Textos sobre Críticos

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Textos de críticos escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Para o Jornalista, Tudo o que é Provável é Verdade

¬ęPara o jornalista, tudo o que √© prov√°vel √© verdade¬Ľ. Trata-se dum axioma estupendo, como tudo o que Balzac inventa. Reflectindo nele, n√≥s percebemos quantas falsidades se explicam e quantas arranhadelas na sensibilidade se resumem a fanfarronices e n√£o a conhecimento dos factos. Em geral, o pequeno jornalista √© um profeta da Imprensa no que toca a banalidades, e um imprudente no que se refere a coisas s√©rias. Quando Balzac refere que a cr√≠tica s√≥ serve para fazer viver o cr√≠tico, isto estende-se a muitas outras tend√™ncias do jornalista: o folhetinista, que √© o que Camilo fazia nas gazetas do Porto (…). Eu pr√≥pria n√£o estou isenta duma soma de articulismos, de recursos √† blague, de gra√ßas adapt√°veis, de frequenta√ß√£o do lado mau da imagina√ß√£o, de rid√≠culos, de fastidiosos conselhos, de discursos convencionais, de condena√ß√Ķes f√°ceis, de birras imbecis, de poesia de barbeiro, de eleg√Ęncias chatas, de canibalismo vulgar, de panfletismo ¬ębom cidad√£o¬Ľ. Quando n√£o sou nada disso, sou assunto para jornais, mas n√£o sou jornalista.

O Pressuposto Indispens√°vel para se Ser um Grande-Escritor

O pressuposto indispens√°vel para se ser um grande-escritor √©, ent√£o, o de escrever livros e pe√ßas de teatro que sirvam para todos os n√≠veis, do mais alto ao mais baixo. Antes de produzir algum bom efeito, √© preciso primeiro produzir efeito: este princ√≠pio √© a base de toda a exist√™ncia como grande-escritor. √Č um princ√≠pio miraculoso, eficaz contra todas as tenta√ß√Ķes da solid√£o, por excel√™ncia o princ√≠pio goethiano do sucesso: se nos movermos apenas num mundo que nos √© prop√≠cio, tudo o resto vir√° por si. Pois quando um escritor come√ßa a ter sucesso d√°-se logo uma transforma√ß√£o significativa na sua vida. O seu editor p√°ra de se lamentar e de dizer que um comerciante que se torna editor se parece com um idealista tr√°gico, porque faria muito mais dinheiro negociando com tecidos ou papel virgem. A cr√≠tica descobre nele um objecto digno da sua actividade, porque os cr√≠ticos muitas vezes at√© nem s√£o m√°s pessoas, mas, dadas as circunst√Ęncias epocais pouco prop√≠cias, ex-poetas que precisam de um apoio do cora√ß√£o para poderem p√īr c√° fora os seus sentimentos;s√£o poetas do amor ou da guerra, consoante o capital interior que t√™m de aplicar com proveito, e por isso √© perfeitamente compreens√≠vel que escolham o livro de um grande-escritor e n√£o o de um comum escritor.

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A Inutilidade da Crítica

Que a obra de boa qualidade sempre se destaca √© uma afirma√ß√£o sem valor, se aplicada a uma obra de qualidade realmente boa e se por “destaca” quer-se fazer refer√™ncia √† aceita√ß√£o na sua pr√≥pria √©poca. Que a obra de boa qualidade sempre se destaca, no curso de sua futuridade, √© verdadeiro; que a obra de boa qualidade, mas de segunda ordem sempre se destaca na sua pr√≥pria √©poca, √© tamb√©m verdadeiro.
Pois como há-de um crítico julgar? Quais as qualidades que formam, não o incidental, mas o crítico competente? Um conhecimento da arte e da literatura do passado, um gosto refinado por esse conhecimento, e um espírito judicioso e imparcial. Qualquer coisa menos do que isto é fatal ao verdadeiro jogo das faculdades críticas. Qualquer coisa mais do que isto é já espírito criativo e, portanto, individualidade; e individualidade significa egocentrismo e certa impermeabilidade ao trabalho alheio.
Qu√£o competente √©, por√©m, o cr√≠tico competente? Suponhamos que uma obra de arte profundamente original surja diante dos seus olhos. Como a julga ele? Comparando-a com as obras de arte do passado. Se for original, por√©m afastar-se-√° em alguma coisa ‚ÄĒ e quanto mais original mais se afastar√° ‚ÄĒ das obras de arte do passado.

