Textos sobre Escuro

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Textos de escuro escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A Mulher dos Vinte Poemas

Perguntam-me sempre quem √© a mulher dos ¬ęVinte Poemas¬Ľ. √Č dif√≠cil responder. As duas ou tr√™s que se entrela√ßam nesta melanc√≥lica e ardente poesia correspondem, digamos, a Marisol e Marisombra. Marisol √© o id√≠lio da prov√≠ncia encantada, com imensas estrelas nocturnas e olhos escuros como o c√©u molhado de Temuco. √Č ela que figura, com a sua alegria e a sua vivaz beleza, em quase todas as p√°ginas, rodeada pelas √°guas do porto e pela meia-lua sobre as montanhas. Marisombra √© a estudante da capital. Boina parda, olhos dulc√≠ssimos, o constante aroma a madressilva do errante amor estudantil, o sossego f√≠sico dos apaixonados encontros nos esconderijos da urbe.

Neruda e García Lorca em Homenagem a Rubén Dario

Eis o texto do discurso:

Neruda: Senhoras…

Lorca: …e senhores. Existe na lide dos touros uma sorte chamada ¬ętoreio dei alim√≥n¬Ľ, em que dois toureiros furtam o corpo ao touro protegidos pela mesma capa.

Neruda: Federico e eu, ligados por um fio eléctrico, vamos emparelhar e responder a esta recepção tão significativa.

Lorca: √Č costume nestas reuni√Ķes que os poetas mostrem a sua palavra viva, prata ou madeira, e sa√ļdem com a sua voz pr√≥pria os companheiros e amigos.

Neruda: Mas n√≥s vamos colocar entre v√≥s um morto, um comensal vi√ļvo, escuro nas trevas de uma morte maior que as outras mortes, vi√ļvo da vida, da qual foi na sua hora um marido deslumbrante. Vamos esconder-nos sob a sua sombra ardente, vamos repetir-lhe o nome at√© que a sua grande for√ßa salte do esquecimento.

Lorca: N√≥s, depois de enviarmos o nosso abra√ßo com ternura de pinguim ao delicado poeta Amado Villar, vamos lan√ßar um grande nome sobre a toalha, na certeza de que v√£o estalar as ta√ßas, saltar os garfos, buscando o olhar que todos anseiam, e que um golpe de mar h√°-de manchar as toalhas. N√≥s vamos evocar o poeta da Am√©rica e da Espanha: Rub√©n…

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Pensamento em Boa Forma

Cumpre-nos n√£o s√≥ averiguar porque se gasta a vida, dia ap√≥s dia, e o pouco que resta √† propor√ß√£o vai diminuindo. Pensemos tamb√©m no seguinte: supondo que a um homem toque viver longa vida, uma quest√£o permanece escura: a de saber se a sua intelig√™ncia ser√° capaz, tempo adiante, sem defec√ß√£o, de compreender os problemas e a teoria que apontam ao conhecimento das coisas divinas e humanas. Se ele pega a cair em estado de infantilidade, a respira√ß√£o, a alimenta√ß√£o, a imagina√ß√£o, os gestos impulsivos e as outras fun√ß√Ķes do mesmo g√©nero n√£o lhe faltar√£o necessariamente; mas dispor de si, obtemperar exactamente a todas as exig√™ncias morais, analisar as apar√™ncias, ver se n√£o ser√° j√° tempo de entrouxar e ir para melhor est√£o √† altura de responder a necessidades desta ordem – para tudo isso se necessita de um racioc√≠nio em boa forma; e o racioc√≠nio, h√° que tempos perdeu a chama e a agudeza. Cumpre-nos pois andar ligeiros, n√£o s√≥ porque a morte se avizinha a cada momento mas ainda porque antes de morrer perdemos a capacidade de conceber as coisas e de lhes prestar aten√ß√£o.

