Textos sobre Atividade

122 resultados
Textos de atividade escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Sábio é o homem que, em todas as actividades, está isento das aguilhoadas do desejo e tem os seus actos purificados pelo fogo da verdade.

A Leitura √© a Mais Nobre das Distrac√ß√Ķes

Se o gosto pelos livros aumenta com a intelig√™ncia, os perigos, como vimos, diminuem com ela. Um esp√≠rito original sabe subordinar a leitura √† actividade pessoal. Ela √© para ele apenas a mais nobre das distra√ß√Ķes, sobretudo a mais enobrecedora, pois, s√≥ a leitura e o saber conferem ¬ęas boas maneiras¬Ľ do esp√≠rito. O poder da nossa sensibilidade e da nossa intelig√™ncia, s√≥ o podemos desenvolver dentro de n√≥s pr√≥prios, nas profundezas da nossa vida espiritual. Mas √© nesse contacto com os outros esp√≠ritos que a leitura √©, que se faz a educa√ß√£o das “maneiras” do esp√≠rito. Os letrados permanecem, apesar de tudo, como as pessoas not√°veis da intelig√™ncia, e ignorar um determinado livro, uma determinada particularidade da ci√™ncia liter√°ria, ser√° sempre, mesmo num homem de g√©nio, uma marca de grosseria intelectual. A distin√ß√£o e a nobreza consistem na ordem do pensamento tamb√©m, numa esp√©cie de franco-ma√ßonaria de costumes, e numa heran√ßa de tradi√ß√Ķes.

A Liberdade Nunca é Real

Se examinarmos um indiv√≠duo isolado sem o relacionarmos com o que o rodeia, todos os seus actos nos parecem livres. Mas se virmos a m√≠nima rela√ß√£o entre esse homem e quanto o rodeia, as suas rela√ß√Ķes com o homem que lhe fala, com o livro que l√™, com o trabalho que est√° fazendo, inclusivamente com o ar que respira ou com a luz que banha os objectos √† sua roda, verificamos que cada uma dessas circunst√Ęncias exerce influ√™ncia sobre ele e guia, pelo menos, uma parte da sua actividade. E quantas mais influ√™ncias destas observamos mais diminui a ideia que fazemos da sua liberdade, aumentando a ideia que fazemos da necessidade a que est√° submetido.
(…) A grada√ß√£o da liberdade e da necessidade maiores ou menores depende do lapso de tempo maior ou menor desde a realiza√ß√£o do acto at√© √† aprecia√ß√£o desse mesmo acto. Se examino um acto que pratiquei h√° um minuto em condi√ß√Ķes quase as mesmas em que me encontro actualmente, esse acto parece-me absolutamente livre. Mas se aprecio um acto realizado h√° um m√™s, ao encontrar-me em circunst√Ęncias diferentes, a meu pesar, se n√£o tivesse realizado esse acto, n√£o existiriam muitas coisas in√ļteis, agrad√°veis e necess√°rias que derivam dele.

Continue lendo…

O Homem Que Confessa os Seus Pecados Nunca é o Mesmo Que os Cometeu

Monstro, robot, escravo, ser maldito – pouco importa o termo utilizado para transmitir a imagem da nossa condi√ß√£o desumanizada. Nunca a condi√ß√£o da humanidade no seu conjunto foi t√£o ign√≥bil como hoje. Estamos todos ligados uns aos outros por uma igniminiosa rela√ß√£o de senhor e servo; todos presos no mesmo c√≠rculo vicioso entre julgar e ser julgado; todos empenhados em destruir-nos mutuamente quando n√£o conseguimos impor a nossa vontade. Em vez de sentirmos respeito, toler√Ęncia, bondade e considera√ß√£o, para j√° n√£o falar em amor, uns pelos outros, olhamo-nos com medo, suspeita, √≥dio, inveja, rivalidade e malevol√™ncia. O nosso mundo assenta na falsidade. Seja qual for a direc√ß√£o em que nos aventuremos, a esfera de actividade humana em que nos embrenhemos, n√£o encontramos sen√£o enganos, fraudes, dissimula√ß√£o e hipocrisia.
Conhecer do facto de que, por muito alto que estejam colocados, os homens n√£o conseguem, n√£o ousam, pensar livremente, independentemente, quase desespero de me fazer ouvir. E se falo ainda, se me arrisco a exprimir os meus pontos de vista sobre certas quest√Ķes fundamentais, √© porque estou convencido de que, por muito negro que seja o panorama, uma mudan√ßa dr√°stica √©, n√£o s√≥ poss√≠vel, mas at√© inevit√°vel. Sinto que √© meu direito e meu dever de ser humano promover essa mudan√ßa.

