Textos sobre Filósofos

97 resultados
Textos de filósofos escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Conhecimento sem Paixão seria Castrar a Inteligência

Como investigadores do conhecimento, n√£o sejamos ingratos com os que mudaram por completo os pontos de vista do esp√≠rito humano; na apar√™ncia foi uma revolu√ß√£o in√ļtil, sacr√≠lega; mas j√° de si o querer ver de modo diverso dos outros, n√£o √© pouca disciplina e prepara√ß√£o do entendimento para a sua futura ¬ęobjectividade¬Ľ, entendendo por esta palavra n√£o a ¬ęcontempla√ß√£o desinteressada¬Ľ, que √© um absurdo, sen√£o a faculdade de dominar o pr√≥ e o contra, servindo-se de um e de outro para a interpreta√ß√£o dos fen√≥menos e das paix√Ķes. Acautelemo-nos pois, oh senhores fil√≥sofos!
Desta confabula√ß√£o das ideias antigas acerca de um ¬ęassunto do conheciemnto puro, sem vontade, sem dor, sem tempo¬Ľ, defendamo-nos das mo√ß√Ķes contradit√≥rias ¬ęraz√£o pura¬Ľ, ¬ęespiritualidade absoluta¬Ľ, ¬ęconhecimento subsistente¬Ľ que seria um ver subsistente em si pr√≥prio e sem √≥rg√£o visual, ou um olho sem direc√ß√£o, sem faculdades activas e interpretativas? Pois o mesmo sucede com o conhecimento: uma vista, e se √© dirigida pela vontade, veremos melhor, teremos mais olhos, ser√° mais completa a nossa ¬ęobjectividade¬Ľ. Mas eliminar a vontade, suprimir inteiramente as paix√Ķes – supondo que isso fosse poss√≠vel – seria castrar a intelig√™ncia.

O Prazer do Beneficiador é Sempre Maior do que o do Beneficiado

– N√£o me podes negar um facto, disse ele; √© que o prazer do beneficiador √© sempre maior do que o do beneficiado. Que √© o benef√≠cio? √Č um acto que faz cessar certa priva√ß√£o do beneficiado. Uma vez produzido o efeito essencial, isto √©, uma vez cessada a priva√ß√£o, torna o organismo ao estado anterior, ao estado indiferente. Sup√Ķe que tens apertado em demasia o c√≥s das cal√ßas; para fazer cessar o inc√≥modo, desabotoas o c√≥s, respiras, saboreias um instante de gozo, o organismo torna √† indiferen√ßa, e n√£o te lembras dos teus dedos que praticaram o acto. N√£o havendo nada que perdure, √© natural que a mem√≥ria se esvae√ßa, porque ela n√£o √© uma planta a√©rea, precisa de ch√£o. A esperan√ßa de outros favores, √© certo, conserva sempre no beneficiado a lembran√ßa do primeiro; mas este facto, ali√°s um dos mais sublimes que a filosofia pode achar em seu caminho, explica-se pela mem√≥ria da priva√ß√£o, ou, usando de outra f√≥rmula, pela priva√ß√£o continuada na mem√≥ria, que repercute a dor passada e aconselha a precau√ß√£o do rem√©dio oportuno.
N√£o digo que, ainda sem esta circunst√Ęncia, n√£o aconte√ßa, algumas vezes, persistir a mem√≥ria do obs√©quio, acompanhada de certa afei√ß√£o mais ou menos intensa;

Continue lendo…

O Preço da Elevada Conduta

Conduta e carácter do homem vulgar: nunca em si próprio busca proveito ou pena, antes se atém às coisas exteriores. Conduta e carácter do filósofo: todo o proveito e pena surtem do íntimo de si próprio.
Sinais daquele que evolui: não insulta ninguém, não louva ninguém, não se queixa de ninguém, não acusa ninguém, nada diz de si próprio como coisa importante Рe nunca afirma saber o que quer que seja. Quando embaraçado e contrariado, só a si próprio se responsabiliza. Se o louvam, ri-se discretamente de quem o louva Рe se o insultam, de nada se justifica. Comporta-se como os convalescentes, e teme enfraquecer o que se consolida antes de recuperar toda a sua firmeza.
Suprimiu em si qualquer esp√©cie de vontade, e animosidades tamb√©m: s√≥ faz pairar uma e outras sobre as √ļnicas coisas que, contr√°rias √† natureza, dependem de n√≥s. Os seus arrebatamentos quase nunca o s√£o. E caso o tenham na conta de est√ļpido ou ignorante – nenhuma inquieta√ß√£o o toma. Numa palavra: desafia-se a si pr√≥prio como se fora um inimigo de quem temesse v√°rias armadilhas.

