Textos sobre Horror

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Textos de horror escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A Vaidade Acompanha-nos Até na Morte

Sendo o termo da vida limitado, n√£o tem limite a nossa vaidade; porque dura mais, do que n√≥s mesmos, e se introduz nos aparatos √ļltimos da morte. Que maior prova, do que a f√°brica de um elevado mausol√©u? No sil√™ncio de uma urna depositam os homens as suas mem√≥rias, para com a f√© dos m√°rmores fazerem seus nomes imortais: querem que a sumptuosidade do t√ļmulo sirva de inspirar venera√ß√£o, como se fossem rel√≠quias as suas cinzas, e que corra por conta dos jaspes a continua√ß√£o do respeito. Que fr√≠volo cuidado! Esse triste resto daquilo, que foi homem, j√° parece um √≠dolo colocado em um breve, mas soberbo domic√≠lio, que a vaidade edificou para habita√ß√£o de uma cinza fria, e desta declara a inscri√ß√£o o nome, e a grandeza. A vaidade at√© se estende a enriquecer de adornos o mesmo pobre horror da sepultura.

Vivemos com vaidade, e com vaidade morremos; arrancando os √ļltimos suspiros, estamos dispondo a nossa pompa f√ļnebre, como se em hora t√£o fatal o morrer n√£o bastasse para ocupa√ß√£o; nessa hora, em que estamos para deixar o mundo, ou em que o mundo est√° para nos deixar, entramos a compor, e a ordenar o nosso acompanhamento,

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Falar Sempre, Pensar Nunca

Desde que, com a ajuda do cinema, das soap operas e do horney, a psicologia profunda penetra nos √ļltimos rinc√Ķes, a cultura organizada corta aos homens o acesso √† derradeira possibilidade da experi√™ncia de si mesmo. E esclarecimento j√° pronto transforma n√£o s√≥ a reflex√£o espont√Ęnea, mas o discernimento anal√≠tico, cuja for√ßa √© igual √† energia e ao sofrimento com que eles se obt√™m, em produtos de massas, e os dolorosos segredos da hist√≥ria individual, que o m√©todo ortodoxo se inclina j√° a reduzir a f√≥rmulas, em vulgares conven√ß√Ķes.
At√© a pr√≥pria dissolu√ß√£o das racionaliza√ß√Ķes se torna racionaliza√ß√£o. Em vez de realizar o trabalho de autognose, os endoutrinados adquirem a capacidade de subsumir todos os conflitos em conceitos como complexo de inferioridade, depend√™ncia materna, extrovertido e introvertido, que, no fundo, s√£o pouco menos que incompreens√≠veis. O horror em face ao abismo do eu √© eliminado mediante a consci√™ncia de que n√£o se trata mais do que uma artrite ou de sinus troubles.
Os conflitos perdem assim o seu aspecto amea√ßador. S√£o aceites; n√£o sanados, mas encaixados somente na superf√≠cie da vida normalizada como seu ingrediente inevit√°vel. S√£o, ao mesmo tempo, absorvidos como um mal universal pelo mecanismo da imediata identifica√ß√£o do indiv√≠duo com a inst√Ęncia social;

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Existir Eficazmente

Esta necessidade de estar s√≥, de n√£o sentir que te pedem seja o que for, que te separam de ti pr√≥prio. Este horror a que tenham o m√≠nimo direito sobre ti, de que to fa√ßam sentir… Esta evidente impertin√™ncia dos outros, quando esperam qualquer coisa, quando take for granted alguma coisa de ti.
Tornas-te de s√ļbito distante, apagas-te, ficas r√≠gido, repeles. Incapaz de dizer uma boa palavra. P√Ķes ponto final e afastas-te.
Rancor contra aqueles que tiveste de eliminar dessa maneira e que, por piedade, por espírito de sacrifício, tens de voltar a aceitar.

A sa√ļde interior que d√£o a profiss√£o pol√≠tico-moral e o contacto com as massas n√£o √© diferente da que prov√©m de qualquer ocupa√ß√£o, de qualquer actividade a que um homem se consagre. Quando escreves e te entregas inteiramente √† tua arte, sentes-te sereno, equilibrado, feliz.

