Textos sobre Plenitude

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Textos de plenitude escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A Felicidade de uma Raz√£o Perfeita

Creio que estaremos de acordo em que é para proveito do corpo que procuramos os bens exteriores; em que apenas cuidamos do corpo para benefício da alma, e em que na alma há uma parte meramente auxiliar Рa que nos assegura a locomoção e a alimentação Рda qual dispomos tão somente para serviço do elemento essencial. No elemento essencial da alma há uma parte irracional e outra racional; a primeira está ao serviço da segunda; esta não tem qualquer ponto de referência além de si própria, pelo contrário, serve ela de ponto de referência a tudo. Também a razão divina governa tudo quanto existe sem a nada estar sujeita; o mesmo se passa com a nossa razão, que, aliás, provém daquela.
Se estamos de acordo nesse ponto, estaremos necessariamente tamb√©m de acordo em que a nossa felicidade depende exclusivamente de termos em n√≥s uma raz√£o perfeita, pois apenas esta impede em n√≥s o abatimento e resiste √† fortuna; seja qual for a sua situa√ß√£o, ela manter-se-√° imperturb√°vel. O √ļnico bem aut√™ntico √© aquele que nunca se deteriora.
O homem feliz, insisto, √© aquele que nenhuma circunst√Ęncia inferioriza; que permanece no cume sem outro apoio al√©m de si mesmo,

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N√£o h√° Felicidade sem Verdadeira Vida Interior

A vida intelectual ocupará, de preferência, o homem dotado de capacida­des espirituais, e adquire, mediante o incremento inin­terrupto da visão e do conhecimento, uma coesão, uma intensificação, uma totalidade e uma plenitude cada vez mais pronunciadas, como uma obra de arte amadurecen­do aos poucos. Em contrapartida, a vida prática dos ou­tros, orientada apenas para o bem-estar pessoal, capaz de incremento apenas em extensão, não em profundeza, contrasta em tristeza, valendo-lhes como fim em si mesmo, enquanto para o homem de capacida­des espirituais é apenas um meio.
A nossa vida pr√°tica, real, quando as paix√Ķes n√£o a movimentam, √© tediosa e sem sabor; mas quando a movi¬≠mentam, logo se torna dolorosa. Por isso, os √ļnicos feli¬≠zes s√£o aqueles aos quais coube um excesso de intelec¬≠to que ultrapassa a medida exigida para o servi√ßo da sua vontade. Pois, assim, eles ainda levam, ao lado da vida real, uma intelectual, que os ocupa e entret√©m ininter¬≠ruptamente de maneira indolor e, no entanto, vivaz. Pa¬≠ra tanto, o mero √≥cio, isto √©, o intelecto n√£o ocupado com o servi√ßo da vontade, n√£o √© suficiente; √© necess√°rio um excedente real de for√ßa, pois apenas este capacita a uma ocupa√ß√£o puramente espiritual, n√£o subordinada ao ser¬≠vi√ßo da vontade.

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Um Vento de Ambi√ß√Ķes Econ√≥micas em Todos os Graus

Elementos subversivos fermentam, de mistura com interesses econ√≥micos √† vista, em povos n√£o preparados para a emancipa√ß√£o, que √© hoje a f√≥rmula aliciante das novas servid√Ķes. Independ√™ncias alicer√ßadas em √≥dios pol√≠ticos ou r√°cicos constituem-se em unidades nacionais desprovidas de apoio econ√≥mico e t√©cnico, capaz de valoriz√°-las e faz√™-las progredir. Nacionalismos imprudentes e excessivos cavam a ru√≠na de povos que s√≥ a coopera√ß√£o amig√°vel podia salvar. A miragem do aumento indefinido das riquezas traz as imagina√ß√Ķes em alvoro√ßo: confiantes numa t√©cnica que se afirma de possibilidades ilimitadas, somos batidos por um vento de ambi√ß√Ķes econ√≥micas em todos os graus ‚ÄĒ nos indiv√≠duos, nos povos, no g√©nero humano. E no entanto os homens por toda a parte se mostram desalentados, ansiosos, inquietos, como se a riqueza e as divers√Ķes n√£o trouxessem √†s almas consola√ß√£o nem paz. Os t√£o reclamados direitos da pessoa humana (que muitos julgam ter descoberto agora) parece visarem preferentemente a massa confusa, desumanizada, despersonalizada, e n√£o o homem na integridade e plenitude do seu ser, da sua nobreza e valor infinito.

