Textos sobre Horror

37 resultados
Textos de horror escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

O Provincianismo Liter√°rio

O provincianismo do querer fazer ¬ęcomo l√° fora¬Ľ n√£o √© pecha s√≥ portuguesa. A maior parte dos pa√≠ses s√£o importadores de cultura. No entanto, redimem-se no desafogo de casos geniais, como um Lorca em Espanha e como um Ghelderode na B√©lgica. Cito estes dois exemplos porque eles acusam o verdadeiro alcance que pode ter o universal quando mergulha nos mais √≠ntimos recessos do popular. Quer Lorca, quer o autor de Mademoiselle Jair, apreenderam na psique espanhola e flamenga algo que encerra o universal em bruto na sua forma mais primitiva e, por isso mesmo, de toda a gente. Entre n√≥s pratica-se o inverso. Tem-se horror do popular pelo grande embasbacamento em que se est√° perante uma cultura que n√£o sendo vivificada pela experi√™ncia, redunda em erudi√ß√£o.

Onde Ser√° a Terra Prometida?

Triste época a nossa! Para que oceano correrá esta torrente de iniquidades? Para onde vamos nós, numa noite tão profunda? Os que querem tactear este mundo doente retiram-se depressa, aterrorizados com a corrupção que se agita nas suas entranhas.
Quando Roma se sentiu agonizar, tinha pelo menos uma esperança, entrevia por detrás da mortalha a Cruz radiosa, brilhando sobre a eternidade. Essa religião durou dois mil anos, mas agora começa a esgotar-se, já não basta, troçam dela; e as suas igrejas caem em ruínas, os seus cemitérios transbordam de mortos.
E nós, que religião teremos nós? Sermos tão velhos como somos, e caminharmos ainda no deserto, como os Hebreus que fugiam do Egipto.
Onde ser√° a Terra prometida?
Tentámos tudo e renegámos tudo, sem esperança; e depois uma estranha ambição invadiu-nos a alma e a humanidade, há uma inquietação imensa que nos rói, há um vazio na nossa multidão; sentimos à nossa volta um frio de sepulcro.
A humanidade come√ßou a mexer em m√°quinas, e ao ver o ouro que nelas brilhava, exclamou: ¬ę√Č Deus!¬Ľ E come esse Deus. H√° – e √© porque tudo acabou, adeus! adeus! – vinho antes da morte! Cada um se precipita para onde o seu instinto o impele,

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Ter Opini√Ķes Definidas e Certas

Ter opini√Ķes definidas e certas, instintos, paix√Ķes e car√°cter fixo e conhecido – tudo isto monta ao horror de tornar a nossa alma um facto, de a materializar e tornar exterior. Viver num doce e fluido estado de desconhecimento das coisas e de si pr√≥prio √© o √ļnico modo de vida que a um s√°bio conv√©m e aquece.

Ah, a Moral!

Ah, a palavra ¬ęmoral¬Ľ! Sempre que aparece, penso nos crimes que foram cometidos em seu nome. As confus√Ķes que este termo engendrou abarcam quase toda a hist√≥ria das persegui√ß√Ķes movidas pelo homem ao seu semelhante. Para al√©m do facto de n√£o existir apenas uma moral, mas muitas, √© evidente que em todos os pa√≠ses, seja qual for a moral dominante, h√° uma moral para o tempo de paz e uma moral para a guerra. Em tempo de guerra tudo √© permitido, tudo √© perdoado. Ou seja, tudo o que de abomin√°vel e infame o lado vencedor praticou. Os vencidos, que servem sempre de bode expiat√≥rio, ¬ęn√£o t√™m moral¬Ľ.
Pensar-se-√° que, se realmente glorific√°ssemos a vida e n√£o a morte, se d√©ssemos valor √† cria√ß√£o e n√£o √† destrui√ß√£o, se acredit√°ssemos na fecundidade e n√£o na impot√™ncia, a tarefa suprema em que nos empenhar√≠amos seria a da elimina√ß√£o da guerra. Pensar-se-√° que, fartos de carnificina, os homens se voltariam contra os assassinos, ou seja, os homens que planeiam a guerra, os homens que decidem das modalidades da arte da guerra, os homens que dirigem a ind√ļstria de material de guerra, material que hoje se tornou indescrivelmente diab√≥lico. Digo ¬ęassassinos¬Ľ, porque em √ļltima an√°lise esses homens n√£o s√£o outra coisa.