A Realidade Histórica é Equívoca e Inesgotável

O historiador pertence ao devir que descreve. Está situado após os acontecimentos, mas na mesma evolução. A ciência histórica é uma forma de consciência que uma comunidade toma de si mesma, um elemento da vida colectiva, como o conhecimento de si um aspecto da consciência pessoal, um dos factores do destino individual. Não é ela função simultaneamente da situação actual, que por definição muda com o tempo, e da vontade que anima o sábio, incapaz de se destacar de si mesmo e do seu objecto?
Mas, por outro lado, ao contr√°rio, o historiador busca penetrar a consci√™ncia de outrem. √Č, em rela√ß√£o ao ser hist√≥rico, o outro. Psic√≥logo, estratega ou fil√≥sofo, observa sempre do exterior. N√£o pode nem pensar o seu her√≥i, como este se pensa a si mesmo, nem ver a batalha como o general a viu ou viveu, nem compreender uma doutrina do mesmo modo que o criador.
Finalmente, quer se trate de interpretar um acto ou uma obra, devemos reconstu√≠-los conceptualmente. Ora n√≥s temos sempre de escolher entre m√ļltiplos sistemas, pois a ideia √© ao mesmo tempo imanente e transcendente √† vida: todos os monumentos existem por eles mesmos num universo espiritual, a l√≥gica jur√≠dica e econ√≥mica √© interna √† realidade social e superior √† consci√™ncia individual.

Continue lendo…

Nao há Virtude sem Agitação Desordenada

Os choques e abalos que a nossa alma recebe pelas paix√Ķes corporais muito podem sobre ela; por√©m podem mais ainda as suas pr√≥prias, pelas quais est√° t√£o fortemente dominada que talvez possamos afirmar que n√£o tem nenhuma outra velocidade e movimento que n√£o os do sopro dos seus ventos, e que, sem a agita√ß√£o destes, ela permaneceria sem ac√ß√£o, como um navio em pleno mar e que os ventos deixassem sem ajuda. E quem sustentasse isso, seguindo o partido dos peripat√©ticos, n√£o nos causaria muito dano, pois √© sabido que a maior parte das mais belas ac√ß√Ķes da alma procedem desse impulso das paix√Ķes e necessitam dele. A valentia, diz-se, n√£o se pode cumprir sem a assist√™ncia da c√≥lera.

Ajax sempre foi valente, mas nunca o foi tanto como na sua loucura (Cícero)

Nem investimos contra os maus e os inimigos com tanto vigor se n√£o estivermos encolerizados; e pretende-se que o advogado inspire a c√≥lera nos ju√≠zes para deles obter justi√ßa. As paix√Ķes excitaram Tem√≠stocles, excitaram Dem√≥stenes e impeliram os fil√≥sofos para trabalhos, vig√≠lias e peregrina√ß√Ķes; conduzem-nos √† honra, √† ci√™ncia, √† sa√ļde – fins √ļteis. E essa falta de vigor da alma para suportar o sofrimento e os desgostos serve para alimentar na consci√™ncia a penit√™ncia e o arrependimento,

Continue lendo…

Não há Descoberta sem Violência

Devemos a quase totalidade das nossas descobertas às nossas violências, à exacerbação do nosso desequilíbrio. Mesmo Deus, na medida em que nos intriga, não é no mais íntimo de nós que o discernimos, mas antes no limite exterior da nossa febre, no ponto preciso em que, confrontando-se a nossa ira com a sua, se produz um choque, um encontro tão ruinoso para Ele como para nós. Ferido pela maldição que se liga aos actos, o violento só força a sua natureza, só se ultrapassa a si próprio, para a ela regressar, furioso e agressor, seguido pelas suas empresas, que o punem por as ter feito nascer. Não há obra que não se volte contra o seu autor: o poema esmagará o poeta, o sistema o filósofo, o acontecimento o homem de acção. Destrói-se quem, respondendo à sua vocação e cumprindo-a, se agita no interior da história; apenas se salva aquele que sacrifica dons e talentos para, desprendido da sua qualidade de homem, poder repousar no ser. Se aspiro a uma carreira metafísica, não posso por preço algum conservar a minha identidade: terei de liquidar o menor resíduo que dela possa guardar; se, pelo contrário, escolho a aventura de um papel histórico,

