Textos sobre Pele

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Textos de pele escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Na Leitura e na Escrita Encontramo-nos Todos naquilo que Temos de Mais Humano

A escrita, ou a arte, para ser mais abrangente, cumpre fun√ß√Ķes que mais nenhuma √°rea consegue cumprir. (…) Sinto que h√° poucas experi√™ncias t√£o interessantes como quando se l√™ um livro e se percebe “j√° senti isto, mas nunca o tinha visto escrito”, procurar isso, ou procurar escrever textos que fa√ßam sentir isso, √© uma das minhas buscas permanentes. Trata-se de ordenar, de esquematizar, n√£o s√≥ sentimentos como ideias que temos de uma forma vaga mas que entendemos melhor quando os vemos em palavras. Trata-se tamb√©m de construir empatia: atrav√©s da leitura temos oportunidade de estar na pele de outras pessoas e de sentir coisas que n√£o fazem parte da nossa vida, mas que no momento em que lemos conseguimos perceber como √©. E isso faz-nos ser mais humanos. Na leitura e na escrita encontramo-nos todos naquilo que temos de mais humano.

O Calor das Ideias

Como ter ideias sem o calor do desejo para elas? Desce sobre ti a mortalidade fria. Que significa haver novas ideias com o sangue quente que nas outras j√° arrefeceu. Tens quando muito a long√≠nqua mem√≥ria delas. S√£o ideias que j√° n√£o fazem mover aquele de ti que nelas tinha o seu sangue com que eras vivo. Uma ideia come√ßa no teu sistema muscular de muitos graus cent√≠grados e morre na pele engelhada da tua m√ļmia. Entre os dois ela n√£o mudou sen√£o no que de ti arrefeceu. Tens ao menos alguma ainda viva na mem√≥ria? Mete-a numa botija e v√™ se amornas com a sua tepidez a tua mis√©ria tolhida.

A Lamechal√Ęndia

Acabo de perceber que estou a escrever mais uma obra lamechas, vivo na Lamechal√Ęndia desde que te conhe√ßo, e √© bom que d√≥i, t√£o bom que s√≥ escrevo s√≥ ela, a lamechice √© boa mas nunca sozinha, exige que aqui e ali surja o lado negro, a lua existe para valorizar o sol, e o contr√°rio tamb√©m √© verdadeiro, n√£o percebo patavina de astronomia mas de amor percebo, que √© o mesmo que dizer que percebo de ti, tento, v√°, √†s vezes consigo,
a Lamechal√Ęndia n√£o √© s√≥ lamechice, n√£o √© s√≥ cor de rosa, Deus me livre de ser assim, adormecia antes de viver, a Lamechal√Ęndia √© a capacidade de ser lamechas quando √© preciso ser lamechas, quando ser lamechas tem de ser, agora que estamos aqui deitados nesta cama tem de ser, abra√ßo-te a cada letra que escrevo, procuro com as minhas m√£os cada cent√≠metro da tua pele sempre que me lembro de que somos assim, ser lamechas √© conseguir n√£o pensar em como se vai amar, n√£o pensar no que se vai dizer, olhar o outro e dizer-lhe ‚Äúprocuro-te como se procurasse sobreviver‚ÄĚ, e isto n√£o tem nada de mal, a falta de um orgasmo provoca mais conflitos do que a falta de um p√£o,

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√Č Preciso Repensar a Nossa Vida