O Acto Poético

O acto po√©tico √© o empenho total do ser para a sua revela√ß√£o. Este fogo do conhecimento, que √© tamb√©m fogo de amor, em que o poeta se exalta e consome, √© a sua moral. E n√£o h√° outra. Nesse mergulho do homem nas suas √°guas mais silenciadas, o que vem √† tona √© tanto uma singularidade como uma pluralidade. Mas, curiosamente, o esp√≠rito humano atenta mais facilmente nas diferen√ßas do que nas semelhan√ßas, esquecendo-se, e √© Goethe quem o lembra, que o particular e o universal coincidem, e assim a palavra do poeta, t√£o fiel ao homem, acaba por ser palavra de esc√Ęndalo no seio do pr√≥prio homem. Na verdade, ele nega onde outros afirmam, desoculta o que outros escondem, ousa amar o que outros nem sequer s√£o capazes de imaginar. Palavra de afli√ß√£o mesmo quando luminosa, de desejo apesar de serena, rumorosa at√© quando nos diz o sil√™ncio, pois esse ser sedento de ser, que √© o poeta, tem a nostalgia da unidade, e o que procura √© uma reconcilia√ß√£o, uma suprema harmonia entre luz e sombra, presen√ßa e aus√™ncia, plenitude e car√™ncia.

Meu Deus

Meu Deus, me dê a coragem de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites, todos vazios de Tua presença. Me dê a coragem de considerar esse vazio como uma plenitude. Faça com que eu seja a Tua amante humilde, entrelaçada a Ti em êxtase. Faça com que eu possa falar com este vazio tremendo e receber como resposta o amor materno que nutre e embala. Faça com que eu tenha a coragem de Te amar, sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo. Faça com que a solidão não me destrua. Faça com que minha solidão me sirva de companhia. Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar. Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo. Receba em teus braços meu pecado de pensar.

Para a Psicologia do Artista

Para que haja arte, para que haja alguma ac√ß√£o e contempla√ß√£o est√©ticas, torna-se indispens√°vel uma condi√ß√£o fisiol√≥gica pr√©via: a embriaguez. A embriaguez tem de intensificar primeiro a excitabilidade da m√°quina inteira: antes disto n√£o acontece arte alguma. Todos os tipos de embriaguez, por muito diferentes que sejam os seus condicionamentos, t√™m a for√ßa de conseguir isto: sobretudo a embriaguez da excita√ß√£o sexual, que √© a forma mais antiga e origin√°ria de embriaguez. Tamb√©m a embriaguez que se segue a todos os grandes apetites, a todos os afectos fortes; a embriaguez da festa, da rivalidade, do feito temer√°rio, da vit√≥ria, de todo o movimento extremo; a embriaguez da crueldade; a embriaguez da destrui√ß√£o; a embriaguez resultante de certos influxos meteorol√≥gicos, por exemplo a embriaguez primaveril; ou a devida ao influxo dos narc√≥ticos; por fim, a embriaguez da vontade, a embriaguez de uma vontade sobrecarregada e dilatada. ‚ÄĒ O essencial na embriaguez √© o sentimento de plenitude e de intensifica√ß√£o das for√ßas. Deste sentimento fazemos part√≠cipes as coisas, contragemo-las a que participem de n√≥s, violentamo-las, ‚ÄĒ idealizar √© o nome que se d√° a esse processo. Libertemo-nos aqui de um preconceito: o idealizar n√£o consiste, como se cr√™ comummente, num subtrair ou diminuir o pequeno,

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Breve Explicação do Sentido da Vida