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Os Convencidos da Vida

Todos os dias os encontro. Evito-os. Às vezes sou obrigado a escutá-los, a dialogar com eles. Já não me confrangem. Contam-me vitórias. Querem vencer, querem, convencidos, convencer. Vençam lá, à vontade. Sobretudo, vençam sem me chatear.
Mas também os aturo por escrito. No livro, no jornal. Romancistas, poetas, ensaístas, críticos (de cinema, meu Deus, de cinema!). Será que voltaram os polígrafos? Voltaram, pois, e em força.
Convencidos da vida há-os, afinal, por toda a parte, em todos (e por todos) os meios. Eles estão convictos da sua excelência, da excelência das suas obras e manobras (as obras justificam as manobras), de que podem ser, se ainda não são, os melhores, os mais em vista.
Praticam, uns com os outros, nada de genuinamente indecente: apenas um espelhismo lisonjeador. Além de espectadores, o convencido precisa de irmãos-em-convencimento. Isolado, através de quem poderia continuar a convencer-se, a propagar-se?
(…) No corre-que-corre, o convencido da vida n√£o √© um vaidoso √† toa. Ele √© o vaidoso que quer extrair da sua vaidade, que nunca √© gratuita, todo o rendimento poss√≠vel. Nos neg√≥cios, na pol√≠tica, no jornalismo, nas letras, nas artes. √Č t√£o capaz de aceitar uma condecora√ß√£o como de rejeit√°-la.

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Apreciação Imparcial

H√° poucos indiv√≠duos a quem √© dado contemplar uma obra de arte como espectadores tranquilos; mas √© dif√≠cil encontrar um que seja capaz ou tenha a vontade, ao mesmo tempo que deixa a obra penetr√°-lo, e escuta as suas impress√Ķes ou as palavras de outro, de permanecer simples observador. Sem se dar conta disso, torna-se cr√≠tico, procurando mostrar a sua for√ßa de ju√≠zo, exercer o seu humor e avaliar a sua pr√≥pria pessoa.
O ing√©nuo f√°-lo inicialmente, √© certo, sem a menor inten√ß√£o mal√©vola; mas mesmo nele, as propriedades naturais do indiv√≠duo n√£o tardam a imp√īr os seus direitos – vaidade e pedantice, desejo de ser superior aos seus pr√≥prios olhos e aos olhos dos outros – de tal modo que depressa estar√° mais decidido a desvelar as fraquezas de uma obra do que a aceitar os seus lados positivos.

A Obra e o Eco da Obra

São complementares, não a obra e a crítica, mas a obra e o eco da obra. E o crítico é apenas uma forma de eco entre outras; certamente é em geral a mais forte, mas raramente é a mais pura e é sempre aquela que se apaga mais depressa.
Sobretudo nem uma palavra, caro autor – nenhuma resposta! A √ļnica que podes opor a todos os ataques, j√° a pronunciaste: – a tua obra. Se ela perdurar, venceste.

