Passagens de Cruz e Souza

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O Coração

O coração é a sagrada pira
Onde o mistério do sentir flameja.
A vida da emoção ele a deseja
como a harmonia as cordas de uma lira.

Um anjo meigo e c√Ęndido suspira
No cora√ß√£o e o purifica e beija…
E o que ele, o coração, aspira, almeja
√Č o sonho que de l√°grimas delira.

√Č sempre sonho e tamb√©m √© piedade,
Doçura, compaizão e suavidade
E graça e bem, misericórdia pura.

Uma harmonia que dos anjos desce,
Que como estrela e flor e som floresce
Maravilhando toda criatura!

C√°rcere Das Almas

Ah! Toda a alma num c√°rcere anda presa,
Soluçando nas trevas, entre as grades
Do calabouço olhando imensidades,
Mares, estrelas, tardes, natureza.

Tudo se veste de uma igual grandeza
Quando a alma entre grilh√Ķes as liberdades
Sonha e, sonhando, as imortalidades
Rasga no etéreo o Espaço da Pureza.

√ď almas presas, mudas e fechadas
Nas pris√Ķes colossais e abandonadas,
Da Dor no calabouço, atroz, funéreo!

Nesses silêncios solitários, graves,
que chaveiro do Céu possui as chaves
para abrir-vos as portas do Mistério?!

Magnólia Dos Trópicos

A Ara√ļjo Figueredo

Com as rosas e o luar, os sonhos e as neblinas,
√ď magn√≥lia de luz, cotovia dos mares,
Formaram-te talvez os brancos nen√ļfares
Da tua carne ideal, de corre√ß√Ķes felinas.

O teu colo pag√£o de virgens curvas finas
√Č o mais imaculado e fl√≥reo dos altares,
Donde eu vejo elevar-se eternamente aos ares
Vi√°ticos de amor e preces diamantinas.

Abre, pois, para mim os teus braços de seda
E do verso através a límpida alameda
Onde h√° frescura e sombra e sol e murmurejo;

Vem! com a asa de um beijo a boca palpitando,
No alvoroço febril de um pássaro cantando,
Vem dar-me a extrema-unção do teu amor num beijo.

Assim Seja!

Fecha os olhos e morre calmamente!
Morre sereno do Sever cumprido!
Nem o mais leve, nem um só gemido
Traia, sequer, o teu Sentir latente.

Morre com alma leal, clarividente,
Da crença errando no Vergel florido
E o Pensamento pelos céus, brandido
Como um gl√°dio soberbo e refulgente.

Vai abrindo sacr√°rio por sacr√°rio
Do teu sonho no Templo imagin√°rio,
Na hora glacial da negra Morte imensa…

Morre com o teu Dever! Na alta confiança
De quem triunfou e sabe que descansa
Desdenhando de toda a Recompensa!

O Anjo Da Redenção

Soberbo, branco, etereamente puro,
Na m√£o de neve um grande facho aceso,
Nas nevroses astrais dos sóis surpreso,
Das trevas deslumbrando o caos escuro.

Portas de bronze e pedra, o horrendo muro
Da masmorra mortal onde est√°s preso
Desce, penetra o Arcanjo branco, ileso
Do ódio bifronte, torso, torvo e duro.

Maravilhas nos olhos e prodígios
Nos olhos, chega dos azuis litígios
Desce à tua caverna de bandido.

E sereno, agitando o estranho facho,
P√Ķe-te aos p√©s e a cabe√ßa, de alto a baixo,
Auréolas imortais de Redimido!

Natureza

Aos Poetas

Tudo por ti resplende e se constela,
Tudo por ti, suavíssimo, flameja;
√Čs o pulm√£o da racional peleja,
Sempre viril, consoladora e bela.

Teu coração de pérolas se estrela,
E o bom falerno d√°s a quem deseja
Vigor, sa√ļde a cren√ßa que floreja,
Que as expans√Ķes do c√©rebro revela.

Toda essa luz que bebe-se de um hausto
Nos livros s√£os, todo esse enorme fausto
Vem das verduras brandas que reluzem!

Esse da idéia esplêndido eletrismo,
O forte, o grande, audaz psicologismo,
Os organismos naturais produzem…

Espírito Imortal

Espírito imortal que me fecundas
Com a chama dos viris entusiasmos,
Que transformas em gl√°dios os sarcasmos
Para punir as multid√Ķes profundas!

√ď alma que transbordas, que me inundas
De brilhos, de ecos, de emo√ß√Ķes, de pasmos
E fazes acordar de atros marasmos
Minh’alma, em t√©dios por charnecas fundas.

