Passagens de José Ortega y Gasset

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Construir a Realidade

A pura verdade √© que no mundo acontece a todo instante, e, portanto, agora, infinidade de coisas. A pretens√£o de dizer o que √© que acontece agora no mundo deve ser entendida, pois, como ironizando-se a si mesma. Mas assim como √© imposs√≠vel conhecer directamente a plenitude do real, n√£o temos outro rem√©dio sen√£o construir arbitrariamente uma realidade, supor que as coisas s√£o de certa maneira. Isto proporciona-nos um esquema, quer dizer, um conceito ou entretecido de conceitos. Com ele, como atrav√©s de uma quadr√≠cula, olhamos depois a efectiva realidade, e ent√£o, s√≥ ent√£o, conseguimos uma vis√£o aproximada dela. Nisto consiste o m√©todo cient√≠fico. Mais ainda: nisto consiste todo uso do intelecto. Quando ao ver chegar o nosso amigo pela vereda do jardim dizemos: ¬ęEste √© o Pedro¬Ľ, cometemos deliberadamente, ironicamente, um erro. Porque Pedro significa para n√≥s um esquem√°tico repert√≥rio de modos de se comportar f√≠sica e moralmente ‚Äď o que chamamos ¬ęcar√°cter¬Ľ ‚Äď, e a pura verdade √© que o nosso amigo Pedro n√£o se parece, em certos momentos, em quase nada √† ideia ¬ęo nosso amigo Pedro¬Ľ.
Todo o conceito, o mais vulgar como o mais técnico, vai incluso na ironia de si mesmo, nos entredentes de um sorriso tranquilo,

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A Necessidade da Filosofia

A filosofia n√£o brota por ser √ļtil, mas t√£o-pouco pela ac√ß√£o irracional de um desejo veemente. √Č constitutivamente necess√°ria ao intelectual. Porqu√™? A sua nota radical era buscar o todo como um tal todo, capturar o Universo, ca√ßar o Unic√≥rnio. Mas porqu√™ esse profundo anseio? Por que n√£o nos contentamos com o que, sem filosofar, achamos no mundo, com o que j√° √© e a√≠ est√° patente diante de n√≥s? Por esta simples raz√£o: tudo o que √© e est√° a√≠, quanto nos √© dado, presente, patente, √© por sua ess√™ncia um mero bocado, peda√ßo, fragmento, coto. E n√£o podemos v√™-lo sem prever e verificar que est√° a menos a por√ß√£o que falta. Em todo o ser que √© dado, em todo o dado do mundo encontramos a sua essencial linha de fractura, o seu car√°cter de parte e s√≥ parte – vemos a ferida da sua mutila√ß√£o ontol√≥gica, grita-nos a sua dor de amputado, a sua nostalgia do bocado que lhe falta para ser completo, o seu divino descontentamento. H√° doze anos, quando eu falava em Buenos Aires, definia o descontentamento ¬ęcomo um amar sem amado e uma como dor que sentimos em membros que n√£o temos¬Ľ. √Č o achar de menos o que n√£o somos,

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O Falso Mérito do Cínico

O cínico, parasita da civilização, vive de negá-la, simplesmente porque está convencido de que esta não lhe faltará.

Contrariamente ao que sup√Ķe uma √≥ptica inocente e folhetinesca, o poder n√£o √© tanto uma quest√£o de punhos quanto de n√°degas.

Massas sem Direcção

O Poder p√ļblico tem sido sempre assim, quando exercido directamene pelas massas: omnipotente e ef√©mero. O homem-massa √© o homem cuja vida carece de plano e vai √† deriva. Por isso n√£o constr√≥i nada, embora as suas possibilidades, os seus poderes, sejam enormes.

O Perigo do Especialista

O especialista serve-nos para concretizar energicamente a esp√©cie e fazer ver todo o radicalismo da sua novidade. Porque outrora os homens podiam dividir-se, simplesmente, em s√°bios e ignorantes, em mais ou menos s√°bios e mais ou menos ignorantes. Mas o especialista n√£o pode ser submetido a nenhuma destas duas categorias. N√£o √© um s√°bio, porque ignora formalmente o que n√£o entra na sua especialidade; mas tampouco √© um ignorante, porque √© ¬ęum homem de ci√™ncia¬Ľ e conhece muito bem a sua frac√ß√£o de universo. Devemos dizer que √© um s√°bio ignorante, coisa sobremodo grave, pois significa que √© um senhor que se comportar√° em todas as quest√Ķes que ignora, n√£o como um ignorante, mas com toda a petul√Ęncia de quem na sua quest√£o especial √© um s√°bio.
E, com efeito, este √© o comportamento do especialista. Em pol√≠tica, em arte, nos usos sociais, nas outras ci√™ncias tomar√° posi√ß√Ķes de primitivo, e ignorant√≠ssimo; mas tomar√° essas posi√ß√Ķes com energia e sufici√™ncia, sem admitir ‚Äď e isto √© o paradoxal ‚Äď especialistas dessas coisas. Ao especializ√°-lo a civiliza√ß√£o tornou-o herm√©tico e satisfeito dentro da sua limita√ß√£o; mas essa mesma sensa√ß√£o √≠ntima de dom√≠nio e valia vai lev√°-lo a querer predominar fora da sua especialidade.