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√Čs como o Ar que Respiro

Qual √© a for√ßa extraordin√°ria que possuis? ‚ÄĒ pergunto muitas vezes a mim mesmo. Dois ou tr√™s princ√≠pios crist√£os inabal√°veis ‚ÄĒ e por tr√°s milhares de seres que desapareceram ignorados, cumprindo a vida ignorada. Nem sequer se debateram. Entregaram-se. Confiaram. A mulher portuguesa comunica ao lar a ternura com que os p√°ssaros aquecem o ninho. Sua vida d√° luz, para alumiar os outros. Foi assim com t√£o pequenos meios, que me ensinaste. Com uma palavra e mais nada, com um simples olhar, com sil√™ncio e mais nada. Uma atitude fazia-me pensar. E mal sabes tu quando Os teus dedos √°geis trabalhavam a meu lado, teciam ao mesmo tempo o pano grosso de casa e a nossa vida espiritual.

E como tu milhares de seres t√™em cumprido a vida em sil√™ncio, aceitando-a sem exageros. Nas m√£os das mulheres at√© as coisas vulgares que se fazem na aldeia, cozer o p√£o, lan√ßar a teia ‚ÄĒ assumem um car√°cter sagrado. Elas passam desconhecidas e disp√Ķem dum poder extraordin√°rio. Mant√™em a vida ordenada com um sorriso t√≠mido. A mulher est√° mais perto que n√≥s da natureza e de Deus.

Cada vez me aproximo mais de ti. O que h√° de puro em mim a ti o devo.

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O Universo é uma Pavorosa Ilusão

A mim √©-me familiar o que a outros, e a raros outros, apenas em horrorosos acasos √© de algum modo vagamente experi√™ncia – o sentimento do mist√©rio e do horror intelectual do mundo. √Č minha inimiga do meu sangue e na minha alma quotidiana a sensa√ß√£o oca de que o universo √© uma pavorosa ilus√£o. Passou j√° o tempo em que este medo me era ocasional e, como um rel√Ęmpago, uma coisa de um horroroso instante. Hoje consubstancia-se com a minha vida espiritual ao ponto de me parecer estranha e n√£o de mim a hora do esp√≠rito em que de algum modo me desenvencilho da consci√™ncia do mist√©rio do mundo.

Alarga os Teus Horizontes

Por que é que combateis? Dir-se-á, ao ver-vos,
Que o Universo acaba aonde chegam
Os muros da cidade, e nem h√° vida
Além da órbita onde as vossas giram,
E além do Fórum já não há mais mundo!

Tal é o vosso ardor! tão cegos tendes
Os olhos de mirar a própria sombra,
Que dir-se-á, vendo a força, as energias
Da vossa vida toda, acumuladas

Sobre um s√≥ ponto, e a √Ęnsia, o ardente v√≥rtice,
Com que girais em torno de vós mesmos,
Que limitais a terra √† vossa sombra…
Ou que a sombra vos torna a terra toda!
Dir-se-√° que o oceano imenso e fundo e eterno,
Que Deus h√° dado aos homens, por que banhem
O corpo todo, e nadem à vontade,
E vaguem a sabor, com todo o rumo,
Com todo o norte e vento, v√£o e percam-se
De vista, no horizonte sem limites…
Dir-se-√° que o mar da vida √© gota d’√°gua
Escassa, que nas mãos vos há caído,
De avara nuvem que fugiu, largando-a…
Tamanho é o ódio com que a uns e a outros
A disputais,

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O Tipo de Homem que Eu Sou

Agora é necessário que eu deva dizer que tipo de homem sou. O meu nome não importa, nem qualquer outro pormenor exterior particular acerca de mim. Do meu carácter alguma coisa deve ser dita.

Toda a constitui√ß√£o do meu esp√≠rito √© de hesita√ß√£o e d√ļvida. Nada √© ou pode ser positivo para mim, todas as coisas oscilam em torno de mim, e eu com elas, uma incerteza para mim pr√≥prio. Tudo para mim √© incoer√™ncia e mudan√ßa. Tudo √© mist√©rio e tudo √© significado. Todas as coisas s√£o ¬ędesconhecidos¬Ľ simb√≥licos do Desconhecido. Consequentemente horror, mist√©rio, medo supra-inteligente.

