Textos sobre Sociedade

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Textos de sociedade escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Mediocridade de Espírito

O nosso m√°ximo esfor√ßo de independ√™ncia consiste em opor, por vezes, um pouco de resist√™ncia √†s sugest√Ķes quotidianas. A grande massa humana nenhuma resist√™ncia op√Ķe e segue as cren√ßas, as opini√Ķes e os preconceitos do seu grupo. Ela obedece-lhe sem ter mais consci√™ncia do que a folha seca arrastada pelo vento.
S√≥ numa elite muito restrita se observa a faculdade de possuir, algumas vezes, opini√Ķes pessoais. Todos os progressos da civiliza√ß√£o procedem, evidentemente, desses esp√≠ritos superiores, mas n√£o se pode desejar a sua multiplica√ß√£o sucessiva. Inapta a adaptar-se imediatamente a progressos r√°pidos e profundos em demasia, uma sociedade tornar-se-ia logo an√°rquica. A estabilidade necess√°ria √† sua exist√™ncia √© precisamente estabelecida gra√ßas ao grupo compacto dos esp√≠ritos lentos e med√≠ocres, governados por influ√™ncias de tradi√ß√Ķes e de meio.
√Č, portanto, √ļtil para uma sociedade que ela se componha de uma maioria de homens m√©dios, desejosos de agir como toda a gente, que t√™m por guias as opini√Ķes e as cren√ßas gerais. √Č muito √ļtil tamb√©m que as opini√Ķes gerais sejam pouco tolerantes, pois o medo do ju√≠zo alheio constitui uma das bases mais seguras da nossa moral.
A mediocridade de espírito pode, pois, ser benéfica para um povo,

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O Valor do Homem para a Mulher

Se se diz a uma mulher que certo homem é inteligente, ela escreve mentalmente um zero. Se se diz que é culto, ela escreve outro zero. Se acrescentarmos que é belo, amável, com boa reputação social e tudo o mais que se quiser, ela acrescenta outros zeros. Se finalmente se confidenciar que ele é bom na cama, ela escreve um 1 antes dos zeros todos. (Tenho ideia de ter lido qualquer coisa de semelhante a esta conta não sei onde. Mas como não sei onde, façamos de conta que a conta é minha. Porque de qualquer modo, é exacta.)

O Amor Social

√Č necess√°rio voltar a sentir que precisamos uns dos outros, que temos uma responsabilidade para com os outros e o mundo, que vale a pena sermos bons e honestos. Vivemos j√° muito tempo na degrada√ß√£o moral, baldando-nos √† √©tica, √† bondade, √† f√©, √† honestidade; chegou o momento de reconhecer que esta alegre superficialidade de pouco nos serviu. Uma tal destrui√ß√£o de todo o fundamento da vida social acaba por nos colocar uns contra os outros, na defesa dos pr√≥prios interesses, provoca o despertar de novas formas de viol√™ncia e crueldade e impede o desenvolvimento de uma verdadeira cultura do cuidado do meio ambiente.

O exemplo de Santa Teresa de Lisieux convida-nos a p√īr em pr√°tica o pequeno caminho do amor, a n√£o perder a oportunidade de uma palavra gentil, de um sorriso, de qualquer pequeno gesto que semeie paz e amizade. Uma ecologia integral √© feita tamb√©m de simples gestos quotidianos, pelos quais quebramos a l√≥gica da viol√™ncia, da explora√ß√£o, do ego√≠smo. Pelo contr√°rio, o mundo do consumo exacerbado √©, simultaneamente, o mundo que maltrata a vida em todas as suas formas.