O Inferno de Ser Eu

Ficarei o Inferno de ser Eu, a Limita√ß√£o Absoluta, Expuls√£o-Ser do Universo long√≠nquo! Ficarei nem Deus, nem homem, nem mundo, mero v√°cuo-pessoa, infinito de Nada consciente, pavor sem nome, exilado do pr√≥prio mist√©rio, da pr√≥pria Vida. Habitarei eternamente o deserto morto de mim, erro abstracto da cria√ß√£o que me deixou atr√°s. Arder√° em mim eternamente, inutilmente, a √Ęnsia (est√©ril) do regresso a ser.
N√£o poderei sentir porque n√£o terei mat√©ria com que sinta, n√£o poderei respirar alegria, ou √≥dio, ou horror, porque n√£o tenho nem a faculdade com que o sinta, consci√™ncia abstracta no inferno do n√£o conter nada, n√£o-Conte√ļdo Absoluto, [Sufoca√ß√£o] absoluta e eterna! Oco de Deus, sem universo, (…).

A Única Alegria Neste Mundo é a de Começar

A √ļnica alegria neste mundo √© a de come√ßar. √Č belo viver, porque viver √© come√ßar, sempre, a cada instante. Quando esta sensa√ß√£o desapaece – pris√£o, doen√ßa, h√°bito, estupidez – deseja-se morrer.
√Č por isso que quando uma situa√ß√£o dolorosa se reproduz de modo id√™ntico – parece id√™ntica – nada apaga o horror que tal coisa nos provoca.
O princ√≠pio acima enunciado n√£o √©, portanto, pr√≥prio de um viveur. Porque h√° mais h√°bito na experi√™ncia a todo o custo (cfr, o antip√°tico ¬ęviajar a todo o custo¬Ľ) do que na charneira normal aceite com o sentido do dever e vivida com entusiasmo e intelig√™ncia. Estou convencido de que h√° mais h√°bito nas aventuras de do que num bom casamento.
Porque o próprio da aventura é conservar uma reserva mental de defesa; é por isso que não existem boas aventuras. Só é boa aventura aquela em que nos abandonamos: o matrimónio, em suma, talvez até aqueles que são feitos no céu.
Quem não sente o perene recomeçar que vivifica a existência normal de um casal é, no fundo, um parvo que, por mais que diga, não sente, sequer, um verdadeiro recomeçar em cada aventura.
A lição é sempre a mesma: atirarmo-nos para a frente e saber suportar o castigo.

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A Inutilidade de Guerras e Revolu√ß√Ķes

As guerras e as revolu√ß√Ķes – h√° sempre uma ou outra em curso – chegam, na leitura dos seus efeitos, a causar n√£o horror mas t√©dio. N√£o √© a crueldade de todos aqueles mortos e feridos, o sacrif√≠cio de todos os que morrem batendo-se, ou s√£o mortos sem que se batam, que pesa duramente na alma: √© a estupidez que sacrifica vidas e haveres a qualquer coisa inevitavelmente in√ļtil.
Todos os ideais e todas as ambi√ß√Ķes s√£o um desvairo de comadres homens. N√£o h√° imp√©rio que valha que por ele se parta uma boneca de crian√ßa. N√£o h√° ideal que mere√ßa o sacrif√≠cio de um comboio de lata. Que imp√©rio √© √ļtil ou que ideal prof√≠cuo?
Tudo é humanidade, e a humanidade é sempre a mesma Рvariável mas inaperfeiçoável, oscilante mas improgressiva. Perante o curso inimplorável das coisas, a vida que tivemos sem saber como e perderemos sem saber quando, o jogo de mil xadrezes que é a vida em comum e luta, o tédio de contemplar sem utilidade o que se não realiza nunca Рque pode fazer o sábio senão pedir o repouso, o não ter que pensar em viver, pois basta ter que viver,

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A Vaidade Cega a Sabedoria

Os s√°bios da terra n√£o s√£o os mais pr√≥prios para o governo dela. As Rep√ļblicas, que se fundaram, ou se quiseram governar por s√°bios, perderam-se, acabaram-se; temos not√≠cia delas pelo que foram, e n√£o pelo que s√£o. (…) As maiores crueldades, ou foram feitas, ou aconselhadas pelos S√°bios; estes quando persuadem o mal, √© com tanta veem√™ncia, e t√£o eficazmente, que as gentes na boa f√©, buscam, e particam esse mal, como por entusiasmo, e sem advertirem nele. A impiedade, √© uma das coisas que a ci√™ncia ensina; n√£o porque seja o seu objecto, ou instituto, mas porque quando a impiedade √© √ļtil, √† for√ßa de a ornar, se lhe tira o horror. A vaidade das ci√™ncias n√£o consente, que haja cousa de que ela n√£o possa, nem se saiba aproveitar.
Os erros comummente s√£o partos da sabedoria humana; o errar propriamente √© dos s√°bios, porque o erro sup√Ķe conselho, e premedita√ß√£o; os ignorantes qu√°si que obram por instinto; a ci√™ncia sabe legitimar o erro, a ignor√Ęncia n√£o; por isso nesta n√£o h√° perigo de que ningu√©m o aprove; ao passo que naquela h√° o perigo de que a multid√£o o siga. O erro na m√£o de um s√°bio √© como uma lan√ßa penetrante,

