Textos sobre Discursos

54 resultados
Textos de discursos escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Neruda e García Lorca em Homenagem a Rubén Dario

Eis o texto do discurso:

Neruda: Senhoras…

Lorca: …e senhores. Existe na lide dos touros uma sorte chamada ¬ętoreio dei alim√≥n¬Ľ, em que dois toureiros furtam o corpo ao touro protegidos pela mesma capa.

Neruda: Federico e eu, ligados por um fio eléctrico, vamos emparelhar e responder a esta recepção tão significativa.

Lorca: √Č costume nestas reuni√Ķes que os poetas mostrem a sua palavra viva, prata ou madeira, e sa√ļdem com a sua voz pr√≥pria os companheiros e amigos.

Neruda: Mas n√≥s vamos colocar entre v√≥s um morto, um comensal vi√ļvo, escuro nas trevas de uma morte maior que as outras mortes, vi√ļvo da vida, da qual foi na sua hora um marido deslumbrante. Vamos esconder-nos sob a sua sombra ardente, vamos repetir-lhe o nome at√© que a sua grande for√ßa salte do esquecimento.

Lorca: N√≥s, depois de enviarmos o nosso abra√ßo com ternura de pinguim ao delicado poeta Amado Villar, vamos lan√ßar um grande nome sobre a toalha, na certeza de que v√£o estalar as ta√ßas, saltar os garfos, buscando o olhar que todos anseiam, e que um golpe de mar h√°-de manchar as toalhas. N√≥s vamos evocar o poeta da Am√©rica e da Espanha: Rub√©n…

Continue lendo…

Os Feitos Simples s√£o os Mais Elogiados e Lembrados

Duas pátrias produziram dois heróis: de Tebas saiu Hércules; de Roma saiu Catão. Foi Hércules aplauso da orbe, foi Catão enfado de Roma. A um admiraram todos, ao outro esquivaram-se os romanos. Não admite controvérsia a vantagem que levou Catão a Hércules, pois o excedeu em prudência; mas ganhou Hércules a Catão em fama. Mais de árduo e primoroso teve o assunto de Catão, pois se empenhou em sujeitar os monstros dos costumes, e Hércules os da natureza; mas teve mais de famoso o do tebano. A diferença consistiu em que Hércules empreendeu façanhas plausíveis e Catão odiosas. A plausibilidade do cargo levou a glória de Alcides (nome anterior de Hércules) aos confins do mundo, e passará ainda além deles caso se alarguem. O desaprezível do cargo circunscreveu Catão ao interior das muralhas de Roma.
Com tudo isto, preferem alguns, e não os menos judiciosos, o assunto primoroso ao mais plausível, e pode mais com eles a admiração de poucos que o aplauso de muitos, sendo vulgares. Os milagres de ignorantes apelam aos empenhos plausíveis. O árduo, o primoroso de um superior assunto poucos o percebem, embora eminentes, sendo assim raros os que nele acreditam. A facilidade do plausível permite-se a todos,

Continue lendo…

A Maior Parte do que Sabemos é a Menor do que Ignoramos

A maior parte do que sabemos, √© a menor do que ignoramos. N√£o se achou var√£o t√£o perfeito no Mundo, que conhecesse o que tinha de s√°bio, sen√£o sabendo o que lhe faltava para perfeito. N√£o se viu ningu√©m tanto nos √ļltimos remates da perfei√ß√£o, em quem n√£o bruxoleassem sempre alguns desaires de humano. (…) N√£o necessitando de nada os grandes, s√≥ de verdades necessitam; porque, como custam caro, todo o cabedal da fortuna √© pre√ßo limitado para elas; por isso nos grandes s√£o mais avultados os erros, porque erram com grandeza e ignoram com presun√ß√£o. Mais gravemente enferma o que logra melhor disposi√ß√£o, que o que nunca deixou de ter achaques: e a raz√£o √© porque a enfermidade que p√īde vencer disposi√ß√£o t√£o boa, teve muito de poderosa; ignor√Ęncia a que n√£o alumiou o discurso mais desperto, tirou as esperan√ßas ao rem√©dio.

Como Manipular um P√ļblico

Segundo uma lei conhecida, os homens, considerados colectivamente, s√£o mais est√ļpidos do que tomados individualmente. Numa conversa a dois, conv√©m que respeitemos o parceiro, mas essa regra de conduta j√° n√£o √© t√£o indispens√°vel num debate p√ļblico em que se trata de dispor as massas a nosso favor.