Educação para a Independência do Pensamento

N√£o basta preparar o homem para o dom√≠nio de uma especialidade qualquer. Passar√° a ser ent√£o uma esp√©cie de m√°quina utiliz√°vel, mas n√£o uma personalidade perfeita. O que importa √© que venha a ter um sentido atento para o que for digno de esfor√ßo, e que for belo e moralmente bom. De contr√°rio, vir√° a parecer-se mais com um c√£o amestrado do que com um ser harmonicamente desenvolvido, pois s√≥ tem os conhecimentos da sua especializa√ß√£o. Deve aprender a compreender os motivos dos homens, as suas ilus√Ķes e as suas paix√Ķes, para tomar uma atitude perante cada um dos seus semelhantes e perante a comunidade.
Estes valores s√£o transmitidos √† jovem gera√ß√£o pelo contacto pessoal com os professores, e n√£o ‚ÄĒ ou pelos menos n√£o primordialmente ‚ÄĒ pelos livros de ensino. S√£o os professores, antes de mais nada, que desenvolvem e conservam a cultura. S√£o ainda esses valores que tenho em mente, quando recomendo, como algo de importante, as ¬ęhumanidades¬Ľ e n√£o o mero tecnicismo √°rido, no campo hist√≥rico e filos√≥fico.
A import√Ęncia dada ao sistema de competi√ß√£o e a especializa√ß√£o precoce, sob pretexto da utilidade imediata, √© o que mata o esp√≠rito de que depende toda a actividade cultural e at√© mesmo o pr√≥prio florescimento das ci√™ncias de especializa√ß√£o.

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O Tempo

O tempo √© a √ļnica prova segura de tudo. N√£o s√≥ √© o cr√≠tico mais severo; √© o cr√≠tico recto e preciso. Ningu√©m pode julgar do valor disto ou daquilo num momento, porque s√≥ o tempo o pode fazer. O tempo dar-lhe-√° o valor que merece. (…) Nunca se deixe enganar pelo calend√°rio. O ano s√≥ tem os dias que sabe empregar bem. Uma pessoa pode ter num ano o valor de uma semana, enquanto outra tira o valor de um ano inteiro em uma semana.

Espontaneidade P√ļblica Inexistente

O p√ļblico n√£o √© cr√≠tico, n√£o pensa espontaneamente. Na escolha do que l√™, na pr√≥pria disposi√ß√£o do seu bom gosto, √© guiado por influ√™ncias externas. Este fen√≥meno v√™-se com particular clareza no caso das modas, mormente nas do vestu√°rio, em que determinadas casas de cria√ß√Ķes do g√©nero determinam o que h√° de ser de bom gosto, e efectivamente todo o p√ļblico segue o crit√©rio que lhe √© assim imposto. √Č frequente, anos mais tarde, o homem ou a mulher que se teve por vestindo com o melhor gosto em tal √©poca, pasmar, ante um seu retrato e vendo-o √† luz de novas modas e novos tipos de gosto, de como algum dia considerou de bom gosto ou de qualquer esp√©cie de eleg√Ęncia o desastrado fato ou vestido que relembra.
Temos, pois, que para o p√ļblico apreciar um pintor, um poeta, um m√ļsico, que n√£o seja banal, tem que haver quem chame a aten√ß√£o do p√ļblico para ele. O esp√≠rito humano espontaneamente aceita s√≥ o que j√° conhece; e como o valor, em qualquer sec√ß√£o da actividade humana superior, reside essencialmente na originalidade, resulta que n√£o h√° aceita√ß√£o espont√Ęnea, nem a pode haver, de um autor ou artista, que seja espontaneamente aceite pelo p√ļblico.