Continue lendo…

Felicidade Calma

Incita esse teu amigo a animosamente n√£o ligar import√Ęncia a quem o censura por se acolher √† obscuridade da vida privada, por desistir das suas grandezas, por ter preferido a tranquilidade a tudo o mais, apesar de poder ainda avan√ßar na sua carreira. Mostra a essa gente que ele trata diariamente dos pr√≥prios interesses da forma mais √ļtil. Aqueles que pela sua posi√ß√£o elevada suscitam a inveja geral nunca vivem em terreno firme: uns s√£o derrubados, outros caem por si. Esse tipo de felicidade nunca conhece a calma, antes se excita sempre a si mesma. Desperta em cada um ideias de v√°rios tipos, move os homens cada qual em sua direc√ß√£o, lan√ßa uns numa vida de excessos, outros numa vida de lux√ļria, a uns enche-os de orgulho, a outros de moleza, mas a todos igualmente destr√≥i.
Dir√°s tu: H√°, todavia, quem aguente bem uma liberdade desse g√©nero”. Pois h√°, assim como h√° quem aguente bem o vinho. Por isso n√£o existe o m√≠nimo fundamento para te deixares persuadir que algu√©m √© feliz pelo facto de viver rodeado de clientes; os clientes n√£o buscam nele sen√£o o mesmo que buscam num lago: beber at√© fartar e deixar a √°gua suja!

Continue lendo…

A Raz√£o

A raz√£o √© a suprema uni√£o da consci√™ncia e da consci√™ncia de si, ou seja, do conhecimento de um objecto e do conhecimento de si. √Č a certeza de que as suas determina√ß√Ķes n√£o s√£o menos objectais, n√£o s√£o menos determina√ß√Ķes da ess√™ncia das coisas do que s√£o os nossos pr√≥prios pensamentos. √Č, num √ļnico e mesmo pensamento, ao mesmo tempo e ao mesmo t√≠tulo, certeza de si, isto √©, subjectividade, e ser, isto √©, objectividade.
(…) A raz√£o √© t√£o poderosa quanto ardilosa. O seu ardil consiste em geral nessa actividade mediadora que, deixando os objectos agirem uns sobre os outros conforme √† sua pr√≥pria natureza, sem se imiscuir directamente na sua ac√ß√£o rec√≠proca, consegue, contudo, atingir unicamente o objectivo a que se prop√Ķe.
(…) A Raz√£o governa o mundo e, consequentemente, governa e governou a hist√≥ria universal. Em rela√ß√£o a essa raz√£o universal e substancial, todo o resto √© subordinado e serve-lhe de instrumento e de meio. Ademais, essa Raz√£o √© imanente na realidade hist√≥rica, realiza-se nela e por ela. √Č a uni√£o do Universal existente em si e por si e do individual e do subjecitvo que constitui a √ļnica verdade.

