Textos sobre Vista

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Textos de vista escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A Arte de Citar

Bem ao lado do criador de uma grande frase figura aquele a quem primeiro ocorre cit√°-la. Muitos ler√£o um livro antes que algu√©m pense em citar certa passagem. Mas, assim que isso √© feito, aquela linha ser√° citada de leste a oeste. […] De facto, √© t√£o dif√≠cil nos apropriarmos dos pensamentos dos outros como invent√°-los. Pois sempre alguma transi√ß√£o abrupta, alguma mudan√ßa repentina de temperatura ou de ponto de vista trai a inser√ß√£o do alheio.

Conhecimento sem Paixão seria Castrar a Inteligência

Como investigadores do conhecimento, n√£o sejamos ingratos com os que mudaram por completo os pontos de vista do esp√≠rito humano; na apar√™ncia foi uma revolu√ß√£o in√ļtil, sacr√≠lega; mas j√° de si o querer ver de modo diverso dos outros, n√£o √© pouca disciplina e prepara√ß√£o do entendimento para a sua futura ¬ęobjectividade¬Ľ, entendendo por esta palavra n√£o a ¬ęcontempla√ß√£o desinteressada¬Ľ, que √© um absurdo, sen√£o a faculdade de dominar o pr√≥ e o contra, servindo-se de um e de outro para a interpreta√ß√£o dos fen√≥menos e das paix√Ķes. Acautelemo-nos pois, oh senhores fil√≥sofos!
Desta confabula√ß√£o das ideias antigas acerca de um ¬ęassunto do conheciemnto puro, sem vontade, sem dor, sem tempo¬Ľ, defendamo-nos das mo√ß√Ķes contradit√≥rias ¬ęraz√£o pura¬Ľ, ¬ęespiritualidade absoluta¬Ľ, ¬ęconhecimento subsistente¬Ľ que seria um ver subsistente em si pr√≥prio e sem √≥rg√£o visual, ou um olho sem direc√ß√£o, sem faculdades activas e interpretativas? Pois o mesmo sucede com o conhecimento: uma vista, e se √© dirigida pela vontade, veremos melhor, teremos mais olhos, ser√° mais completa a nossa ¬ęobjectividade¬Ľ. Mas eliminar a vontade, suprimir inteiramente as paix√Ķes – supondo que isso fosse poss√≠vel – seria castrar a intelig√™ncia.

A Inveja só Incide sobre os Vivos

Por mais que vivamos juntos, e nos vejamos sempre, √© por um modo como vago, e passageiro: as cousas nem por estarem muito perto se v√™em melhor, e os Her√≥is o que os faz mais vis√≠veis, √© a dist√Ęncia, e despropor√ß√£o dos outros homens em que os p√Ķem as suas ac√ß√Ķes; n√£o s√≥ os homens, mas ainda os sucessos, quanto mais longe v√£o ficando, mais crescem, e nos v√£o parecendo maiores, at√© que os vimos a perder de vista, e muitas vezes da mem√≥ria; porque no tempo tamb√©m h√° um ponto de perspectiva, donde como em espelho v√£o crescendo todos os objectos, e em chegando a um certo termo, desaparecem. As empresas, que hoje vemos, talvez n√£o sejam inferiores √†s que a tradi√ß√£o refere do tempo do hero√≠smo; por√©m t√™m de menos o estarem pr√≥ximas a n√≥s, e as outras t√™m de mais, o valor que recebem de uma antiguidade vener√°vel: aquelas admiramos porque n√£o temos inveja, nem vaidade, que nos preocupe contra os que passaram h√° muitos s√©culos; contra os que existem sim, e destes, se sabemos as ac√ß√Ķes, tamb√©m sabemos as circunst√Ęncias delas; por isso as desprezamos, porque √© rara a empresa her√≥ica, em que n√£o entre algum fim indigno,

