Passagens sobre Algemas

24 resultados
Frases sobre algemas, poemas sobre algemas e outras passagens sobre algemas para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Um P√°ssaro a Morrer

Não é vida nem morte, é uma passagem,
nem antes nem depois: somente agora,
um minuto nos tantos duma hora.
Uma pausa. Um intervalo. Uma viragem.

Prisioneira de mim, onde a coragem
de quebrar as algemas, ir-me embora,
se tudo o que em mim ria agora chora,
se j√° n√£o me seduz outra viagem?

E nada disto é céu nem é inferno.
Tristeza, só tristeza. Sol de Inverno,
sem uma flor a abrir na minha m√£o,

sem um b√ļzio a cantar ao meu ouvido.
Só tristeza, um silêncio desmedido
e um pássaro a morrer: meu coração.

Indiferença em Política

Um dos piores sintomas de desorganização social, que num povo livre se pode manifestar, é a indiferença da parte dos governados para o que diz respeito aos homens e às cousas do governo, porque, num povo livre, esses homens e essas cousas são os símbolos da actividade, das energias, da vida social, são os depositários da vontade e da soberania nacional.
Que um povo de escravos folgue indiferente ou durma o sono solto enquanto em cima se forjam as algemas servis, enquanto sobre o seu mesmo peito, como em bigorna insensível se bate a espada que lho há-de trespassar, é triste, mas compreende-se porque esse sono é o da abjecção e da ignomínia.
Mas quando √© livre esse povo, quando a paz lhe √© ainda convalescen√ßa para as feridas ganhadas em defesa dessa liberdade, quando come√ßa a ter consci√™ncia de si e da sua soberania… que ent√£o, como tomado de vertigem, desvie os olhos do norte que tanto lhe custara a avistar e deixe correr indiferente a sabor do vento e da onda o navio que tanto risco lhe dera a lan√ßar do porto; para esse povo √© como de morte este sintoma, porque √© o olvido da ideia que h√° pouco ainda lhe custara tanto suor tinto com tanto sangue,

Continue lendo…

Os Comunistas

… Passaram bastantes anos desde que ingressei no Partido… Estou contente… Os comunistas constituem uma boa fam√≠lia… T√™m a pele curtida e o cora√ß√£o valoroso… Por todo o lado recebem pauladas… Pauladas exclusivamente para eles… Vivam os espiritistas, os mon√°rquicos, os aberrantes, os criminosos de v√°rios graus… Viva a filosofia com fumo mas sem esqueletos… Viva o c√£o que ladra e que morde, vivam os astr√≥logos libidinosos, viva a pornografia, viva o cinismo, viva o camar√£o, viva toda a gente menos os comunistas… Vivam os cintos de castidade, vivam os conservadores que n√£o lavam os p√©s ideol√≥gicos h√° quinhentos anos… Vivam os piolhos das popula√ß√Ķes miser√°veis, viva a for√ßa comum gratuita, viva o anarco-capitalismo, viva Rilke, viva Andr√© Gide com o seu coribantismo, viva qualquer misticismo… Tudo est√° bem… Todos s√£o her√≥icos… Todos os jornais devem publicar-se… Todos devem publicar-se, menos os comunistas… Todos os pol√≠ticos devem entrar em S√£o Domingos sem algemas… Todos devem festejar a morte do sanguin√°rio Trujillo, menos os que mais duramente o combateram… Viva o Carnaval, os derradeiros dias do Carnaval… H√° disfarces para todos… Disfarces de idealistas crist√£os, disfarces de extrema-esquerda, disfarces de damas beneficentes e de matronas caritativas… Mas, cuidado, n√£o deixem entrar os comunistas…

Continue lendo…

A nossa identidade constr√≥i-se pelo que fazemos. Assim, quando nos deixamos prender e arrastar pelas algemas da monotonia, muitos de n√≥s perdem a oportunidade de uma exist√™ncia plena por n√£o ousarem remar contra as suas pr√≥prias mar√©s de costumes e tradi√ß√Ķes…

Londres

Vagueio por estas ruas violadas,
Do violado Tamisa ao derredor,
E noto em todas as faces encontradas
Sinais de fraqueza e sinais de dor.

Em toda a revolta do Homem que chora,
Na Criança que grita o pavor que sente,
Em todas as vozes na proibição da hora,
Escuto o som das algemas da mente.

Dos Limpa-chaminés o choro triste
As negras Igrejas atormenta;
E do pobre Soldado o suspiro que persiste
Escorre em sangue p’los Pal√°cios que sustenta.

Mas nas ruas da noite aquilo que ouço mais
√Č da jovem Prostituta o seu fad√°rio,
Maldiz do tenro Filho os tristes ais,
E do Matrimónio insulta o carro funerário.

Tradução de Hélio Osvaldo Alves

O que tem feito mal a muita gente não é a mentira; é o invólucro de palavras artificiosas com que se doira a algema que as verdades lançam ao pulso do homem.

Sonetos Para Maria Helena

Tu que por crenças vãs a Vida arrasas
e ante o espelho não queres ver que és,
que imagina viver abrindo as asas
e te esqueces de andar com os pr√≥prios p√©s…

Que transforma o Sonho num revés
mesmo a acender o fogo em que abrasas,
e te algema as m√£os, – as m√£os escravas
como as do prisioneiro das galés.

Tu que te enganas a falar de alturas
com as palavras mais belas e mais puras
e te imolas num gesto superior,

n√£o percebes nessa √Ęnsia de suicida
que nada h√° enfim mais alto do que a Vida
quando a erguemos num brinde Рébrios de amor!