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Estimar para Ser Estimado

Não se deve provocar aversão, pois, mesmo que não se queira, ela adianta-se. Muitos há que odeiam à toa, sem saber como nem porquê. A malevolência antecede o respeito. A irascível é mais eficaz e pronta para o dano que a concupiscível para o proveito. A alguns apetece estar de mal com todos, por génio molesto ou molestado. E, uma vez apossado o ódio, assim como o mau conceito, é difícil de extinguir-se. Costuma-se temer os judiciosos, abominar os maldizentes, sentir asco dos presumidos, ter horror aos intrometidos, abandonar os singulares. Mostre, pois, estimar para ser estimado; e quem quer fazer casa faz caso.

O Tempo e o Tédio

Com respeito √† natureza do t√©dio encontram-se frequentemente conceitos err√≥neos. Cr√™-se em geral que a novidade e o car√°cter interessante do seu conte√ļdo “fazem passar” o tempo, quer dizer, abreviam-no, ao passo que a monotonia e o vazio estorvam e retardam o seu curso. Mas n√£o √© absolutamente verdade. O vazio e a monotonia alargam por vezes o instante ou a hora e tornam-nos “aborrecidos”; por√©m, as grandes quantidades de tempo s√£o por elas abreviadas e aceleradas, a ponto de se tornarem um quase nada. Um conte√ļdo rico e interessante √©, pelo contr√°rio, capaz de abreviar uma hora ou at√© mesmo o dia, mas, considerado sob o ponto de vista do conjunto, confere amplitude, peso e solidez ao curso do tempo, de tal maneira que os anos ricos em acontecimentos passam muito mais devagar do que aqueles outros, pobres, vazios, leves, que s√£o varridos pelo vento e voam. Portanto, o que se chama de t√©dio √©, na realidade, antes uma simula√ß√£o m√≥rbida da brevidade do tempo, provocada pela monotonia: grandes lapsos de tempo quando o seu curso √© de uma ininterrupta monotonia chegam a reduzir-se a tal ponto, que assustam mortalmente o cora√ß√£o; quando um dia √© como todos, todos s√£o como um s√≥;

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Que Humanidade é Esta?

Se o homem n√£o for capaz de organizar a economia mundial de forma a satisfazer as necessidades de uma humanidade que est√° a morrer de fome e de tudo, que humanidade √© esta? N√≥s, que enchemos a boca com a palavra humanidade, acho que ainda n√£o cheg√°mos a isso, n√£o somos seres humanos. Talvez cheguemos um dia a s√™-lo, mas n√£o somos, falta-nos mesmo muito. Temos a√≠ o espect√°culo do mundo e √© uma coisa arrepiante. Vivemos ao lado de tudo o que √© negativo como se n√£o tivesse qualquer import√Ęncia, a banaliza√ß√£o do horror, a banaliza√ß√£o da viol√™ncia, da morte, sobretudo se for a morte dos outros, claro. Tanto nos faz que esteja a morrer gente em Sarajevo, e tamb√©m n√£o devemos falar desta cidade, porque o mundo √© um imenso Sarajevo. E enquanto a consci√™ncia das pessoas n√£o despertar isto continuar√° igual. Porque muito do que se faz, faz-se para nos manter a todos na abulia, na car√™ncia de vontade, para diminuir a nossa capacidade de interven√ß√£o c√≠vica.

