Textos sobre Superiores

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Textos de superiores escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Os Livros N√£o S√£o Coisas Mortas

Porque os livros n√£o s√£o de todo coisas mortas (…) preservando, como um frasco, a mais pura extrac√ß√£o do intelecto que os criou. Sei que s√£o t√£o vivos e vigorosamente produtivos como os fabulosos dentes de um drag√£o e sendo fomentados podem unir homens armados. Por outro lado, a n√£o ser que se use de toda a prud√™ncia, destruir um bom homem √© quase o mesmo que destruir um bom livro; quem destr√≥i um homem destr√≥i uma criatura razo√°vel; mas aquele que destr√≥i um bom livro destr√≥i a pr√≥pria raz√£o, destr√≥i a imagem de Deus. Muitos homens constituem um fardo para o mundo; mas um bom livro √© a encarna√ß√£o preciosa de um esp√≠rito superior, conservado e estimado com o objectivo de viver para al√©m da morte.

A Inquietação Moderna

Em direc√ß√£o a oeste, a movimenta√ß√£o moderna torna-se cada vez maior, de modo que, para os Americanos, os habitantes da Europa na sua totalidade se apresentam como seres que gostam do sossego e dele usufruem, quando estes mesmos, no entanto, voam em confus√£o como abelhas e vespas. Esta movimenta√ß√£o torna-se t√£o grande que a cultura superior j√° n√£o pode madurar os seus frutos; √© como se as esta√ß√Ķes do ano se seguissem umas √†s outras demasiado depressa. Por falta de sossego, a nossa civiliza√ß√£o vai dar a uma nova barb√°rie. Em nenhuma √©poca, os activos, ou seja, os irrequietos, foram t√£o considerados. Refor√ßar em grande medida o elemento contemplativo faz parte, por conseguinte, das necess√°rias correc√ß√Ķes que se tem de efectuar no car√°cter da humanidade. No entanto, desde j√°, cada indiv√≠duo, que seja calmo e constante de cora√ß√£o e de cabe√ßa, tem o direito de crer que possui n√£o s√≥ um bom temperamento, mas tamb√©m uma virtude de utilidade geral e que, ao conservar essa atitude, at√© cumpre uma miss√£o superior.

A Liberdade é a Possibilidade do Isolamento

A liberdade √© a possibilidade do isolamento. √Čs livre se podes afastar-te dos homens, sem que te obrigue a procur√°-los a necessidade do dinheiro, ou a necessidade greg√°ria, ou o amor, ou a gl√≥ria, ou a curiosidade, que no sil√™ncio e na solid√£o n√£o podem ter alimento. Se te √© imposs√≠vel viver s√≥, nasceste escravo. Podes ter todas as grandezas do esp√≠rito, todas da alma: √©s um escravo nobre, ou um servo inteligente: n√£o √©s livre.
E n√£o est√° contigo a trag√©dia, porque a trag√©dia de nasceres assim n√£o √© contigo, mas do Destino para si somente. Ai de ti, por√©m, se a opress√£o da vida, ela pr√≥pria, te for√ßa a seres escravo. Ai de ti, se, tendo nascido liberto, capaz de te bastares e de te separares, a pen√ļria te for√ßa a conviveres. Essa sim, √© a tua trag√©dia, e a que trazes contigo.
Nascer liberto é a maior grandeza do homem, o que faz o ermitão humilde superior aos reis, e aos deuses mesmo, que se bastam pela força, mas não pelo desprezo dela.