O amor, cheio de pequenos gestos de cuidado m√ļtuo, √© tamb√©m civil e pol√≠tico,

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O Serviço Militar Obrigatório

Deixem-me come√ßar com uma confiss√£o de f√© pol√≠tica: o Estado √© feito para o homem, n√£o o homem para o Estado. Isto √© igualmente verdade em ci√™ncia. Estas s√£o convic√ß√Ķes antigas pronunciadas por aqueles para quem o homem em si √© o valor humano mais alto. N√£o teria de repeti-las se n√£o fosse o facto de estarem constantemente em perigo de serem esquecidas, especialmente nos dias que correm, de standardiza√ß√£o e de estereotipia. Creio que a miss√£o mais importante do Estado √© a de proteger o indiv√≠duo e tornar poss√≠vel o desenvolvimento de uma personalidade criativa.
O Estado deve ser nosso servo; n√£o devemos ser escravos do Estado. O Estado viola este princ√≠pio quando nos for√ßa ao servi√ßo militar obrigat√≥rio, especialmente porque o objectivo e efeito de tal servid√£o √© matar pessoas de outras terras ou restringir-lhes a liberdade. De facto, somente devemos fazer sacrif√≠cios em nome do Estado se servirem o livre desenvolvimento do homem (…)
O nacionalismo, actualmente elevado a alturas excessivas, está, em minha opinião, intimamente associado à instituição do serviço militar obrigatório ou, utilizando um eufemismo, à milícia. Qualquer Estado que exija o serviço militar aos seus cidadãos é compelido a cultivar neles o espírito do nacionalismo,

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Reflex√Ķes sobre a Guerra

As vantagens do aumento da amplitude das unidades sociais s√£o principalmente evidentes em caso de guerra. De resto, a guerra foi em todos os tempos a causa principal desse crescimento, da transforma√ß√£o das fam√≠lias em tribos, das tribos em na√ß√Ķes e das na√ß√Ķes em coliga√ß√Ķes. Nas muito embora seja grande o interesse das na√ß√Ķes poderosas em triunfar, algumas come√ßam a compreender que h√° qualquer coisa prefer√≠vel √† pr√≥pria vit√≥ria, que √© evitar a guerra. No passado, a guerra era √†s vezes uma empresa proveitosa. A Guerra dos Sete Anos, por exemplo, proporcionou aos ingleses excelente rendimento em rela√ß√£o ao capital nela empregado, e os lucros conseguidos pelos vencedores nas guerras primitivas foram ainda mais evidentes. Mas o mesmo n√£o sucede nos conflitos modernos, por duas raz√Ķes principais: primeiro, porque os armamentos se tornaram extremamente caros; segundo, porque os grupos sociais envolvidos numa guerra moderna s√£o muito importantes.
√Č um erro pensar que a guerra moderna √© mais destruidora de vidas do que o foram os conflitos menos importantes de outrora. Antigamente, a percentagem das perdas em rela√ß√£o aos efectivos envolvidos na luta era por vezes t√£o elevada como hoje; e al√©m das perdas em combate, as mortes causadas pelas epidemias eram em geral numerosas.

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A Política ao Sabor dos Humores Pessoais e Colectivos

Bem quero, mas n√£o consigo alhear-me da com√©dia democr√°tica que substituiu a trag√©dia autocr√°tica no palco do pa√≠s. S√≥ n√≥s! D√° vontade de chorar, ver tanta irreflex√£o. N√£o aprendemos nenhuma li√ß√£o pol√≠tica, por mais eloquente que seja. Cinquenta anos a suspirar sem gl√≥ria pelo fim de um jugo humilhante, e quando temos a oportunidade de ser verdadeiramente livres escravizamo-nos √†s nossas obsess√Ķes. Ningu√©m aqui entende outra voz que n√£o seja a dos seus humores.

√Č humoralmente que elegemos, que legislamos, que governamos. E somos uma comunidade de solid√Ķes impulsivas a todos os n√≠veis da cidadania. Com oitocentos anos de Hist√≥ria, parecemos crian√ßas sociais. Jogamos √†s escondidas nos corredores das institui√ß√Ķes.

