Citação de

A Inutilidade da Crítica

Que a obra de boa qualidade sempre se destaca √© uma afirma√ß√£o sem valor, se aplicada a uma obra de qualidade realmente boa e se por “destaca” quer-se fazer refer√™ncia √† aceita√ß√£o na sua pr√≥pria √©poca. Que a obra de boa qualidade sempre se destaca, no curso de sua futuridade, √© verdadeiro; que a obra de boa qualidade, mas de segunda ordem sempre se destaca na sua pr√≥pria √©poca, √© tamb√©m verdadeiro.
Pois como há-de um crítico julgar? Quais as qualidades que formam, não o incidental, mas o crítico competente? Um conhecimento da arte e da literatura do passado, um gosto refinado por esse conhecimento, e um espírito judicioso e imparcial. Qualquer coisa menos do que isto é fatal ao verdadeiro jogo das faculdades críticas. Qualquer coisa mais do que isto é já espírito criativo e, portanto, individualidade; e individualidade significa egocentrismo e certa impermeabilidade ao trabalho alheio.
Qu√£o competente √©, por√©m, o cr√≠tico competente? Suponhamos que uma obra de arte profundamente original surja diante dos seus olhos. Como a julga ele? Comparando-a com as obras de arte do passado. Se for original, por√©m afastar-se-√° em alguma coisa ‚ÄĒ e quanto mais original mais se afastar√° ‚ÄĒ das obras de arte do passado. Na medida em que o fizer, parecer√° n√£o se conformar com o c√Ęnone est√©tico que o cr√≠tico encontra firmado no seu pensamento. E se a sua originalidade, em vez de jazer num afastamento daqueles velhos padr√Ķes, encontra-se num uso deles em linhas mais rigorosamente construtivas ‚ÄĒ como Milton usou os antigos ‚ÄĒ aceitar√° o cr√≠tico esse melhoramento como melhoramento, ou como imita√ß√£o o uso daqueles padr√Ķes? Ver√° mais o construtor do que o utilizador de materiais de constru√ß√£o? Por que deveria ele fazer uma coisa em vez de a coisa melhor? √Č, de todos os elementos, a construtividade o mais dif√≠cil de determinar numa obra… Uma fus√£o de elementos do passado: ver√° o critico a fus√£o dos elementos?
Persuadir-se-ia alguém de que se fossem publicados hoje o Paraíso Perdido, ou Hamlet, ou os Sonetos de Shakespeare e de Milton, lograriam eles cotação acima da poesia de Kipling ou de Noyes, ou a de qualquer outro cavalheiro semelhantemente quotidiano? Se alguém se persuadisse disso, seria um louco. A expressão é curta (?), não doce, mas pretende-se que seja apenas verdadeira.
De todos os lados ouvimos o clamor de que o nosso tempo necessita de um grande poeta. O vazio central de todas as modernas realiza√ß√Ķes √© uma coisa mais para se sentir do que para ser falada. Se o grande poeta tivesse de aparecer, quem estaria presente para descobri-lo? Quem pode dizer se ele j√° n√£o apareceu? O p√ļblico leitor v√™ nos jornais not√≠cias das obras daqueles homens cuja influ√™ncia e camaradagens tornaram-nos conhecidos, ou cuja secundariedade fez que fossem aceitos pela multid√£o. O grande poeta pode j√° ter aparecido; a sua obra teria sido noticiada nalgumas poucas palavras de vient-de-para√ģtre em algum sum√°rio bibliogr√°fico de um jornal de cr√≠tica.