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O Valor da Crónica de Jornal

A cr√≥nica √© como que a conversa √≠ntima, indolente, desleixada, do jornal com os que o l√™em: conta mil coisas, sem sistema, sem nexo, espalha-se livremente pela natureza, pela vida, pela literatura, pela cidade; fala das festas, dos bailes, dos teatros, dos enfeites, fala em tudo baixinho, como quando se faz um ser√£o ao braseiro, ou como no Ver√£o, no campo, quando o ar est√° triste. Ela sabe anedotas, segredos, hist√≥rias de amor, crimes terr√≠veis; espreita, porque n√£o lhe fica mal espreitar. Olha para tudo, umas vezes melancolicamente, como faz a Lua, outras vezes alegre e robustamente, como faz o Sol; a cr√≥nica tem uma doidice jovial, tem um estouvamento delicioso: confunde tudo, tristezas e fac√©cias, enterros e actores ambulantes, um poema moderno e o p√© da imperatriz da China; ela conta tudo o que pode interessar pelo esp√≠rito, pela beleza, pela mocidade; ela n√£o tem opini√Ķes, n√£o sabe do resto do jornal; est√° nas suas colunas contando, rindo, pairando; n√£o tem a voz grossa da pol√≠tica, nem a voz indolente do poeta, nem a voz doutoral do cr√≠tico; tem uma pequena voz serena, leve e clara, com que conta aos seus amigos tudo o que andou ouvindo, perguntando, esmiu√ßando.

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Gosto Relevante

Toda a boa capacidade é difícil de contentar. Há cultura do gosto, assim como do engenho. Relevantes ambos, são irmãos de um mesmo ventre, filhos da capacidade, herdados por igual na excelência. Engenho sublime nunca criou gosto rasteiro.
H√° perfei√ß√Ķes como s√≥is e h√° perfei√ß√Ķes como luzes. Galanteia a √°guia o sol, perde-se nele a mariposa pela luz de uma candeia e toma-se a altura a uma torrente pela eleva√ß√£o do gosto. T√™-lo bom √© j√° algo, t√™-lo relevante muito √©. Ligam-se os gostos √† comunica√ß√£o, e s√≥ por sorte se avista quem o tenha superlativo.
Têm muitos por felicidade (de empréstimo será) gozar do que lhes apetece, condenando a infelizes todos os demais; mas desforram-se estes com as mesmas linhas, assim se podendo ver uma metade do mundo rindo-se da outra, com maior ou menor necessidade.
√Č qualidade um gosto cr√≠tico, um paladar dif√≠cil de satisfazer; os mais valentes objectos temem-no e as mais seguras perfei√ß√Ķes receiam-no. √Č a avalia√ß√£o precios√≠ssima, e regate√°-la √© pr√≥prio de discretos; toda a escassez em moeda de aplauso √© fidalga e, ao contr√°rio, os desperd√≠cios de estima merecem castigo de desprezo.
A admira√ß√£o √© vulgarmente um manifesto da ignor√Ęncia;

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Estamos Nós Realmente Salvando o Mundo?

Hoje a pergunta com que nos confrontamos é simples: estamos nós realmente salvando o mundo? Não me parece que a resposta possa ser aquela que gostaríamos. O mundo só pode ser salvo se for outro, se esse outro mundo nascer em nós e nos fizer nascer nele.
Mas nem o mundo est√° sendo salvo nem ele nos salva enquanto seres de exist√™ncia √ļnica e irrepet√≠vel. Alguns de n√≥s estar√£o fazendo coisas que acreditam ser important√≠ssimas. Mas poucos ter√£o a cren√ßa que est√£o mudando o nosso futuro. A maior parte de n√≥s est√° apenas gerindo uma condi√ß√£o que sabemos torta, geneticamente modificada ao sabor de um enorme laborat√≥rio para o qual todos trabalhamos mesmo sem vencimento.

Se alguma coisa queremos mudar e parece que mudar √© preciso, temos que enfrentar algumas perguntas. A primeira das quais √© como estamos n√≥s, bi√≥logos, pensando a ci√™ncia biol√≥gica? Antes de sermos cientistas somos cidad√£os cr√≠ticos, capazes de questionar os pressupostos que nos s√£o entregues como sendo ¬ęnaturais¬Ľ. A verdade, colegas, √© que estamos hoje perante uma natureza muito pouco natural.