O Engraxanço e o Culambismo Português

Noto com desagrado que se tem desenvolvido muito em Portugal uma modalidade desportiva que julgara ter caído em desuso depois da revolução de Abril. Situa-se na área da ginástica corporal e envolve complexos exercícios contorcionistas em que cada jogador procura, por todos os meios ao seu alcance, correr e prostrar-se de forma a lamber o cu de um jogador mais poderoso do que ele.
Este cu pode ser o cu de um superior hierárquico, de um ministro, de um agente da polícia ou de um artista. O objectivo do jogo é identificá-los, lambê-los e recolher os respectivos prémios. Os prémios podem ser em dinheiro, em promoção profissional ou em permuta. À medida que vai lambendo os cus, vai ascendendo ou descendendo na hierarquia.
Antes do 25 de Abril esta modalidade era mais rudimentar. Era praticada por amadores, muitos em idade escolar, e conhecida prosaicamente como ¬ęengraxan√ßo¬Ľ. Os chefes de reparti√ß√£o engraxavam os chefes de servi√ßo, os alunos engraxavam os professores,os jornalistas engraxavam os ministros, as donas de casa engraxavam os m√©dicos da caixa, etc… Mesmo assim, eram raros os portugueses com feitio para passar graxa. Havia poucos engraxadores. Diga-se por√©m, em abono da verdade, que os poucos que havia engraxavam imenso.

Continue lendo…

O Valor dado pela Vaidade

A fortuna nos disp√Ķe para a alegria, mas n√£o √© s√≥ o que causa; a desgra√ßa conduz para a tristeza, por√©m n√£o √© s√≥, o que a motiva; antes parece que h√° uma certa por√ß√£o de alegria, e de tristeza, que h√°-de passar por n√≥s precisamente; a fortuna, e a desgra√ßa n√£o a produz, s√≥ a desperta. Tudo nos √© dado como por conta: a vida, a fortuna, a desgra√ßa, a alegria, e a tristeza; em tudo h√° um ponto certo, e fixo; a vaidade que governa todas as paix√Ķes, em umas aumenta a actividade, em outras diminui; e todas recebem o valor, que a vaidade lhes d√°.
Estamos no mundo para ser alvos do tempo; e deste todas as mudanças não se dirigem a nós, dirigem-se à nossa vaidade: os sucessos fazem efeito em nós, porque primeiro o fazem na nossa vaidade; de sorte que um homem sem vaidade seria o mesmo que um homem insensível; o prazer, e o desgosto, que não vêm das primeiras leis da natureza, são vãos em si mesmos, de instituição política, e unicamente criadoras de vaidade.

A Ilusão da Consistência da Obra do Escritor

O homem n√£o √© permanentemente igual a si mesmo. A velha concep√ß√£o dos car√°cteres rectil√≠neos e das mentalidades cristalizadas em sistemas imut√°veis abriu fal√™ncia. Tudo muda, no espa√ßo e no tempo. Para um organismo vivo, existir – mesmo no ponto de vista som√°tico – √© transformar-se. Quando come√ßamos cedo e envelhecemos na actividade das letras, n√£o h√° um n√≥s apenas um escritor; h√°, ou houve, escritores sucessivos, m√ļltiplos e diversos, representando estados de evolu√ß√£o da mesma mentalidade incessantemente renovada. Ao chegar a altura da vida em que a estabiliza√ß√£o se opera, olhamos para tr√°s, e muitas das nossas pr√≥prias obras parecem-nos escritas por um estranho, t√£o longe se encontram j√°, n√£o apenas dos nossos processos liter√°rios, mas do nosso esp√≠rito, das nossas tend√™ncias, da nossa orienta√ß√£o, dos nossos pontos de vista √©ticos e est√©ticos.
Nesse exame retrospectivo, por vezes doloroso, se de algumas coisas temos de louvar-nos Рobras a que a nossa mocidade comunicou a chama viva do entusiasmo e da paixão -, de outras somos forçados a reconhecer a pobreza da concepção, os vícios da linguagem, as carências da técnica, e tantas vezes (poenitet me!) as audácias, as incoerências, as injustiças, as demasias, a licença de certas pinturas de costumes e o erro de certas atitudes morais.