H√° uns anos, um pol√≠tico pagou a figurantes para o aplaudirem numa concentra√ß√£o. Como bom profissional, compreendera que uma claque, embora n√£o melhore o discurso, predisp√Ķe melhor os espectadores a descobrirem os seus m√©ritos. O mimetismo √© a mola principal para mover as massas no sentido do entusiasmo, do respeito ou do √≥dio. Mesmo perante um pequeno p√ļblico de trinta pessoas, h√° sempre algo de religioso que prov√©m da coagula√ß√£o dos sentimentos individuais em express√£o colectiva. No meio de um grupo, √© necess√°ria uma certa energia para pensar contra a maioria e coragem para exprimir abertamente essa opini√£o.
Os manipuladores de opinião ou, para utilizar uma palavra mais delicada, os comunicadores, sabem que, para conduzir mentalmente uma assembleia numa determinada direcção, é necessário começar por agir sobre os seus líderes. A primeira tarefa consiste em determinar quem são, apesar de eles próprios não o saberem. Um manipulador não tarda a distinguir o punhado de indivíduos em que pode apoiar-se para influenciar os outros.

Continue lendo…

Saber Falar √†s Multid√Ķes

Longos discursos, agitar de punhos, socos na mesa, e resolu√ß√Ķes expressas com emo√ß√£o mas desligadas das condi√ß√Ķes objectivas, n√£o produzem ac√ß√£o de massas e podem provocar grande dano √† organiza√ß√£o e √† luta que servimos.
(…) H√° uma fase na vida de todo o reformador social em que ele troveja nas tribunas, principalmente para se livrar de informa√ß√£o mal digerida que se lhe acumulou na cabe√ßa, uma tentativa para impressionar as multid√Ķes, em vez de iniciar uma exposi√ß√£o calma e simples de princ√≠pios e ideias, cuja verdade universal se evidencia pela experi√™ncia pessoal e estudo mais aprofundado.

Sobre a Reforma

Lan√ßar-me-ia num discurso demasiado longo se referisse aqui em particular todas as raz√Ķes naturais que levam os velhos a retirarem-se dos neg√≥cios do mundo: as mudan√ßas de humor, de condi√ß√Ķes f√≠sicas e o enfraquecimento org√Ęnico levam as pessoas e a maior parte dos animais, a afastarem-se pouco a pouco dos seus semelhantes. O orgulho, que √© insepar√°vel do amor-pt√≥prio, substitui-se-lhes √† raz√£o: j√° n√£o pode ser lisonjeado pela maior parle das coisas que lisonjeiam os outros, porque a experi√™ncia lhe fez conhecer o valor do que todos os homens desejam na juventude e a impossibilidade de o continuar a disfrutar; as diversas vias que parecem abertas aos jovens para alcan√ßar grandeza, prazeres, reputa√ß√£o e tudo o mais que eleva os homens, est√£o-lhes vedadas, quer pela fortuna ou pela sua conduta, quer pela inveja ou pela injusti√ßa dos outros; o caminho de reingresso nessas vias √© demasiado longo e demasiado √°rduo para quem j√° se perdeu nelas; as dificuldades parecem-lhes imposs√≠veis de ultrapassar e a idade j√° lhes n√£o permite tais pretens√Ķes. Tornam-se insens√≠veis √† amizade, n√£o s√≥ porque talvez nunca tenham encontrado nenhuma verdadeira, mas tamb√©m porque viram morrer grande n√ļmero de amigos que ainda n√£o tinham tido tempo nem ocasi√£o de desiludir a sua amizade e,

Continue lendo…

O Provincianismo Português (II)

Se fosse preciso usar de uma s√≥ palavra para com ela definir o estado presente da mentalidade portuguesa, a palavra seria “provincianismo”. Como todas as defini√ß√Ķes simples esta, que √© muito simples, precisa, depois de feita, de uma explica√ß√£o complexa. Darei essa explica√ß√£o em dois tempos: direi, primeiro, a que se aplica, isto √©, o que deveras se entende por mentalidade de qualquer pa√≠s, e portanto de Portugal; direi, depois, em que modo se aplica a essa mentalidade.
Por mentalidade de qualquer pa√≠s entende-se, sem d√ļvida, a mentalidade das tr√™s camadas, organicamente distintas, que constituem a sua vida mental ‚ÄĒ a camada baixa, a que √© uso chamar povo; a camada m√©dia, a que n√£o √© uso chamar nada, excepto, neste caso por engano, burguesia; e a camada alta, que vulgarmente se designa por escol, ou, traduzindo para estrangeiro, para melhor compreens√£o, por elite.
O que caracteriza a primeira camada mental é, aqui e em toda a parte, a incapacidade de reflectir. O povo, saiba ou não saiba ler, é incapaz de criticar o que lê ou lhe dizem. As suas ideias não são actos críticos, mas actos de fé ou de descrença, o que não implica, aliás,