E é aqui que o pecado da preguiça pode estar ganhando corpo. Uma subtil e silenciosa preguiça pode levar a abandonar a reflexão sobre o nosso próprio objecto de trabalho.

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Arte e Sensibilidade

1) Toda a arte se baseia na sensibilidade, e essencialmente na sensibilidade.
2) A sensibilidade é pessoal e intransmissível.
3) Para se transmitir a outrem o que sentimos, e é isso que na arte buscamos fazer, temos que decompor a sensação, rejeitando nela o que é puramente pessoal, aproveitando nela o que, sem deixar de ser individual, é todavia susceptível de generalidade, portanto, compreensível, não direi já pela inteligência, mas ao menos pela sensibilidade dos outros.
4) Este trabalho intelectual tem dois tempos: a) a intelectualiza√ß√£o directa e instintiva da sensibilidade, pela qual ela se converte em transmiss√≠vel (√© isto que vulgarmente se chama “inspira√ß√£o”, quer dizer, o encontrar por instinto as frases e os ritmos que reduzam a sensa√ß√£o √† frase intelectual (prim. vers√£o: tirem da sensa√ß√£o o que n√£o pode ser sens√≠vel aos outros e ao mesmo tempo, para compensar, refor√ßam o que lhes pode ser sens√≠vel); b) a reflex√£o cr√≠tica sobre essa intelectualiza√ß√£o, que sujeita o produto art√≠stico elaborado pela “inspira√ß√£o” a um processo inteiramente objectivo ‚ÄĒ constru√ß√£o, ou ordem l√≥gica, ou simplesmente conceito de escola ou corrente.
5) Não há arte intelectual, a não ser, é claro, a arte de raciocinar. Simplesmente,

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A Hist√≥ria do Romance n√£o √© ¬ęapenas¬Ľ a hist√≥ria do romance

A discuss√£o sobre um romance √© arriscada e limitada quando parte de um can√īne puramente est√©tico. Porque n√£o √© um can√īne est√©tico a ter em conta: √© um can√īne de vida. Uma obra de arte julga-se em fun√ß√£o do que o autor oretende – n√£o do que pretendemos n√≥s. Se queremos p√ī-la em causa, discutamos a pretens√£o antes do que ela realizou. Assim √© pouco eficaz a discuss√£o do ¬ęnovo romance¬Ľ franc√™s antes de nos perguntarmos porque √© que tomou tal caminho. Porque tal caminho implica uma nega√ß√£o radical (em alguns escritores, pelo menos) dos valores da inteligibilidade, da coer√™ncia, do pr√≥prio homem enfim. A hist√≥ria da ¬ępersonagem¬Ľ, como certos cr√≠ticos, ali√°s, j√° frisaram, tem agora o seu tr√°gico remate na destrui√ß√£o dessa mesma personagem. Mas que a nega√ß√£o de um significado para a presen√ßa do homem no mundo que o rodeia √© uma nega√ß√£o paradoxal, prova-o n√£o apenas o facto de o romancista ordenar a vis√£o do mundo ¬ęnessa¬Ľ perspectiva (e essa √© uma contradi√ß√£o, como o √© o cepticismo absoluto) como o prova ainda a obra de certos romancistas (digamos a de um Butor, na anota√ß√£o de um Merleau-Ponty) para quem o ¬ęobjecto¬Ľ se impregna da presen√ßa do homem.

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O Meu P√ļblico

Quando escrevo, o meu √ļnico p√ļblico sou eu. Depois √© que me ponho √† espera de que sejam tamb√©m os outros. N√£o porque antes os menospreze: simplesmente porque n√£o existem. Mas √© evidente que me interessa que existam depois como p√ļblico pelo desejo natural de me confirmarem a exist√™ncia como escritor. Porque a exist√™ncia como escritor implica a audi√™ncia dos outros. N√£o escolho por√©m o p√ļblico – espero que ele me escolha. Seria duro que me n√£o escolhesse, por todas as implica√ß√Ķes que se adivinham. Mas n√£o √© impeditivo de continuar – excepto se me convencerem (quem se convence?) que n√£o tinha nada a dizer. E no entanto, se n√≥s exprimirmos o tempo que nos exprime, h√° um pacto indissol√ļvel entre o tempo e n√≥s. Assim, o nosso p√ļblico est√° a√≠ sempre, ainda que tenhamos que ser n√≥s a despert√°-lo.