Continue lendo…

Preguiça Corporal e Preguiça Espiritual

Há um trabalho servil, que é do corpo e para o corpo, embora a mente ajude, e um trabalho régio, que é da alma e para a alma, e quase ninguém exige às mãos. Há, portanto, uma preguiça corporal e outra espiritual, uma ou outra senhora de todos.
A primeira √© dominada – n√£o destru√≠da – pela necessidade e pelo t√©dio; a outra, refor√ßada pela arrog√Ęncia, raramente √© vencida. Os homens s√£o indolentes que trabalham contra a vontade com os bra√ßos e a intelig√™ncia para fugir ao trabalho mais dif√≠cil da alma.
As actividade imoderadas de muitos n√£o passam de pretextos da ociosidade espiritual. Em vez de se afadigarem para conseguir a ren√ļncia dos bens materiais, sujeitam-se a um trabalho totalmente exterior que por vezes se converte, devido a in√©rcia ou embriaguez, em frenesim.
Mas reformar a natureza doente e transviada, abandonar a senda da concupiscência e alcançar a liberdade serena dos filhos da luz representa um trabalho incomparavelmente mais duro do que dirigir uma empresa, fábrica ou banco. A maioria, por cáclculo de indolência, prefere o trabalho servil, embora penoso, ao real, mais áspero e duro Рtorna-se escravo das coisas terrestres para evitar o esforço que o tornaria dono do espírito.

Continue lendo…

√Č Actuando que Devemos Abandonar

Eu odeio, no fundo, toda a moral que diz: ¬ęN√£o fa√ßas isto, n√£o fa√ßas aquilo. Renuncia. Domina-te…¬Ľ. Gosto, pelo contr√°rio, da moral que me leva a fazer uma coisa, a refaz√™-la, a pensar nela de manh√£ √† noite, a sonhar com ela durante a noite, e a n√£o ter jamais outra preocupa√ß√£o que n√£o seja faz√™-la bem, t√£o bem quanto for capaz entre todos os homens. A viver assim despojamo-nos, uma a uma, de todas as preocupa√ß√Ķes que n√£o t√™m nada a ver com esta vida: v√™-se sem √≥dio nem repugn√Ęncia desaparecer hoje isto, amanh√£ aquilo, folhas amarelas que o menor sopro um pouco vivo solta da √°rvore; ou mesmo nem sequer se d√° por isso, de tal modo o objectivo absorve o olhar, de tal modo o olhar se obstina em ver para diante, n√£o se desviando nunca, nem para a direita nem para a esquerda, nem para cima nem para baixo. ¬ę√Č a nossa actividade que deve determinar o que temos de abandonar; √© actuando que deixaremos¬Ľ, eis o que amo, eis o meu pr√≥prio placitum! Mas eu n√£o quero trabalhar para me empobrecer mantendo os olhos abertos, n√£o quero essas virtudes negativas que t√™m por ess√™ncia a nega√ß√£o e a ren√ļncia.

Continue lendo…

A Actividade Cega

Toda a actividade é um prazer dela própria. Não se junta dinheiro para viver melhor: junta-se dinheiro para se juntar dinheiro. Decerto, a vida melhora-se. Mas há um limite para essa melhoria, para além do qual se não passa, de acordo com a nossa dimensão. Entretanto junta-se ainda dinheiro. O impulso a uma acção é-lhe somente um impulso: a acção depois rola por si.

Para a Salvação da Democracia

Ora a democracia cometeu, a meu ver, o erro de se inclinar algum tanto para Maquiavel, de ter apenas pluralizado os pr√≠ncipes e ter constitu√≠do em cada um dos cidad√£os um aspirante a opressor dos que ao mesmo tempo declarava seus iguais. Ser esmagada pelos condottieri que disp√Ķem das lan√ßas mercen√°rias ou pela coaliz√£o dos que manejam o boletim de voto √© para a consci√™ncia o mesmo choque violento e o mesmo intoler√°vel abuso; um tirano das ilhas vale os trinta de Atenas e os milhares de espartanos. Pode ser esta a origem de muita reac√ß√£o que parece incompreens√≠vel; h√° almas que se entregaram a outros campos porque se sentiam feridas pela prepot√™ncia de indiv√≠duos que defendiam atitudes morais s√≥ fundadas na utilidade social, na combina√ß√£o pol√≠tica. E de facto, o que se tem realizado √©, quase sempre, um arremedo de democracia sem verdadeira liberdade e sem verdadeira igualdade, exactamente porque se tomou como base do sistema uma rela√ß√£o do homem com o homem e n√£o uma rela√ß√£o do homem com o esp√≠rito de Deus. Por outras palavras: para que a democracia se salve e regenere √© urgente que se busque assent√°-la em fundamentos metaf√≠sicos e se procure a origem do poder n√£o nos caprichos e disposi√ß√Ķes individuais,