Sejamos Alegres

Denuncio nossa fraqueza, denuncio o horror alucinante de morrer ‚ÄĒ e respondo a toda essa inf√Ęmia com ‚ÄĒ exatamente isto que vai agora ficar escrito ‚ÄĒ e respondo a toda essa inf√Ęmia com a alegria. Pur√≠ssima e lev√≠ssima alegria. A minha √ļnica salva√ß√£o √© a alegria. Uma alegria atonal dentro do it essencial. N√£o faz sentido? Pois tem que fazer. Porque √© cruel demais saber que a vida √© √ļnica e que n√£o temos como garantia sen√£o a f√© em trevas ‚ÄĒ porque √© cruel demais, ent√£o respondo com a pureza de uma alegria indom√°vel. Recuso-me a ficar triste. Sejamos alegres. Quem n√£o tiver medo de ficar alegre e experimentar uma s√≥ vez sequer a alegria doida e profunda ter√° o melhor de nossa verdade. Eu estou ‚ÄĒ apesar de tudo oh apesar de tudo ‚ÄĒ estou sendo alegre neste instante-j√° que passa se eu n√£o fix√°-lo com palavras. Estou sendo alegre neste mesmo instante porque me recuso a ser vencida: ent√£o eu amo. Como resposta. Amor impessoal, amor it, √© alegria: mesmo o amor que n√£o d√° certo, mesmo o amor que termina. E a minha pr√≥pria morte e a dos que amamos tem que ser alegre, n√£o sei ainda como,

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A Invisibilidade √© a Condi√ß√£o para a Eleg√Ęncia

Parece-me que a invisibilidade √© a condi√ß√£o para a eleg√Ęncia. A eleg√Ęncia acaba se for notada. Sendo a poesia a eleg√Ęncia por excel√™ncia, n√£o sabe ser vis√≠vel. Ent√£o, para que serve?, dir-me-eis. Para nada. Quem a v√™? Ningu√©m. O que a n√£o impede de ser um atentado contra o pudor, e apesar de o seu exibicionismo se exercer entre os cegos. Contenta-se em exprimir uma moral particular. Depois, esta moral particular solta-se sob a forma de obra. Exige que a deixem viver a sua vida. Faz-se pretexto para imensos mal-entendidos que se chamam a gl√≥ria. A gl√≥ria √© absurda por resultar de um ajuntamento. A multid√£o cerca um acidente, conta-o a si mesma, inventa-o, perturba-o at√© se transformar noutro. O belo resulta sempre de um acidente. De uma quebra brutal entre h√°bitos adquiridos e h√°bitos a adquirir. Derrota, nauseia. Chega a causar horror. Quando o novo h√°bito for adquirido, o acidente deixar√° de ser acidente. Far-se-√° cl√°ssico e perder√° a virtude de choque. Por isso uma obra nunca √© compreendida. √Č admitida. Se n√£o me engano, a observa√ß√£o pertence a Eug√®ne Delacroix: ¬ęNunca se √© compreendido, √©-se admitido¬Ľ. Matisse repete com frequ√™ncia esta frase.

N√£o Est√°s a Ver

Todos os dias, todos nós assistimos Рseja como utentes, vítimas ou observadores Рa uma prática irritantemente portuguesa.
Algu√©m faz uma longa e pormenorizada descri√ß√£o de uma coisa extraordin√°ria (ou, mais ami√ļde, banal) que lhe aconteceu. N√≥s ouvimos, com paci√™ncia e empatia exageradas, e comentamos conforme as mais bem equilibradas expectativas.
Descrevem-nos um momento de horror (“atravessou-se um gato na estrada, tive de desviar-me e quase bati noutro carro”) e, quando n√≥s simpatizamos (muitos de n√≥s tendo passado pela mesma experi√™ncia de medo de morrer ou matar), o nosso interlocutor d√° como perdidos os quartos de hora que gastou a dar-nos uma narrativa completa e, apesar da nossa sincera afirma√ß√£o de empatia (“Coitado! Sei exactamente o que sentiste!”), atira-nos invariavelmente √† cara a mesma psicop√°tica acusa√ß√£o: “N√£o est√°s a ver!”
√Č portugu√™s pensar que aquilo que se sente ou que nos acontece n√£o pode ser sentido ou acontecer a mais ningu√©m. Temos a ideia est√ļpida, avan√ßada por Cam√Ķes – do saber de experi√™ncia feito -, que cada um sabe o que sabe e vive o que vive. Dizer “n√£o est√°s a ver” a quem v√™ perfeitamente – o mais das vezes espontaneamente – √© uma esp√©cie de distancia√ß√£o.