O Homem Amesquinhado

Apesar do quadro negro de uma c√ļpula pol√≠tica e intelectual desvairada e grossa e de um povo abandonado a seu pr√≥prio destino, ainda havia ali, no pa√≠s, naquele espantoso ver√£o de 1955, uma consider√°vel energia vital, uma exaltada alegria de viver, acentuada, em alguns lugares e num ou noutro indiv√≠duo, ainda mais possu√≠do do gozo pleno de um extraodin√°rio senso l√ļdico tropical. Est√°vamos, poder√≠amos nos considerar como estando, num dos √ļltimos redutos do ser humano. Depois disso viria o fim, n√£o, como todos pensavam, com um estrondo, mas com um solu√ßo. A densa nuvem desceria, n√£o, como todos pensavam, feita de mol√©culas radioativas, mas da grosseria de todos os dias, acumulada, aumentada, transmitida, potenciada. O homem se amesquinharia, v√≠tima da mesquinharia do seu semelhante, cada dia menos atento a um gesto de gentileza, a um ato de beleza, a um olhar de amor desinteressado, a uma palavra dita com uma precisa propriedade. E tudo come√ßou a ficar densamente escuro, porque tudo era terrivelmente patrocinado por enlatadores de banha, fabricantes de chouri√ßo e vendedores de desodorante, de modo que toda a pretensa gra√ßa da vida se dirigia apenas √† barriga dos gordos, √† tripa dos porcos, ou, no m√°ximo de finura e eleg√Ęncia,

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Um Mundo de Vidas

N√≥s vivemos da nossa vida um fragmento t√£o breve. N√£o √© da vida geral – √© da nossa. √Č em primeiro lugar a restrita por√ß√£o do que em cada elemento haveria para viver. Porque em cada um desses elementos h√° a intensidade com o que poder√≠amos viver, a profundeza, as ramifica√ß√Ķes. N√≥s vivemos √† superf√≠cie de tudo na parte deslizante, a que √© facilidade e fuga. O resto prende-se irremediavelmente ao escuro do esquecimento e distrac√ß√£o. Mas h√° sobretudo a zona incomensur√°vel dos poss√≠veis que n√£o poderemos viver. Porque em cada instante, a cada op√ß√£o que fazemos, a cada op√ß√£o que faz o destino por n√≥s, correspondem as inumer√°veis op√ß√Ķes que nada para n√≥s poder√° fazer. Um golpe de sorte ou de azar, o acaso de um encontro, de um lance, de uma fal√™ncia ou benef√≠cio fazem-nos eliminar toda uma rede de caminhos para se percorrer um s√≥. Em cada momento h√° in√ļmeros poss√≠veis, favor√°veis ou desfavor√°veis, diante de n√≥s. Mas √© um s√≥ o que se escolheu ou nos calhou.
Assim durante a vida v√£o-nos ficando para tr√°s mil solu√ß√Ķes que se abandonaram e n√£o poder√£o jamais fazer parte da nossa vida. Regresso √† minha inf√Ęncia e entonte√ßo com as milhentas possibilidades que se me puseram de parte.

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Civilização de Especialistas

A verdade √© que hoje vivemos numa civiliza√ß√£o de especialistas e que √© v√£o todo o empenho de que seja de outro modo. Sob pena de n√£o ser eficiente, o homem das artes, das ci√™ncias e das t√©cnicas tem de se especializar, para que domine aqueles segredos de bibliografia ou de pr√°tica, e para que obtenha os jeitos e a forte concentra√ß√£o de pensamento que se tornam necess√°rios para que se possa n√£o s√≥ manejar o que se herdou mas acrescentar patrim√≥nio para as gera√ß√Ķes futuras. E, se √© certo que por um lado o especialismo favorece aquela pregui√ßa de ser homem que tanto encontramos no mundo, permite ele, por outro lado, aproveitar em tarefas √ļteis indiv√≠duos que pouco brilhantes seriam no tratamento de conjuntos. O pre√ßo, por√©m, se tem naturalmente de pagar; paga-o o colectivo quando se queixa, e muito justamente, da falta de bons l√≠deres, de homens com uma larga vis√£o de conjunto, que saibam do trabalho de cada um o suficiente para o poderem dirigir e se tenham eles tornado especialistas na dif√≠cil arte de n√£o ter especialidade pr√≥pria sen√£o essa mesma do plano, da previs√£o e do animar na batalha as tropas que, na maior parte das vezes,

