A Sensura

A nossa sociedade autoriza tudo o que n√£o a incomoda. Se isto j√° n√£o √© plenamente verdade nos nossos dias, e se estamos em crise, √© porque o interesse imediato dos que est√£o no poder se encontra em contradi√ß√£o com os valores que fundamentam este mesmo poder. √Č-lhes necess√°rio, por exemplo, incentivar o consumo que os enriquece, em detrimento da moral que os legitima. Pela primeira vez, o poder fundamenta-se na confus√£o e n√£o na ordem. Da√≠ a mentira generalizada, de que a l√≠ngua sofre.

A permissividade actual autoriza que se diga tudo porque este tudo já não significa nada. A palavra torna-se inofensiva por privação de sentido. A escrita sofre a mesma privação nas suas formas normalizadas: publicidade, jornalismo, best-sellers, que passam por escrita quando não o são.
O objectivo da antiga censura consistia em tornar o adversário inofensivo, privando-o dos seus meios de expressão; a nova Рque denominei sensura Рesvazia a expressão para a tornar inofensiva, método mais radical e menos visível.