Continue lendo…

Aquilo em que se Tem Mais Vaidade é o Corpo

Aquilo em que se tem mais vaidade √© o corpo. Mesmo que aleijado, h√° sempre um pormenor que nos envaidece. Comp√ī-lo. Arranj√°-lo. O careca puxa o cabelo desde o cacha√ßo ou do olho do c√ļ para tapar a degrada√ß√£o. O marreco faz peito. O espelho √© para todos o grande dialogante. Passa-se a uma vitrina e olha-se de soslaio a ver como se vai. Uma mulher perfeita (e um homem) n√£o inveja o intelectual, o artista. O inverso √© que √©. Muitas mulheres (e homens) cultivam a excepcionalidade do seu esp√≠rito ou engenho por complexo ou vingan√ßa. Quando se n√£o tem j√° vaidade no corpo, est√°-se no fim. Mas mesmo num leito de morte nos queremos ¬ęcompostos¬Ľ. ¬ęN√£o me descomponhas¬Ľ ‚ÄĒ disse a marquesa de T√°vora ao carrasco, uns momentos antes de ser decapitada. Tomam-se provid√™ncias para como se h√°-de ir no caix√£o. A degrada√ß√£o do corpo √© a √ļltima coisa que se aceita. Hoje lavei o carro e vesti um cal√ß√£o para me n√£o molhar. Dei uma vista de olhos ao espelho. Grumos, tumefac√ß√Ķes pelas pernas. N√£o gostei. N√£o muito tempo. Lembrou-me um certo professor. Tinha a bossa da orat√≥ria. E ent√£o contava: escrevia um discurso e lia. Parecia-lhe p√©ssimo.

Continue lendo…

Da Conversa

H√° quem, na conversa, prefira mostrar esp√≠rito brilhante, e ser capaz de sustentar todos os argumentos, a exercer o ju√≠zo no discernimento da verdade, como se houvesse maior m√©rito em saber o que pode ser dito, do que em conhecer o que deve ser pensado, alguns t√™m certos lugares comuns e certos temas em que se mostram bons conversadores, mas s√£o falhos na variedade; esta esp√©cie de indig√™ncia √© quase sempre aborrecida, e de vez em quando rid√≠cula; a parte mais honrosa do col√≥quio consiste em dar ocasi√£o a novo tema, e tamb√©m em moderar ou acelerar a transi√ß√£o para assunto diferente; √© bom variar, mesclando o assunto de que se est√° a conversar com argumentos, narrativas com discuss√Ķes, perguntas com respostas, jocosidades com seriedades; h√°, por√©m, assuntos que n√£o permitem brincadeira, nomeadamente a religi√£o, os neg√≥cios do Estado, as altas personalidades, todas as quest√Ķes de import√Ęncia para as pessoas presentes, enfim, todos os casos dignos de d√≥.
Aquele que muito interrogar muito aprenderá também, muito contentará também, especialmente se adaptar as suas perguntas aos conhecimentos daqueles que lhe podem responder, pois assim lhes dará ocasião de se comprazerem a falar, e ele próprio continuará a ganhar conhecimentos; se por vezes fingirdes ignorar o que consta que sabeis,

Continue lendo…

O Artista e a sua Obra

O artista tem pois essa experi√™ncia com a sua obra: ele n√£o produziu uma ess√™ncia igual a ele mesmo. Sem d√ļvida, da sua obra retorna para ele uma consci√™ncia, pois uma multid√£o admirativa honra a obra como o esp√≠rito que √© a ess√™ncia deles. Essa admira√ß√£o, por√©m, ao lhe restituir a sua consci√™ncia de si apenas como admira√ß√£o √© antes uma confiss√£o feita ao artista de que ela n√£o √© igual a ele. Uma vez que o seu Si retorna para ele como j√ļbilo em geral, ali ele n√£o encontra nem a dor da sua forma√ß√£o e da sua produ√ß√£o, nem o esfor√ßo do seu trabalho. Os outros podem de facto julgar a obra ou trazer-lhe oferendas, conceber, de algum modo, que ela seja a sua consci√™ncia; se eles se colocam com o seu saber acima dela, o artista, pelo contr√°rio, sabe o quanto a sua opera√ß√£o vale mais do que a compreens√£o e o discurso deles; se eles se colocam abaixo dela e nela reconhecem a ess√™ncia deles que os domina, ele conhece-a, pelo contr√°rio, como o seu senhor.