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A Monstruosa Am√°lgama da Identidade Europeia

O mal do totalitarismo é ser uniformizador e impositivo. Há sempre um modelo de perfeição, que os povos mais atrasados terão de seguir e com o qual terão de se comparar. Há sempre uma identidade superior, uma ideologia acima da realidade, um futuro comum aos mais diversos interesses. O totalitarismo é o grande inimigo da diferença e a própria democracia liberal, ao impor e exigir certas igualdades menos naturais, tem aspectos totalitários.
√Č com horror que assisto √† constru√ß√£o da chamada ¬ęidentidade¬Ľ europeia, uma monstruosa am√°lgama beneluxiana que reduz todos os ingredientes nacionais a uma pasta amorfa de argamassa processada. Quando temo pela resist√™ncia da nossa diferen√ßa √† uniformiza√ß√£o europeia, n√£o temo a nossa domina√ß√£o de todas as nacionalidades ‚ÄĒ temo √© a domina√ß√£o de todas as nacionalidades por um euro-h√≠brido que n√£o seja escolhido ou amado por nenhuma delas. A verdade √© que a It√°lia est√° menos italiana, a Alemanha est√° menos alem√£, a Inglaterra est√° menos inglesa e Portugal est√° menos portugu√™s. E nem por isso est√£o mais parecidos com outra nacionalidade qualquer. O que perderam em car√°cter n√£o ganharam em mais nada. As na√ß√Ķes europeias est√£o cada vez mais iguais, mais incaracter√≠sticas, mais chatas. Qualquer dia deixa de ter piada viajar.

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O Rigor e a Duração do Castigo

O rigor do castigo causa menos efeito sobre o esp√≠rito humano do que a dura√ß√£o da pena, porque a nossa sensibilidade √© mais f√°cil e mais constantemente afectada por uma impress√£o ligeira, mas frequente, do que por um abalo violento, mas passageiro. Todo o ser sens√≠vel est√° submetido ao imp√©rio do h√°bito; e, como √© este que ensina o homem a falar, a andar, a satisfazer as suas necessidades, √© tamb√©m ele que grava no cora√ß√£o do homem as ideias de moral por impress√Ķes repetidas.
O espect√°culo atroz, mas moment√Ęneo, da morte de um criminoso, √© para o crime um freio menos poderoso do que o longo e cont√≠nuo exemplo de um homem privado da sua liberdade, tornado at√© certo ponto uma besta de carga e que repara com trabalhos penosos o dano que causou √† sociedade. Este retorno
frequente do espectador a si mesmo: ¬ęSe eu cometesse um crime, estaria a reduzir toda a minha vida a essa miser√°vel condi√ß√£o¬Ľ, – essa ideia terr√≠vel assombraria mais fortemente os esp√≠ritos do que o medo da morte, que se v√™ apenas um instante numa obscura dist√Ęncia que lhe enfraquece o horror.

Vivemos numa Paz de Animais Domésticos

Uma cobra de água numa poça do choupal, a gozar o resto destes calores, e umas meninas histéricas aos gritinhos, cheias de saber que o bicho era tão inofensivo como uma folha.
Por fidelidade a um mandato profundo, o nosso instinto, diante de certos factos, ainda quer reagir. Mas logo a raz√£o acode, e o uivo do plasma acaba num cacarejo convencional. Todos os tratados e todos os preceptores nos explicaram j√° quantas esp√©cies de of√≠dios existem e o soro que neutraliza a mordedura de cada um. Herdamos um mundo j√° quase decifrado, e sabemos de cor as ervas que n√£o devemos comer e as feras que nos n√£o podem devorar. Vivemos numa paz de animais dom√©sticos, vacinados, com os dentes caninos a trincar past√©is de nata, tendo aos p√©s, submissos, os antigos pesadelos da nossa ignor√Ęncia. Passamos pela terra como espectros, indo aos jardins zool√≥gicos e bot√Ęnicos ver, pacata e s√†biamente, em jaulas e canteiros, o que j√° foi perigo e mist√©rio. E, por mais que nos custe, n√£o conseguimos captar a alma do brinquedo esventrado. O homem selvagem, que teve de escolher tudo, de separar o trigo do joio, de mondar dos seus reflexos o que era manso e o que era bravo,

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A Civilização e o Horror ao Vácuo