Pelas minhas próprias tendências naturais, pelo enquadramento da minha juventude, pela influência dos estudos realizados sob o impulso delas (dessas mesmas tendências), por tudo isso eu sou das espécies internas de caráter, auto-centrado, mudo, não auto-suficiente mas auto-perdido. Toda a minha vida tem sido de passividade e sonho. Todo o meu carácter consiste no ódio, no horror de, na incapacidade que permeia tudo o que me é, fisicamente e mentalmente, por actos decisivos, por pensamentos definidos. Eu nunca tive uma resolução nascida de uma auto-determinação, nunca uma traição externa de uma vontade consciente. Nenhum dos meus escritos foi terminado;

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O Meu Car√°cter

Cumpre-me agora dizer que esp√©cie de homem sou. N√£o importa o meu nome, nem quaisquer outros pormenores externos que me digam respeito. √Č acerca do meu car√°cter que se imp√Ķe dizer algo.
Toda a constitui√ß√£o do meu esp√≠rito √© de hesita√ß√£o e d√ļvida. Para mim, nada √© nem pode ser positivo; todas as coisas oscilam em torno de mim, e eu com elas, incerto para mim pr√≥prio. Tudo para mim √© incoer√™ncia e muta√ß√£o. Tudo √© mist√©rio, e tudo √© prenhe de significado. Todas as coisas s√£o ¬ędesconhecidas¬Ľ, s√≠mbolos do Desconhecido. O resultado √© horror, mist√©rio, um medo por de mais inteligente.
Pelas minhas tend√™ncias naturais, pelas circunst√Ęncias que rodearam o alvor da minha vida, pela influ√™ncia dos estudos feitos sob o seu impulso (estas mesmas tend√™ncias) – por tudo isto o meu car√°cter √© do g√©nero interior, autoc√™ntrico, mudo, n√£o auto-suficiente mas perdido em si pr√≥prio. Toda a minha vida tem sido de passividade e sonho. Todo o meu car√°cter consiste no √≥dio, no horror e na incapacidade que impregna tudo aquilo que sou, f√≠sica e mentalmente, para actos decisivos, para pensamentos definidos. Jamais tive uma decis√£o nascida do autodom√≠nio, jamais tra√≠ externamente uma vontade consciente. Os meus escritos,

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N√£o se Pode Mandar Contrariando a Opini√£o P√ļblica

A verdade √© que n√£o se manda com os jan√≠zaros. Assim, dizia Talleyrand a Napole√£o: ¬ęCom as baionetas, Sire, pode-se fazer tudo, menos uma coisa: sentar-se sobre elas¬Ľ. E mandar n√£o √© atitude de arrebatar o poder, mas tranquilo exerc√≠cio dele. Em suma, mandar √© sentar-se. Trono, cadeira curul, banco azul, poltrona ministerial, sede. Contra o que uma √≥ptica inocente e folhetinesca sup√Ķe, o mandar n√£o √© tanto quest√£o de punhos como de n√°degas. O Estado √©, em definitivo, o estado da opini√£o: uma situa√ß√£o de equil√≠brio, de est√°tica.
O que sucede √© que √†s vezes a opini√£o p√ļblica n√£o existe. Uma sociedade dividida em grupos discrepantes, cuja for√ßa de opini√£o fica reciprocamente anulada, n√£o d√° lugar a que se constitua um mando. E como a Natureza tem horror ao v√°cuo, esse oco que deixa a for√ßa ausente de opini√£o p√ļblica enche-se com a for√ßa bruta. Em suma, pois, avan√ßa esta como substituta daquela.
Por isso, se se quer expressar com toda a precis√£o a lei da opini√£o p√ļblica como lei da gravita√ß√£o hist√≥rica, conv√©m ter em conta esses casos de aus√™ncia, e ent√£o chega-se a uma f√≥rmula que √© o conhecido, vener√°vel e ver√≠dico lugar comum: n√£o se pode mandar contrariando a opini√£o p√ļblica.