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Controlar a Timidez

Nunca consegui controlar a timidez. Quando tive que enfrentar em carne viva a incumb√™ncia que nos deixou o pai errante, aprendi que a timidez √© um fantasma invenc√≠vel. De cada vez que tinha que solicitar um cr√©dito, mesmo dos combinados de antem√£o em lojas de amigos, demorava horas em redor da casa, reprimindo a vontade de chorar e as contrac√ß√Ķes da barriga, at√© que me atrevia por fim, com as mand√≠bulas t√£o apertadas que n√£o me sa√≠a a voz. Havia sempre algum comerciante sem cora√ß√£o para me atrapalhar ainda mais: ¬ęMi√ļdo parvo, n√£o se pode falar com a boca fechada.¬Ľ Mais de uma vez regressei a casa com as m√£os vazias e uma desculpa inventada por mim. Mas nunca mais tornei a ser t√£o desgra√ßado como da primeira vez que quis falar pelo telefone na loja da esquina. O dono ajudou-me com a operadora, pois ainda n√£o existia o servi√ßo autom√°tico. Senti o sopro da morte quando me deu o auscultador. Esperava uma voz servi√ßal e o que ouvi foi o latido de algu√©m que falava no escuro ao mesmo tempo que eu. Pensei que o meu interlocutor tamb√©m n√£o me ouvia e levantei a voz tanto quanto pude. O outro,

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Moral para Psicólogos

N√£o cultivar uma psicologia de bisbilhoteiro! Nunca observar s√≥ por observar! Isso provoca uma √≥ptica falsa, uma perspectiva vesga, algo que resulta for√ßado e que exagera as coisas. O ter experi√™ncias, quando √© um querer-ter-experi√™ncias, ‚ÄĒ n√£o resulta bem. Na experi√™ncia n√£o √© l√≠cito olhar para si mesmo, todo o olhar se converte ent√£o num ¬ęmau-olhado¬Ľ. Um psic√≥logo nato guarda-se, por instinto, de ver por ver; o mesmo se pode dizer do pintor nato. Este n√£o trabalha jamais ¬ęsegundo a natureza¬Ľ, encomenda ao seu instinto, √† sua c√Ęmara escura o crivar e exprimir o ¬ęcaso¬Ľ, a ¬ęnatureza¬Ľ, o ¬ęvivido¬Ľ… At√© √† sua consci√™ncia chega s√≥ o universal, a conclus√£o, o resultado: n√£o conhece esse arbitr√°rio abstrair do caso individual. ‚ÄĒ Que √© que resulta quando se procede de outro modo? Quando se cultiva, por exemplo, uma psicologia de bisbilhoteiro, √† maneira dos romanciers parisienses, grandes e pequenos? Essa gente anda, por assim diz√™-lo, √† espreita da realidade, essa gente leva para casa cada noite um punhado de curiosidades… Por√©m veja-se o que acaba por sair da√≠ ‚ÄĒ um mont√£o de borr√Ķes, um mosaico no melhor dos casos, e de qualquer forma algo que √© o resultado da soma de v√°rias coisas,

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N√£o Morrer√° Como os Restantes

Certo dia, quando recolhia esp√©cimes por baixo de um carvalho, encontrei, entre as outras plantas e ervas daninhas, e do mesmo tamanho que elas, uma planta de cor escura com folhas contra√≠das e um caule direito e r√≠gido. Quando ia tocar-lhe, disse-me com voz firme: ¬ęDeixa-me em paz! N√£o sou uma erva para o teu herb√°rio, como as outras a quem a natureza deu apenas um ano de vida. A minha vida mede-se em s√©culos. Sou um pequeno carvalho.¬Ľ Assim √© aquele cuja influ√™ncia se far√° sentir ao longo dos s√©culos, quando crian√ßa, quando jovem, muitas vezes j√° quando homem, uma criatura viva aparentemente igual √†s restantes e t√£o insignificante como elas. Mas basta que lhe d√™em tempo e, com o tempo, pessoas que saibam reconhec√™-lo. N√£o morrer√° como os restantes.