Infelizmente, n√£o somos livres como gostar√≠amos de ser no √Ęmago do intelecto. Ali√°s, os piores c√°rceres, as piores masmorras, as mais apertadas algemas podem estar dentro de n√≥s.

Na Luz

De soluço em soluço a alma gravita,
De soluço em soluço a alma estremece,
Anseia, sonha, se recorda, esquece
E no centro da Luz dorme contrita.

Dorme na paz sacramental, bendita,
Onde tudo mais puro resplandece,
Onde a Imortalidade refloresce
Em tudo, e tudo em c√Ęnticos palpita.

Sereia celestial entre as sereias,
Ela só quer despedaçar cadeias,
De soluço em soluço, a alma nervosa.

Ela só quer despedaçar algemas
E respirar nas amplid√Ķes supremas,
Respirar, respirar na Luz radiosa.

A disciplina, para o estulto, é como peias nos pés, como algemas na mão direita

A disciplina, para o estulto, é como peias nos pés, como algemas na mão direita.

Poeira (Para José Felix)

Do pó ao pólen posta-se o poema
na penumbra do parto antecipado.
Abre-se uma janela sem algema
presa somente do seu próprio fado.

Areia e barro, sol com sua gema,
a gala clara do ovo, visgo dado
ao solo só de vértebras, seu tema
variado na avena: ch√£o arado.

O tropo, o trapo, as vestes: eis aí
a massa que caldeia essa bigorna
ensolando alim√°rias ao se de si.

Nada é constante e tudo se transforma.
Eppur si muove em √°nima no giz
escrito no vaivém se vai e torna.

Rimas

Ontem – quando, soberba, escarnecias
Dessa minha paix√£o – louca – suprema
E no teu lábio, essa rósea algema,
A minha vida – g√©lida – prendias…

Eu meditava em loucas utopias,
Tentava resolver grave problema…
Como engastar tua alma num poema?
E eu n√£o chorava quando tu te rias…

Hoje, que vivo desse amor ansioso
E és minha Рés minha, extraordinária sorte,
Hoje eu sou triste sendo t√£o ditoso!

E tremo e choro – pressentindo – forte,
Vibrar, dentro em meu peito, fervoroso,
Esse excesso de vida – que √© a morte…

Salve! Rainha!

√ď sempre virgem Maria, concebida
sem pecado original, desde o
primeiro instante do teu ser…

Mãe de Misericórdia, sem pecado
Original, desde o primeiro instante!
Salve! Rainha da Mans√£o radiante,
Virgem do Firmamento constelado…

Teu coração de espadas lacerado,
Sangrando sangue e fel martirizante,
Escute a minha Dor, a torturante,
A Dor do meu soluço eternizado.

A minha Dor, a minha Dor suprema,
A Dor estranha que me prende, algema
Neste Vale de l√°grimas profundo…

Salve! Rainha! por quem brado e clamo
E brado e brado e com ang√ļstia chamo,
Chamo, atrav√©s das convuls√Ķes do mundo!…

Réquiem Do Sol

√Āguia triste do T√©dio, sol cansado,
Velho guerreiro das batalhas fortes!
Das ilus√Ķes as tr√™mulas coortes
Buscam a luz do teu clar√£o magoado…

A tremenda avalanche do Passado
Que arrebatou tantos milh√Ķes de mortes
Passa em tropel de tr√°gicos Mavortes
Sobre o teu cora√ß√£o ensang√ľentado…

Do alto dominas vastid√Ķes supremas
√Āguia do T√©dio presa nas algemas
Da Legenda imortal que tudo engelha…

Mas l√°, na Eternidade, de onde habitas,
Vagam finas tristezas infinitas,
Todo o mistério da beleza velha!

O Assinalado

Tu és o louco da imortal loucura,
O louco da loucura mais suprema.
A Terra é sempre a tua negra algema,
Prende-te nela a extrema Desventura.

Mas essa mesma algema de amargura,
Mas essa mesma Desventura extrema
Faz que tu’alma suplicando gema
E rebente em estrelas de ternura.

Tu és o Poeta, o grande Assinalado
Que povoas o mundo despovoado,
De belezas etrenas, pouco a pouco…

Na Natureza prodigiosa e rica
Toda a aud√°cia dos nervos justifica
Os teus espasmos imortais de louco!

Guerra

S√£o meus filhos. Gerei-os no meu ventre.
Via-os chegar, às tardes, comovidos,
nupciais e trementes
do enlace da Vida com os sentidos.

Estiveram no meu colo, sonolentos.
Contei-lhes muitas lendas e poemas.
Às vezes, perguntavam por algemas.
Respondia-lhes: mar, astros e ventos.

Alguns, os mais ousados, os mais loucos,
desejavam a luta, o caos, a guerra.
Outros sonhavam e acordavam roucos
de gritar contra os muros que h√° na Terra.

S√£o meus filhos. Gerei-os no meu ventre.
Nove meses de esperança, lua a lua.

Grandes barcos os levam, lentamente…

Na Cadeia os Bandidos Presos!

Na cadeia os bandidos presos!
O seu ar de contemplativos!
Que é das flores de olhos acesos?!
Pobres dos seus olhos cativos.

Passeiam mudos entre as grades,
Parecem peixes num aqu√°rio.
_ Campo florido das Saudades,
Porque rebentas tumultu√°rio?

Serenos… Serenos… Serenos…
Trouxe-os algemados a escolta.
_ Estranha taça de venenos
Meu coração sempre em revolta.

Cora√ß√£o, quietinho… quietinho…
Porque te insurges e blasfemas?
Pschiu… N√£o batas… Devagarinho…
Olha os soldados, as algemas!