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O Amor é um Exagerador

As coisas boas, como o amor e a sabedoria, n√£o trazem a felicidade pela simples raz√£o que as coisas boas t√™m, para ser boas, de ser ¬ęboas por si mesmas¬Ľ. N√£o podem ser boas por aquilo que trazem. Pelo contr√°rio, t√™m um pre√ßo. O mais das vezes, o pre√ßo do amor e da sabedoria, ambos artigos finos, artigos de luxo, coisas boas, √© a infelicidade. Quando se ama, ou quando se estuda muito, fica-se sujeito √†s vontades e √†s verdades mais alheias. Nada depende quase nada de n√≥s. E sofre-se. Irritam as pessoas que esperam que o amor traga a felicidade. √Č como esperar que os morangos tragam as natas. O amor n√£o √© um meio para atingir um fim ‚ÄĒ n√£o √© atrav√©s do amor que se chega √† felicidade. O amor √© um exagerador ‚ÄĒ exagera os √™xtases e as agonias, torna tudo o que n√£o lhe diz respeito (o mundo inteiro) numa coisa pequenina. Assim como a arte tem de ser pela arte e a ci√™ncia pela ci√™ncia (seria um horror ouvir algu√©m dizer ¬ęEu quero ser pintor ou bi√≥logo para ganhar muito dinheiro e ir a muitas festas e ter duas carrinhas Volvo com galgos do Afeganist√£o l√° dentro¬Ľ),

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A Civilização e o Horror ao Vácuo

A expans√£o imperialista das grandes pot√™ncias √© um facto de crescimento, o transbordar natural√≠ssimo de um excesso de vidas e de uma sobra de riquezas em que a conquista dos povos se torna simples variante da conquista de mercados. As lutas armadas que da√≠ resultam, perdido o encanto antigo, transformam-se, paradoxalmente, na fei√ß√£o ruidosa e acidental da energia pac√≠fica e formid√°vel das ind√ļstrias. Nada dos velhos atributos rom√Ęnticos do passado ou da preocupa√ß√£o retr√≥grada do hero√≠smo. As pr√≥prias vit√≥rias perderam o significado antigo. S√£o at√© dispens√°veis. (…) Est√£o fora dos lances de g√©nio dos generais felizes e do fortuito dos combates. Vagas humanas desencadeadas pelas for√ßas acumuladas de longas culturas e do pr√≥prio g√©nio de ra√ßa, podem golpe√°-las √† vontade os advers√°rios que as combatem e batem debatendo-se, e que se afogam. N√£o param. N√£o podem parar. Impele-as o fatalismo da pr√≥pria for√ßa. Diante da fragilidade dos pa√≠ses fracos, ou das ra√ßas incompetentes, elas recordam, na hist√≥ria, aquele horror ao v√°cuo, com que os velhos naturalistas explicavam os movimentos irresist√≠veis da mat√©ria. Revelam quase um fen√īmeno f√≠sico. Por isso mesmo nesta expans√£o irreprim√≠vel, n√£o √© do direito, nem da Moral com as mais imponentes mai√ļsculas, nem de alguma das maravilhas metaf√≠sicas de outrora que lhes despontam obst√°culos.

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A Invisibilidade √© a Condi√ß√£o para a Eleg√Ęncia

Parece-me que a invisibilidade √© a condi√ß√£o para a eleg√Ęncia. A eleg√Ęncia acaba se for notada. Sendo a poesia a eleg√Ęncia por excel√™ncia, n√£o sabe ser vis√≠vel. Ent√£o, para que serve?, dir-me-eis. Para nada. Quem a v√™? Ningu√©m. O que a n√£o impede de ser um atentado contra o pudor, e apesar de o seu exibicionismo se exercer entre os cegos. Contenta-se em exprimir uma moral particular. Depois, esta moral particular solta-se sob a forma de obra. Exige que a deixem viver a sua vida. Faz-se pretexto para imensos mal-entendidos que se chamam a gl√≥ria. A gl√≥ria √© absurda por resultar de um ajuntamento. A multid√£o cerca um acidente, conta-o a si mesma, inventa-o, perturba-o at√© se transformar noutro. O belo resulta sempre de um acidente. De uma quebra brutal entre h√°bitos adquiridos e h√°bitos a adquirir. Derrota, nauseia. Chega a causar horror. Quando o novo h√°bito for adquirido, o acidente deixar√° de ser acidente. Far-se-√° cl√°ssico e perder√° a virtude de choque. Por isso uma obra nunca √© compreendida. √Č admitida. Se n√£o me engano, a observa√ß√£o pertence a Eug√®ne Delacroix: ¬ęNunca se √© compreendido, √©-se admitido¬Ľ. Matisse repete com frequ√™ncia esta frase.