Continue lendo…

Presunção e Glória

Somos tão pouco presunçosos que gostaríamos de ser conhecidos da terra, mesmo das pessoas que vierem quando nós já cá não estivermos. Somos tão pouco vãos que a estima de cinco pessoas, vá lá seis, nos diverte e nos honra.
(…) A mod√©stia √© t√£o natural no cora√ß√£o do homem que um oper√°rio tem o cuidado de n√£o se gloriar e quer ter os seus admiradores. Os fil√≥sofos querem-nos. Os poetas mais do que ningu√©m! Os que escrevem em louvor da gl√≥ria querem ter a gl√≥ria de ter escrito bem. Os que l√™em querem a gl√≥ria de ter lido. Eu, que escrevo isto, glorio-me de ter esse desejo. Aqueles que o lerem h√£o-de gloriar-se tamb√©m.

Cultura Ofuscada

N√£o √© que, no nosso tempo, o representante da cultura seja menos escutado do que no passado o eram o te√≥logo, o artista, o s√°bio, o fil√≥sofo, etc. √Č que, actualmente, tem-se consci√™ncia da massa que vive de mera propaganda. Tamb√©m no passado, as massas viviam de m√° propaganda, mas, ent√£o, sendo a cultura elementar menos difundida, essa massa n√£o imitava as pessoas verdadeiramente cultas e, portanto, n√£o fazia surgir o problema de saber se estava mais ou menos em concorr√™ncia com essas pessoas cultas.

O Que Sou e o Que Faço Neste Mundo

Involuntariamente, inconscientemente, nas leituras, nas conversas e at√© junto das pessoas que o rodeavam, procurava uma rela√ß√£o qualquer com o problema que o preocupava. Um ponto o preocupava acima de tudo: por que √© que os homens da sua idade e do seu meio, os quais exactamente como ele, pela sua maior parte, haviam substitu√≠do a f√© pela ci√™ncia, n√£o sofriam por isso mesmo moralmente? N√£o seriam sinceros? Ou compreendiam melhor do que ele as respostas que a ci√™ncia proporciona a essas quest√Ķes perturbadoras? E punha-se ent√£o a estudar, quer os homens, quer os livros, que poderiam proporcionar-lhe as solu√ß√Ķes t√£o desejadas.
(…) Atormentado constantemente por estes pensamentos, lia e meditava, mas o objectivo perseguido cada vez se afastava mais dele. Convencido de que os materialistas nenhuma resposta lhe dariam, relera, nos √ļltimos tempos da sua estada em Moscovo, e depois do seu regresso √† aldeia, Plat√£o e Espinosa, Kant e Schelling, Hegel e Schopenhauer. Estes fil√≥sofos satisfaziam-no enquanto se contentavam em refutar as doutrinas materialistas e ele pr√≥prio encontrava ent√£o argumentos novos contra elas; mas, assim que abordava – quer atrav√©s das leituras das suas obras, quer atrav√©s dos racioc√≠nios que estas lhe inspiravam – a solu√ß√£o do famoso problema,

Continue lendo…

O Verdadeiro Filósofo

Se a ideia de Deus n√£o √© conhecida na natureza, deve portanto tratar-se de uma inven√ß√£o humana… Mas n√£o me olheis como se eu n√£o tivesse s√£os princ√≠pios e n√£o fosse um fiel servidor do meu rei. Um verdadeiro fil√≥sofo n√£o pretende de modo algum subverter a ordem natural das coisas. Aceita-a. S√≥ pretende que o deixem cultivar os pensamentos que consolam uma alma forte. Para os outros, √© uma sorte que existam papas e bispos para reter as multid√Ķes da revolta e do crime. A ordem do Estado exige uma uniformidade do comportamento, a religi√£o √© necess√°ria ao povo e o s√°bio deve sacrificar parte da sua independ√™ncia para que a sociedade se mantenha firme.