Somos Uma Nação Que Se Regenera

Que somos n√≥s hoje? Uma na√ß√£o que tende a regenerar-se: diremos mais: que se regenera. Regenera-se, porque se repreende a si pr√≥pria; porque se revolve no loda√ßal onde dormia tranquila; porque se irrita da sua decad√™ncia, e j√° n√£o sorri sem vergonha ao insultar de estranhos; porque principia, enfim, a reconhecer que o trabalho n√£o desonra, e vai esquecendo as visagens senhoris de fidalga. Deixai passar essas paix√Ķes pequenas e m√°s que combatem na arena pol√≠tica, deixai flutuar √† luz do sol na superf√≠cie da sociedade esses cora√ß√Ķes cancerosos que a√≠ vedes; deixai erguerem-se, tombar, despeda√ßarem-se essas vagas encontradas e confusas das opini√Ķes! Tudo isto acontece quando se agita o oceano; e o mar do povo agita-se debaixo da sua superf√≠cie. O sarga√ßo imundo, a escuma f√©tida e turva h√£o-de desparecer. Um dia o oceano popular ser√° grandioso, puro e sereno como saiu das m√£os de Deus. A tempestade √© a precusora da bonan√ßa. O lago asfaltite, o Mar Morto, esse √© que n√£o tem procelas.
O nosso estrebuchar, muitas veze col√©rico, muitas mais mentecapto e rid√≠culo, prova que a Europa se enganava quando cria que esta nobre terra do √ļltimo ocidente era o cemit√©rio de uma na√ß√£o cad√°ver.

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A Necessidade da Mentira

A imoralidade da mentira n√£o consiste na viola√ß√£o da sacrossanta verdade. Ao fim e ao cabo, tem direito a invoc√°-la uma sociedade que induz os seus membros compulsivos a falar com franqueza para, logo a seguir, tanto mais seguramente os poder surpreender. √Ä universal verdade n√£o conv√©m permanecer na verdade particular, que imediatamente transforma na sua contr√°ria. Apesar de tudo, √† mentira √© inerente algo repugnante cuja consci√™ncia submete algu√©m ao a√ßoite do antigo l√°tego, mas que ao mesmo tempo diz algo acerca do carcereiro. O erro reside na excessiva sinceridade. Quem mente envergonha-se, porque em cada mentira deve experimentar o indigno da organiza√ß√£o do mundo, que o obriga a mentir, se ele quiser viver, e ainda lhe canta: “Age sempre com lealdade e rectid√£o”.
Tal vergonha rouba a for√ßa √†s mentiras dos mais subtilmente organizados. Elas confundem; por isso, a mentira s√≥ no outro se torna imoralidade como tal. Toma este por est√ļpido e serve de express√£o √† irresponsabilidade. Entre os insidiosos pr√°ticos de hoje, a mentira j√° h√° muito perdeu a sua honrosa fun√ß√£o de enganar acerca do real. Ningu√©m acredita em ningu√©m, todos sabem a resposta. Mente-se s√≥ para dar a entender ao outro que a algu√©m nada nele importa,

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Nascido para Mandar

Os homens dividem-se, na vida pr√°tica, em tr√™s categorias – os que nasceram para mandar, os que nasceram para obedecer, e os que n√£o nasceram nem para uma coisa nem para outra. Estes √ļltimos julgam sempre que nasceram para mandar; julgam-no mesmo mais frequentemente que os que efectivamente nasceram para o mando.
O característico principal do homem que nasceu para mandar é que sabe mandar em si mesmo.
O característico distintivo do homem que nasceu para obedecer é que sabe mandar só nos outros, sabendo obedecer também. O homem que não nasceu nem para uma coisa nem para outra distingue-se por saber mandar nos outros mas não saber obedecer.
O homem que nasceu para mandar √© o homem que imp√Ķe deveres a si mesmo. O homem que nasceu para obedecer √© incapaz de se impor deveres, mas √© capaz de executar os deveres que lhe s√£o impostos (seja por superiores, seja por f√≥rmulas sociais), e de transmitir aos outros a sua obedi√™ncia; manda, n√£o porque mande, mas porque √© um transmissor de obedi√™ncia. O homem que n√£o nasceu nem para mandar nem para obedecer sabe s√≥ mandar, mas como nem manda por √≠ndole nem por transmiss√£o de obedi√™ncia,