A Vida Oblíqua

S√≥ agora pressenti o obl√≠quo da vida. Antes s√≥ via atrav√©s de cortes retos e paralelos. N√£o percebia o sonso tra√ßo enviesado. Agora adivinho que a vida √© outra. Que viver n√£o √© s√≥ desenrolar sentimentos grossos ‚ÄĒ √© algo mais sortil√©gico e mais gr√°cil, sem por isso perder o seu fino vigor animal. Sobre essa vida insolitamente enviesada tenho posto minha pata que pesa, fazendo assim com que a exist√™ncia fene√ßa no que tem de obl√≠quo e fortuito e no entanto ao mesmo tempo sutilmente fatal. Compreendi a fatalidade do acaso e n√£o existe nisso contradi√ß√£o.

A vida oblíqua é muito íntima. Não digo mais sobre essa intimidade para não ferir o pensar-sentir com palavras secas. Para deixar esse oblíquo na sua independência desenvolta.
E conheço também um modo de vida que é suave orgulho, graça de movimentos, frustração leve e contínua, de uma habilidade de esquivança que vem de longo caminho antigo. Como sinal de revolta apenas uma ironia sem peso e excêntrica. Tem um lado da vida que é como no inverno tomar café num terraço dentro da friagem e aconchegada na lã.
Conheço um modo de vida que é sombra leve desfraldada ao vento e balançando leve no chão: vida que é sombra flutuante,

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Toda a Comunidade nos Torna Vulgares

Viver com uma imensa e orgulhosa calma; sempre para al√©m. – Ter e n√£o ter, arbitrariamente, os seus afectos, o seu pr√≥ e contra, condescender com eles por umas horas; montar sobre eles como em cavalos, frequentemente como em burros; – √© que se deve saber aproveitar a sua estupidez tal como a sua fogosidade. Conservar os seus trezentos primeiros planos; tamb√©m os √≥culos escuros; pois h√° casos em que ningu√©m nos deve olhar nos olhos e muito menos ainda nas nossas ¬ęraz√Ķes¬Ľ. E escolher, para companhia, aquele v√≠cio matreiro e sereno, a cortesia. E ficar senhor das suas quatro virtudes, a coragem, a perspic√°cia, a simpatia, a solid√£o. Pois a solid√£o √© entre n√≥s uma virtude, como tend√™ncia e impulso sublimes do asseio que adivinha como, no contacto de homem para homem – ¬ęem sociedade¬Ľ – tudo √©, inevitavelmente, sujo, Toda a comunidade nos torna de qualquer modo, em qualquer parte, em qualquer altura – ¬ęvulgares¬Ľ.

O Egoísmo Pessoal Tapa Todos os Horizontes

O mal e o rem√©dio est√£o em n√≥s. A mesma esp√©cie humana que agora nos indigna, indignou-se antes e indignar-se-√° amanh√£. Agora vivemos um tempo em que o ego√≠smo pessoal tapa todos os horizontes. Perdeu-se o sentido da solidariedade, o sentido c√≠vico, que n√£o deve confundir-se nunca com a caridade. √Č um tempo escuro, mas chegar√°, certamente, outra gera√ß√£o mais aut√™ntica. Talvez o homem n√£o tenha rem√©dio, n√£o tenhamos progredido muito em bondade em milhares e milhares de anos sobre a Terra. Talvez estejamos a percorrer um longo e intermin√°vel caminho que nos leva ao ser humano. Talvez, n√£o sei onde nem quando, cheguemos a ser aquilo que temos de ser. Quando metade do mundo morre de fome e a outra metade n√£o faz nada… alguma coisa n√£o funciona.

