Cita√ß√Ķes de Walter Benjamin

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Frases, pensamentos e outras cita√ß√Ķes de Walter Benjamin para ler e compartilhar. Os melhores escritores est√£o em Poetris.

O Verdadeiro Rosto da História

O verdadeiro rosto da hist√≥ria afasta-se veloz. S√≥ podemos reter o passado como uma imagem que no instante em que se deixa reconhecer lan√ßa um clar√£o que n√£o voltar√° a ver-se. ¬ęA verdade n√£o nos escapar√°¬Ľ – esta palavra de Gottfried Keller caracteriza com exactid√£o, na concep√ß√£o da hist√≥ria que t√™m os historicistas, o ponto em que o materialismo hist√≥rico realiza o seu avan√ßo atrav√©s dessa imagem. Irrecuper√°vel √©, com efeito, toda a imagem do passado que corre o risco de desaparecer com cada instante presente que nela n√£o se reconheceu. (A feliz not√≠cia trazida pelo ofegante histori√≥grafo do passado sai de uma boca que, talvez no pr√≥prio instante em que se abre, fala j√° no vazio.)

A Guerra como Revolta da Técnica

Todos os esfor√ßos para estetizar a pol√≠tica convergem para um ponto. Esse ponto √© a guerra. A guerra e somente a guerra permite dar um objectivo aos grandes movimentos de massa, preservando as rela√ß√Ķes de produ√ß√£o existentes. Eis como o fen√≥meno pode ser formulado do ponto de vista pol√≠tico. Do ponto de vista t√©cnico, a sua formula√ß√£o √© a seguinte: somente a guerra permite mobilizar na sua totalidade os meios t√©cnicos do presente, preservando as actuais rela√ß√Ķes de produ√ß√£o. √Č √≥bvio que a apoteose fascista da guerra n√£o recorre a esse argumento. Mas seria instrutivo lan√ßar os olhos sobre a maneira como ela √© formulada. No seu manifesto sobre a guerra colonial da Eti√≥pia, diz Marinetti: ¬ęH√° vinte e sete anos, n√≥s futuristas contestamos a afirma√ß√£o de que a guerra √© antiest√©tica (…) Por isso, dizemos: (…) a guerra √© bela, porque gra√ßas √†s m√°scaras de g√°s, aos megafones assustadores, aos lan√ßa-chamas e aos tanques, funda a supremacia do homem sobre a m√°quina subjugada. A guerra √© bela, porque inaugura a metaliza√ß√£o on√≠rica do corpo humano. A guerra √© bela, porque enriquece um prado florido com as orqu√≠deas de fogo das metralhadoras. A guerra √© bela, porque conjuga numa sinfonia os tiros de fuzil,

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Vê Minha Vida à Luz da Protecção

Vê minha vida à luz da protecção
que d√°s disposta a dar-se por amor
e quando a mãe te deu à luz com dor
o espírito adensou-se nela então

o mesmo que em espigas pelo ver√£o
a negra fronte bela foi compor
de inverno em voz amarga acusador
a cuja vista as l√°grimas vir√£o

Meu amor em teu corpo se cinzela
e dele os outros seres recebem vida
perante ti criança os que da ferida

sangram exposta ao mundo que flagela
A mim foste mais bálsamo porém
do que as curas bals√Ęmicas que tem.

Tradução de Vasco Graça Moura

Como é que a Solidão Hei-de Ir Medindo?

Como é que a solidão hei-de ir medindo?
desse-me os golpes de uso inda esta dor
um a um sua nudez a sobrepor
que o ritmo sem nome a foi vestindo

mas sofro agora o tempo nu saindo
numa levada sem nenhum teor
gasto caudal do meu rio interior
nem chora o peito por mais gritos vindo

Quando é que é novo ano na amargura
quando volto a chegar-me à desventura
que me faz falta em ocos dias vis.

ah quando é que arde escura em cores febris
à testa do ano como a vi na altura
do agosto em chamas funda cicatriz?

Tradução de Vasco Graça Moura

A constru√ß√£o da vida encontra-se, actualmente, mais em poder dos factos do que das convic√ß√Ķes.

A constru√ß√£o da vida encontra-se, atualmente, mais em poder dos fatos do que das convic√ß√Ķes.

Era a Memória Ardente a Inclinar-se

Era a memória ardente a inclinar-se
à giesta do tempo por frescura
mas o que em seu espelho se figura
vê que está só e a mesma dor foi dar-se

noite e dia e silente de amargura
uma saudade em febre o viu queimar-se
at√© vir por um “sim” a consolar-se
e do perd√£o mudo hino lhe assegura

levando imagens e sinais de vez
O olhar liberto penetrou no assento
do alto luto onde da palidez

dos invernos se erguia outro rebento
de c√°lices que embalam as sementes
dando ao nome louvado descendentes.