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A Satisfação do Trabalho

Para não sofrer, trabalha. Sempre que puderes diminuir o teu tédio ou o teu sofrimento pelo trabalho, trabalha sem pensar. Parece simples à primeira vista. Eis um exemplo trivial: saí de casa e sinto que as roupas me incomodam, mas com a preguiça de voltar atrás e mudar de roupa continuo a caminhar. Existem contudo muitos outros exemplos. Se se aplicasse esta determinação tanto às coisas banais da existência como às coisas importantes, comunicar-se-ia à alma um fundo e um equilíbrio que constituem o estado mais propício para repelir o tédio.
Sentir que fazemos o que devemos fazer aumenta a considera√ß√£o que temos por n√≥s pr√≥prios; desfrutamos, √† falta de outros motivos de contentamento, do primeiro dos prazeres – o de estar contente consigo mesmo… √Č enorme a satisfa√ß√£o de um homem que trabalhou e que aproveitou convenientemente o seu dia. Quando me encontro nesse estado, gozo depois, deliciadamente, com o repouso e os mais pequenos lazeres. Posso mesmo encontrar-me no meio das pessoas mais aborrecidas, sem o menor desagrado; a recorda√ß√£o do trabalho feito n√£o me abandona e preserva-me do aborrecimento e da tristeza.

Os Feitos Simples s√£o os Mais Elogiados e Lembrados

Duas pátrias produziram dois heróis: de Tebas saiu Hércules; de Roma saiu Catão. Foi Hércules aplauso da orbe, foi Catão enfado de Roma. A um admiraram todos, ao outro esquivaram-se os romanos. Não admite controvérsia a vantagem que levou Catão a Hércules, pois o excedeu em prudência; mas ganhou Hércules a Catão em fama. Mais de árduo e primoroso teve o assunto de Catão, pois se empenhou em sujeitar os monstros dos costumes, e Hércules os da natureza; mas teve mais de famoso o do tebano. A diferença consistiu em que Hércules empreendeu façanhas plausíveis e Catão odiosas. A plausibilidade do cargo levou a glória de Alcides (nome anterior de Hércules) aos confins do mundo, e passará ainda além deles caso se alarguem. O desaprezível do cargo circunscreveu Catão ao interior das muralhas de Roma.
Com tudo isto, preferem alguns, e não os menos judiciosos, o assunto primoroso ao mais plausível, e pode mais com eles a admiração de poucos que o aplauso de muitos, sendo vulgares. Os milagres de ignorantes apelam aos empenhos plausíveis. O árduo, o primoroso de um superior assunto poucos o percebem, embora eminentes, sendo assim raros os que nele acreditam. A facilidade do plausível permite-se a todos,

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A Regra Fundamental de Vida

Quando n√≥s dizemos o bem, ou o mal… h√° uma s√©rie de pequenos sat√©lites desses grandes planetas, e que s√£o a pequena bondade, a pequena maldade, a pequena inveja, a pequena dedica√ß√£o… No fundo √© disso que se faz a vida das pessoas, ou seja, de fraquezas, de debilidades… Por outro lado, para as pessoas para quem isto tem alguma import√Ęncia, √© importante ter como regra fundamental de vida n√£o fazer mal a outrem. A partir do momento em que tenhamos a preocupa√ß√£o de respeitar esta simples regra de conviv√™ncia humana, n√£o vale a pena perdermo-nos em grandes filosofias sobre o bem e sobre o mal. ¬ęN√£o fa√ßas aos outros o que n√£o queres que te fa√ßam a ti¬Ľ parece um ponto de vista ego√≠sta, mas √© o √ļnico do g√©nero por onde se chega n√£o ao ego√≠smo mas √† rela√ß√£o humana.

Do Contraditório como Terapêutica de Libertação

Recentemente, entre a poeira de algumas campanhas pol√≠ticas, tomou de novo relevo aquele grosseiro h√°bito de polemista que consiste em levar a mal a uma criatura que ela mude de partido, uma ou mais vezes, ou que se contradiga, frequentemente. A gente inferior que usa opini√Ķes continua a empregar esse argumento como se ele fosse depreciativo. Talvez n√£o seja tarde para estabelecer, sobre t√£o delicado assunto do trato intelectual, a verdadeira atitude cient√≠fica.
Se há facto estranho e inexplicável é que uma criatura de inteligência e sensibilidade se mantenha sempre sentado sobre a mesma opinião, sempre coerente consigo próprio. A contínua transformação de tudo dá-se também no nosso corpo, e dá-se no nosso cérebro consequentemente. Como então, senão por doença, cair e reincidir na anormalidade de querer pensar hoje a mesma coisa que se pensou ontem, quando não só o cérebro de hoje já não é o de ontem, mas nem sequer o dia de hoje é o de ontem? Ser coerente é uma doença, um atavismo, talvez; data de antepassados animais em cujo estádio de evolução tal desgraça seria natural.
A coer√™ncia, a convic√ß√£o, a certeza s√£o al√©m disso, demonstra√ß√Ķes evidentes ‚ÄĒ quantas vezes escusadas ‚ÄĒ de falta de educa√ß√£o.