Como exprimir em duas linhas o que venho tentando explicar j√° n√£o sei em quantos livros? A vida √© um valor desconcertante pelo contraste entre o prod√≠gio que √© e a sua nula significa√ß√£o. Toda a ¬ęfilosofia da vida¬Ľ tem de aspirar √† m√ļtua integra√ß√£o destes contr√°rios. Com uma transcend√™ncia divina, a integra√ß√£o era f√°cil. Mas mais dif√≠cil do que o absurdo em que nos movemos seria justamente essa transcend√™ncia. H√° v√°rias formas de resolver tal absurdo, sendo a mais f√°cil precisamente a mais est√ļpida, que √© a de ignor√°-lo.
Mas se √© a vida que ao fim e ao cabo resolve todos os problemas insol√ļveis – √†s vezes ou normalmente, pelo seu abandono – n√≥s podemos dar uma ajuda. Ora uma ajuda eficaz √© enfrent√°-lo e debat√™-lo at√© o gastar… Porque tudo se gasta: a m√ļsica mais bela ou a dor mais profunda. Que pode ficar-nos para j√° de um desgaste que promovemos e ainda n√£o operamos? N√£o vejo que possa ser outra coisa al√©m da aceita√ß√£o, n√£o em plenitude – que a n√£o h√° ainda – mas em resigna√ß√£o. Filosofia da velhice, dir-se-√°. Com a diferen√ßa, por√©m, de que a velhice quer repouso e n√≥s ainda nos movemos bastante.

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Dizer N√£o

Diz NÃO à liberdade que te oferecem, se ela é só a liberdade dos que ta querem oferecer. Porque a liberdade que é tua não passa pelo decreto arbitrário dos outros.

Diz NÃO à ordem das ruas, se ela é só a ordem do terror. Porque ela tem de nascer de ti, da paz da tua consciência, e não há ordem mais perfeita do que a ordem dos cemitérios.

Diz N√ÉO √† cultura com que queiram promover-te, se a cultura for apenas um prolongamento da pol√≠cia. Porque a cultura n√£o tem que ver com a ordem policial mas com a inteira liberdade de ti, n√£o √© um modo de se descer mas de se subir, n√£o √© um luxo de ¬ęelitismo¬Ľ, mas um modo de seres humano em toda a tua plenitude.

Diz N√ÉO at√© ao p√£o com que pretendem alimentar-te, se tiveres de pag√°-lo com a ren√ļncia de ti mesmo. Porque n√£o h√° uma s√≥ forma de to negarem negando-to, mas infligindo-te como pre√ßo a tua humilha√ß√£o.

Diz NÃO à justiça com que queiram redimir-te, se ela é apenas um modo de se redimir o redentor. Porque ela não passa nunca por um código,

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Devo à Paisagem as Poucas Alegrias que Tive no Mundo

Devo √† paisagem as poucas alegrias que tive no mundo. Os homens s√≥ me deram tristezas. Ou eu nunca os entendi, ou eles nunca me entenderam. At√© os mais pr√≥ximos, os mais amigos, me cravaram na hora pr√≥pria um espinho envenenado no cora√ß√£o. A terra, com os seus vestidos e as suas pregas, essa foi sempre generosa. √Č claro que nunca um panorama me interessou como gargarejo. √Č mesmo um favor que pe√ßo ao destino: que me poupe √† degrada√ß√£o das habituais paneladas de prosa, a descrever de cor caminhos e florestas. As dobras, e as cores do ch√£o onde firmo os p√©s, foram sempre no meu esp√≠rito coisas sagradas e √≠ntimas como o amor. Falar duma encosta coberta de neve sem ter a alma branca tamb√©m, retratar uma folha sem tremer como ela, olhar um abismo sem fundura nos olhos, √© para mim o mesmo que gostar sem l√≠ngua, ou cantar sem voz. Vivo a natureza integrado nela. De tal modo, que chego a sentir-me, em certas ocasi√Ķes, pedra, orvalho, flor ou nevoeiro. Nenhum outro espect√°culo me d√° semelhante plenitude e cria no meu esp√≠rito um sentido t√£o acabado do perfeito e do eterno. Bem sei que h√° gente que encontra o mesmo universo no jogo dum m√ļsculo ou na linha dum perfil.