Tradução de Vasco Graça Moura

Instinto Humano Deteriorado

Um estranho paradoxo: as pessoas, quando agem, t√™m em mente o interesse privado mais mesquinho, mas ao mesmo tempo, no seu comportamento, s√£o mais do que nunca determinadas pelo instinto das massas. E mais do que nunca, o instinto das massas tornou-se errado. O obscuro instinto do animal – como in√ļmeros epis√≥dios o comprovam – encontra a sa√≠da para o perigo iminente mas ainda invis√≠vel. Em contrapartida, esta sociedade, onde cada um tem apenas em vista o seu pr√≥prio interesse mesquinho, sucumbe como uma massa cega, com estupidez animal mas sem a est√ļpida sabedoria dos animais, a todo o perigo, ainda que muito pr√≥ximo, e a diversidade dos objectivos torna-se insignificante, ante a identidade das for√ßas determinantes.
Muitas vezes se tem demonstrado que é tão rígida a sua fixação à vida habitual, mas de há muito perdida, que acaba por não se verificar a aplicação efectivamente humana do intelecto, a previdência, até mesmo ante o perigo iminente. Assim a imagem da estupidez completa-se nela: insegurança, ou mesmo perversão dos instintos vitais, e desfalecimento ou até decadência do intelecto.

A M√£o que a Seu Amigo Hesita em Dar-se

Perguntaste se eu amo o meu amigo?
como rompendo um demorado açude
na tua voz quis hausto que transmude
todo o cristal dos ímpetos consigo

Neste meu choro enevoado abrigo
p√īs-me a palavra o peito em ala√ļde
que uma doce pergunta tua ajude
no sim furtivo que eu levei comigo

Mas a meu l√°bio lento em confessar-se
um mestre inda melhor o cunharia
A m√£o que a seu amigo hesita em dar-se

ele a tomou o que mais firme a guia
para que ao coração secreto amando
ao mundo todo em rimas o v√° dando.

Tradução de Vasco Graça Moura

Uma das principais tarefas da arte sempre foi criar um interesse que ainda n√£o conseguiu satisfazer totalmente.

Se ao Mundo Predissesses teu Morrer

Se ao mundo predissesses teu morrer
na morte a natureza ir-te-ia à frente
volvendo com mandado intransigente
no eterno esquecimento o próprio ser

O céu se rosaria docemente
por do teu corpo a roupa enfim descer
florestas tingiria o teu sofrer
de negro e a noite o mar barca silente

Luto sem nome com estrelas mede
a estela ao teu olhar no arco celeste
e a escurid√£o de espesso muro impede

que a luz da nova primavera preste
A estação vê nos astros que pararam
as cisternas que a morte te espelharam.

Tradução de Vasco Graça Moura

Nunca ninguém se torna mestre num domínio em que não conheceu a impotência, e, quem aceita esta ideia, saberá também que tal impotência não se encontra nem no começo nem antes do esforço empreendido, mas sim no seu centro.

Ler ou Copiar um Texto

O efeito de uma estrada campestre n√£o √© o mesmo quando se caminha por ela ou quando a sobrevoamos de avi√£o. De igual modo, o efeito de um texto n√£o √© o mesmo quando ele √© lido ou copiado. O passageiro do avi√£o v√™ apenas como a estrada abre caminho pela paisagem, como ela se desenrola de acordo com o padr√£o do terreno adjacente. Somente aquele que percorre a estrada a p√© se d√° conta dos efeitos que ela produz e de como daquela mesma paisagem, que aos olhos de quem a sobrevoa n√£o passa de um terreno indiferenciado, afloram dist√Ęncias, belvederes, clareiras, perspectivas a cada nova curva […]. Apenas o texto copiado produz esse poderoso efeito na alma daquele que dele se ocupa, ao passo que o mero leitor jamais descobre os novos aspectos do seu ser profundo que s√£o abertos pelo texto como uma estrada talhada na sua floresta interior, sempre a fechar-se atr√°s de si. Pois o leitor segue os movimentos de sua mente no v√īo livre do devaneio, ao passo que o copiador os submete ao seu comando. A pr√°tica chinesa de copiar livros era assim uma incompar√°vel garantia de cultura liter√°ria, e a arte de fazer transcri√ß√Ķes,

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H√° em Toda a Beleza uma Amargura

H√° em toda a beleza uma amargura
secreta e confundida que é latente
ambígua indecifrável duplamente
oculta a si e a quem na olhar obscura

N√£o fica igual aos vivos no que dura
e a n√£o pode entender qualquer vivente
qual no cabelo orvalho ou brisa rente
quanto mais perto mais se desfigura

Ficando como Helena à luz do ocaso
a língua dos dois reinos não lhe é azo
senão de apartar tranças ofuscante

Mas à tua beleza não foi dado
qual morte a abrir teu juvenil estado
crescer e nomear-se em cada instante?

Tradução de Vasco Graça Moura

As cita√ß√Ķes, no meu trabalho, s√£o como ladr√Ķes √† beira da estrada, que irrompem armados e arrebatam o consciente do ocioso viajante.