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Entendimento L√ļcido do Futuro

Uma diferen√ßa caracter√≠stica e muito frequente na vida di√°ria entre as cabe√ßas comuns e as sensatas √© que as primeiras, na sua pondera√ß√£o e avalia√ß√£o sobre poss√≠veis perigos, querem saber e levam em conta apenas o que de semelhante j√° ter√° acontecido. As outras, pelo contr√°rio, ponderam o que possivelmente poderia acontecer. √Č como se tivessem em mente o prov√©rbio espanhol: ¬ęO que n√£o acontece num ano, acontece num instante¬Ľ. Decerto, a diferen√ßa em quest√£o √© natural, pois, para abarcar com a vista aquilo que pode acontecer, √© preciso entendimento; j√° para ver aquilo que aconteceu, s√£o suficientes os sentidos.
A nossa m√°xima, ent√£o, √©: sacrifica-te aos dem√≥nios malignos. Por outras palavras, n√£o se deve temer uma certa perda de esfor√ßo, tempo, desconforto, transtorno, dinheiro ou priva√ß√£o, para fechar as portas √† possibilidade de uma desgra√ßa. E quanto maior a desgra√ßa, tanto menor, mais remota e improv√°vel a sua possibilidade. O exemplo mais claro desta regra √© o pr√©mio do seguro. Ele √© um sacrif√≠cio p√ļblico oferecido por todos no altar dos dem√≥nios malignos.

A Guerra como Revolta da Técnica

Todos os esfor√ßos para estetizar a pol√≠tica convergem para um ponto. Esse ponto √© a guerra. A guerra e somente a guerra permite dar um objectivo aos grandes movimentos de massa, preservando as rela√ß√Ķes de produ√ß√£o existentes. Eis como o fen√≥meno pode ser formulado do ponto de vista pol√≠tico. Do ponto de vista t√©cnico, a sua formula√ß√£o √© a seguinte: somente a guerra permite mobilizar na sua totalidade os meios t√©cnicos do presente, preservando as actuais rela√ß√Ķes de produ√ß√£o. √Č √≥bvio que a apoteose fascista da guerra n√£o recorre a esse argumento. Mas seria instrutivo lan√ßar os olhos sobre a maneira como ela √© formulada. No seu manifesto sobre a guerra colonial da Eti√≥pia, diz Marinetti: ¬ęH√° vinte e sete anos, n√≥s futuristas contestamos a afirma√ß√£o de que a guerra √© antiest√©tica (…) Por isso, dizemos: (…) a guerra √© bela, porque gra√ßas √†s m√°scaras de g√°s, aos megafones assustadores, aos lan√ßa-chamas e aos tanques, funda a supremacia do homem sobre a m√°quina subjugada. A guerra √© bela, porque inaugura a metaliza√ß√£o on√≠rica do corpo humano. A guerra √© bela, porque enriquece um prado florido com as orqu√≠deas de fogo das metralhadoras. A guerra √© bela, porque conjuga numa sinfonia os tiros de fuzil,

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O Grito

Corria pela rua acima quando a s√ļbita explos√£o dum grito o fez parar instantaneamente. Todo o seu corpo estremeceu. O que ele desde sempre receara acabara de ocorrer: algures, nesse momento, uma caneta come√ßara a deslizar sobre uma folha de papel, dando assim corpo √†quele grito que de h√° muito, como as esculturas no interior da pedra, se mantinha na expectativa desse simples gesto dum escritor para atingir a realidade. Tapou os ouvidos com as m√£os. O grito mais n√£o era que um sinal, mas o que esse sinal lhe transmitia deixava-o aterrado. Acabara de ser posta a funcionar uma engrenagem que a partir de agora nada nem ningu√©m, e muito menos ele, iria alguma vez poder travar, um mecanismo de que ele pr√≥prio iria inapelavelmente ser a maior v√≠tima. Mais tarde ou mais cedo isso teria de se dar, mas agora que, sem qualquer aviso pr√©vio, se soubera propulsado para outra dimens√£o da sua vida, como se os fios que a governavam tivessem repentinamente mudado de m√£os, o facto de h√° longo tempo o pressentir n√£o o impediu de olhar √† sua volta com estranheza, uma estranheza que antes de mais nascia de tudo √† primeira vista ter ficado como estava,