Força genial e sacrossanta e augusta,
Divino Alerta para o Esquecimento,
Voz companheira, carinhosa e justa.

Tens minha M√£o, num doce movimento,
Sobre essa Mão angélica e robusta,
Espírito imortal do Sentimento!

Exortação

Corpo crivado de sangrentas chagas,
Que atravessas o mundo soluçando,
Que as carnes vais ferindo e vais rasgando
Do fundo d’Ilus√Ķes velhas e vagas.

Grande isolado das terrestres plagas,
Que vives as Esferas contemplando,
Braços erguidos, olhos no ar, olhando
A etérea chama das Conquistas magas.

Se é de silêncio e sombra passageira,
De cinza, desengano e de poeira
Este mundo feroz que te condena,

Embora ansiosamente, amargamente
Revela tudo o que tu’alma sente
Para ela ent√£o poder ficar serena!

Sonetos

Do som, da luz entre os joviais duetos,
Como uma chusma alada de gaivotas,
Vindos das largas amplid√Ķes remotas,
Batem as asas todos os sonetos.

V√£o — por estradas, por dif√≠ceis rotas,
Quatorze versos — entre dois quartetos
E duas belas e luzidas frotas
Rijas, seguras, de mais dois tercetos.

Com a brunida l√Ęmina da lima,
Vão céus radiosos, horizontes acima,
Pelas paragens límpidas, gentis,

Atravessando o campo das quimeras,
Aberto ao sol das flóreas primaveras,
Todo estrelado de √°ureos colibris.

Acrobata Da Dor

Gargalha, ri, num riso de tormenta,
Como um palhaço, que desengonçado,
Nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
De uma ironia e de uma dor violenta.

Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
Agita os guizos, e convulsionado
Salta, gavroche, salta clown, varado
Pelo estertor dessa agonia lenta…

Pedem-te bis e um bis n√£o se despreza!
Vamos! retesa os m√ļsculos, retesa
Nessas macabras piruetas d’a√ßo…

E embora caias sobre o ch√£o, fremente,
Afogado em teu sangue estuoso e quente
Ri! Coração, tristíssimo palhaço.

Sorriso Interior

O ser que é ser e que jamais vacila
Nas guerras imortais entra sem susto,
Leva consigo esse bras√£o augusto
Do grande amor, da nobre f√© tranq√ľila.

Os abismos carnais da triste argila
Ele os vence sem √Ęnsias e sem custo…
Fica sereno, num sorriso justo,
Enquanto tudo em derredor oscila.

Ondas interiores de grandeza
Dão-lhe essa glória em frente à Natureza,
Esse esplendor, todo esse largo efl√ļvio.

O ser que √© ser tranforma tudo em flores…
E para ironizar as próprias dores
Canta por entre as √°guas do Dil√ļvio!

Seios

IV

Magnólias tropicais, frutos cheirosos
Das √°rvores do Mal fascinadoras,
Das negras mancenilhas tentadoras,
Dos vagos narcotismos venenosos.

O√°sis brancos e miraculosos
Das frementes vol√ļpias pecadoras
Nas paragens fatais, aterradoras
Do T√©dio, nos desertos tenebrosos…

Seios de aroma embriagador e langue,
Da aurora de ouro do esplendor do sangue,
A alma de sensa√ß√Ķes tantalizando.

√ď seios virginais, t√°lamos vivos
Onde do amor nos êxtases lascivos
Velhos faunos febris dormem sonhando…

Luz Da Natureza

Luz que eu adoro, grande Luz que eu amo,
Movimento vital da Natureza,
Ensina-me os segredos da Beleza
E de todas as vozes por quem chamo.

Mostra-me a Raça, o peregrino Ramo
Dos Fortes e dos Justos da Grandeza,
Ilumina e suaviza esta rudeza
Da vida humana, onde combato e clamo.

Desta minh’alma a solid√£o de prantos
Cerca com os teus le√Ķes de brava cren√ßa,
Defende com so teus gl√°dios sacrossantos.

D√°-me enlevos, deslumbra-me, da imensa
Porta esferal, dos constelados mantos
Onde a Fé do meu Sonho se condensa!

Ser Dos Seres

No teu ser de sil√™ncio e d’esperan√ßa
A doce luz das Amplid√Ķes flameja.
Ele sente, ele aspira, ele deseja
A grande zona da imortal Bonança.

Pelos largos espaços se balança
Como a estrela infinita que dardeja,
Sempre isento da Treva que troveja
O clamor inflamado da Vingança.