Na Tua Voz, Irm√£o

Estavam sentados e n√£o falavam. Cada um olhava para um lado que n√£o via. Atr√°s dos rostos tristes, cismavam. Pensando, Mois√©s dizia palavras ao irm√£o, esperan√ßado de que ele as ouvisse; no pensamento, dizia ser√° um instante e trar√° a solid√£o. Pela primeira vez, gritaremos o nome um do outro. J√° reparaste?, nunca precis√°mos de nos chamar. N√£o sei como √© o meu nome na tua voz. Na tua voz, irm√£o, irm√£o. N√£o sei como √© o teu nome na minha voz. Pela primeira vez, gritaremos o nome um do outro, e o desespero ser√° a antec√Ęmara de uma dor triste a que nos habituaremos, como se habitua um homem sem cora√ß√£o ao espa√ßo negro no peito. Viveste sempre na minha vida, e eu estive sempre contigo quando sorriste. Hoje, a solid√£o. Desapareceremos um do outro, deixaremos de ser n√≥s para sermos s√≥ tu e s√≥ eu. Mas n√£o esqueceremos. E lembrarmo-nos ser√° o maior sofrimento, recordarmos o que fomos onde estivermos e n√£o podermos ser mais nada nesse dia. Lembrarmo-nos de quando acord√°vamos e olh√°vamos um para o outro, pois t√≠nhamos acordado ao mesmo tempo e t√≠nhamos ao mesmo tempo pensado em ver-nos. Lembrarmo-nos de falar na nossa maneira de falar,

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Somos uma Turba e Ninguém

Somos uma turba e ningu√©m: um ningu√©m que vive, porque √© sangue e carne, e existe porque √© esqueleto ou pedra; e uma turba da espectros que nos acompanha desde a Origem, e √© a nossa mesma pessoa multiplicada em mil tend√™ncias incoerentes, for√ßas contradit√≥rias, em v√°rios sentidos ignotos… E l√° vamos, a tactear as trevas, ladeando, avan√ßando, recuando, como pobres jumentos aflitos e √†s escuras, sob as esporas que o espica√ßam para a frente e as r√©deas que o puxam para tr√°s.
Pobres jumentos aflitos e às escuras! Escouceiam, orneiam, levantam a garupa. De que serve? As patas ferem o ar e aquela voz de soluços, que faz rir, não chega ao céu.
(…) Deus, criando as almas, condenou-as √† suprema solid√£o. Algumas iludem a pena. Imaginam conviver com as √°rvores e os penedos. Falam √†s √°rvores e aos penedos, queixando-se dos seus desgostos. (…) Somos uma turba e ningu√©m. Somos Deus e o Dem√≥nio, o C√©u e a Terra e outras letras grandes e Ningu√©m.

A Voz que Ouço quando Leio

Quando leio, h√° uma voz que l√™ dentro de mim. Paro o olhar sobre o texto impresso, mas n√£o acredito que seja o meu olhar que l√™. O meu olhar fica embaciado. √Č essa voz que l√™. Quando √© s√©ria, ou√ßo-a falar-me de assuntos s√©rios. √Äs vezes, sussurra-me. √Äs vezes, grita-me. Essa voz n√£o √© a minha voz. N√£o √© a voz que, em filmagens de festas de anos e de natais, vejo sair da minha boca, do movimento dos meus l√°bios, a voz que estranho por, num rosto parecido com o meu, n√£o me parecer minha. A voz que ou√ßo quando leio existe dentro de mim, mas n√£o √© minha. N√£o √© a voz dos meus pensamentos. A voz que ou√ßo quando leio existe dentro de mim, mas √© exterior a mim. √Č diferente de mim. Ainda assim, n√£o acredito que algu√©m possa ter uma voz que l√™ igual √† minha, por isso √© minha mas n√£o √© minha. Mas, claro, n√£o posso ter a certeza absoluta. N√£o s√≥ porque uma voz √© indescrit√≠vel, mas tamb√©m porque nunca ningu√©m me tentou descrever a voz que ouve quando l√™ e porque eu nunca falei com ningu√©m da voz que ou√ßo quando leio.

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√Č Prov√°vel que Ainda a Ame