Sonhar é Preciso

Sem sonhos, as pedras do caminho tornam-se montanhas, os pequenos problemas s√£o insuper√°veis, as perdas s√£o insuport√°veis, as decep√ß√Ķes transformam-se em golpes fatais e os desafios em fonte de medo.
Voltaire disse que os sonhos e a esperan√ßa nos foram dados como compensa√ß√£o √†s dificuldades da vida. Mas precisamos de compreender que os sonhos n√£o s√£o desejos superficiais. Os sonhos s√£o b√ļssolas do cora√ß√£o, s√£o projectos de vida. Os desejos n√£o suportam o calor das dificuldades. Os sonhos resistem √†s mais altas temperaturas dos problemas. Renovam a esperan√ßa quando o mundo desaba sobre n√≥s.

John F. Kennedy disse que precisamos de seres humanos que sonhem o que nunca foram. Tem fundamento o seu pensamento, pois os sonhos abrem as janelas da mente, arejam a emoção e produzem um agradável romance com a vida.
Quem n√£o vive um romance com a sua vida ser√° um miser√°vel no territ√≥rio da emo√ß√£o, ainda que habite em mans√Ķes, tenha carros luxuosos, viaje em primeira classe nos avi√Ķes e seja aplaudido pelo mundo.

Precisamos de perseguir os nossos mais belos sonhos. Desistir é uma palavra que tem de ser eliminada do dicionário de quem sonha e deseja conquistar, ainda que nem todas as metas sejam atingidas.

Continue lendo…

A Felicidade Encontra-se Fora de Nós

Estamos cheios de coisas que nos lan√ßam para fora. O nosso instinto faz-nos sentir que √© preciso procurar a nossa felicidade fora de n√≥s. As nossas paix√Ķes levam-nos para fora, mesmo quando os objectos se n√£o oferecessem para as excitar. Os objectos de fora tentam-nos por si pr√≥prios e chamam-nos, ainda quando n√£o pensamos neles. E assim, mesmo que os fil√≥sofos digam: ¬ęReco-lhei-vos em v√≥s mesmos, a√≠ encontrareis o vosso bem¬Ľ, n√£o se acredita neles; e aqueles que acreditam s√£o os mais vazios e mais tolos.

Causas e Curas para o Fanatismo

O fanatismo √© para a supersti√ß√£o o que o del√≠rio √© para a febre, o que √© a raiva para a c√≥lera. Aquele que tem √™xtases, vis√Ķes, que considera os sonhos como realidades e as imagina√ß√Ķes como profecias √© um entusiasta; aquele que alimenta a sua loucura com a morte √© um fan√°tico. (…) O mais detest√°vel exemplo de fanatismo √© aquele dos burgueses de Paris que correram a assassinar, degolar, atirar pelas janelas, despeda√ßar, na noite de S√£o Bartolomeu, os seus concidad√£os que n√£o iam √† missa. H√° fan√°ticos de sangue frio: s√£o os juizes que condenam √† morte aqueles cujo √ļnico crime √© n√£o pensar como eles. Quando uma vez o fanatismo gangrenou um c√©rebro a doen√ßa √© quase incur√°vel. Eu vi convulsion√°rios que, falando dos milagres de S. P√°ris, sem querer se acaloravam cada vez mais; os seus olhos encarni√ßavam-se, os seus membros tremiam, o furor desfigurava os seus rostos e teriam morto quem quer que os houvesse contrariado.
Não há outro remédio contra essa doença epidémica senão o espírito filosófico que, progressivamente difundido, adoça enfim a índole dos homens, prevenindo os acessos do mal porque, desde que o mal fez alguns progressos, é preciso fugir e esperar que o ar seja purificado.