Contento-me com a Simpatia

Eu aprendi a contentar-me com a simpatia. Encontra-se mais facilmente e, depois, n√£o nos imp√Ķe nenhum compromisso. ¬ęCreia na minha simpatia¬Ľ, no discurso interior precede imediatamente ¬ęe agora ocupemo-nos de outra coisa¬Ľ. √Č um sentimento de presidente de Conselho: obt√©m-se muito barato, depois das cat√°strofes. A amizade √© menos simples. A sua aquisi√ß√£o √© longa e dif√≠cil, mas, quando se obt√©m, j√° n√£o h√° meio de nos desembara√ßarmos dela, temos de fazer frente.

Vantagens e Desvantagens dos H√°bitos

Os pensamentos dos homens s√£o muito concordantes com as suas inclina√ß√Ķes; as suas palavras e os seus discursos concordam com as suas opini√Ķes infusas ou apreendidas; mas as suas ac√ß√Ķes resultam daquilo a que est√£o acostumados. Eis porque, como Maquiavel muito bem notou (ainda que num exemplo mal inspirado), ningu√©m deve confiar na for√ßa da natureza, nem na jact√Ęncia das palavras, se n√£o estiverem corroboradas pelo h√°bito. O exemplo que ele apresenta √© que, na execu√ß√£o de uma conspira√ß√£o ousada, ningu√©m se deve fiar na ferocidade aparente ou nas promessas resolutas de qualquer pessoa, e que o empreendimento deve ser confiado a quem tiver j√° alguma vez manchado as suas m√£os com sangue.
(…) A predomin√Ęncia do costume √© por toda a parte vis√≠vel; de tal maneira que ficar√≠amos admirados de ouvir os homens declarar, protestar, prometer, fazer solenes juramentos, e depois v√™-los proceder como tinham feito antes: como se fossem imagens mortas ou engenhos movidos apenas pelas rodas do costume. Vemos tamb√©m o que √© o reino ou a tirania do costume.
(…) J√° que o costume √© o principal magistrado da vida humana, deve o homem por todos os meios prover √† obten√ß√£o de bons costumes.

Continue lendo…

O Dicion√°rio da Vida

A vida √© o nosso dicion√°rio. Os anos foram bem gastos quando os demos aos trabalhos do campo, ou ao com√©rcio, √†s manufacturas, √†s rela√ß√Ķes sinceras com grande n√ļmero de homens e mulheres… isto com o √ļnico fim de aprender em todas as suas realidades uma linguagem capaz de ilustrar e de encarnar as nossas percep√ß√Ķes. A pobreza ou a riqueza do discurso de quem fala ensina-me imediatamente em que medida ele j√° viveu.

Um Século de Discursos sem Resultados

O eterno ¬ędeficit¬Ľ; o mist√©rio tenebroso das contas e da d√≠vida p√ļblica; o espectro da bancarrota; a quebra da moeda; o ¬ędeficit¬Ľ da balan√ßa comercial; a insufici√™ncia econ√≥mica; a mis√©ria agr√≠cola; a irriga√ß√£o do Alentejo; o repovoamento florestal; as estradas; os portos; o analfabetismo; o abandono das popula√ß√Ķes rurais; a pesca; a marinha mercante ; a administra√ß√£o colonial; a instru√ß√£o e rearmamento do Ex√©rcito; a reconstru√ß√£o da marinha de guerra; a viciosa educa√ß√£o da gente portuguesa; a emigra√ß√£o; o quadro das nossas rela√ß√Ķes internacionais; a quest√£o religiosa ‚ÄĒ tudo isto absorveu literalmente um s√©culo de discursos, toneladas de artigos e n√£o deu um passo, salvo sempre o respeito pelos esfor√ßos honestos e realiza√ß√Ķes parciais √ļteis, entre as quais se destacam o fomento das comunica√ß√Ķes e a ocupa√ß√£o colonial.