Continue lendo…

O Super-Detergente

N√≥s vivemos no tempo do record, do m√°ximo, do prest√≠gio do campe√£o. Todo o vocabul√°rio est√° cheio dos hiper ou dos super da propaganda comercial. Dizer que tal livro √© o melhor de h√° 30 anos equivale a dizer que este √© que √© de facto um superdetergente. De resto, os agentes publicit√°rios do material liter√°rio n√£o pretender√£o talvez enganar-nos. Eles sabem que sabemos que estamos no dom√≠nio do reclame. √Č uma actividade inocente como proclamarmos a excel√™ncia de um sab√£o. E √© exactamente por isso que eles usam sempre n√ļmeros redondos. Nunca dizem, por exemplo, que este √© o melhor livro de h√° 47 anos ou de h√° 23 anos e meio. Na realidade, eles n√£o t√™m um ponto de refer√™ncia para marcarem as datas. Falar em 30 ou 50 anos √© como usar uma ¬ęnumera√ß√£o indeterminada¬Ľ, como se diz em ret√≥rica. Gar√ß√£o, ao dizer da Dido moribunda que ¬ętr√™s vezes tenta erguer-se¬Ľ, n√£o pretende convencer-nos de que estiveram l√° a cont√°-las. Em todo o caso e de qualquer modo, dizer que este √© o melhor livro de h√° 50 anos afecta as pessoas impression√°veis. Mas por isso mesmo √© que existem as ag√™ncias de publicidade. E ningu√©m vai pedir-lhes satisfa√ß√Ķes por reclamar um produto contra a calv√≠cie que nos deixou talvez ainda mais depilados.

Continue lendo…

O Pressuposto Indispens√°vel para se Ser um Grande-Escritor

O pressuposto indispens√°vel para se ser um grande-escritor √©, ent√£o, o de escrever livros e pe√ßas de teatro que sirvam para todos os n√≠veis, do mais alto ao mais baixo. Antes de produzir algum bom efeito, √© preciso primeiro produzir efeito: este princ√≠pio √© a base de toda a exist√™ncia como grande-escritor. √Č um princ√≠pio miraculoso, eficaz contra todas as tenta√ß√Ķes da solid√£o, por excel√™ncia o princ√≠pio goethiano do sucesso: se nos movermos apenas num mundo que nos √© prop√≠cio, tudo o resto vir√° por si. Pois quando um escritor come√ßa a ter sucesso d√°-se logo uma transforma√ß√£o significativa na sua vida. O seu editor p√°ra de se lamentar e de dizer que um comerciante que se torna editor se parece com um idealista tr√°gico, porque faria muito mais dinheiro negociando com tecidos ou papel virgem. A cr√≠tica descobre nele um objecto digno da sua actividade, porque os cr√≠ticos muitas vezes at√© nem s√£o m√°s pessoas, mas, dadas as circunst√Ęncias epocais pouco prop√≠cias, ex-poetas que precisam de um apoio do cora√ß√£o para poderem p√īr c√° fora os seus sentimentos;s√£o poetas do amor ou da guerra, consoante o capital interior que t√™m de aplicar com proveito, e por isso √© perfeitamente compreens√≠vel que escolham o livro de um grande-escritor e n√£o o de um comum escritor.

Continue lendo…

Os Solit√°rios

No solitário, a reclusão, ainda que absoluta e até ao fim da vida, tem muitas vezes por princípio um amor desregrado da multidão e tanto mais forte do que qualquer outro sentimento, que ele, não podendo obter, quando sai, a admiração da porteira, dos transeuntes, do cocheiro ali estacionado, prefere jamais ser visto e renunciar por isso a toda e qualquer actividade que o obrigue a sair para a rua.