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Suporte Real para a Emoção

Um fidalgo dos nossos, extremamente sujeito √† gota, sendo pressionado pelos m√©dicos a abandonar totalmente o uso das carnes salgadas, acostumara-se a responder muito espirituosamente que desejava ter o que culpar pelos ataques e tormentos do mal e que vituperando e maldizendo ora o salsich√£o, ora a l√≠ngua de boi e o presunto, sentia-se proporcionalmente aliviado. Mas, seriamente, assim como o bra√ßo que √© erguido para bater nos d√≥i se o golpe falhar e ele for ao vento; e assim como para tornar agrad√°vel uma vista √© preciso que ela n√£o esteja perdida e isolada no vazio do ar, mas tenha uma proemin√™ncia para apoi√°-la a razo√°vel dist√Ęncia,

Assim como o vento, se espessas florestas n√£o lhe op√Ķem resist√™ncia, perde as for√ßas e se dissipa no espa√ßo vazio… (Lucano)

Da mesma forma parece que a alma estimulada e posta em movimento se perde em si mesma se não lhe dermos uma presa: é preciso sempre fornecer-lhe um objecto sobre o qual ela se lance e actue.
Diz Plutarco, a prop√≥sito dos que se afei√ßoam a macacos e cachorrinhos, que a parte amorosa que existe em n√≥s, na falta de um alvo leg√≠timo, em vez de ficar in√ļtil forja assim para si um alvo falso e f√ļtil.

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Sobre a Diferença dos Espíritos

Apesar de todas as qualidades do espírito se poderem encontrar num grande espírito, algumas há, no entanto, que lhe são próprias e específicas: as suas luzes não têm limites, actua sempre de igual modo e com a mesma actividade, distingue os objectos afastados como se estivessem presentes, compreende e imagina as coisas mais grandiosas, vê e conhece as mais pequenas; os seus pensamentos são elevados, extensos, justos e intelegíveis; nada escapa à sua perspicácia, que o leva sempre a descobrir a verdade, através das obscuridades que a escondem dos outros. Mas, todas estas grandes qualidades não impedem por vezes que o espírito pareça pequeno e fraco, quando o humor o domina.
Um belo esp√≠rito pensa sempre nobremente; produz com facilidade coisas claras, agrad√°veis e naturais; torna vis√≠veis os seus aspectos mais favor√°veis, e enfeita-os com os ornamentos que melhor lhes conv√™m; compreende o gosto dos outros e suprime dos seus pensamentos tudo o que √© in√ļtil ou lhe possa desagradar. Um esp√≠rito recto, f√°cil e insinuante sabe evitar e ultrapassar as dificuldades; adapta-se facilmente a tudo o que quer; sabe conhecer e acompanhar o espirito e o humor daqueles com quem priva e ao preocupar-se com os interesses dos amigos,

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Um Vento de Ambi√ß√Ķes Econ√≥micas em Todos os Graus

Elementos subversivos fermentam, de mistura com interesses econ√≥micos √† vista, em povos n√£o preparados para a emancipa√ß√£o, que √© hoje a f√≥rmula aliciante das novas servid√Ķes. Independ√™ncias alicer√ßadas em √≥dios pol√≠ticos ou r√°cicos constituem-se em unidades nacionais desprovidas de apoio econ√≥mico e t√©cnico, capaz de valoriz√°-las e faz√™-las progredir. Nacionalismos imprudentes e excessivos cavam a ru√≠na de povos que s√≥ a coopera√ß√£o amig√°vel podia salvar. A miragem do aumento indefinido das riquezas traz as imagina√ß√Ķes em alvoro√ßo: confiantes numa t√©cnica que se afirma de possibilidades ilimitadas, somos batidos por um vento de ambi√ß√Ķes econ√≥micas em todos os graus ‚ÄĒ nos indiv√≠duos, nos povos, no g√©nero humano. E no entanto os homens por toda a parte se mostram desalentados, ansiosos, inquietos, como se a riqueza e as divers√Ķes n√£o trouxessem √†s almas consola√ß√£o nem paz. Os t√£o reclamados direitos da pessoa humana (que muitos julgam ter descoberto agora) parece visarem preferentemente a massa confusa, desumanizada, despersonalizada, e n√£o o homem na integridade e plenitude do seu ser, da sua nobreza e valor infinito.