A Vaidade Acompanha-nos Até na Morte

Sendo o termo da vida limitado, n√£o tem limite a nossa vaidade; porque dura mais, do que n√≥s mesmos, e se introduz nos aparatos √ļltimos da morte. Que maior prova, do que a f√°brica de um elevado mausol√©u? No sil√™ncio de uma urna depositam os homens as suas mem√≥rias, para com a f√© dos m√°rmores fazerem seus nomes imortais: querem que a sumptuosidade do t√ļmulo sirva de inspirar venera√ß√£o, como se fossem rel√≠quias as suas cinzas, e que corra por conta dos jaspes a continua√ß√£o do respeito. Que fr√≠volo cuidado! Esse triste resto daquilo, que foi homem, j√° parece um √≠dolo colocado em um breve, mas soberbo domic√≠lio, que a vaidade edificou para habita√ß√£o de uma cinza fria, e desta declara a inscri√ß√£o o nome, e a grandeza. A vaidade at√© se estende a enriquecer de adornos o mesmo pobre horror da sepultura.

Vivemos com vaidade, e com vaidade morremos; arrancando os √ļltimos suspiros, estamos dispondo a nossa pompa f√ļnebre, como se em hora t√£o fatal o morrer n√£o bastasse para ocupa√ß√£o; nessa hora, em que estamos para deixar o mundo, ou em que o mundo est√° para nos deixar, entramos a compor, e a ordenar o nosso acompanhamento,

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Falar Sempre, Pensar Nunca

Desde que, com a ajuda do cinema, das soap operas e do horney, a psicologia profunda penetra nos √ļltimos rinc√Ķes, a cultura organizada corta aos homens o acesso √† derradeira possibilidade da experi√™ncia de si mesmo. E esclarecimento j√° pronto transforma n√£o s√≥ a reflex√£o espont√Ęnea, mas o discernimento anal√≠tico, cuja for√ßa √© igual √† energia e ao sofrimento com que eles se obt√™m, em produtos de massas, e os dolorosos segredos da hist√≥ria individual, que o m√©todo ortodoxo se inclina j√° a reduzir a f√≥rmulas, em vulgares conven√ß√Ķes.
At√© a pr√≥pria dissolu√ß√£o das racionaliza√ß√Ķes se torna racionaliza√ß√£o. Em vez de realizar o trabalho de autognose, os endoutrinados adquirem a capacidade de subsumir todos os conflitos em conceitos como complexo de inferioridade, depend√™ncia materna, extrovertido e introvertido, que, no fundo, s√£o pouco menos que incompreens√≠veis. O horror em face ao abismo do eu √© eliminado mediante a consci√™ncia de que n√£o se trata mais do que uma artrite ou de sinus troubles.
Os conflitos perdem assim o seu aspecto amea√ßador. S√£o aceites; n√£o sanados, mas encaixados somente na superf√≠cie da vida normalizada como seu ingrediente inevit√°vel. S√£o, ao mesmo tempo, absorvidos como um mal universal pelo mecanismo da imediata identifica√ß√£o do indiv√≠duo com a inst√Ęncia social;

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Existir Eficazmente

Esta necessidade de estar s√≥, de n√£o sentir que te pedem seja o que for, que te separam de ti pr√≥prio. Este horror a que tenham o m√≠nimo direito sobre ti, de que to fa√ßam sentir… Esta evidente impertin√™ncia dos outros, quando esperam qualquer coisa, quando take for granted alguma coisa de ti.
Tornas-te de s√ļbito distante, apagas-te, ficas r√≠gido, repeles. Incapaz de dizer uma boa palavra. P√Ķes ponto final e afastas-te.
Rancor contra aqueles que tiveste de eliminar dessa maneira e que, por piedade, por espírito de sacrifício, tens de voltar a aceitar.

