Sonetos de Cruz e Souza

306 resultados
Sonetos de Cruz e Souza. Conheça este e outros autores famosos em Poetris.

Aspiração Suprema

Como os cegos e os nus pede um abrigo
A alma que vive a tiritar de frio.
Lembra um arbusto fr√°gil e sombrio
Que necessita do bom sol amigo.

Tem ais de dor de trêmulo mendigo
Oscilante, son√Ęmbulo, erradio.
√Č como um t√™nue, cristalino fio
D’estrelas, como et√©reo e louro trigo.

E a alma aspira o celestial orvalho,
Aspira o céu, o límpido agasalho,
sonha, deseja e anseia a luz do Oriente…

Tudo ela inflama de um estranho beijo.
E este Anseio, este Sonho, este Desejo
Enche as Esferas soluçantemente.

A Perfeição

A Perfeição é a celeste ciência
Da cristalização de almos encantos,
De abandonar os mórbidos quebrantos
E viver de uma oculta florescência.

Noss’alma fica da clarivid√™ncia
Dos astros e dos anjos e dos santos,
Fica lavada na lustral dos prantos,
√Č dos prantos divina e pura ess√™ncia.

Noss’alma fica como o ser que √†s lutas
As m√£os conserva limpas, impolutas,
Sem as manchas do sangue mau da guerra.

A Perfeição é a alma estar sonhando
Em soluços, soluços, soluçando
As agonias que encontrou na Terra.!

Frutas E Flores

Laranjas e morangos — quanto √†s frutas,
Quanto às flores, porém, ah! quanto às flores,
Trago-te d√°lias rubras, d’essas cores
Das brilhantes auroras impolutas.

Venho de ouvir as misteriosas lutas
Do mar chorando l√°grimas de amores;
Isto é, venho de estar entre os verdores
De um sítio cheio de asperezas brutas,

Mas onde as almas — p√°ssaros que voam —
Vivem sorrindo √†s m√ļsicas que ecoam
Dos campos livres na rural pobreza.

Trago-te frutas, flores, só apenas,
Porque não pude, irmã das açucenas,
Trazer-te o mar e toda a natureza!

Dizem Que A Arte √Č A Cl√Ęmide De Id√©ia

Dizem que a arte √© a cl√Ęmide de id√©ia
A peregrina irradiação celeste,
E d’isso a prova singular j√° deste
Sorvendo d’ela a divinal sab√©ia!.

Da “Georgeta” na feliz estr√©ia,
Asseverar-nos ainda mais vieste
Que és um gênio, que te vás de preste
Tornando o assombro de qualquer plat√©ia!…

Sinto uns transportes fervorosos, ledos
Quando nas cenas de sutis enredos
Fulgem-te os olhos co’a express√£o dos astros!…

E as turbas mudas, impassíveis, calmas
Sentem mil mundos lhes crescer nas almas…
V√£o-te seguindo os luminosos rastros!…

Anda-Me A Alma

Anda-me a alma inteira de tal sorte,
Meus gozos, meu pesar, nos dela unidos
Que os dela são também os meus sentidos,
Que o meu é também dela o mesmo norte.

Unidos corpo a corpo — um elo forte
Nos prende eternamente — e nos ouvidos
Sentimos sons iguais. Vemos floridos
Os sons do porvir, em azul coorte…

O mesmo diapas√£o musicaliza
Os seres de nos dois — um sol irisa
Os nossos cora√ß√Ķes — d√° luz, constela…

Anda esta vida, espiritualizada
Por este amor — anda-me assim — ligada
A minha sombra com a sombra dela.

Eternos Atalaias

Os sentimentos servem de atalaias
Para guiar as multid√Ķes errantes
Que caminham tremendo, vacilantes
Pelas desertas, infinitas praias…

Abrangendo da Terra as fundas raias,
Atingindo as esferas mais distantes,
S√£o como incensos, mirras odorantes,
Miraculosas, f√ļlgidas alfaias.

Tudo em que logo transfiguram,
Encantam tudo,tudo em torno apuram,
Penetram, sem cessar, por toda parte.

Alma por alma em toda a parte enflamam.
E grandes, largos, imortais, derramam
As melanc√≥licas estrelas d’Arte!

√ďdio Sagrado

√ď meu √≥dio, meu √≥dio majestoso,
Meu ódio santo e puro e benfazejo,
Unge-me a fronte com teu grande beijo,
Torna-me humilde e torna-me orgulhoso.

Humilde, com os humildes generoso,
Orgulhoso com os seres sem Desejo,
Sem Bondade, sem Fé e sem lampejo
De sol fecundador e carinhoso.