O Preço da Vaidade

Se o que se deseja é apenas dar sustento à natureza, bastam três libras esterlinas por ano, segundo a estimativa de William Petty; mas, como os tempos andam muito alterados, vamos supor seis libras. Essa quantia permitirá encher a pança, obter proteção contra as intempéries do clima, e até mesmo a compra de um casaco resistente, desde que feito de um bom couro de boi. Agora, tudo o que vá além disso é artificial e será desejado com vista a obter um maior grau de respeito dos nossos concidadãos. E, se seiscentas libras por ano proporcionam a um homem mais distinção social e, é claro, mais felicidade do que seis libras por ano, a mesma proporção vai-se manter para seis mil, e assim por diante, até onde se possa levar a opulência. Talvez o dono de uma grande fortuna possa não ser tão feliz como alguém que tem menos; mas isso decorrerá de outras causas que não a posse da grande fortuna.

O Que Sou e o Que Faço Neste Mundo

Involuntariamente, inconscientemente, nas leituras, nas conversas e at√© junto das pessoas que o rodeavam, procurava uma rela√ß√£o qualquer com o problema que o preocupava. Um ponto o preocupava acima de tudo: por que √© que os homens da sua idade e do seu meio, os quais exactamente como ele, pela sua maior parte, haviam substitu√≠do a f√© pela ci√™ncia, n√£o sofriam por isso mesmo moralmente? N√£o seriam sinceros? Ou compreendiam melhor do que ele as respostas que a ci√™ncia proporciona a essas quest√Ķes perturbadoras? E punha-se ent√£o a estudar, quer os homens, quer os livros, que poderiam proporcionar-lhe as solu√ß√Ķes t√£o desejadas.
(…) Atormentado constantemente por estes pensamentos, lia e meditava, mas o objectivo perseguido cada vez se afastava mais dele. Convencido de que os materialistas nenhuma resposta lhe dariam, relera, nos √ļltimos tempos da sua estada em Moscovo, e depois do seu regresso √† aldeia, Plat√£o e Espinosa, Kant e Schelling, Hegel e Schopenhauer. Estes fil√≥sofos satisfaziam-no enquanto se contentavam em refutar as doutrinas materialistas e ele pr√≥prio encontrava ent√£o argumentos novos contra elas; mas, assim que abordava – quer atrav√©s das leituras das suas obras, quer atrav√©s dos racioc√≠nios que estas lhe inspiravam – a solu√ß√£o do famoso problema,

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Opini√Ķes Influenciadas pelo Interesse

A maior parte das coisas pode ser considerada sob pontos de vista muito diferentes: interesse geral ou interesse particular, principalmente. A nossa aten√ß√£o, naturalmente concentrada sob o aspecto que nos √© proveitoso, impede que vejamos os outros. O interesse possui, como a paix√£o, o poder de transformar em verdade aquilo em que lhe √© √ļtil acreditar. Ele √©, pois, freq√ľentemente, mais √ļtil do que a raz√£o, mesmo em quest√Ķes em que esta deveria ser, aparentemente, o guia √ļnico. Em economia pol√≠tica, por exemplo, as convic√ß√Ķes s√£o de tal modo inspiradas pelo interesse pessoal que se pode, em geral, saber pr√©viamente, conforme a profiss√£o de um indiv√≠duo, se ele √© partid√°rio ou n√£o do livre c√Ęmbio.
As varia√ß√Ķes de opini√£o obedecem, naturalmente, √†s varia√ß√Ķes do interesse. Em mat√©ria pol√≠tica, o interesse pessoal constitui o principal factor. Um indiv√≠duo que, em certo momento, energicamente combateu o imposto sobre a renda, com a mesma energia o defender√° mais, se conta ser ministro. Os socialistas enriquecidos acabam, em geral, conservadores, e os descontentes de um partido qualquer se transformam facilmente em socialistas.
O interesse, sob todas as suas formas, n√£o √© somente gerador de opini√Ķes. Agu√ßado por necessidades muito intensas, ele enfraquece logo a moralidade.