Continue lendo…

O Pranto e o Riso

Se o Pranto e o Riso aparecessem neste grande teatro no traje da verdade (sempre nua), sem d√ļvida seria a vit√≥ria do Pranto. Mas vestido, ornado e armado de uma t√£o superior eloqu√™ncia, que o Riso se ria do Pranto, n√£o √© merecimento, foi sorte. De tudo quanto ri saiu vestido, ornado e armado o Riso: riem-se os prados e saiu vestido de flores: ri-se a Aurora, e saiu ornado de luzes; e se aos rel√Ęmpagos e raios chamou a Antiguidade Risus Vestae, et Vulcani, entre tantos rel√Ęmpagos, trov√Ķes e raios de eloqu√™ncia, quem n√£o julgar√° ao miser√°vel Pranto cego, at√≥nito e fulminado? Tal √© a fortuna, ou a natureza, destes dois contr√°rios. Por isso nasce o Riso na boca, como eloquente, e o Pranto nos olhos, como mudo.
(…) Dem√≥crito ria sempre: logo nunca ria. A consequ√™ncia parece dif√≠cil e √© evidente. O Riso, como dizem todos os Fil√≥sofos, nasce da novidade e da admira√ß√£o e cessando a novidade ou a admira√ß√£o, cessa tamb√©m o riso; e como Dem√≥crito se ria dos ordin√°rios desconcertos do mundo, e o que √© ordin√°rio e se v√™ sempre n√£o pode causar admira√ß√£o nem novidade; segue-se que nunca ria, rindo sempre, pois n√£o havia mat√©ria que motivasse o riso.

Continue lendo…

Ver Claro é não Agir

O governo do mundo come√ßa em n√≥s mesmos. N√£o s√£o os sinceros que governam o mundo, mas tamb√©m n√£o s√£o os insinceros. S√£o os que fabricam em si uma sinceridade real por meios artificiais e autom√°ticos; essa sinceridade constitui a sua for√ßa, e √© ela que irradia para a sinceridade menos falsa dos outros. Saber iludir-se bem √© a primeira qualidade do estadista. S√≥ aos poetas e aos fil√≥sofos compete a vis√£o pr√°tica do mundo, porque s√≥ a esses √© dado n√£o ter ilus√Ķes. Ver claro √© n√£o agir.

Filosofia Simplificada

√Č uma objec√ß√£o pobre contra um fil√≥sofo dizer que √© inintelig√≠vel. Ininteligibilidade √© um conceito relativo, e aquilo que o Caio ou Ticiano frequentemente louvado n√£o entende nem por isso √© inintelig√≠vel. E mesmo a filosofia tem, de facto, algo que segundo a sua natureza sempre permanecer√° inintelig√≠vel √† grande multid√£o. Mas √© algo inteiramente outro se a ininteligibilidade est√° na coisa mesma. – Ocorre frequentemente que cabe√ßas que, com grande exerc√≠cio e habilidade, mas sem possuirem propriamente inventividade para tarefas mec√Ęnicas, se disp√Ķem, por exemplo, a inventar uma m√°quina de tornear garrafas – fabricam perfeitamente uma, mas o mecanismo √© t√£o dif√≠cil e artificioso ou as engrenagens rangem tanto, que se prefere voltar a tornear garrafas com as m√£os, √† moda antiga. O mesmo pode perfeitamente passar-se na filosofia. O sofrimento com a ignor√Ęncia sobre os objectos primeiros, sobre os maiores, para todos os homens que sentem, que n√£o s√£o embotados ou estreitamente auto-suficientes, √© grande e pode aumentar at√© se tornar insuport√°vel. Mas se o mart√≠rio de um sistema antinatural √© maior do que aquele fardo da ignor√Ęncia, prefere-se no entanto continuar a suportar este. Pode-se bem admitir que tamb√©m a tarefa da filosofia, se √© em geral resol√ļvel,

Continue lendo…

Sabedoria Pr√°tica Inexistente

A maioria dos luxos e muitos dos chamados confortos da vida não só são dispensáveis como constituem até obstáculos à elevação da humanidade. No que diz respeito a luxos e confortos, os mais sábios sempre viveram de modo mais simples e despojado que os pobres. Os antigos filósofos chineses, indianos, persas e gregos eram uma classe que se notabilizava pela extrama pobreza de bens exteriores, em contraste com a sua riqueza interior. Embora não saibamos muito a seu respeito, é de admirar que saibamos tanto quanto sabemos. O mesmo acontece com reformadores e benfeitores mais recentes, da nacionalidade deles. Ninguém pode ser um observador imparcial e sábio da raça humana, a não ser da posição vantajosa a que chamaríamos pobreza voluntária.
O fruto de uma vida de luxo √© tamb√©m luxo, seja em agricultura, com√©rcio, literatura ou arte. Hoje em dia h√° professores de filosofia, mas n√£o h√° fil√≥sofos. Contudo √© admir√°vel ensinar filosofia porque um dia foi admir√°vel viv√™-la. Ser um fil√≥sofo n√£o √© apenas ter pensamentos subtis, nem sequer fundar uma escola, mas amar a sabedoria a ponto de viver, segundo os seus ditames, uma vida de simplicidade, independ√™ncia, magnanimidade e confian√ßa. √Č solucionar alguns problemas da vida n√£o s√≥ na teoria mas tamb√©m na pr√°tica.