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A Felicidade n√£o Tem Medida

N√£o duvidas de que a vida feliz seja o supremo bem; logo, se a vida possui o supremo bem, ent√£o √© sumamente feliz. E tal como o supremo bem n√£o pode receber qualquer acr√©scimo (o que haveria acima do supremo?!), tamb√©m a vida feliz o n√£o pode, pois a felicidade n√£o existe sem o supremo bem. Repara: se disseres que algu√©m √© “mais” feliz, tornar√°s poss√≠vel que se diga tamb√©m “muito mais”; e assim ir√°s fazendo in√ļmeras grada√ß√Ķes no supremo bem, quando por “sumo bem” eu entendo tudo o que n√£o tem valor algum acima de si. Se algu√©m √© menos feliz do que um outro, segue-se que preferir√° a vida desse outro (por ser mais feliz) √† sua pr√≥pria; ora, um homem feliz n√£o considera nada prefer√≠vel √† sua vida.
Qualquer destas duas situa√ß√Ķes √© inaceit√°vel: existir algo que o homem feliz preferiria ter em lugar daquilo que tem, ou n√£o preferir ter algo que seja melhor do que aquilo que tem. De facto, quanto mais um homem √© avisado, tanto mais se procurar√° chegar ao que h√° de melhor, e ambicionar√° alcan√ß√°-lo seja de que modo for. Ora, como pode ser feliz algu√©m que pode, que deve mesmo,

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Virtudes dos Jovens e dos Velhos

Os jovens são mais aptos para inventar do que para julgar, para executar do que para aconselhar, para os novos projectos do que os negócios estabilizados. Porque a experiência da idade, nas coisas que quadram os velhos, dirige-os, mas engana-os nas coisas que aparecem de novo. Os erros dos jovens causam a ruína dos negócios; mas os erros dos velhos limitam-se ao que deveria ser feito de novo, ou mais cedo.
Os jovens, na condução e na economia dos negócios, têm ampla visão das coisas que não podem dominar, agitam mais do que apaziguam, voam rapidamente para os fins sem consideração dos meios e dos graus; conduzem os poucos princípios, que por acaso acolheram, até ao absurdo; não receiam inovar, o que traz desconhecidos inconvenientes, usam de princípio os remédios extremos, e, o que duplica todos os erros, não querem reconhecer-se nem retratar-se, como o cavalo mal ensinado que não quer parar nem retroceder.
Os homens de idade objectam muito, consultam muito, aventuram-se pouco, arrependem-se depressa, raras vezes conduzem os negócios ao grau de plenitude, porque se contentam com a mediocridade no êxito.
Certamente, é proveitoso combinar o emprego de novos e velhos: será vantajoso para o presente,

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A Insegurança do Escritor

√Č certo que tudo o que concebi antecipadamente, mesmo quando estava com boa disposi√ß√£o, quer com todo o pormenor, quer casualmente, mas em palavras espec√≠ficas, aparece seco, errado, inflex√≠vel, embara√ßado para todos os que me rodeiam, t√≠mido, mas acima de tudo incompleto, quando tento escrever tudo isso √† minha secret√°ria, embora eu n√£o tenha esquecido nada da concep√ß√£o original. Isto est√° naturalmente relacionado em grande parte com o facto de eu conceber uma coisa boa longe do papel durante apenas um momento de exalta√ß√£o mais temido do que desejado, embora eu muito o deseje; mas ent√£o a plenitude √© tal que eu tenho de ceder. √Äs cegas e arbitrariamente agarro peda√ßos da corrente, de modo que, quando escrevo calmamente, a minha aquisi√ß√£o n√£o √© nada comparada com a plenitude em que viveu, √© incapaz de restaurar essa plenitude, e assim √© m√° e perturbadora, por ser uma in√ļtil tenta√ß√£o.

A Raz√£o e o Entendimento

Houve muita gente que se ocupou da crítica da razão. Por mim, gostaria que dispuséssemos de uma crítica do entendimento humano. Seria por certo um benefício para a nossa espécie poder-se demonstrar de modo convincente ao entendimento comum até onde pode ele chegar, limite este que coincide exactamente com aquilo de que esse mesmo entendimento necessita para a plenitude da sua vida terrena.
O entendimento ilimitado, ao qual se rende o entendimento de cada indivíduo, e contra o qual a razão nada pode, ainda que nem sempre a nossa experiência sensível se conforme.