Deixemos a Humanidade à Sua Ordem Natural

N√£o aleijemos a pobre humanidade mais do que ela j√° est√° com tantas sacudidelas da direita para a esquerda e da esquerda para a direita, de cima para baixo e de baixo para cima. Do individualismo para o colectivismo e do colectivismo para o individualismo. N√£o sejamos t√£o crian√ßas que queiramos levantar ao ar a esfera pretendendo agarr√°-la apenas pelo hemisf√©rio da direita ou apenas pelo da esquerda, ou apenas pelo hemisf√©rio superior, porque a √ļnica maneira de agarr√°-la bem t√£o-pouco √© p√īr-lhe as m√£os por baixo, nem ainda abra√ßando-a com os dois bra√ßos e os dedos metidos uns nos outros para n√£o deixar escapar as m√£os e com o pr√≥prio peito do lado de c√° a ajudar tamb√©m; a √ļnica maneira de equilibrar a esfera no ar √© deix√°-la estar no ar como a p√īs Deus Nosso Senhor, √°s voltas √† roda do sol, como a lua √† roda de n√≥s e assegurada contra todos os riscos dos disparates da humanidade.

Forças Constantes e Imutáveis Através da História

O uso da hist√≥ria n√£o traz surpresas. Ele (o historiador) j√° viu tudo. Sabe que for√ßas constantes e imut√°veis ir√£o resistir √† verdade e ao prop√≥sito superior. Qual a fraqueza, divis√£o, excesso que ir√° prejudicar a causa superior. A espl√™ndida plausibilidade do erro, o inebriante poder de atrac√ß√£o do pecado. E por for√ßa de que adapta√ß√£o a motiva√ß√Ķes inferiores as boas causas s√£o bem sucedidas […] A hist√≥ria n√£o √© uma teia tecida por m√£os inocentes. Entre todas as causas que degradam e desmoralizam os homens, o poder √© o mais constante e activo.

O Supremo Palhaço da Criação

A velha no√ß√£o antropom√≥rfica de que todo o universo se centraliza no homem ‚Äď de que a exist√™ncia humana √© a suprema express√£o do processo c√≥smico ‚Äď parece galopar alegremente para o ba√ļ das ilus√Ķes perdidas. O facto √© que a vida do homem, quanto mais estudada √† luz da biologia geral, parece cada vez mais vazia de significado. O que no passado deu a impress√£o de ser a principal preocupa√ß√£o e obra-prima dos deuses, a esp√©cie humana come√ßa agora a apresentar o aspecto de um sub-produto acidental das maquina√ß√Ķes vastas, inescrut√°veis e provavelmente sem sentido desses mesmos deuses.
(…) O que n√£o quer dizer, naturalmente, que um dia a tal teoria seja abandonada pela grande maioria dos homens. Pelo contr√°rio, estes a abra√ßar√£o √† medida que ela se tornar cada vez mais duvidosa. De fato, hoje, a teoria antropom√≥rfica ainda √© mais adoptada do que nas eras de obscurantismo, quando a doutrina de que um homem era um quase Deus foi no m√≠nimo aperfei√ßoada pela doutrina de que as mulheres inferiores. O que mais est√° por tr√°s da caridade, da filantropia, do pacifismo, da ‚Äúinspira√ß√£o‚ÄĚ e do resto dos atuais sentimentalismos? Uma por uma, todas estas tolices s√£o baseadas na no√ß√£o de que o homem √© um animal glorioso e indescrit√≠vel,

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Que Significado Tem a Felicidade?

Deve-se neste momento – relacionando-a com certas informa√ß√Ķes do dicion√°rio – formular ainda a pergunta: o que s√£o afinal os bens da vida humana? Quem nos diz que um determinado bem √© superior ou inferior? H√° lacunas desagrad√°veis nos dicion√°rios, at√© nos mais conhecidos. Pode-se demonstrar que h√° pessoas para quem DM 2,5 s√£o um bem muito superior a qualquer outra vida humana, com excep√ß√£o da deles, e h√° at√© outros que, por amor a um bocado de chouri√ßo de sangue, que conseguem ou n√£o apanhar, arriscam sem hesita√ß√£o os bens das mulheres e dos filhos, como, por exemplo: uma vida familiar alegre e a presen√ßa de um pai ao menos uma vez radiante. E que significado tem esse bem, que louvamos sob o nome de F.(Felicidade)? Que diabo, este est√° bem perto da F., se consegue juntar as tr√™s ou quatro beatas que chegam para ele fazer outro cigarro ou se pode beber o resto de Vermute de uma garrafa que se deitou fora, aquele precisa para ser feliz durante cerca de dez minutos – pelo menos segundo o costume ocidental de amor a ritmo acelerado-, mais precisamente: para estar r√†pidamente com a pessoa que naquele momento deseja, precisa de um avi√£o a jacto particular,