√Č preciso repensar a nossa vida. Repensar a cafeteira do caf√©, de que nos servimos de manh√£, e repensar uma grande parte do nosso lugar no universo. Talvez isso tenha a ver com a posi√ß√£o do escritor, que √© uma posi√ß√£o universal, no lugar de Deus, acima da condi√ß√£o humana, a nomear as coisas para que elas existam. Para que elas possam existir‚Ķ Isto tem a ver com o poeta, sobretudo, que √© um demiurgo. Ou tem esse lado. Numa forma simples, essa maneira de redimensionar o mundo passa por um aspecto muito profundo, que n√£o tem nada a ver com aquilo que existe √† flor da pele. Tem a ver com uma experi√™ncia radical do mundo.
Por exemplo, com aquela que eu faço de vez em quando, que é passar três dias como se fosse cego. Por mais atento que se seja, há sempre coisas que nos escapam e que só podemos conhecer de outra maneira, através dos outros sentidos, que estão menos treinados… Reconhecer a casa através de outros sentidos, como o tacto, por exemplo. Isso é outra dimensão, dá outra profundidade. E a casa é sempre o centro e o sentido do mundo. A partir daí,

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Intragável é Estar Parado

Intragável é estar parado. Não mudar. Aguentar. Sobreviver. Permanecer. Mesmo que seja pouco, mesmo que seja insuficiente. Manter tudo como está apenas para não correr o risco de ficar pior. Intragável é não perdoar, não ilibar. E só criticar, só apontar, só atacar. E não criar, não refazer, não imaginar. Intragável é não acreditar. Intragável é o que não é maravilhoso, o que não é delicioso, o que não é fantástico, monumental, abençoado, miraculoso, espantoso. Intragável é acordar para o dia a recusar o dia, a não querer o dia, a não apetecer o dia, a não pensar nas mil e uma maneiras de o tornar inesquecível. Deixar estar. Não mexer, não querer a ferida se for através da ferida que se chega à cura. Ser cauteloso, prevenido. Intragável é o que não é exagerado, o que não é desproporcionado, o que não parece incomportável. Se não parece incomportável, é insuportável. Não quero. Não admito. Não me admito. Intragável é repetir. Hoje como réplica exacta de ontem e como réplica exacta de amanhã. As mesmas coisas, as mesmas palavras, os mesmos actos, os mesmos movimentos. Sempre igual. Sempre o mesmo. Intragável é continuar por continuar, andar por andar, viver por viver.

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O Espírito em Transe

O prazer profundo, inefável, que é andar por estes campos desertos e varridos pela ventania, subir uma encosta difícil e olhar lá de cima a paisagem negra, escalvada, despir a camisa para sentir directamente na pele a agitação furiosa do ar, e depois compreender que não se pode fazer mais nada, as ervas secas, rente ao chão, estremecem, as nuvens roçam por um instante os cumes dos montes e afastam-se em direcção ao mar, e o espírito entra numa espécie de transe, cresce, dilata-se, não tarda que estale de felicidade.

A Memória é um Silêncio que Espera

O património do silêncio. Os livros acumulam-se pela casa. Cobrem as paredes, enchem as prateleiras dos armários. Aguardam-nos calados com suas páginas apertadas onde o pó e a humidade se infiltram. Disciplinados, exibem apenas o seu dorso curvo coberto de pele, ou então magro, estreito, de papel. A memória é um silêncio que espera, uma provação da paciência.

Eu Ela e a Escrita

Eu ela e a escrita existimos desde o princ√≠pio. A escrita forma-se em mim, passa por ela e volta √† minha pele num jogo sensual e √≠ntimo. √Č um ser male√°vel aos gestos que executamos, vive e morre com os nossos impulsos. Quando se ausenta deixa sinais. Faz-nos confid√™ncias da sua vida errante, elabora sentimentos que n√£o esper√°vamos que tivesse quando junta ao nosso, o seu instinto criativo. Assim, utilizo agora palavras que nunca pensei vir a escrever. Aceito-as porque as sei da esp√©cie da personagem que habita connosco, conivente com os erros que cometemos.