Viver sem Sofrimento

Os prazeres ardentes s√£o moment√Ęneos, e custam graves inconvenientes. O que devemos cobi√ßar √© viver sem sofrer muito. Aquele que sofre foge-Ihe uma parte da exist√™ncia. O mal √© nocivo √† plenitude da vida por que √© sempre causa do aniquilamento. Quando o sofrimento nos amea√ßa, e receamos que as for√ßas defensivas nos fale√ßam, suspendem-se os outros movimentos do nosso cora√ß√£o, e ent√£o pouco h√° que esperar de n√≥s, por que se torna incerto o nosso destino. O bem-estar de grande numero de individuos, que vivem retirados das agita√ß√Ķes, depende mais da sua disposi√ß√£o habitual de pensamento que da influ√™ncia de causas exteriores. A crise moral pode surpreend√™-los e mago√°-los momentaneamente; mas a for√ßa dos acontecimentos √© meramente relativa. Os sofrimentos s√£o mais ou menos intensos, conforme a √©poca em que nos oprimem. O que ontem poderia aniquilar-me, levemente me incomoda hoje. Cinco minutos de reflex√£o me bastam. A maior parte dos objectos encerram e presentam, indirectamente pelo menos, as propriedades oportunas. P√ī-las em ac√ß√£o √© no que assenta a industria da felicidade. Ha a√≠ que farte instrumentos fecundos de prazeres √ļteis; ponto √© saber mene√°-los. Quem n√£o sabe trabalhar com eles, fere-se. Discernir, isto √©, reflectir √© o que mais importa…

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O Medo do Fim

Alguns pensam que a felicidade √© a aus√™ncia de sofrimento… mas, na verdade, est√° errada essa ideia. A felicidade e o sofrimento s√£o ambos pilares fundamentais da exist√™ncia. Sem sofrimento a nossa humanidade n√£o seria provada e os nossos dias n√£o teriam valor. Assim tamb√©m a felicidade, sendo a alegria mais profunda, √© o que d√° sentido a todas as noites… n√£o s√£o realidades que se possam medir, mas n√£o deixam de ser algo t√£o concreto como as nossas duas m√£os, que sempre trabalham em conjunto, sabendo cada uma o seu papel e o seu valor.

Evitar a dor n√£o nos torna mais fortes.

Tememos as perdas. Tememos a morte. Talvez porque o nada é um abismo que assusta todos quantos têm uma vida com valor. Porque somos impelidos a defender o significado do que erguemos aqui. Não se quer aceitar que tudo quanto se construiu, durante uma vida, seja suprimido sem deixar rasto. Quantas vezes não é o momento do fim que se teme, mas antes o que se pode fazer até lá?
Caminhar rumo ao desconhecido é uma prova de coragem e de fé diante das evidências deste mundo. Os olhos não querem ver nem as pernas caminhar,

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O Construtor

O construtor, antes de levantar a primeira pedra do dia, contempla e considera as suas feridas que enfraquecem a vontade de construir, com a sua pr√≥pria subst√Ęncia de cinzas e sangue petrificado, a habita√ß√£o em que a f√©nix poder√° renascer com todo o esplendor original de um astro. Nada mais lhe resta do que lan√ßar-se a um trabalho para o qual a disposi√ß√£o ainda n√£o surgiu, mas que poder√° despertar os impulsos da constru√ß√£o solar e abrir o horizonte luminoso e tranquilo de um rio em torno da morada. A constru√ß√£o est√° envolta numa espessa bruma e n√£o h√° nela sinais de figuras ou formas, porque essa n√©voa √© o pr√≥prio nada da confus√£o inicial e do fim de toda a constru√ß√£o como possibilidade de vida e de renovo. √Č do obscuro fundo da retina que surge um t√©nue raio cintilante que penetra na massa nebulosa da constru√ß√£o e a faz palpitar e estremecer. O construtor poder√° ent√£o discernir algumas linhas de for√ßa, algumas estruturas e bases numa crescente e sincopada clarifica√ß√£o. Haver√° um momento em que ele sentir√° que o edif√≠cio dan√ßa porque tudo se duplica e se reflecte e se anima. De algum modo, √© j√° a f√©nix que resplandece no fulgor da edifica√ß√£o e na plenitude do ser e do olhar na sua m√ļtua cria√ß√£o.