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S√£o os Sentimentos que Conduzem as Sociedades, n√£o as Ideias

As sociedades são conduzidas por agitadores de sentimentos, não por agitadores de ideias. Nenhum filósofo fez caminho senão porque serviu, em todo ou em parte, uma religião, uma política ou outro qualquer modo social do sentimento.
Se a obra de investiga√ß√£o, em mat√©ria social, √© portanto socialmente in√ļtil, salvo como arte e no que contiver de arte, mais vale empregar o que em n√≥s haja de esfor√ßo em fazer arte, do que em fazer meia arte.

O Mal das Doutrinas Religiosas

– Bem, o que at√© agora me pareceu mais interessante foi verificar que a grande maioria de todas essas cren√ßas parte de um facto ou de uma personagem de relativa probabilidade hist√≥rica, mas todas evoluem rapidamente para movimentos sociais subordinados e enformados pelas circunst√Ęncias pol√≠ticas, econ√≥micas e sociais do grupo que as aceita. Ainda est√° acordada?
Eulalia assentiu.
РUma boa parte da mitologia que se desenvolve à volta de cada uma destas doutrinas, desde a liturgia até às normas e tabus, provém da burocracia que é gerada à medida que evoluem e não do suposto facto sobrenatural que lhes deu origem. A maior parte das anedotas simples e bonançosas, um misto de senso comum e folclore, e toda a carga beligerante que conseguem desenvolver provém da interpretação posterior daqueles princípios, quando não tendem a desvirtuar-se, nas mãos dos seus administradores. A questão administrativa e hierárquica parece ser a chave da sua evolução. A verdade é revelada em princípio a todos os homens, mas depressa aparecem indivíduos que se atribuem o poder e o dever de interpretar, administrar e, nalguns casos, alterar essa verdade em nome do bem comum, estabelecendo para isso uma organização poderosa e potencialmente repressiva.

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Indiferença em Política

Um dos piores sintomas de desorganização social, que num povo livre se pode manifestar, é a indiferença da parte dos governados para o que diz respeito aos homens e às cousas do governo, porque, num povo livre, esses homens e essas cousas são os símbolos da actividade, das energias, da vida social, são os depositários da vontade e da soberania nacional.
Que um povo de escravos folgue indiferente ou durma o sono solto enquanto em cima se forjam as algemas servis, enquanto sobre o seu mesmo peito, como em bigorna insensível se bate a espada que lho há-de trespassar, é triste, mas compreende-se porque esse sono é o da abjecção e da ignomínia.
Mas quando √© livre esse povo, quando a paz lhe √© ainda convalescen√ßa para as feridas ganhadas em defesa dessa liberdade, quando come√ßa a ter consci√™ncia de si e da sua soberania… que ent√£o, como tomado de vertigem, desvie os olhos do norte que tanto lhe custara a avistar e deixe correr indiferente a sabor do vento e da onda o navio que tanto risco lhe dera a lan√ßar do porto; para esse povo √© como de morte este sintoma, porque √© o olvido da ideia que h√° pouco ainda lhe custara tanto suor tinto com tanto sangue,

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O Aviltante Conceito da Perfectibilidade Humana

Converter em realidades os nossos sentimentos e propens√Ķes individuais, transformar as nossas disposi√ß√Ķes de √Ęnimo em medidas do universo, acreditar que, porque desejamos justi√ßa ou amamos a justi√ßa, a Natureza ter√° necessariamente de ter o mesmo desejo ou o mesmo amor, supor que, porque uma coisa √© m√°, ela pode ser tornada melhor sem a piorar, estas s√£o atitudes rom√Ęnticas e definem todos os esp√≠ritos que se revelam incapazes de conceber a realidade como algo situado fora deles pr√≥prios, como crian√ßas implorando por luas nesta Terra.
Quase todas as modernas reformas sociais s√£o concep√ß√Ķes rom√Ęnticas, um esfor√ßo para acomodar a realidade aos nossos desejos. O aviltante conceito da perfectibilidade humana.