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A Cura pelo Tédio

Sempre que fores atingido pelo tédio, deixa-te ser esmagado por este; submerge, bate no fundo. Em geral, com as coisas desagradáveis, a regra é: quanto mais cedo bateres no fundo, mais rápido voltas à tona. A ideia aqui é teres logo uma visão completa do pior. A razão pela qual o tédio merece tal escrutínio é que este representa tempo puro não diluído, de uma forma repetitiva, redundante e monótona.

O t√©dio √© a tua janela para as propriedades do tempo, que tendemos a ignorar, necess√°rio ao nosso equil√≠brio mental. √Č a tua janela para o infinito. Uma vez que esta janela se abra, n√£o a tentes fechar. Pelo contr√°rio, abre-a completamente.

O t√©dio fala a linguagem do tempo, e ensina-te a mais importante li√ß√£o da tua vida ‚Äď a li√ß√£o da tua total insignific√Ęncia. E por isso √© valioso, assim como para aqueles com quem esfregas os teus ombros. ¬ęTu √©s finito¬Ľ, diz-te o tempo com uma voz de t√©dio, ¬ęe qualquer coisa que fa√ßas √©, do meu ponto de vista, f√ļtil¬Ľ. Como m√ļsica para os teus ouvidos, claro, n√£o deve contar; contudo, o sentimento de inutilidade, da import√Ęncia limitada mesmo das tuas melhores, mais ardentes ac√ß√Ķes,

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N√£o H√° Amor como o Primeiro

N√£o h√° amor como o primeiro. Mais tarde, quando se deixa de crescer, h√° o equivalente adulto ao primeiro amor ‚ÄĒ √© o primeiro casamento; mas n√£o √© igual. O primeiro amor √© uma chapada, um sacudir das ra√≠zes adormecidas dos cabelos, uma voragem que nos come as entranhas e n√£o nos explica. Electrifica-nos a capacidade de poder amar. Ardem-nos as √≥rbitas dos olhos, do impens√°vel calor de podermos ser amados. Atiramo-nos ao nosso primeiro amor sem pensar onde vamos cair ou de onde salt√°mos. Saltamos e ca√≠mos. Enchemos o peito de ar, seguramos as narinas com os dedos a fazer de mola de roupa, juramos fazer tr√™s ou quatro mortais de costas, e estatelamo-nos na √°gua ou no ch√£o, como patos disparados de um obus, com penas a esvoa√ßar por toda a parte.

H√° amores melhores, mas s√£o amores cansados, amores que j√° levaram na cabe√ßa, amores que sabem dizer ‚ÄúAlto-e-p√°ra-o-baile‚ÄĚ, amores que j√° d√£o o desconto, amores que j√° t√™m medo de se magoarem, amores democr√°ticos, que se discutem e debatem. E todos os amores d√£o maior prazer que o primeiro. O primeiro amor est√° para al√©m das categorias normais da dor e do prazer. N√£o faz sentido sequer.

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Somos Iguais Hoje ao que Fomos Outrora

РEu também aprecio os livros de História. Ensinam-nos que, basicamente, somos iguais hoje ao que fomos outrora. Pode haver diferenças insignificantes em termos de vestuário e de estilo de vida, mas não há grande diferença no que pensamos e fazemos. No fundo, os seres humanos não passam de veículos, ou locais de passagem, para os genes. De geração em geração, correm dentro de nós até nos esgotarem, como cavalos de corrida. Os genes não pensam no bem e no mal. Não querem saber se somos felizes ou infelizes. Para eles, não passamos de um meio para atingir um fim. Só pensam no que é mais eficaz do seu ponto de vista.
РApesar de tudo, não conseguimos deixar de pensar no bem e no mal. Não é o que está a dizer?
A senhora anuiu.
– Precisamente. As pessoas ¬ęt√™m¬Ľ de pensar nessas coisas. Mas os genes s√£o o que controla a base da forma como vivemos. Como √© natural, as contradi√ß√Ķes surgem.