A sa√ļde interior que d√£o a profiss√£o pol√≠tico-moral e o contacto com as massas n√£o √© diferente da que prov√©m de qualquer ocupa√ß√£o, de qualquer actividade a que um homem se consagre. Quando escreves e te entregas inteiramente √† tua arte, sentes-te sereno, equilibrado, feliz.

O Inferno de Ser Eu

Ficarei o Inferno de ser Eu, a Limita√ß√£o Absoluta, Expuls√£o-Ser do Universo long√≠nquo! Ficarei nem Deus, nem homem, nem mundo, mero v√°cuo-pessoa, infinito de Nada consciente, pavor sem nome, exilado do pr√≥prio mist√©rio, da pr√≥pria Vida. Habitarei eternamente o deserto morto de mim, erro abstracto da cria√ß√£o que me deixou atr√°s. Arder√° em mim eternamente, inutilmente, a √Ęnsia (est√©ril) do regresso a ser.
N√£o poderei sentir porque n√£o terei mat√©ria com que sinta, n√£o poderei respirar alegria, ou √≥dio, ou horror, porque n√£o tenho nem a faculdade com que o sinta, consci√™ncia abstracta no inferno do n√£o conter nada, n√£o-Conte√ļdo Absoluto, [Sufoca√ß√£o] absoluta e eterna! Oco de Deus, sem universo, (…).

A Única Alegria Neste Mundo é a de Começar

A √ļnica alegria neste mundo √© a de come√ßar. √Č belo viver, porque viver √© come√ßar, sempre, a cada instante. Quando esta sensa√ß√£o desapaece – pris√£o, doen√ßa, h√°bito, estupidez – deseja-se morrer.
√Č por isso que quando uma situa√ß√£o dolorosa se reproduz de modo id√™ntico – parece id√™ntica – nada apaga o horror que tal coisa nos provoca.
O princ√≠pio acima enunciado n√£o √©, portanto, pr√≥prio de um viveur. Porque h√° mais h√°bito na experi√™ncia a todo o custo (cfr, o antip√°tico ¬ęviajar a todo o custo¬Ľ) do que na charneira normal aceite com o sentido do dever e vivida com entusiasmo e intelig√™ncia. Estou convencido de que h√° mais h√°bito nas aventuras de do que num bom casamento.
Porque o próprio da aventura é conservar uma reserva mental de defesa; é por isso que não existem boas aventuras. Só é boa aventura aquela em que nos abandonamos: o matrimónio, em suma, talvez até aqueles que são feitos no céu.
Quem não sente o perene recomeçar que vivifica a existência normal de um casal é, no fundo, um parvo que, por mais que diga, não sente, sequer, um verdadeiro recomeçar em cada aventura.
A lição é sempre a mesma: atirarmo-nos para a frente e saber suportar o castigo.

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A Inutilidade de Guerras e Revolu√ß√Ķes

As guerras e as revolu√ß√Ķes – h√° sempre uma ou outra em curso – chegam, na leitura dos seus efeitos, a causar n√£o horror mas t√©dio. N√£o √© a crueldade de todos aqueles mortos e feridos, o sacrif√≠cio de todos os que morrem batendo-se, ou s√£o mortos sem que se batam, que pesa duramente na alma: √© a estupidez que sacrifica vidas e haveres a qualquer coisa inevitavelmente in√ļtil.
Todos os ideais e todas as ambi√ß√Ķes s√£o um desvairo de comadres homens. N√£o h√° imp√©rio que valha que por ele se parta uma boneca de crian√ßa. N√£o h√° ideal que mere√ßa o sacrif√≠cio de um comboio de lata. Que imp√©rio √© √ļtil ou que ideal prof√≠cuo?
Tudo é humanidade, e a humanidade é sempre a mesma Рvariável mas inaperfeiçoável, oscilante mas improgressiva. Perante o curso inimplorável das coisas, a vida que tivemos sem saber como e perderemos sem saber quando, o jogo de mil xadrezes que é a vida em comum e luta, o tédio de contemplar sem utilidade o que se não realiza nunca Рque pode fazer o sábio senão pedir o repouso, o não ter que pensar em viver, pois basta ter que viver,

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