Quando adolescente, passava o tempo a ler o dicion√°rio, apercebendo-me da corros√£o de algumas palavras, do seu poder destrutivo. Noutras havia sombra e um peso monstruoso. E as que ao tempo foram luminosas, irradiavam um brilho que se colou aos meus dedos. Eu gastava os dias a limpar-me dessa luz at√© n√£o haver em mim res√≠duos de leitura. Descobria o esquecimento, onde o poema veio a ser abismo, outra vida onde o sorriso da morte teve muita import√Ęncia. Amei a imperfei√ß√£o do ser humano. Revisitei a inf√Ęncia e aquilo que em n√≥s √© real. N√£o soube prescindir da beleza.

O Amor √©…

O amor √© o in√≠cio. O amor √© o meio. O amor √© o fim. O amor faz-te pensar, faz-te sofrer, faz-te agarrar o tempo, faz-te esquecer o tempo. O amor obriga-te a escolher, a separar, a rejeitar. O amor castiga-te. O amor compensa-te. O amor √© um pr√©mio e um castigo. O amor fere-te, o amor salva-te, o amor √© um farol e um naufr√°gio. O amor √© alegria. O amor √© tristeza. √Č ci√ļme, orgasmo, √™xtase. O n√≥s, o outro, a ci√™ncia da vida.
O amor é um pássaro. Uma armadilha. Uma fraqueza e uma força.
O amor √© uma inquieta√ß√£o, uma esperan√ßa, uma certeza, uma d√ļvida. O amor d√°-te asas, o amor derruba-te, o amor assusta-te, o amor promete-te, o amor vinga-te, o amor faz-te feliz.
O amor é um caos, o amor é uma ordem. O amor é um mágico. E um palhaço. E uma criança. O amor é um prisioneiro. E um guarda.
Uma sentença. O amor é um guerrilheiro. O amor comanda-te. O amor ordena-te. O amor rouba-te. O amor mata-te.
O amor lembra-te. O amor esquece-te. O amor respira-te. O amor sufoca-te. O amor é um sucesso. E um fracasso.

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Amo-te

Talvez n√£o seja pr√≥prio vir aqui, para as p√°ginas deste livro, dizer que te amo. N√£o creio que os leitores deste livro procurem informa√ß√Ķes como esta. No mundo, h√° mais uma pessoa que ama. Qual a relev√Ęncia dessa not√≠cia? √Ä sombra do guarda-sol ou de um pinheiro de piqueniques, os leitores n√£o dever√£o impressionar-se demasiado com isso. Depois de lerem estas palavras, os seus pensamentos instant√Ęneos poder√£o diluir-se com um olhar em volta. Para eles, este texto ser√° como iniciais escritas por adolescentes na areia, a onda que chega para cobri-las e apag√°-las. E poss√≠vel que, perante esta longa afirma√ß√£o, alguns desses leitores se indignem e que escrevam cartas de protesto, que reclamem junto da editora. Dou-lhes, desde j√°, toda a raz√£o.
Eu sei. Talvez não seja próprio vir aqui dizer aquilo que, de modo mais ecológico, te posso afirmar ao vivo, por email, por comentário do facebook ou mensagem de telemóvel, mas é tão bom acreditar, transporta tanta paz. Tu sabes. Extasio-me perante este agora e deixo que a sua imensidão me transcenda, não a tento contrariar ou reduzir a qualquer coisa explicável, que tenha cabimento nas palavras, nestas pobres palavras. Em vez disso, desfruto-a, sorrio-lhe. Não estou aqui com a expectativa de ser entendido.

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O Primeiro Beijo

Durante todas as noites desse verão, as estrelas foram líquidas no céu. Quando eu as olhava, eram pontos líquidos de brilho no céu. Na primeira vez, encontrámo-nos durante o dia: eu sorri-lhe, ela sorriu-me. Dissemos duas ou três palavras e contivemo-nos dentro dos nossos corpos. Os olhos dela, por um instante, foram um abismo onde fiquei envolto por leveza luminosa, onde caía como se flutuasse: cair através do céu dentro de um sonho.