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Um Difuso Sentir

Ter uma ideia, um pensamento sobre o que nos aflige é estar longe dele. Sofrer é não pensar ainda, para fora do sentir as coisas num baque na alma. Mas pensar é ao menos ainda viver ao pé do que nos comove. Não me é fácil pensar hoje seja sobre o que for. Como água por borracha, as coisas passam por mim e deixam-me intacto. Que significa no fim da vida o que problematizámos na plenitude? O que ficou foi apenas um difuso sentir com um grande encolher de ombros no meio e um manguito na consciência.

Felicidade Divina

Digam-nos desde j√°: se a alma se extingue na sepultura, de onde nos vem o desejo de felicidade que nos atormenta? As nossas paix√Ķes terrenas facilmente se fartam: amor, ambi√ß√£o, c√≥lera, tem uma segura plenitude de gozo; a √Ęncia de felicidade √© a √ļnica que carece de satisfa√ß√£o como objecto, porque se n√£o sabe o que √© esta felicidade que se quer. For√ßa √© concordar que, se tudo √© mat√©ria, a natureza, neste caso enganou-se estranhamente, fez um sentimento sem aplica√ß√£o.
√Č certo que a nossa alma deseja eternamente; apenas alcan√ßa o objecto da sua cobi√ßa, deseja de novo; o universo inteiro n√£o a sacia. O infinito √© o campo √ļnico que lhe conv√©m; apraz-se em desorientar-se no labirinto dos n√ļmeros, e conceber as m√°ximas e as m√≠nimas dimens√Ķes. Em fim, repleta, mas n√£o saciada do que devorou, atira-se ao seio de Deus, onde convergem as ideias do infinito em perfei√ß√£o, em tempo, e em espa√ßo; ela, por√©m, n√£o se ingolfa na Divindade sen√£o porque essa Divindade √© cheia de trevas, Deus absconditus.
Se lhe fosse clara a intuição divina, desdenha-la-ia como a tudo que está sujeito à sua compreensão. E com razão talvez; porque se a alma se explicasse ao justo o eterno princípio,

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O Espectáculo é a Ideologia por Excelência

O espect√°culo (da sociedade de consumo) √© a ideologia por excel√™ncia, porque exp√Ķe e manifesta na sua plenitude a ess√™ncia de qualquer sistema ideol√≥gico: o empobrecimento, a submiss√£o e a nega√ß√£o da vida real. O espect√°culo √©, materialmente, ¬ęa express√£o da separa√ß√£o e do afastamento entre o homem e o homem¬Ľ. O ¬ęnovo poderio do embuste¬Ľ que se concentrou a√≠ tem a sua base na produ√ß√£o onde surge ¬ęcom a massa crescente de objectos… um novo dom√≠nio de seres estranhos aos quais o homem se submete¬Ľ. √Č grau supremo duma expans√£o que necessariamente se coloca contra a vida.

¬ęA necessidade de dinheiro √© portanto a verdadeira necessidade produzida pela economia pol√≠tica, e a √ļnica necessidade que ela produz¬Ľ (Manuscritos econ√≥mico-filos√≥ficos). O espect√°culo estende por toda a vida social o princ√≠pio que Hegel, na Realphilosophie de Iena, concebe quanto ao dinheiro; √© ¬ęa vida do que est√° morto movendo-se em si pr√≥pria¬Ľ.

A Boa Companhia

Normalmente é um mau hábito, que provoca frequentes enganos, estarmos tão prontamente dispostos a julgar, e principalmente a desaprovar. Assim como não se condena nem o mais culpado sem acolher a sua defesa, não se deve rejeitar estouvadamente certas coisas que seriam bem acolhidas, se se pudessem expor em toda a plenitude do seu direito. Conheço pessoas que não olham o que quer que seja senão com a intenção de notar-lhe os defeitos, e este é o meio mais apropriado para atrair o ódio e a inveja. Mas vejo também os que examinam aquilo que se apresenta para descobrir ali algo de agradável; e não é que não tenham o gosto melhor e mais delicado que os outros: mas eles desculpam tudo, e cuido que são facilmente amados, e que a sua amizade é bem vista.
Aquele que quer ser boa companhia deve fazer de modo que, quanto mais conhecidos sejam o seu coração e a sua forma de proceder, mais seja desejado; e como é belo ser humano, e não ter nada de injusto! Como a sinceridade confere distinção, e a falsidade me parece desagradável! Deve-se seguir este sentimento, em qualquer caso; pois jamais fica bem afastar-se dele.

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