Continue lendo…

O Político Português

Para o bom portugu√™s, meus Senhores, a carreira verdadeiramente ideal √© aquela que n√£o exija prepara√ß√£o e em que se n√£o fa√ßa nada sob a apar√™ncia de que se faz alguma coisa. (Porque em suma ele envergonha-se de o chamarem pregui√ßoso). Ora desde os tempos em que Spencer, um pouco irreverentemente, √© verdade, vinha declarar que, ¬ęexigindo-se uma longa aprendizagem para se fazerem sapatos, n√£o era precisa nem pequena nem grande para se fazerem leis¬Ľ, o caminho, h√£o-de concordar, estava naturalmente tra√ßado. Demais aquele velho Arist√≥teles, que foi fil√≥sofo na antiga Gr√©cia, escreveu ingenuamente um dia que a pol√≠tica era a dific√≠lima arte de os indiv√≠duos governarem os povos. J√° l√° v√£o s√©culos por√©m. O tempo tudo altera; alterou tamb√©m a ideia: hoje √© a mais f√°cil arte de os povos governarem os indiv√≠duos.

Filosofia e Amor são completamente Antagónicos

Entre a filosofia e o amor não há possibilidade de convivência. A filosofia exila a mulher e a mulher exclui a filosofia. Os filósofos são todos cérebro sem coração nem testículos. Aqueles que tiveram mulheres e filhos são filósofos menores, em segunda mão. Os maiores são todos misóginos.
A filosofia tem relação com a castidade: quem se aproxima da mulher não pode alcançar o absoluto. Os filósofos foram eunucos, como Orígenes e Abelardo; ou virgens por eleição, como São Tomás e São Boaventura; ou eternos celibatários, como Platão, Espinosa, Kant, Schopenhauer, Nietzsche, como todos os maiores. Quem teve mulher, como Sócrates, considerou-a empecilho e tortura.
São antes sodomitas, como Séneca e Bacon, ou onanistas, como Rousseau, Kierkegaard e Leopardi Рem todos os casos, antifemininos. A mulher é a vida e a filosofia uma espécie de morte; a dona é o primado do sentimento e a filosofia quer ser racionalismo puro; a mulher é capricho e novidade e a filosofia ordem e sistema.
No entanto, a filosofia n√£o se pode vangloriar de vencer, com a sua for√ßa, a tenta√ß√£o de Eros – √© verdade, ao inv√©s, que a frigidez e a impot√™ncia predisp√Ķem para a filosofia. Se virem um fil√≥sofo marido e pai feliz,

Continue lendo…

A Moral é a Base da Sociedade

A moral é a base da sociedade; se tudo, porém, é matéria em nós, não há realmente vício nem virtude, e por consequência não há moral.
As nossas leis, sempre relativas e mut√°veis, n√£o podem servir de ponto de apoio √† moral, sempre absoluta e inalter√°vel; √© pois preciso que ela tenha origem numa regi√£o mais est√°vel que esta, e cau√ß√Ķes mais seguras que recompensas prec√°rias ou castigos passageiros. Alguns fil√≥sofos acreditaram que a religi√£o f√īra inventada para a sustentar, sem se avisarem de que tomavam o efeito pela causa. N√£o √© a religi√£o que deriva da moral, √© a moral que nasce da religi√£o, pois √© certo, como h√° pouco dissemos, que a moral n√£o pode ter a sua origem no homem physico, ou na simples mat√©ria; pois √© certo ainda, que, quando os homens perdem a ideia de Deus, se despenham em todos os crimes, a despeito das leis e dos verdugos.