Naquela noite, fiquei a esper√°-la, encostado ao muro, alguns metros depois da entrada da pens√£o. As pessoas que passavam eram alegres. Eu pensava em qualquer coisa que me fazia sentir maior por dentro, como a noite. As folhas de hera que cobriam o cimo do muro, e que se suspendiam sobre o passeio, eram uma √ļnica forma nocturna, feita apenas de sombras. Primeiro, senti as folhas de hera a serem remexidas; depois, vi os bra√ßos dela a agarrarem-se ao muro; depois, o rosto dela parado de encontro ao c√©u claro da noite. E faltou uma batida ao cora√ß√£o.

O mundo parou. Sombras pousavam-lhe, transparentes, na pele do rosto. O ar fresco, arrefecido, moldava-lhe a pele do rosto. E o mundo continuou. Ajudei-a a descer.

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O Drama de Amar

O drama de amar √© n√£o haver suced√Ęneos.
E tudo o resto sabe a merda. Porque houve o teu abra√ßo, porque existe o teu cheiro. Amei-te para sempre mesmo que j√° n√£o te ame. Ficou em mim a tarde em que pela primeira vez o nosso corpo (o teu arfar a mostrar-me que l√≠ngua se fala no cńóu, a tua boca a mostrar-me o tamanho de um beijo), e a partir da√≠ fiquei √≥rf√£o de um corpo sempre que n√£o fosse o teu corpo. E quando chegou o dia da despedida eu soube que tinha chegado o dia de para sempre.
O drama de amar é não admitir a morte.
Há uma mulher a mais sempre que amo um corpo que não é o teu. E um homem a menos. Deito-me, aperto, espremo (o encaixe perfeito das tuas costas nos meus braços, o cheiro dos teus lábios no suor do meu pescoço). E até um orgasmo comprova a hipocrisia da carne. Despedi-me de orgasmos quando me despedi de ti. Já me deitei com tantas e é sempre o teu boa-noite que me adormece.
O drama de amar é só criar réplicas.
Tudo o que amo és tu.

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O Outono da Vida

Come√ßa devagarinho. √Č como tudo. A gente andamos na nossa vida, andamos influ√≠dos e est√° claro que n√£o reparamos. De manh√£, temos de pensar no caf√©.
Depois, h√°-de vir o almo√ßo. Est√° claro que nem reparamos numa aragem. Mal uma aragem mais fresca que se mistura com o sol-p√īr. J√° setembro quer acabar e ainda temos a torrina do sol na pele, a hora do calor, (quase cansada, para a cadela invis√≠vel) Anda c√°, Ladina… Tamb√©m est√°s a ficar velha… Arriba, cadela… (voltando ao tom e √† direc√ß√£o inicial) A gente nem d√° f√©. Primeiro, √© umas pontadas nas costas, umas sez√Ķes, umas coisas assim. Primeiro, a gente julga que vai passar, como passavam os esfol√Ķes nas pernas quando √©ramos pequenos e and√°vamos a correr pelas ruas ou quando encontr√°vamos alguma √°rvore a jeito de subir. Come√ßa mesmo devagarinho. Aos poucos, (com ternura, para a cadela) Ah, Ladina… Bochinha, bochinha… Ent√£o, n√£o queres vir? Anda c√°, cadela… (voltando √† direc√ß√£o inicial) E as m√£os come√ßam a tremer um bocadinho. E o trabalho come√ßa a ser mais custoso. E um dia a gente j√° quase que n√£o conhece a nossa cara no espelho no lavat√≥rio. √Č nesse dia, √© nessa hora que come√ßa o outono.