Esse p√ļblico n√£o desperta se n√≥s de facto lhe n√£o falarmos, ou seja, se realmente n√£o houve pacto algum com ele. Todas estas quest√Ķes, por√©m, s√£o sup√©rfluas para a necessidade de escrever. Cumpre-se um destino de artista como outros o de serem santos ou criminosos…
O resto não é connosco Рé com os críticos, os hagiógrafos e os arquivos da polícia.

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O Amor por Matilde e os Versos do Capit√£o

E vou contar-lhes agora a hist√≥ria deste livro, um dos mais controvertidos daqueles que escrevi. Foi durante muito tempo um segredo, durante muito tempo n√£o ostentou o meu nome na capa, como se o renegasse ou o pr√≥prio livro n√£o soubesse quem era o pai. Tal como os filhos naturais, filhos do amor natural, ¬ęLos versos del capit√°n¬Ľ eram, tamb√©m, um ¬ęlibro natural¬Ľ.

Os poemas que cont√©m foram escritos aqui e ali, ao longo do meu desterro na Europa. Foram publicados anonimamente em N√°poles, em 1952. O amor por Matilde, a nostalgia do Chile, as paix√Ķes c√≠vicas, recheiam as p√°ginas desse livro, que teve muitas edi√ß√Ķes sem trazer o nome do autor.

Para a 1¬™ edi√ß√£o, o pintor Paolo Ricci conseguiu um papel admir√°vel e antigos tipos de imprensa ¬ębodonianos¬Ľ, bem como gravuras extra√≠das dos vasos de Pompeia. Com fraternal fervor, Paolo elaborou tamb√©m a lista dos assinantes. Em breve apareceu o belo volume, com tiragem limitada a cinquenta exemplares. Festej√°mos largamente o acontecimento, com mesa florida, ¬ęfrutti di mare¬Ľ, vinho transparente como √°gua, filho √ļnico das vinhas de Capri. E com a alegria dos amigos que amaram o nosso amor.
Alguns críticos suspicazes atribuíram a motivos políticos a publicação anónima do livro.

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Luto pela Bondade

Quero viver num mundo sem excomungados. N√£o excomungarei ningu√©m. N√£o diria, amanh√£, a esse sacerdote: ¬ęVoc√™ n√£o pode baptizar ningu√©m porque √© anticomunista.¬Ľ N√£o diria ao outro: ¬ęN√£o publicarei o seu poema, o seu trabalho, porque voc√™ √© anticomunista.¬Ľ Quero viver num mundo em que os seres sejam simplesmente humanos, sem mais t√≠tulos al√©m desse, sem trazerem na cabe√ßa uma regra-, uma palavra r√≠gida, um r√≥tulo. Quero que se possa entrar em todas as igrejas, em todas as tipografias. Quero que n√£o esperem ningu√©m, nunca mais, √† porta do munic√≠pio para o deter e expulsar. Quero que todos entrem e saiam sorridentes da C√Ęmara Municipal. N√£o quero que ningu√©m fuja em g√īndola, que ningu√©m seja perseguido de motocicleta. Quero que a grande maioria, a √ļnica maioria, todos, possam falar, ler, ouvir, florescer. Nunca compreendi a luta sen√£o como um meio de acabar com ela. Nunca aceitei o rigor sen√£o como meio para deixar de existir o rigor. Tomei um caminho porque creio que esse caminho nos leva, a todos, a essa amabilidade duradoura. Luto pela bondade ub√≠qua, extensa, inexaur√≠vel. De tantos encontros entre a minha poesia e a pol√≠cia, de todos esses epis√≥dios e de outros que n√£o contarei porque repetidos,