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Amor Desmistificado

O sentimento de um homem apaixonado produz por vezes efeitos c√≥micos ou tr√°gicos, porque em ambos os casos, √© dominado pelo esp√≠rito da esp√©cie que o domina ao ponto de o arrancar a si pr√≥prio; os seus actos n√£o correspondem √† sua individualidade. Isto explica, nos n√≠veis superiores do amor, essa natureza t√£o po√©tica e sublimadora que caracteriza os seus pensamentos, essa eleva√ß√£o transcendente e hiperf√≠sica, que parece faz√™-lo afastar da finalidade meramente f√≠sica do seu amor. √Č porque o impelem ent√£o o g√©nio da esp√©cie e os seus interesses superiores.
Recebeu a miss√£o de iniciar uma s√©rie indefinida de gera√ß√Ķes dotadas de determinadas caracter√≠sticas e constitu√≠das por certos elementos que s√≥ se podem encontrar num √ļnico pai e numa √ļnica m√£e; s√≥ essa uni√£o pode dar exist√™ncia √† gera√ß√£o determinada que a objectiva√ß√£o da vontade expressamente exige. O sentimento que o amante tem de agir em circunst√Ęncias de semelhantes transcend√™ncia, eleva-o de tal modo sobre as coisas terrestres e mesmo acima de si pr√≥prio, e tranforma-lhe os desejos f√≠sicos numa apar√™ncia de tal modo suprasens√≠vel, que o amor √© um acontecimento po√©tico, mesmo na exist√™ncia do homem mais prosaico, o que o faz cair por vezes em rid√≠culo.

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As Vantagens de se Ser um Pobre-Diabo

Para aquele que n√£o √© nobre, mas dotado de algum talento, ser um pobre-diabo √© uma verdadeira vantagem e uma recomenda√ß√£o. Pois o que cada um mais procura e aprecia, n√£o apenas na simples conversa√ß√£o, mas sobretudo no servi√ßo p√ļblico, √© a inferioridade do outro. Ora, s√≥ um pobre-diabo est√° convencido e compenetrado em grau suficiente da sua completa, profunda, decisiva, total inferioridade e da sua plena insignific√Ęncia e aus√™ncia de valor, tal como exige o caso. Apenas ele, portanto, inclina-se ami√ļde e por bastante tempo, e apenas a sua rever√™ncia atinge plenos noventa graus; apenas ele suporta tudo e ainda sorri; apenas ele conhece como obras-primas, em p√ļblico, em voz alta ou em grandes caracteres, as in√©pcias liter√°rias dos seus superiores ou dos homens influentes em geral; apenas ele sabe como mendigar; por conseguinte, apenas ele se pode tornar um iniciado, a tempo, portanto, na juventude, naquela verdade oculta que Goethe nos revelou nos seguintes termos:

Sobre a baixeza

Que ninguém se lamente:

Pois ela é a potência,

N√£o importa o que te digam.
Em contrapartida, quem já nasceu com uma fortuna que lhe garanta a existência irá posicionar-se, na maioria das vezes,

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O homem superior pensa no seu carácter; o homem inferior pensa na sua posição. Ao primeiro preocupam as penalidades pelos erros, e ao segundo, os favores.

A Vantagem da Frivolidade

O respeito que a tragédia inspira é muito mais perigoso do que a despreocupação de um chilrear de criança. Qual é a eterna condição das tragédias? A existência de ideias, cujo valor é considerado mais alto do que o da vida humana. E qual é a condição das guerras? A mesma coisa. Obrigam-te a morreres porque existe, dizem, alguma coisa que é superior à tua vida. A guerra só pode existir no mundo da tragédia; desde o começo da sua história, o homem apenas conheceu o mundo trágico e não é capaz de sair dele. A idade da tragédia só pode ser encerrada por uma revolta da frivolidade. As pessoas já só conhecem da Nona de Beethoven os quatro compassos do hino à alegria que acompanham a publicidade dos perfumes Bella. Isso não me escandaliza. A tragédia será banida do mundo como uma velha cabotina que, com a mão no peito, declama em voz áspera. A frivolidade é uma cura de emagrecimento radical. As coisas perderão noventa por cento do seu sentido e tornar-se-ão leves. Nessa atmosfera rarefeita, desaparecerá o fanatismo. A guerra passará a ser impossível.