√Č prov√°vel, sim, √© prov√°vel que ainda a ame, que ame nela o que antes soube amar, a cabeleira escura, o ventre inquietante, o peito guardando a alegria de um cora√ß√£o solar. Os meus olhos profundos sempre a contemplaram visivelmente perturbados, at√© mesmo perdidos, quando ela caminhava abrindo rasg√Ķes no ar que se fechavam depois √† sua passagem para cingir-lhe os bra√ßos, os seios e as ancas. A sua boca tremeu na minha com a sede da m√ļsica e o seu contacto era o do musgo e o da cinza, e dessas cerejas maduras pelo lume de maio. N√£o sei se estou a endeus√°-la ou se ela √© uma deusa. N√£o sei mesmo se conseguirei dizer dela quanto gostaria. Ela est√° t√£o perto do meu corpo que a minha pele se acende, e t√£o longe dos meus olhos que s√≥ poderei lembr√°-la. Fiz√©mos muito amor e sempre muitas vezes, sem que entre n√≥s esvoa√ßasse uma minima sombra. Quando fic√°vamos tristes, √© que o espanto crescia at√© ao minuto primeiro da tristeza. √Č uma mulher maravilhosa, o seu nome que importa?, t√£o fr√°gil como um menino inocente, assim desamparada, correndo para a loucura como antes correu para os meus bra√ßos. Nenhuma paix√£o poderia doer-me mais.

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A Culpa é Sentirmo-nos Culpados

A culpa √© sentirmo-nos culpados, e n√£o um resultado dos crimes cometidos; o ser inocente √© alegre, feliz, e n√£o deixa, seja em que caso for, que os acontecimentos perturbem a sua calma e a sua paz. √Č por isso que considero que a justi√ßa erra quando executa os menos em vez dos mais culpados, quer dizer quando executa os criminosos e n√£o aqueles que sentem que t√™m no cora√ß√£o a culpa do mundo. Isso equivale a executar crian√ßas por ac√ß√Ķes que cometeram no escuro quando ignoravam tudo acerca do escuro e das reac√ß√Ķes que provoca no funcionamento dos corpos. Uma vez que s√£o culpados apenas os que se sentem culpados, seria necess√°rio suprimir a justi√ßa distribuitiva de castigos e substitu√≠-la por uma justi√ßa executora, porque ao fim de algum tempo aquele que a culpa mortifica j√° s√≥ aspira a morrer, a morrer pelas faltas do mundo como pelas suas pr√≥prias faltas, e pode sem a m√≠nima hesita√ß√£o, sim, sem a menor ang√ļstia de morte, uma vez que nada tem a esperar agora que tocou finalmente o fundo do mundo, pedir √† justi√ßa a sua pena de morte – e nunca outra cabe√ßa se curvar√° mais graciosamente do que a sua por baixo da guilhotina,

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A Felicidade Reside Sempre no Futuro ou no Passado

A sedutora miragem do distante mostra-nos para√≠sos que desvanecem, semelhantes a ilus√Ķes de √≥ptica, assim que nos deixamos arrebatar por ela. A felicidade reside sempre, portanto, no futuro, ou ainda no passado, e o presente parece ser uma nuvenzinha escura que o vento empurra sobre a plan√≠cie ensolarada; na frente e atr√°s dela, tudo √© claro; sozinha, n√£o cessa ela pr√≥pria de projectar uma sombra.

A Boa e a M√° Fama

No mundo sempre correu igual risco a boa como a m√° opini√£o, e na opini√£o de muitos, mais arriscada foi sempre a boa que a m√° fama; porque as grandes prendas s√£o muito ruidosas, e muitas vezes foi reclamo para o perigo mais certo o mais estrondoso ru√≠do. O impertinente canto de uma cigarra nunca motivou aten√ß√Ķes ao curioso ca√ßador das aves. A melodia, sim, do rouxinol, que este sempre despertou o cuidado ao ca√ßador, para lhe aparelhar o la√ßo. A primeira cousa que se esconde dos ca√ßadores com instinto natural, suposta a hist√≥ria por verdadeira, que muitos t√™m por fabulosa, √© o carb√ļnculo, aquele diamante de luz, que lhe comunicou a natureza, como quem conhece que, em seu maior luzir, est√° o seu maior perigar. O ru√≠do que faz a grande fama tamb√©m faz com que o grande seja de todos ro√≠do, quando nas asas da fama se v√™ mais sublimado. Quem em as asas da fama voa tamb√©m padece; porque n√£o h√° asas sem penas, ainda que estas sejam as plumagens, com que o benem√©rito se adorna. S√≥ aos mortos costumamos dizer se fazem honras, e ser√° porque, a n√£o acabarem as honras com a morte, a ningu√©m consentiria aplausos o mundo,

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