√ď meu √≥dio, meu l√°baro bendito,
Da minh’alma agitado no infinito,
Através de outros lábaros sagrados.

√ďdio s√£o, √≥dio bom! s√™ meu escudo
Contra os vil√Ķes do Amor, que infamam tudo,
Das sete torres dos mortais Pecados!

Ermida

L√° onde a calma e a placidez existe,
Sobre as colinas que o vergel encobre,
Aquela ermida como est√° t√£o pobre,
Aquela ermida como est√° t√£o triste.

A minha musa, sem falar, assiste,
Do meio-dia ante o aspecto nobre,
O vago, estranho e murmurante dobre
Daquela ermida que aos trov√Ķes resiste

E as gargalhadas funéreas, sombrias,
Dos crus invernos e das ventanias,
Do temporal desolador e forte.

Daquela triste esbranquiçada ermida,
Que me recorda, me parece a vida
Jogada √†s magoas e ilus√Ķes da sorte.

Na Mazurka

Morava num pal√°cio — estranha Babil√īnia
De arcadas colossais, de impávidos zimbórios,
Alcovas de damasco e torre√Ķes marm√≥reos,
Volutas primorais de arquitetura j√īnia.

Assim, quando surgia em meio aos peristilos
Descendo, qual mulher de Séfora, vaidosa,
Envolta em ouropéis, em sedas, luxuosa,
Cercam-na do belo os místicos sigilos!

E quando nos saraus, assim como um rain√ļnculo,
O l√°bio lhe tremia e o olhar, vivo carb√ļnculo,
Vibrava nos sal√Ķes, como uma adaga turca,

Ou como o sol em cheio e rubro sobre o Bósforo,
— nos cr√Ęnios os Homens sentiam ter mais f√≥sforo…
Ao v√™-la escultural no passo da Mazurka…

Lubricidade

Quisera ser a serpe venenosa
Que d√°-te medo e d√°-te pesadelos
Para envolverem, ó Flor maravilhosa,
Nos flavos turbilh√Ķes dos teus cabelos.

Quisera ser a serpe veludosa
Para, enroscada em m√ļltiplos novelos,
Saltar-te aos seios de fluidez cheirosa
E babuj√°-los e depois mord√™-los…

Talvez que o sangue impuro e flamejante
Do teu l√Ęnguido corpo de bacante,
Da langue ondulação de águas do Reno

Estranhamente se purificasse…
Pois que um veneno de √°spide vorace
Deve ser morto com igual veneno…

Vozinha

Velha, velhinha, da doçura boa
De uma pomba nevada, etérea, mansa.
Alma que se ilumina e se balança
Dentre as redes da Fé que nos perdoa.

Cabeça branca de serena leoa,
Carinho, amor, meiguice que n√£o cansa,
Coração nobre sempre como a lança
Que n√£o vergue, n√£o fira e que n√£o doa.

Olhos e voz de castidades vivas,
P√£o √°zimo das P√°scoas afetivas,
Simples, tranq√ľila, dadivosa, franca.

Morreu tal qual vivera, mansamente,
Na alvura doce de uma luz algente,
Como que morta de uma morte branca.

Sat√£

Capro e revel, com os fabulosos cornos
Na fronte real de rei dos reis vetustos,
Com bizarros e l√ļbricos contornos,
Ei-lo Sat√£ dentre os Sat√£s augustos.

Por verdes e por b√°quicos adornos
Vai c’roado de p√Ęmpanos venustos
O deus pag√£o dos Vinhos acres, mornos,
Deus triunfador dos triunfadores justos.

Arcangélico e audaz, nos sóis radiantes,
A p√ļrpura das gl√≥rias flamejantes,
Alarga as asas de relevos bravos…

O Sonho agita-lhe a imortal cabe√ßa…
E solta aos sóis e estranha e ondeada e espessa
Canta-lhe a juba dos cabelos flavos!

Caminho Da Glória

Este caminho é cor de rosa e é de ouro,
Estranhos roseirais nele florescem,
Folhas augustas, nobres reverdecem
De acanto, mirto e sempiterno louro.

Neste caminho encontra-se o tesouro
Pelo qual tantas almas estremecem;
√Č por aqui que tantas almas descem
Ao divino e fremente sorvedouro.

√Č por aqui que passam meditando,
Que cruzam, descem, trêmulos, sonhando,
Neste celeste, límpido caminh

Os seres virginais que vêm da Terra,
Ensang√ľentados da tremenda guerra,
Embebedados do sinistro vinho.

Grandeza Oculta

Estes v√£o para as guerras inclementes,
Os absurdos heróiis sanguinolentos,
Alvoroçados, tontos e sedentos
Do clamor e dos ecos estridentes.