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A civilização avançada envolve problemas árduos. Por isso, quanto maior o progresso, mais está ameaçada. A vida está cada vez melhor; porém, evidentemente, cada vez mais complicada.

Quem, em nome da liberdade, renuncia a ser aquilo que devia ser, j√° se matou em vida: √© um suicida de p√©. A sua exist√™ncia consistir√° numa perp√©tua fuga da √ļnica realidade que era poss√≠vel.

A Adopção de Novas Ideias

Que um ou v√°rios homens inventem uma nova ideia ou um novo sentimento n√£o faz alterar o cariz da hist√≥ria, o tom dos tempos, como a cor do Atl√Ęntico n√£o muda porque um pintor de marinhas limpa nele o seu pincel carregado de vermelh√£o. Mas se, de s√ļbito, uma massa ingente de homens adopta aquela ideia e vibra com aquele sentimento, ent√£o a √°ria da hist√≥ria, a face dos tempos tinge-se de um novo colorido. Pois bem: as massas ingentes de homens n√£o adoptam uma ideia nova, n√£o vibram com o seu peculiar sentimento simplesmente porque se lhes fa√ßa pr√©dicas. √Č preciso que essa ideia e esse sentimento se achem neles pr√©-formados, inatos, prontos. Sem essa predisposi√ß√£o radical, espont√Ęnea da massa, todo o pregador seria um pregador no deserto.
Daqui que as mudan√ßas hist√≥ricas sup√Ķem o nascimento de um tipo de homem diferente em mais ou menos do que antes havia; isto √©, sup√Ķem a mudan√ßa de gera√ß√Ķes.

A lei seca da arte √© esta: ‘Ne quid nimis’, nada al√©m do necess√°rio. Tudo o que √© sup√©rfluo, tudo aquilo que podemos suprimir sem alterar a ess√™ncia √© contr√°rio √† exist√™ncia da beleza.

√Č imoral pretender que uma coisa desejada se realize magicamente, simplesmente porque a desejamos. S√≥ √© moral o desejo acompanhado da severa vontade de prover os meios da sua execu√ß√£o.

Eis ao que leva o intervencionismo do Estado: o povo converte-se em carne e massa que alimenta o simples artefacto e máquina que é o Estado.

O Deserto num Mundo Abastado

Tender√≠amos ilusoriamente a crer que uma vida nascida num mundo abastado seria melhor, mais vida e de superior qualidade √† que consiste, precisamente, em lutar com a escassez. Mas n√£o √© verdade. Por raz√Ķes muito rigorosas e arquifundamentais que agora n√£o √© oportuno enunciar. Agora, em vez dessas raz√Ķes, basta recordar o facto sempre repetido que constitui a trag√©dia de toda a aristocracia heredit√°ria. O aristocrata herda, quer dizer, encontra atribu√≠das √† sua pessoa umas condi√ß√Ķes de vida que ele n√£o criou, portanto, que n√£o se produzem organicamente unidas √† sua vida pessoal e pr√≥pria. Acha-se ao nascer instalado, de repente e sem saber como, no meio da sua riqueza e das suas prerrogativas. Ele n√£o tem, intimamente, nada que ver com elas, porque n√£o v√™m dele. S√£o a carapa√ßa gigantesca de outra pessoa, de outro ser vivente, seu antepassado. E tem de viver como herdeiro, isto √©, tem de usar a carapa√ßa de outra vida. Em que ficamos? Que vida vai viver o ¬ęaristocrata¬Ľ de heran√ßa, a sua ou a do pr√≥cer inicial? Nem uma nem outra. Est√° condenado a representar o outro, portanto, a n√£o ser nem o outro nem ele mesmo.
A sua vida perde inexoravelmente autenticidade,

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O Amor Busca para que o Entendimento Encontre

N√£o basta a agudeza intelectual para descobrir uma coisa nova. Faz falta entusiasmo, amor pr√©vio por essa coisa. O entendimento √© uma lanterna que necessita de ir dirigida por uma m√£o, e a m√£o necessita de ir mobilizada por um anseio pr√©-existente para este ou outro tipo de poss√≠veis coisas. Em definitivo, somente se encontra o que se busca e o entendimento encontra porque o amor busca. Por isso todas as ci√™ncias come√ßaram por ser entusiasmos de amadores. A pedanteria contempor√Ęnea desprestigiou esta palavra; mas amador √© o mais que se pode ser com respeito a alguma coisa, pelo menos √© o germe todo. E o mesmo dir√≠amos do dilettante – que significa o amante. O amor busca para que o entendimento encontre. Grande tema para uma longa e f√©rtil conversa, este que consistiria em demonstrar como o ser que busca √© a pr√≥pria ess√™ncia do amor! Pensaram voc√™s na surpreendente contextura do buscar? O que busca n√£o tem, n√£o conhece ainda aquilo que busca e, por outra parte, buscar √© j√° ter de antem√£o e conjecturar o que se busca.
Buscar é antecipar uma realidade ainda inexistente, preparar o seu aparecimento, a sua apresentação. Não compreende o que é o amor quem,

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