A expans√£o imperialista das grandes pot√™ncias √© um facto de crescimento, o transbordar natural√≠ssimo de um excesso de vidas e de uma sobra de riquezas em que a conquista dos povos se torna simples variante da conquista de mercados. As lutas armadas que da√≠ resultam, perdido o encanto antigo, transformam-se, paradoxalmente, na fei√ß√£o ruidosa e acidental da energia pac√≠fica e formid√°vel das ind√ļstrias. Nada dos velhos atributos rom√Ęnticos do passado ou da preocupa√ß√£o retr√≥grada do hero√≠smo. As pr√≥prias vit√≥rias perderam o significado antigo. S√£o at√© dispens√°veis. (…) Est√£o fora dos lances de g√©nio dos generais felizes e do fortuito dos combates. Vagas humanas desencadeadas pelas for√ßas acumuladas de longas culturas e do pr√≥prio g√©nio de ra√ßa, podem golpe√°-las √† vontade os advers√°rios que as combatem e batem debatendo-se, e que se afogam. N√£o param. N√£o podem parar. Impele-as o fatalismo da pr√≥pria for√ßa. Diante da fragilidade dos pa√≠ses fracos, ou das ra√ßas incompetentes, elas recordam, na hist√≥ria, aquele horror ao v√°cuo, com que os velhos naturalistas explicavam os movimentos irresist√≠veis da mat√©ria. Revelam quase um fen√īmeno f√≠sico. Por isso mesmo nesta expans√£o irreprim√≠vel, n√£o √© do direito, nem da Moral com as mais imponentes mai√ļsculas, nem de alguma das maravilhas metaf√≠sicas de outrora que lhes despontam obst√°culos.

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Português Sentimental e com Horror à Disciplina

Excessivamente sentimental, com horror √† disciplina, individualista sem dar por isso, falho de esp√≠rito de continuidade e de tenacidade na ac√ß√£o. A pr√≥pria facilidade de compreens√£o, diminuindo-lhe a necessidade de esfor√ßo, leva-o a estudar todos os assuntos pela rama, a confiar demasiado na espontaneidade e brilho da sua intelig√™ncia. Mas quando enquadrado, convenientemente dirigido, o portugu√™s d√° tudo quanto se quer…
O nosso grande problema √© o da forma√ß√£o das elites que eduquem e dirijam a Na√ß√£o. A sua fraqueza ou defici√™ncia √© a mais grave crise nacional. S√≥ as gera√ß√Ķes em marcha, se devidamente aproveitadas, nos fornecer√£o os dirigentes – governantes, t√©cnicos, professores, sacerdotes, chefes do trabalho, oper√°rios especializados – indispens√°veis √† nossa completa renova√ß√£o. Considero at√© mais urgente a constitui√ß√£o de vastas elites do que ensinar toda a gente a ler. √Č que os grandes problemas nacioanis t√™m de ser resolvidos, n√£o pelo povo, mas pelas elites enquadrando as massas.

A Desgraça do Sonhador

E voc√™s sabem o que √© um sonhador, cavalheiros? √Č um pecado personificado, uma trag√©dia misteriosa, escura e selvagem, com todos os seus horrores fren√©ticos, cat√°strofes, devaneios e fins infelizes… um sonhador √© sempre um tipo dif√≠cil de pessoa porque ele √© enormemente imprevis√≠vel: umas vezes muito alegre, √†s vezes muito triste, √†s vezes rude, noutras muito compreensivo e enternecedor, num momento um ego√≠sta e noutro capaz dos mais honor√°veis sentimentos… n√£o √© uma vida assim uma trag√©dia?

A Inevitabilidade das Revolu√ß√Ķes

As revolu√ß√Ķes n√£o s√£o factos que se aplaudam ou que se condenem. Havia nisso o mesmo absurdo que em aplaudir ou condenar as evolu√ß√Ķes do Sol. S√£o factos fatais. T√™m de vir. De cada vez que v√™m √© sinal de que o homem vai alcan√ßar mais uma liberdade, mais um direito, mais uma felicidade. Decerto que os horrores da revolu√ß√£o s√£o medonhos, decerto que tudo o que √© vital nas sociedades, a fam√≠lia, o trabalho, a educa√ß√£o, sofrem dolorosamente com a passagem dessa trovoada humana. Mas as mis√©rias que se sofrem com as opress√Ķes, com os maus reg√≠mens, com as tiranias, s√£o maiores ainda. As mulheres assassinadas no estado de prenhez e esmagadas com pedras, quando foi da revolu√ß√£o de 93, √© uma coisa horr√≠vel; mas as mulheres, as crian√ßas, os velhos morrendo de frio e de fome, aos milhares nas ruas, nos Invernos de 80 a 86, por culpa do Estado, e dos tributos e das finan√ßas perdidas, e da fome e da morte da agricultura, √© pior ainda. As desgra√ßas das revolu√ß√Ķes s√£o dolorosas fatalidades, as desgra√ßas dos maus governos s√£o dolorosas inf√Ęmias.