Por entre enlevos e deslumbramentos
Entra na Força astral dos Sentimentos
E do Poder nos m√°gicos poderes.

E traz, embora os íntimos cansaços,
√ānsias secretas para abrir os bra√ßos
Na generosa comunh√£o dos Seres!

Espiritualismo

Ontem, à tarde, alguns trabalhadores,
Habitantes de além, de sobre a serra,
Cavavam, revolviam toda a terra,
Do sol entre os met√°licos fulgores.

Cada um deles ali tinha os ardores
De febre de lutar, a luz que encerra
Toda a nobreza do trabalho e — que erra
Só na cabeça dos conspiradores,

Desses obscuros revolucion√°rios
Do bem fecundo e cultural das leivas
Que s√£o da Vida os maternais sacr√°rios.

E pareceu-me que do ch√£o estuante
Vi porejar um b√°lsamo de seivas
Geradoras de um mundo mais pensante.

Pacto Das Almas (III) Alma Da Almas

Alma da almas, minha irm√£ gloriosa,
Divina irradiação do Sentimento,
Quando estar√°s no azul Deslumbramento,
Perto de mim, na grande Paz radiosa?!

Tu que és a lua da Mansão de rosa
Da Graça e do supremo Encantamento,
O círio astral do augusto Pensamento
Velando eternamente a Fé chorosa,

Alma das almas, meu consolo amigo,
Seio celeste, sacrossanto abrigo,
Serena e constelada imensidade,

Entre os teus beijos de eteral carícia,
Sorrindo e soluçando de delícia,
Quando te abraçarei na Eternidade?!

Requiescat

Grande, grande Ilusão morta no espaço,
Perdida nos abismos da memória,
Dorme tranq√ľila no esplendor da gl√≥ria,
Longe das amarguras do cansa√ßo…

Ilus√£o, Flor do sol, do morno e lasso
Sonho da noite tropical e flórea,
Quando as vis√Ķes da n√©voa transit√≥ria
Penetram na alma, num lascivo abra√ßo…

√ď Ilus√£o! Estranha caravana
de águias, soberbas, de cabeça ufana,
De asas abertas no clar√£o do Oriente.

Não me persiga o teu mistério enorme!
Pelas saudades que me aterram, dorme,
Dorme nos astros infinitamente…

Nerah

(Inspirado no elegante conto de Virgílio Várzea)
A Vítor Lobato

Nerah n√£o brinca mais, n√£o dan√ßa mais. — E agora
Que v√£o-se apropinquando os tempos invernosos,
Nerah traz uns receios tímidos, nervosos,
De quem teme mudar-se em noite, sendo aurora.

Seus sonhos de cristal, transl√ļcidos, antigos
Se vão embora, embora à vinda dos invernos,
Seguindo em debandada os √ļmidos galernos —
— lembrando um roto bando informe de mendigos.

N√£o canta o sabi√° que triste na gaiola,
Parece, com o olhar, pedir-lhe a casta esmola
De um riso — aquela flor que esvai-se, branca e fria.

Em tudo a fina seta aguda de afli√ß√Ķes!
Na pr√≥pria atmosfera um caos de interjei√ß√Ķes!
Em tudo uma mortalha, em tudo uma agonia.

Renascimento

A Alma n√£o fica inteiramente morta!
Vagas Ressurrei√ß√Ķes do Sentimento
Abrem j√°, devagar, porta por porta,
Os pal√°cios reais do Encantamento!

Morrer! Findar! Desfalecer! que importa
Para o secreto e fundo movimento
Que a alma transporta, sublimiza e exorta,
Ao grande Bem do grande Pensamento!

Chamas novas e belas v√£o raiando,
Vão se acendendo os límpidos altares
E as almas v√£o sorrindo e v√£o orando…

E pela curva dos longínquos ares
Ei-las que vêm, como o imprevisto bando
Dos albatrozes dos estranhos mares…

Sentimento Esquisito

√ď c√©u est√©ril dos desesperados,
Forma impassível de cristas sidéreo,
Dos cemitérios velho cemitério
Onde dormem os astros delicados.

P√°tria d’estrelas dos abandonados,
Casulo azul do anseio vago, aéreo,
Formidável muralha de mistério
Que deixa os cora√ß√Ķes desconsolados.

Céu imóvel milênios e milênios,
Tu que iluminas a visão dos Gênios
E ergues das almas o sagrado acorde.

Céu estéril, absurdo, céu imoto,
Faz dormir no teu seio o Sonho ignoto,
Esta serpente que alucina e morde…