Aqueles para os frívolos e ardentes
Prazeres de acres inebriamentos:
Vinhos, mulheres, arrebatamentos
De lux√ļrias carnais, impenitentes.

Mas Tu, que na alma a imensidade fechas,
Que abriste com teu Gênio fundas brechas
no mundo vil onde a maldade exulta,

√ď delicado esp√≠rito de Lendas!
Fica nas tuas Graças estupendas,
No sentimento da grandeza oculta!

Prodígio!

Como o Rei Lear n√£o sentes a tormenta
Que te desaba na fatal cabeça!
(Que o c√©u d’estrelas todo resplande√ßa.)
A tua alma, na Dor, mais nobre aumenta.

A Desventura mais sanguinolenta
Sobre os teus ombros impiedosa desça,
Seja a treva mais funda e mais espessa,
Todo o teu ser em m√ļsicas rebenta.

Em m√ļsicas e em flores infinitas
De aromas e de formas esquisitas
E de um mist√©rio singular, nevoento…

Ah! só da Dor o alto farol supremo
Consegue iluminar, de extremo a extremo,
o estranho mar genial do Sentimento!

Soneto

A Moreira de Vasconcelos

Na luta dos impossíveis,
do espirito e da matéria,
tu és a águia sidérea
dos pensamentos terríveis!
(Do Autor)

√Č um pensar flamejador, dard√Ęnico
Uma explosão de rápidas idéias,
Que como um mar de estranhas odisséias
Saem-lhe do cr√Ęnio escultural, tit√Ęnico!…

Parece haver um cataclismo enorme
L√° dentro, em √Ęnsia, a rebentar, fremente!…
Parece haver a convuls√£o potente,
Dos rubros astros num fragor disforme!…

H√£o de ruir na transfus√£o dos mundos
Os monumentos colossais profundos,
As cousas vãs da brasileira história!

Mas o seu vulto, sobre a luz alçado,
Oh! h√° de erguer-se de arreb√≥is c’roado,
Como Atalaia nos umbrais da gl√≥ria!!…

Exilada

Bela viajante dos países frios
N√£o te seduzam nunca estes aspectos
Destas paisagens tropicais — secretos,
— Os teus receios devem ser sombrios.

√Čs branca e √©s loura e tens os amavios
Os incógnitos filtros prediletos
Que podem produzir ondas de afetos
Nos mais sens√≠veis cora√ß√Ķes doentios.

Loura Visão, Ofélia desmaiada,
Deixa esta febre de ouro, a febre ansiada
Que nos venenos deste sol consiste.

Emigra destes cálidos países,
Foge de amargas, fundas cicatrizes,
Das alucina√ß√Ķes de um vinho triste…

Frutas De Maio

Maio chegou — alegre e transparente
Cheio de brilho e m√ļsica nos ares,
De cristalinos risos salutares,
Frio, porém, ó gota alvinitente.

Corre um fluido suave e odorescente
Das laranjeiras, como dos altares
O incenso — e, como a gaze azul dos mares,
Leve — h√° por tudo um beijo, docemente.

Isto bem cedo, de manh√£ — adiante
Pela tarde um sol calmo, agonizante,
P√Ķe no horizonte resplendentes franjas.

H√° carinhos, da luz em cada raio,
Filha — e eu que adoro este frescor de maio
Muito, mas muito — trago-te laranjas.

Tit√£s Negros

Hirtas de Dor, nos √°ridos desertos
Formid√°veis fantasmas das Legendas,
Marcham além, sinistras e tremendas,
As caravanas, dentre os c√©us abertos…

Negros e nus, negros Tit√£s, cobertos
Das bocas vis das chagas vis e horrendas,
Marcham, caminham por estranhas sendas,
Passos vagos, son√Ęmbulos, incertos…

Passos incertos e os olhares tredos,
Na convuls√£o de tr√°gicos segredos,
De agonias mortais, febres vorazes…

Têm o aspecto fatal das feras bravas
E o rir pungente das legi√Ķes escravas,
De dantescos e torvos Satanases!…

Vis√£o

Noiva de Satan√°s, Arte maldita,
Mago Fruto letal e proibido,
Son√Ęmbula do Al√©m, do Indefinido
Das profundas paix√Ķes, Dor infinita.

Astro sombrio, luz amarga e aflita,
Das Ilus√Ķes tant√°lico gemido,
Virgem da Noite, do luar dorido,
Com toda a tua Dor oh! sê bendita!

Seja bendito esse clar√£o eterno
De sol, de sangue, de veneno e inferno,
De guerra e amor e ocasos de saudade…

Sejam benditas, imortalizadas
As almas castamente amortalhadas
Na tua estranha e branca Majestade!