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A Confiança ao Virar da Esquina

Podemos ler todos os livros que falam sobre a import√Ęncia da confian√ßa nas nossas vidas, mas nunca o seremos verdadeiramente sem experimentar na pele a sensa√ß√£o de uma experi√™ncia, ou seja, nada podemos ser sem praticar seja o que for. A experi√™ncia √© a pr√°tica, √© o trabalho de campo, √© a exposi√ß√£o, a vulnerabilidade e a consuma√ß√£o do verdadeiro conhecimento. S√≥ depois de experimentares √© que podes ousar saber alguma coisa. Percebes, portanto, a import√Ęncia de ir para a rua? De levantares esse rabo gordo e achatado do sof√°? Em casa pouco ou nada consegues experimentar, pois encontras-te no dom√≠nio da rotina. Tudo o que, eventualmente, haveria para ser posto em pr√°tica j√° o foi, portanto, nada mais h√° a ganhar nessas quatro paredes a n√£o ser peso, melancolia e p√≥. Sugiro, portanto, que nesta fase v√°s a casa dormir e que v√°s para a rua viver. E √© isto, s√≥ isto, apenas isto.

O nosso índice de confiança dispara em cada experiência que escolhemos viver e como já todos experimentámos já todos sabemos disto.

Entender os Outros

Entender os outros não é uma tarefa que comece nos outros. O início somos sempre nós próprios, a pessoa em que acordámos nesse dia. Entender os outros é uma tarefa que nunca nos dispensa. Ser os outros é uma ilusão. Quando estamos lá, a ver aquilo que os outros veem, a sentir na pele a aragem que outros sentem, somos sempre nós próprios, são os nossos olhos, é a nossa pele. Não somos nós a sermos os outros, somos nós a sermos nós. Nós nunca somos os outros. Podemos entendê-los, que é o mesmo que dizer: podemos acreditar que os entendemos. Os outros até podem garantir que estamos a entendê-los. Mas essa será sempre uma fé. Aquilo que entendemos está fechado em nós. Aquilo que procuramos entender está fechado nos outros.

√Čs Linda

√Čs linda. E nem sabes quantos peda√ßos de beleza tive de juntar para chegar a esta conclus√£o. Para te construir, tive de misturar a conspira√ß√£o das searas com a tristeza do choupo, a inquieta√ß√£o da cotovia com o cheiro lavado do vento do ocidente. E a firmeza repartida dos livros, com a alegria explosiva dos mios√≥tis e a luz escura das violetas. Juntei depois um pouco de ansiedade das estrelas, a paci√™ncia das casas √† beira da fal√©sia, a espuma da terra, o respirar do sul, as perguntas de gesso que se fazem √† lua. Acrescentei-lhe a can√ß√£o das margens e pequenos peda√ßos da ang√ļstia do olhar. N√£o esqueci a intimidade do frio nem a dor branca que habita o cora√ß√£o dos muros. Por fim, deitei na tua pele o sono dos alperces, aos teus m√ļsculos prometi a viol√™ncia das cascatas, no teu sexo acordei a mem√≥ria do universo.
A tua beleza est√° no meu desejo, nos meus olhos, na minha desigual maneira de te amar. √Čs linda, repito. Mas tenta n√£o encarar o que te digo como um elogio.

Os Comunistas

… Passaram bastantes anos desde que ingressei no Partido… Estou contente… Os comunistas constituem uma boa fam√≠lia… T√™m a pele curtida e o cora√ß√£o valoroso… Por todo o lado recebem pauladas… Pauladas exclusivamente para eles… Vivam os espiritistas, os mon√°rquicos, os aberrantes, os criminosos de v√°rios graus… Viva a filosofia com fumo mas sem esqueletos… Viva o c√£o que ladra e que morde, vivam os astr√≥logos libidinosos, viva a pornografia, viva o cinismo, viva o camar√£o, viva toda a gente menos os comunistas… Vivam os cintos de castidade, vivam os conservadores que n√£o lavam os p√©s ideol√≥gicos h√° quinhentos anos… Vivam os piolhos das popula√ß√Ķes miser√°veis, viva a for√ßa comum gratuita, viva o anarco-capitalismo, viva Rilke, viva Andr√© Gide com o seu coribantismo, viva qualquer misticismo… Tudo est√° bem… Todos s√£o her√≥icos… Todos os jornais devem publicar-se… Todos devem publicar-se, menos os comunistas… Todos os pol√≠ticos devem entrar em S√£o Domingos sem algemas… Todos devem festejar a morte do sanguin√°rio Trujillo, menos os que mais duramente o combateram… Viva o Carnaval, os derradeiros dias do Carnaval… H√° disfarces para todos… Disfarces de idealistas crist√£os, disfarces de extrema-esquerda, disfarces de damas beneficentes e de matronas caritativas… Mas, cuidado, n√£o deixem entrar os comunistas…