O Poeta não é um Pequeno Deus

O poeta n√£o √© um ¬ępequeno deus¬Ľ. N√£o, n√£o √© um ¬ępequeno deus¬Ľ. N√£o est√° amrcado por um destino cabal√≠stico superior ao de quem exerce outros misteres e of√≠cios. Exprimi ami√ļde que o melhor poeta √© o homem que nos entrega o p√£o de cada dia: o padeiro mais pr√≥ximo, que n√£o se julga deus. Cumpre a sua majestosa e humilde tarefa de amassar, levar ao forno, dourar e entregar o p√£o de cada dia, com uma obriga√ß√£o comunit√°ria. E se o poeta chega a atingir essa simples consci√™ncia, a simples consci√™ncia tamb√©m se pode converter em parte de uma artesania colossal, de uma constru√ß√£o simples ou complicada, que √© a constru√ß√£o da sociedade, a transforma√ß√£o das condi√ß√Ķes que rodeiam o homem, a entrega da mercadoria: p√£o, verdade, vinho, sonhos.

Se o poeta se incorpora nessa nunca consumida luta para cada um confiar nas mãos dos outros a sua ração de compromisso, a sua dedicação e a sua ternura pelo trabalho comum de cada dia e de todos os homens, participa no suor, no pão, no vinho, no sonho de toda a humanidade. Só por esse caminho inalienável de sermos homens comuns conseguiremos restituir à poesia o vasto espaço que lhe vão abrindo em cada época,

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Valoriza-se mais o Ter que o Ser

A primeira fase da domina√ß√£o da economia sobre a vida social levou, na defini√ß√£o de toda a realiza√ß√£o humana, a uma evidente degrada√ß√£o do ser em ter. A fase presente da ocupa√ß√£o total da vida social em busca da acumula√ß√£o de resultados econ√≥micos conduz a uma busca generalizada do ter e do parecer, de forma que todo o ¬ęter¬Ľ efectivo perde o seu prest√≠gio imediato e a sua fun√ß√£o √ļltima. Assim, toda a realidade individual tornou-se social e directamente dependente do poderio social obtido.

(…) O espect√°culo √© o herdeiro de toda a fraqueza do projecto filos√≥fico ocidental, que foi uma compreens√£o da actividade dominada pelas categorias do ver; assim como se baseia no incessante alargamento da racionalidade t√©cnica precisa, proveniente deste pensamento. Ele n√£o realiza a filosofia, ele filosofa a realidade. √Č a vida concreta de todos que se degradou em universo especulativo.
A filosofia, enquanto poder do pensamento separado, e pensamento do poder separado, nunca pode por si própria superar a teologia. O espectáculo é a reconstrução material da ilusão religiosa. A técnica espectacular não dissipou as nuvens religiosas onde os homens tinham colocado os seus próprios poderes desligados de si: ela ligou-os somente a uma base terrestre.

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A Infelicidade do Desejo

Um desejo é sempre uma falta, carência ou necessidade. Um estado negativo que implica um impulso para a sua satisfação, um vazio com vontade de ser preenchido.

Toda a vida é, em si mesma, um constante fluxo de desejos. Gerir esta torrente é essencial a uma vida com sentido. Cada homem deve ser senhor de si mesmo e ordenar os seus desejos, interesses e valores, sob pena de levar uma vida vazia, imoderada e infeliz. Os desejos são inimigos sem valentia ou inteligência, dominam a partir da sua capacidade de nos cegar e atrair para o seu abismo.
A felicidade √©, por ess√™ncia, algo que se sente quando a realidade extravasa o que se espera. A supera√ß√£o das expectativas. Ser feliz √© exceder os limites preestabelecidos, assim se conclui que quanto mais e maiores forem os desejos de algu√©m, menores ser√£o as suas possibilidades de felicidade, pois ainda que a vida lhe traga muito… esse muito √© sempre pouco para lhe preencher os vazios que criou em si pr√≥prio.