O Engraxanço e o Culambismo Português

Noto com desagrado que se tem desenvolvido muito em Portugal uma modalidade desportiva que julgara ter caído em desuso depois da revolução de Abril. Situa-se na área da ginástica corporal e envolve complexos exercícios contorcionistas em que cada jogador procura, por todos os meios ao seu alcance, correr e prostrar-se de forma a lamber o cu de um jogador mais poderoso do que ele.
Este cu pode ser o cu de um superior hierárquico, de um ministro, de um agente da polícia ou de um artista. O objectivo do jogo é identificá-los, lambê-los e recolher os respectivos prémios. Os prémios podem ser em dinheiro, em promoção profissional ou em permuta. À medida que vai lambendo os cus, vai ascendendo ou descendendo na hierarquia.
Antes do 25 de Abril esta modalidade era mais rudimentar. Era praticada por amadores, muitos em idade escolar, e conhecida prosaicamente como ¬ęengraxan√ßo¬Ľ. Os chefes de reparti√ß√£o engraxavam os chefes de servi√ßo, os alunos engraxavam os professores,os jornalistas engraxavam os ministros, as donas de casa engraxavam os m√©dicos da caixa, etc… Mesmo assim, eram raros os portugueses com feitio para passar graxa. Havia poucos engraxadores. Diga-se por√©m, em abono da verdade, que os poucos que havia engraxavam imenso.

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O Homem de Génio (I)

Em arte tudo é lícito, desde que seja superior. Não é permitido ao homem vulgar ser antipatriota, porque não tem mentalidade acima da espécie, e a não pode ter pois acima da espécie imediata, que é a nação a que pertence. Ao génio é permitido. Sucede, por ironia, que os grandes génios são em geral conformes com os sentimentos normais: Shakespeare era intensamente, até excessivamente, patriota. Um génio antipatriota é um fenómeno, não direi vulgar, mas aceitável. Um operário antipatriota é simplesmente uma besta.
O homem da esp√©cie n√£o pode ter opini√Ķes, porque a opini√£o √© do indiv√≠duo, e desde que um homem perten√ßa organicamente a uma fam√≠lia, a uma classe, a qualquer coisa que constitua ambiente imediato e vivo, deixa de ser um indiv√≠duo para ser uma c√©lula qualquer. S√≥ a na√ß√£o, por ser um ambiente abstracto, visto que tem parte no passado e parte no futuro, n√£o estorva a alma individual.
O problema da proteção aos artistas, ou qualquer problema parecido, não existe em relação ao homem de génio, cuja vida mental é uma coisa à parte e que passa, em geral, incompreendido na sua época, ou, pelo menos, incompreendido naquilo mesmo que é nele génio.

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A Inutilidade dos Sindicatos