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Aperta-me para Sempre

O dia adormece-me debaixo dos olhos, e as tuas mãos são a pele que Deus escolheu para tocar o mundo; não existe nenhum lugar mais divino do que o teu beijo, e quando quero voar deito-me a teus pés.
Peço-te que não vás, que fiques apenas para eu ficar, que permaneças no teu lado da cama, e eu no meu, a sentirmos que o tempo corre, e podes até adormecer, podes ler a revista das mulheres das passadeiras vermelhas e os homens com os abdominais que ninguém tem, ou simplesmente olhar o tecto e pensar em ti; eu fico aqui, a olhar-te para saber que existo, a pensar no quanto te quero e no tamanho que tem o teu corpo dentro do meu. Saber que há a curva das tuas costas para encontrar a curva da vida, percorrer com os olhos o cair do teu suor, e perceber a eternidade possível.
A imortalidade é um orgasmo contigo.
Gemes até ao fim do mundo por dentro dos meus ouvidos, todo o meu corpo se vem quando estás a chegar, e a verdade do universo é a física exígua do espaço entre nós. Aperta-me para sempre até ao princípio dos ossos,

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Corremos Dentro dos Corpos

Como o sangue, corremos dentro dos corpos no momento em que abismos os puxam e devoram. Atravessamos cada ramo das árvores interiores que crescem do peito e se estendem pelos braços, pelas pernas, pelos olhares. As raízes agarram-se ao coração e nós cobrimos cada dedo fino dessas raízes que se fecham e apertam e esmagam essa pedra de fogo.
Como sangue, somos l√°grimas. Como sangue, existimos dentro dos gestos. As palavras s√£o, tantas vezes, feitas daquilo que signiÔ¨Ācamos. E somos o vento, os caminhos do vento sobre os rostos. O vento dentro da escurid√£o como o √ļnico objecto que pode ser tocado. Debaixo da pele, envolvemos as mem√≥rias, as ideias, a esperan√ßa e o desencanto.

Não Leves a Tua Vida Tão a Sério

Em relação à vida em si, passa-se o mesmo! Também não se pode levar esta experiência demasiado a sério. Se o fizeres, corres o risco de passar o tempo inteiro da tua existência a viver uma lista de problemas sem fim. Ainda assim, e como no tópico anterior, não te estou a pedir para deixares de viver as coisas com paixão e intensidade. Antes pelo contrário. Vive-as!! O que quero que entendas é que se as coisas, porventura, não correrem como esperavas ou te achavas merecedor, não lhes atribuas um significado tão sério.
Lembra-te: foi apenas mais uma experiência. Próxima!
Cada um de nós é o comandante da sua vida, logo, podemos escolher valorizar as coisas boas e desvalorizar as menos boas.

H√° muita gente que diz, por ter lido em livros e, outras, por terem sentido na pele, que desvalorizar as coisas m√°s √© negar uma li√ß√£o e que s√≥ aprendemos pela dor. A minha quest√£o √©: o que √© que aprendemos? Aprendemos o que n√£o devemos voltar a fazer, √© isso? Se assim for, e sob esse √ļnico e limitado ponto de vista, estou de acordo. Acontece que o √Ęmago da vida √© outro e est√° centrado no que deves fazer!

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