhas para ele,
que desfazes as nuvens do seu rosto;
digo à noite sem estrelas que és o mel

na sua pele escura: o oiro, o gosto.
Mas dia a dia alonga-se a jornada
e cada noite a noite é mais fechada.

Tradução de Carlos de Oliveira

Estoicismo

(A Manoel Duarte de Almeida)

Tu que não crês, nem amas, nem esperas,
Espírito de eterna negação,
Teu hálito gelou-me o coração
E destro√ßou-me da alma as primaveras…

Atravessando regi√Ķes austeras,
Cheias de noite e cava escurid√£o,
Como n’um sonho mau, s√≥ oi√ßo um n√£o,
Que eternamente ecoa entre as esferas…

‚ÄĒ Porque suspiras, porque te lamentas,
Cobarde coração? Debalde intentas
Op√īr √° Sorte a queixa do ego√≠smo…

Deixa aos tímidos, deixa aos sonhadores
A esperan√ßa v√£, seus v√£os fulgores…
Sabe tu encarar sereno o abismo!

Diferente

Buscando o v√£o Ideal que me seduz,
Sem que o atinja me disperso e gasto,
E ansiosamente aos braços duma cruz
Ergo o perfil de iluminado e casto.

J√° tristemente desdenhoso afasto
O manto de burel dos ombros nus;
E a noite pisa a forma do meu rasto,
Se deixo atr√°s de mim passos de luz.

Na minha tez suave e nazarena,
Transparecem vislumbres dessa pena
Que Deus pelos estranhos h√† sentido…

E frio e calmo, a divergir da Raça,
Mal poiso os lábios no cristal da taça
Por onde as outras almas têm bebido!

XXII

Neste √°lamo sombrio, aonde a escura
Noite produz a imagem do segredo;
Em que apenas distingue o próprio medo
Do feio assombro a hórrida figura;

Aqui, onde n√£o geme, nem murmura
Z√©firo brando em f√ļnebre arvoredo,
Sentado sabre o tosco de um penedo
Chorava Fido a sua desventura.

As l√°grimas a penha enternecida
Um rio fecundou, donde manava
D’√Ęnsia mortal a c√≥pia derretida:

A natureza em ambos se mudava;
Abalava-se a penha comovida;
Fido, est√°tua da dor, se congelava.

Esta é a Forma Fêmea

Esta é a forma fêmea:
dos pés à cabeça dela exala um halo divino,
ela atrai com ardente
e irrecusável poder de atração,
eu me sinto sugado pelo seu respirar
como se eu n√£o fosse mais
que um indefeso vapor
e, a n√£o ser ela e eu, tudo se p√Ķe de lado
‚ÄĒ artes, letras, tempos, religi√Ķes,
o que na terra é sólido e visível,
e o que do céu se esperava
e do inferno se temia,
tudo termina:
estranhos filamentos e renovos
incontroláveis vêm à tona dela,
e a acção correspondente
é igualmente incontrolável;
cabelos, peitos, quadris,
curvas de pernas, displicentes m√£os caindo
todas difusas, e as minhas também difusas,
maré de influxo e influxo de maré,
carne de amor a inturgescer de dor
deliciosamente,
inesgotáveis jactos límpidos de amor
quentes e enormes, trémula geléia
de amor, alucinado
sopro e sumo em delírio;
noite de amor de noivo
certa e maciamente laborando
no amanhecer prostrado,
a ondular para o presto e proveitoso dia,
perdida na separação do dia
de carne doce e envolvente.

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Uma Amiga

Aqueles que eu amei, n√£o sei que vento
Os dispersou no mundo, que os n√£o vejo…
Estendo os bracos e nas trevas beijo
Vis√Ķes que a noite evoca o sentimento…

Outros me causam mais cruel tormento
Que a saudade dos mortos… que eu invejo…
Passam por mim… mas como que tem pejo
Da minha soledade e abatimento!

Daquela primavera venturosa
N√£o resta uma flor so, uma so rosa…
Tudo o vento varreu, queimou o gelo!

Tu so foste fiel – tu, como dantes,
Inda volves teus olhos radiantes…
Para ver o meu mal… e escarnece-lo!

O Amor

I

Eu nunca naveguei, pieguíssimo argonauta
Dans les fleuves du tendre, onde h√° naufr√°gios bons,
Conduzindo Florian na tolda a tocar frauta,
E cupidinhos d’oiro a tasquinhar bombons.
Nunca ninguém me viu de capa à trovador,
Às horas em que está já Menelau deitado,
A tanger o arrabil sob os balc√Ķes em flor
Dos castelos feudais de papel√£o doirado.
N√£o canto de Anfitrite as vaporosas fraldas,
(Eu não quero com isto, ó Vénus, descompor-te)
Nem costumo almo√ßar c’roado de grinaldas,
Nem nunca pastoreei enfim, vestido à corte,
De bordão de cristal e punhos de Alençon,
Borreguinhos de neve a tosar esmeraldas
Num lameiro qualquer de qualquer Trianon.
Eu não bebo ambrósia em taças cristalinas,
Bebo um vinho qualquer do Douro ou de Bucelas,
Nem vou interrogar as folhas das boninas,
Para saber o amor, o tal amor das Elas.
N√£o visto da poesia a t√ļnica incons√ļtil,
Pela simples raz√£o, sob o pretexto f√ļtil
De ter visto passar na rua uns pés bonitos;
Nem do meu coração eu fiz um paliteiro,
Onde venha o amor cravar os seus palitos.

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