A sindica√ß√£o, sa√≠da da liberdade como o monop√≥lio espont√Ęneo, √© igualmente inimiga dela, e sobretudo das vantagens dela; √©-o com menos brutalidade e evid√™ncia e, por isso mesmo, com mais seguran√ßa. Um sindicato ou associa√ß√£o de classe ‚ÄĒ comercial, industrial, ou de outra qualquer esp√©cie ‚ÄĒ nasce aparentemente de uma congrega√ß√£o livre dos indiv√≠duos que comp√Ķem essa classe; como, por√©m, quem n√£o entrar para esse sindicato fica sujeito a desvantagens de diversa ordem, a sindica√ß√£o √© realmente obrigat√≥ria. Uma vez constitu√≠do o sindicato, passam a dominar nele ‚ÄĒ parte m√≠nima que se substitui ao todo ‚ÄĒ n√£o os profissionais (comerciantes, industriais, ou o que quer que sejam), mais h√°beis e representativos, mas os indiv√≠duos simplesmente mais aptos e competentes para a vida sindical, isto √©, para a pol√≠tica eleitoral dessas agremia√ß√Ķes. Todo o sindicato √©, social e profissionalmente, um mito.
Mais incisivamente ainda: nenhuma associa√ß√£o de classe √© uma associa√ß√£o de classe. No caso especial da sindica√ß√£o na ind√ļstria e no com√©rcio, o resultado √© desaparecerem todas as vantagens da concorr√™ncia livre, sem se adquirir qualquer esp√©cie de coordena√ß√£o √ļtil ou ben√©fica. O car√°ter natural do reg√≠men livre atenua-se, porque surge em meio dele este elemento estranho e essencialmente oposto √† liberdade.

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Bem Supremo e Raz√£o

Quando a experi√™ncia me ensinou que os acontecimentos ordin√°rios da vida s√£o f√ļteis e v√£os e me apercebi de que tudo que era para mim causa ou objecto de receio n√£o tem em si mesmo nada de bom ou de mau, a n√£o ser na medida da como√ß√£o que excita na alma, resolvi, finalmente, indagar se existia um bem verdadeiro e suscept√≠vel de se comunicar, qualquer coisa enfim cuja descoberta e posse me trouxessem para sempre um j√ļbilo continuo e soberano.
(…) O que nos ocupa mais frequentemente na vida e que os homens, como pode concluir-se dos seus actos, consideram ser o bem supremo pode reduzir-se a três coisas: riqueza, fama, prazer dos sentidos.
Ora cada um deles distrai o espírito de tal modo que mal pode pensar noutro bem. (…)
РPelo prazer sensual se detém a alma como se repousasse num bem verdadeiro, o que a impede em absoluto de pensar noutra coisa; após o prazer vem a extrema tristeza, que, se não suspende o pensamento, perturba e embota. A busca da fama e da riqueza não absorve menos o espírito, sobretudo quando a riqueza é desejada por si mesma, conferindo-lhe, então, a categoria de bem supremo.

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A Falsa Unidade

Nenhum eu, nem mesmo o mais ing√©nuo, √© uma unidade, antes sim um mundo extremamente multifacetado, um pequeno c√©u estrelado, um caos de formas, est√°dios e condi√ß√Ķes, heran√ßas e possibilidades. O facto de cada um por si aspirar a considerar este caos uma unidade, e falar do seu eu como se se tratasse de uma manifesta√ß√£o simples, fixa e solidamente modelada, claramente delimitada – esse engano, que √© inerente a qualquer ser humano (mesmo superior), parece ser uma necessidade, uma exig√™ncia da vida, como a respira√ß√£o ou a alimenta√ß√£o.
O erro assenta numa simples transferência. De corpo, todo o homem é uno; de alma, nunca.

O Perigo do Especialista

O especialista serve-nos para concretizar energicamente a esp√©cie e fazer ver todo o radicalismo da sua novidade. Porque outrora os homens podiam dividir-se, simplesmente, em s√°bios e ignorantes, em mais ou menos s√°bios e mais ou menos ignorantes. Mas o especialista n√£o pode ser submetido a nenhuma destas duas categorias. N√£o √© um s√°bio, porque ignora formalmente o que n√£o entra na sua especialidade; mas tampouco √© um ignorante, porque √© ¬ęum homem de ci√™ncia¬Ľ e conhece muito bem a sua frac√ß√£o de universo. Devemos dizer que √© um s√°bio ignorante, coisa sobremodo grave, pois significa que √© um senhor que se comportar√° em todas as quest√Ķes que ignora, n√£o como um ignorante, mas com toda a petul√Ęncia de quem na sua quest√£o especial √© um s√°bio.
E, com efeito, este √© o comportamento do especialista. Em pol√≠tica, em arte, nos usos sociais, nas outras ci√™ncias tomar√° posi√ß√Ķes de primitivo, e ignorant√≠ssimo; mas tomar√° essas posi√ß√Ķes com energia e sufici√™ncia, sem admitir ‚Äď e isto √© o paradoxal ‚Äď especialistas dessas coisas. Ao especializ√°-lo a civiliza√ß√£o tornou-o herm√©tico e satisfeito dentro da sua limita√ß√£o; mas essa mesma sensa√ß√£o √≠ntima de dom√≠nio e valia vai lev√°-lo a querer predominar fora da sua especialidade.