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A Falsa Glória

√Ä gl√≥ria que surge rapidamente, deve-se acrescentar tamb√©m a falsa, ou melhor, a gl√≥ria artificialmente produzida de uma obra, seja por louvor indevido, bons amigos, cr√≠ticos corrompidos, indica√ß√Ķes de superiores e acordos entre inferiores ou pela correctamente suposta incapacidade das massas de julgar. Assemelha-se √†s b√≥ias, com as quais um corpo pesado consegue flutuar na √°gua. Elas carregam-no por mais ou menos tempo, conforme estejam bem cheias e vedadas. No entanto, de qualquer modo o ar vai saindp a pouco a pouco e o corpo acaba por se afundar.

O Homem é o Animal Menos Preparado

A capacidade do homem para o pensamento abstracto, que parece faltar √† maioria dos outros mam√≠feros, conferiu-lhe sem d√ļvida o seu actual dom√≠nio sobre a superf√≠cie da Terra ‚Äď um dom√≠nio disputado apenas por centenas de milhares de tipos de insectos e organismos microsc√≥picos. Este pensamento abstracto √© o respons√°vel pela sua sensa√ß√£o de superioridade e pelo que, sob esta sensa√ß√£o, corresponde a uma certa medida de realidade, pelo menos dentro de estreitos limites. Mas o que √© frequentemente subestimado √© o facto de que a capacidade de desempenhar um acto n√£o √©, de forma alguma, sin√≥nima de seu exerc√≠cio salubre. √Č f√°cil observar que a maior parte do pensamento do homem √© est√ļpida, sem sentido e injuriosa para ele. Na realidade, de todos os animais, ele parece o menos preparado para tirar conclus√Ķes apropriadas nas quest√Ķes que afectam mais desesperadamente o seu bem-estar.
Tente imaginar um rato, no universo das ideias dos ratos, chegando a no√ß√Ķes t√£o ocas de plausibilidade como, por exemplo, o Swedenborgianismo, a homeopatia ou a telepatia mental. O instinto natural do homem, de facto, nunca se dirige para o que √© s√≥lido e verdadeiro; prefere tudo que √© especioso e falso. Se uma grande na√ß√£o moderna se confrontar com dois problemas antag√≥nicos ‚Äď um deles baseado em argumentos prov√°veis e racionais,

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O Provincianismo Português (II)

Se fosse preciso usar de uma s√≥ palavra para com ela definir o estado presente da mentalidade portuguesa, a palavra seria “provincianismo”. Como todas as defini√ß√Ķes simples esta, que √© muito simples, precisa, depois de feita, de uma explica√ß√£o complexa. Darei essa explica√ß√£o em dois tempos: direi, primeiro, a que se aplica, isto √©, o que deveras se entende por mentalidade de qualquer pa√≠s, e portanto de Portugal; direi, depois, em que modo se aplica a essa mentalidade.
Por mentalidade de qualquer pa√≠s entende-se, sem d√ļvida, a mentalidade das tr√™s camadas, organicamente distintas, que constituem a sua vida mental ‚ÄĒ a camada baixa, a que √© uso chamar povo; a camada m√©dia, a que n√£o √© uso chamar nada, excepto, neste caso por engano, burguesia; e a camada alta, que vulgarmente se designa por escol, ou, traduzindo para estrangeiro, para melhor compreens√£o, por elite.
O que caracteriza a primeira camada mental é, aqui e em toda a parte, a incapacidade de reflectir. O povo, saiba ou não saiba ler, é incapaz de criticar o que lê ou lhe dizem. As suas ideias não são actos críticos, mas actos de fé ou de descrença, o que não implica, aliás,

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