Passagens sobre Obras

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Frases sobre obras, poemas sobre obras e outras passagens sobre obras para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Os Méritos Invisíveis

H√° certos m√©ritos em n√≥s que nunca, como resultado de uma obra produzida, a n√≥s pr√≥prios saltam √† vista, nem mesmo na reac√ß√£o do mundo se tornam percept√≠veis; e, no entanto, s√£o esses os mais valiosos e o tomar consci√™ncias deles levaria o nosso sangue a correr mais leve: captar e devolver essas radia√ß√Ķes constitui a mais delicada tarefa da amizade.

Os sonhos dos filósofos têm, em todos os tempos, animado homens de acção que puseram mãos à obra para realizá-los.

Terminei, enfim, esta obra, que nem a ira de J√ļpiter, nem o fogo,
nem o ferro, nem o tempo devorador poder√£o destruir.
Quando aquele dia, que disp√Ķe apenas do meu corpo, quiser,
poder√° p√īr fim ao tempo da minha incerta vida;
mas com a melhor parte de mim me elevarei imortal
sobre as estrelas, e o meu nome n√£o perecer√°.

Psican√°lise e Arte

As cria√ß√Ķes, obras de arte, s√£o imagin√°rias satisfa√ß√Ķes de desejos inconscientes, do mesmo modo que os sonhos, e, tanto como eles, s√£o, no fundo, compromissos, dado que se v√™em for√ßadas a evitar um conflito aberto com as for√ßas de repress√£o. Todavia, diferem dos conte√ļdos narcisistas, associais, dos sonhos, na medida em que s√£o destinadas a despertar o inteesse noutras pessoas e s√£o capazes de evocar e satisfazer os mesmos desejos que nelas se encontram inconscientes. √Ä parte isto, fazem uso do prazer perceptivo da beleza formal, aquilo a que chamei um pr√©mio-est√≠mulo. Aquilo que a psican√°lise foi capaz de fazer consistiu em captar as rela√ß√Ķes entre as impress√Ķes da vida do artista, as suas experi√™ncias causais e as suas obras e, a partir delas, reconstruir a sua constitui√ß√£o e os impulsos que se movem dentro dele. N√£o se deve julgar que o salaz que procura uma obra de arte se anule pelo conhecimento obtido pela an√°lise. A este respeito √© poss√≠vel que o profano espere acaso demasiado da an√°lise, mas deve advertir-se que ela n√£o esclarece os dois problemas que s√£o, provavelmente, os mais interessantes para ele: n√£o esclarece quanto √† natureza dos dotes do artista, nem pode explicar os meios de que o artista se serve para trabalhar a t√©cnica art√≠stica.

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Os Grandes Forjam-se na Adversidade

Todo o ambiente √© favor√°vel ao forte; de um modo ou de outro ele o ajuda a cumprir a miss√£o que se imp√īs e a conseguir ir porventura mais al√©m das barreiras marcadas. A derrota deve mais atribuir-se √† invalidez do impulso interior do que aos obst√°culos que lhe ponham diante, mais √† alma incapaz de se bater com vigor e tenazmente do que √†s resist√™ncias, √†s invejas e √†s dificuldades que o mundo possa levantar perante H√©rcules que luta.
O mal que se v√™ √© aguilh√£o para o bem que se deseja; e quanto mais duro, quanto mais agressivo, se bate em peito de a√ßo, tanto mais valioso auxiliar num caminho de progresso; o querer se apura, a vis√£o do futuro nos surge mais intensa a cada golpe novo; o contentamente e a mansa quietude s√£o estufa para homens; por a√≠ se habituaram a ser escravos de outros homens, ou da cega Natureza; e eu quero a terra povoada de rijos cora√ß√Ķes que seguem os calmos pensamentos e a mais nada se curvam.
Mais custa quebrar rochar do que escavar a terra; mais sólido, porém, o edifício que nela se firmou. A grandeza da obra é quase sempre devida à dificuldade que se encontra nos meios a empregar,

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O trágico na vida de grandes homens está, frequentemente, não no seu conflito com a época e a baixeza de seus semelhantes, mas na sua incapacidade de adiar por um ou dois anos a sua obra.