Na sociedade de consumo em que vivemos há cada vez mais necessidades. As naturais e todas as que são produzidas artificialmente. Hoje, criam-se carências para que se possa vender o que as preenche e anula.

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Diversidade Condicionada

Se, como escrevi em ‘Ra√ßa e Hist√≥ria’, existe entre as sociedades humanas um certo √≥ptimo de diversidade al√©m do qual elas n√£o conseguiram prosseguir, mas abaixo do qual tampouco podem descer sem perigo, deve-se reconhecer que essa diversidade resulta em grande parte do desejo de cada cultura de se opor √†s que a cercam, de distinguir-se delas, em suma, de serem elas mesmas; n√£o se ignoram, imitam-se ocasionalmente, mas, para n√£o perecerem, √© necess√°rio que, sob outros aspectos, persista entre elas uma certa impermeabilidade.

Saber Resolver Problemas

Há pessoas que têm dificuldade em identificar os seus problemas. Usando de uma grande capacidade de adaptação, vão-se habituando a que as coisas lhes estejam a correr menos bem, sem conseguirem perceber exactamente qual o ou os problemas que os apoquentam.
Mas também existe quem tenha tendência para pensar que o problema não é seu. Percebem que ele existe, identificam-no, mas comportam-se com alguma indiferença, como se o problema fosse dos outros, não assumindo a sua responsabilidade.
H√° ainda quem fique √† espera que os problemas se resolvam por si, ou que algu√©m lhos resolva. Embora consigam identific√°-los e reconhec√™-los como seus, parecem considerar que compete a outros ‚ÄĒ familiares, amigos, colegas ‚ÄĒ ou √† sociedade em geral resolv√™-los.
Assim como existe quem, em vez de se dedicar a procurar solução para os seus problemas, concentrando neles a sua atenção e canalizando para a sua resolução a energia possível, prefira desenvolver práticas místicas, pretendendo que uma ou várias entidades mais ou menos divinas façam o que afinal lhes compete a eles próprios fazer.

Um problema √© uma coisa dif√≠cil de compreender, explicar ou resolver. √Č tudo aquilo que resiste √† penetra√ß√£o da intelig√™ncia, constituindo uma inc√≥gnita ou dificuldade a resolver.

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Toda a Sociedade é uma Espécie de Sonho Colectivo

A sociedade s√≥ vive de ilus√Ķes. Toda a sociedade √© uma esp√©cie de sonho colectivo. Essas ilus√Ķes tornam-se ilus√Ķes perigosas quando come√ßam a parar de iludir. O despertar desse tipo de sonho √© um pesadelo.

Uma Democracia de Verdade

Eu acho que √© preciso continuar a acreditar na democracia, mas numa democracia que o seja de verdade. Quando eu digo que a democracia em que vivem as actuais sociedades deste mundo √© uma fal√°cia, n√£o √© para atacar a democracia, longe disso. √Č para dizer que isto a que chamamos democracia n√£o o √©. E que, quando o for, aperceber-nos-emos da diferen√ßa. N√≥s n√£o podemos continuar a falar de democracia no plano puramente formal. Isto √©, que existam elei√ß√Ķes, um parlamento, leis, etc. Pode haver um funcionamento democr√°tico das institui√ß√Ķes de um pa√≠s, mas eu falo de um problema muito mais importante, que √© o problema do poder. E o poder, mesmo que seja uma trivialidade diz√™-lo, n√£o est√° nas institui√ß√Ķes que elegemos. O poder est√° noutro lugar.