O Que Verdadeiramente Mata Portugal

O que verdadeiramente nos mata, o que torna esta conjuntura inquietadora, cheia de ang√ļstia, estrelada de luzes negras, quase lutuosa, √© a desconfian√ßa. O povo, simples e bom, n√£o confia nos homens que hoje t√£o espectaculosamente est√£o meneando a p√ļrpura de ministros; os ministros n√£o confiam no parlamento, apesar de o trazerem amaciado, acalentado com todas as doces cantigas de empregos, rendosas conezias, pingues sinecuras; os eleitores n√£o confiam nos seus mandat√°rios, porque lhes bradam em v√£o: ¬ęSede honrados¬Ľ, e v√™em-nos apesar disso adormecidos no seio ministerial; os homens da oposi√ß√£o n√£o confiam uns nos outros e v√£o para o ataque, deitando uns aos outros, combatentes amigos, um turvo olhar de amea√ßa. Esta desconfian√ßa perp√©tua leva √† confus√£o e √† indiferen√ßa. O estado de expectativa e de demora cansa os esp√≠ritos. N√£o se pressentem solu√ß√Ķes nem resultados definitivos: grandes torneios de palavras, discuss√Ķes aparatosas e sonoras; o pa√≠s, vendo os mesmos homens pisarem o solo pol√≠tico, os mesmos amea√ßos de fisco, a mesma gradativa decad√™ncia. A pol√≠tica, sem actos, sem factos, sem resultados, √© est√©ril e adormecedora.

Quando numa crise se protraem as discuss√Ķes, as an√°lises reflectidas, as lentas cogita√ß√Ķes, o povo n√£o tem garantias de melhoramento nem o pa√≠s esperan√ßas de salva√ß√£o.

Continue lendo…

A Base e o Progresso da Civilização

Os homens mais felizes e mais √ļteis s√£o feitos de um conjunto harmonioso de actividades intelectuais e morais. E √© a qualidade destas actividades e a igualdade do seu desenvolvimento que que conferem a este tipo a sua superioridade sobre os outros. Mas a sua intensidade determina o n√≠vel social de um dado indiv√≠duo e faz dele um comerciante ou um director de banco, um pequeno m√©dico ou um professor c√©lebre, um presidente de uma junta de freguesia ou um presidente dos Estados Unidos. O desenvolvimento de seres humanos completos dever ser o objectivo dos nossos esfor√ßos. S√≥ neles pode assentar uma civiliza√ß√£o s√≥lida.
Existe ainda uma classe de homens que, apesar de tão desarmónicos como os criminosos e os loucos, são indispensáveis à sociedade moderna. São os génios. Estes indivíduos caracterizam-se pelo crescimento monstruoso de uma das actividades psicológicas. Um grande artista, um grande cientista, um grande filósofo é geralmente um homem comum em que uma função se hipertrofiou. Pode também ser comparado a um tumor que se tivesse desenvolvido num organismo normal. Estes seres não equilibrados são, em geral, infelizes. Mas produzem grandes obras, das quais toda a sociedade beneficia. A sua desarmonia gera o progresso da civilização.

Continue lendo…

O Terror como Base da Religi√£o

√Č verdade que tanto o medo como a esperan√ßa entram na religi√£o, porque estas duas paix√Ķes, em alturas diferentes, agitam a mente humana e cada uma delas forma uma esp√©cie de divindade que lhe √© adequada. Mas, quando um homem se sente bem, ele est√° inclinado para os neg√≥cios, para o conv√≠vio ou para qualquer esp√©cie de divertimento, e dedica-se naturalmente a essas actividades e n√£o pensa em religi√£o. Quando est√° melanc√≥lico e abatido, tudo o que para fazer √© meditar sobre os terrores do mundo invis√≠vel, e mergulhar mais profundamente ainda na afli√ß√£o. Pode realmente acontecer que, ap√≥s ter assim gravado profundamente as opini√Ķes religiosas no seu pensamento e imagina√ß√£o, ocorra uma altera√ß√£o da sa√ļde ou das circunst√Ęncias que restaure o seu bom humor e, ocasionando boas perspectivas de futuro, o fa√ßa cair no extremo oposto da alegria e triunfo. Mas, ainda assim deve reconhecer-se que, como o terror √© o princ√≠pio primordial da religi√£o, √© essa a paix√£o que predomina nela e que s√≥ admite pequenos intervalos de prazer.