A Superficialidade dos Grandes Espíritos

N√£o h√° nada de mais perigoso para o esp√≠rito do que a sua rela√ß√£o com as grandes coisas. Algu√©m deambula por uma floresta, sobe a um monte e v√™ o mundo estendido a seus p√©s, olha para um filho que lhe colocam pela primeira vez nos bra√ßos, ou desfruta da felicidade de assumir uma posi√ß√£o invejada por todos. Perguntamos: o que se passa nele em tais momentos? Ele pr√≥prio certamente pensa que s√£o muitas coisas, profundas e importantes; mas n√£o tem presen√ßa de esp√≠rito suficiente para, por assim dizer, as tomar √† letra. O que h√° de admir√°vel, diante dele e fora dele, que o encerra numa esp√©cie de gaiola magn√©tica, arranca os pensamentos do seu interior. O seu olhar perde-se em mil pormenores, mas ele tem a secreta sensa√ß√£o de ter esgotado todas as muni√ß√Ķes. L√° fora, esse momento inspirado, solar, profundo, essa grande hora, recobre o mundo com uma camada de prata galvanizada que penetra todas as folhinhas e veias; mas na outra extremidade em breve se come√ßa a notar uma certa falta de subst√Ęncia interior, e nasce a√≠ uma esp√©cie de grande ¬ęO¬Ľ, redondo e vazio. Este estado √© o sintoma cl√°ssico do contacto com tudo o que √© eterno e grande,

Continue lendo…

A Libertação para a Individualidade

Esta liberta√ß√£o para a individualidade n√£o foi um grande sucesso. Para um historiador, tem todo o interesse. Mas para algu√©m consciente do sofrimento, √© pavoroso. Cora√ß√Ķes que n√£o encontram verdadeira gratifica√ß√£o, almas sem alimento. Falsidades, ilimitadas. Desejos, ilimitados. Possibilidades, ilimitadas. Exig√™ncias imposs√≠veis feitas a realidades complexas, ilimitadas. Regresso a formas de religiosidade grosseira e infantil, a mist√©rios, totalmente inconscientes, claro ‚ÄĒ espantoso. Orfismo, mitra√≠smo, manique√≠smo, gnosticismo.

. Sammler (discurso da personagem Sr. Sammler)’

O Português

Prefere ser um rico desconhecido, a ser um her√≥i pobre. √Č melhor do que parece. O homem portugu√™s √© dissimulado, e fez da inveja um discurso do bom senso e dos direitos humanos.
Mas √© tamb√©m um homem de paix√Ķes moderadas pela sensibilidade, o que faz dele um grande civilizado.
Gosta das mulheres, o que explica o estado de dependência em que as pretende manter. A dependência é uma motivação erótica.
√Č inovador mas tem pouco car√°cter, como √© pr√≥prio dos superiormente inteligentes, tanto cientistas, como fil√≥sofos e criadores em geral.
Mente muito, e a verdade que se arroga √© uma culpa inibida. Vemos que ele se mant√©m num estado primitivo quando defende a sua √°rea de partido, de seita e de fam√≠lia, √† custa de corrup√ß√Ķes e de crimes, se for preciso.
Gosta do poder mas não da notoriedade. Não tem o sentido da eternidade, mas sim o prazer da liberdade imediata. Não é democrata; excepto se isso intimidar os seus adversários.
Não tem génio, tem habilidade.
√Č imaginativo mas n√£o pensador.
√Č culto mas n√£o experiente.
N√£o gosta da lei, porque ela desvaloriza a sua pr√≥pria iniciativa. √Č m√≠stico com a f√°bula e viril com a desgra√ßa.

Continue lendo…

A Educação da Fé

Sendo a f√© um dom, como pode ser motivo de educa√ß√£o? N√£o pode realmente ser ensinada, mas sim irradiada. Os que a possuem podem significar a estrela-guia, a perseveran√ßa num encontro dif√≠cil de suceder, mas cuja esperan√ßa comove todo o nosso ser. √Č poss√≠vel que a Igreja se volte para esse apostolado da f√© que foi extremamente importante no seu come√ßo. N√£o o velho sistema de grupos sect√°rios que s√£o o modelo dos processos pol√≠ticos e que, quando se afirma um movimento e este toma amplitude, se eliminam. N√£o √© isso. Trata-se de focos de comunica√ß√£o que dispensam a organiza√ß√£o premeditada e at√© a linguagem elaborada, o discurso piedoso e a erudi√ß√£o duma exegese. Um interessar a alma na f√© sem recorrer ao preconceito da santidade. Descobrir a imensa novidade da f√© num mundo em que o pr√≥prio crist√£o vive de maneira pag√£ e singularmente a coberto dos antigos textos que esqueceu ou que desconhece completamente.

A prova de que o cristão vive como um bárbaro é o sentido que tomou a arte religiosa. Não é raro encontrar nas salas de convívio burguesas, juntamente com a televisão, ou a mesa de jogo, ou a instalação estereofónica para o gira-disco,

Continue lendo…