Retrato de Mónica

M√≥nica √© uma pessoa t√£o extraordin√°ria que consegue simultaneamente: ser boa m√£e de fam√≠lia, ser chiqu√≠ssima, ser dirigente da ¬ęLiga Internacional das Mulheres In√ļteis¬Ľ, ajudar o marido nos neg√≥cios, fazer gin√°stica todas as manh√£s, ser pontual, ter imensos amigos, dar muitos jantares, ir a muitos jantares, n√£o fumar, n√£o envelhecer, gostar de toda a gente, gostar dela, dizer bem de toda a gente, toda a gente dizer bem dela, coleccionar colheres do s√©c. XVII, jogar golfe, deitar-se tarde, levantar-se cedo, comer iogurte, fazer ioga, gostar de pintura abstracta, ser s√≥cia de todas as sociedades musicais, estar sempre divertida, ser um belo exemplo de virtudes, ter muito sucesso e ser muito s√©ria.
Tenho conhecido na vida muitas pessoas parecidas com a Mónica. Mas são só a sua caricatura. Esquecem-se sempre ou do ioga ou da pintura abstracta.
Por trás de tudo isto há um trabalho severo e sem tréguas e uma disciplina rigorosa e constante. Pode-se dizer que Mónica trabalha de sol a sol.
De facto, para conquistar todo o sucesso e todos os gloriosos bens que possui, Mónica teve que renunciar a três coisas: à poesia, ao amor e à santidade.

A poesia é oferecida a cada pessoa só uma vez e o efeito da negação é irreversível.

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A Vulgaridade Intelectual

Hoje, (…) o homem m√©dio tem as ¬ęideias¬Ľ mais taxativas sobre quanto acontece e deve acontecer no universo. Por isso perdeu o uso da audi√ß√£o. Para qu√™ ouvir, se j√° tem dentro de si o que necessita? J√° n√£o √© √©poca de ouvir, mas, pelo contr√°rio, de julgar, de sentenciar, de decidir. N√£o h√° quest√£o de vida p√ļblica em que n√£o intervenha, cego e surdo como √©, impondo as suas ¬ęopini√Ķes¬Ľ.
Mas n√£o √© isto uma vantagem? N√£o representa um progresso enorme que as massas tenham ¬ęideias¬Ľ, quer dizer, que sejam cultas? De maneira alguma. As ¬ęideias¬Ľ deste homem m√©dio n√£o s√£o autenticamente ideias, nem a sua posse √© cultura. A ideia √© um xeque-mate √† verdade. Quem queira ter ideias necessita antes de dispor-se a querer a verdade, e aceitar as regras do jogo que ela imponha. N√£o vale falar de ideias ou opini√Ķes onde n√£o se admite uma inst√Ęncia que as regula, uma s√©rie de normas √†s quais na discuss√£o cabe apelar. Estas normas s√£o os princ√≠pios da cultura. N√£o me importa quais s√£o. O que digo √© que n√£o h√° cultura onde n√£o h√° normas. A que os nossos pr√≥ximos possam recorrer.
Não há cultura onde não há princípios de legalidade civil a que apelar.

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Inteligência de Rotina

A matem√°tica √© uma ci√™ncia muito bela. Os matem√°ticos por√©m, muitas vezes, nada valem. Acontece com a matem√°tica quase o mesmo que com a teologia. Da mesma maneira que os homens se dedicam √† √ļltima, por pouco que exer√ßam uma fun√ß√£o p√ļblica, pretendem ter um cr√©dito particular de santidade e um parentesco mais estreito com Deus, ainda que entre eles haja um grande n√ļmero de aut√™nticos tratantes, os pretensos matem√°ticos exigem com muita frequ√™ncia ser considerados profundos pensadores, embora entre eles se encontrem as mentes mais entulhadas de mix√≥rdias, incapazes de fazer qualquer trabalho que exija reflex√£o e que n√£o possa ser reduzido de imediato a essa combina√ß√£o f√°cil de sinais que √© mais obra da rotina do que do pensamento.

O privilégio de se ser uma vítima do nosso sentimento de superioridade, é difícil de suportar. Assusta muita gente, parece uma heresia em tempos como os nossos. E, no entanto, é fundamental, para que uma obra seja feita.

O criador é uma espécie de monstro em que há o homem e o outro; quem desanima, quem se abate, quem chora é o homem: o outro, se é grande, até os desesperos utiliza. O essencial é que nunca o homem traia o artista, que a troco de uma felicidade que tanta gente tem se perca a obra que ninguém mais poderia realizar.

A guerra é a obra de arte dos militares, a coroação da sua formação, a insígnia dourada da sua profissão. Não foram criados para brilhar na paz.

O convívio com um artista não é a melhor forma de desvendar o mistério da sua obra. Mas é talvez a melhor forma de o destruir. Ou de supor que.

A Esterilidade da Crítica

Personagem que Deus n√£o cuidou de convocar quando criou o mundo, o cr√≠tico faz quest√£o de estabelecer uma hierarquia nas obras de cria√ß√£o e nas obras do esp√≠rito humano. Assim geram-se inveja e desprezo, e o des√Ęnimo dos maiores, ante injusti√ßas; assim ficam eles √† merc√™ dos seus inferiores, os est√©reis. A √ļnica est√©tica sadia √© a que n√£o cogita de medir impress√Ķes produzidas por tipos diferentes, a que coloca no mesmo plano todos os grandes esfor√ßos intelectuais da humanidade, fundindo-os no g√©nio humano, como as cores se fundem na luz sem sobressair nenhuma.