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Escrever com Integridade

N√£o escrevi muito sobre mim nestes dias, em parte por pregui√ßa (durmo tanto e t√£o profundamente durante o dia, tenho mais peso enquanto durmo), em parte tamb√©m por medo de trair o conhecimento que tenho de mim. Este medo justifica-se, porque uma pessoa s√≥ devia permitir fixar na escrita a sua autopercep√ß√£o quando o puder fazer com a maior integridade, com todas as consequ√™ncias secund√°rias e tamb√©m com toda a verdade. Porque se isto n√£o acontecer ‚ÄĒ e eu de qualquer maneira n√£o sou capaz de o fazer ‚ÄĒ o que est√° escrito ir√°, de acordo com a sua pr√≥pria finalidade e com o poder superior do que foi fixado, tomar o lugar daquilo que se sentia apenas vagamente, de tal modo que o sentimento verdadeiro desaparecer√° enquanto o n√£o valor do que foi anotado ser√° reconhecido tarde de mais.

√Č a Vaidade e n√£o o Prazer que nos Interessa

Qual a finalidade da avareza e da ambi√ß√£o, da busca de riqueza, poder e preemin√™ncia? Ser√° para suprir as necessidades da natureza? O sal√°rio do mais pobre trabalhador pode supri-las. Vemos que esse sal√°rio lhe permite ter comida e roupas, o conforto de uma casa e de uma fam√≠lia. Se examin√°ssemos a sua economia com rigor, constatar√≠amos que ele gasta grande parte do que ganha com conveni√™ncias que podem ser consideradas sup√©rfluas. […] Qual √©, ent√£o, a causa da nossa avers√£o √† sua situa√ß√£o, e por que os que foram educados nas camadas mais elevadas consideram pior que a morte serem reduzidos a viver, mesmo sem trabalhar, compartilhando com ele a mesma comida simples, a habitar o mesmo tecto modesto e a vestir-se com os mesmos trajes humildes? Por acaso imaginam que t√™m um est√īmago superior ou que dormem melhor num pal√°cio do que numa cabana? [… ] De onde, portanto, nasce a emula√ß√£o que permeia todas as diferentes classes de homens, e quais s√£o as vantagens que pretendemos com esse grande prop√≥sito da vida humana a que chamamos melhorar nossa condi√ß√£o? Ser notado, ser ouvido, ser tratado com simpatia e afabilidade e ser visto com aprova√ß√£o s√£o todas as vantagens que se pode pretender obter com isso.

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Religi√£o Emocional

Os dirigentes das religi√Ķes bem sucedidas nunca, pode‚ąíse realmente dizer, dispensaram de todo as armas fisiol√≥gicas nas suas tentativas de conferir gra√ßa espiritual aos seus semelhantes. Jejum, castigo da carne por flagela√ß√£o ou desconforto f√≠sico, regula√ß√£o da respira√ß√£o, revela√ß√£o de mist√©rios terr√≠veis, toque de tambor, dan√ßas, cantos, provoca√ß√£o de medo, p√Ęnico, ilumina√ß√£o fant√°stica ou gloriosa, incenso, drogas inebriantes ‚Äď esses s√£o apenas alguns dos in√ļmeros m√©todos empregados para modificar a fun√ß√£o cerebral normal em prop√≥sitos religiosos. Algumas seitas prestam mais aten√ß√£o que outras √† estimula√ß√£o de emo√ß√Ķes como meio de afectar o sistema nervoso superior; mas poucas a desprezam inteiramente.