Passagens sobre Palavras

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Frases sobre palavras, poemas sobre palavras e outras passagens sobre palavras para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

N√£o h√° forma√ß√£o para se ser escritor. Passe por onde passe, o escritor √© sempre um autodidacta. Quando se senta pela primeira vez e escreve as primeiras palavras, n√£o lhe serve de muito ter andado na universidade, ou na outra, a que chamamos universidade da vida. Serve, mas n√£o √© por isso que escreve. (…) O que acontece √© que talvez nos achemos demasiado importantes, demasiado interessantes.

Poucos homens, aqui na terra, sabem do segredo do ensinamento sem palavras e do poder do agir pelo n√£o-agir.

Anota√ß√£o um pensamento apresentado hoje com o m√≠nimo de palavras, em muitas ocasi√Ķes, pode nos favorecer com o m√°ximo de auxilio no trabalho de amanh√£. Uberaba, 21 de junho de 1976; Emmanuel

Escrevias pela Noite Fora

Escrevias pela noite fora. Olhava-te, olhava
o que ia ficando nas pausas entre cada
sorriso. Por ti mudei a raz√£o das coisas,
faz de conta que n√£o sei as coisas que n√£o queres
que saiba, acabei por te pensar com crianças
à volta. Agora há prédios onde havia
laranjeiras e rom√£s no ch√£o e as palavras
nem o sabem dizer, apenas apontam a rua
que foi comum, o quarto estreito. Um livro
é suficiente neste passeio. Quando não escreves
estás a ler e ao lado das árvores o silêncio
é maior. Decerto te digo o que penso
baixando a cabeça e tu respondes sempre
com a cabeça inclinada e o fumo suspenso
no ar. As verdades nunca se disseram. Queria
prender-te, tornar a perder-te, achar-te
assim por acaso no meu dia livre a meio
da semana. Mantêm-se as causas iguais
das pequenas alegrias, longe da alegria, a rotina
dos sorrisos vem de nenhum vício. Este abandono
custa. Porque estou contigo e me deixas
a tua imagem passa pelas noites sem sono,
est√° aqui a cadeira em que te sentaste
a escrever lendo.

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As Palavras de Amor

Esqueçamos as palavras, as palavras:
As ternas, caprichosas, violentas,
As suaves de mel, as obscenas,
As de febre, as famintas e sedentas.

Deixemos que o silêncio dê sentido
Ao pulsar do meu sangue no teu ventre:
Que palavra ou discurso poderia
Dizer amar na língua da semente?

Aquilo que realmente une um casal s√£o os interesses em comum, as presta√ß√Ķes a pagar, as d√≠vidas contra√≠das a meias. Pedes um empr√©stimo a vinte anos e est√°s a assegurar um casamento para metade da vida. O verdadeiro amor √© isso. Palavras, leva-as o vento.

Canção da Minha Tristeza

Meu coração não está nas largas avenidas
nem repousa à tarde, para lá do rio.
Nada acontece. Nada. Nem, ao menos, tu
vir√°s despentear os meus cabelos.

Nem, ao menos, tu, neste tempo de ang√ļstia
vens dizer o meu nome ou cobrir-me de beijos.
Ah, meu coração não está nas largas avenidas
nem repousa à tarde, para lá do rio.

A cidade enlouquece os meus olhos de p√°ssaro.
Eu recuso as palavras. Sei o nome da chuva.
Quero amar-te, sim. Mas tu hoje n√£o voltas.
Tu não virás, nunca mais, ó minha amiga.

Nada acontece. Nada. E eu procuro-te
por dentro da noite, com m√£os de surpresa.
Meu coração não está nas largas avenidas
nem repousa à tarde, para lá do rio.

E tu, longe, longe. Onde est√°s meu amor,
que n√£o vens despentear os meus cabelos?
Eu quero amar-te. Mas tu hoje n√£o voltas.
Tu não virás, nunca mais, ó minha amiga.

Nunca Me Tinha Apaixonado Verdadeiramente

Escrevi até o princípio da manhã aparecer na janela. O sol a iluminar os olhos dos gatos espalhados na sala, sentados, deitados de olhos abertos. O sol a iluminar o sofá grande, o vermelho ruço debaixo de uma cobertura de pêlo dos gatos. O sol a chegar à escrivaninha e a ser dia nas folhas brancas. Escrevi duas páginas. Descrevi-lhe o rosto, os olhos, os lábios, a pele, os cabelos. Descrevi-lhe o corpo, os seios sob o vestido, o ventre sob o vestido, as pernas. Descrevi-lhe o silêncio. E, quando me parecia que as palavras eram poucas para tanta e tanta beleza, fechava os olhos e parava-me a olhá-la. Ao seu esplendor seguia-se a vontade de a descrever e, de cada vez que repetia este exercício, conseguia escrever duas palavras ou, no máximo, uma frase. Quando a manhã apareceu na janela, levantei-me e voltei para a cama. Adormeci a olhá-la. Adormeci com ela dentro de mim.

Nunca me tinha apaixonado verdadeiramente. A partir dos dezasseis anos, conheci muitas mulheres, senti algo por todas. Quando lhes lia no rosto um olhar diferente, demorado, deixava-me impressionar e, durante algumas semanas, achava que estava apaixonado e que as amava. Mas depois,

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Testamento do Homem Sensato

Quando eu morrer, não faças disparates
nem fiques a pensar: ¬ęEle era assim…¬Ľ
mas senta-te num banco de jardim,
calmamente comendo chocolates.

Aceita o que te deixo, o quase nada
destas palavras que te digo aqui:
foi mais que longa a vida que eu vivi,
para ser em lembranças prolongada.

Porém, se, um dia, só, na tarde em queda,
surgir uma lembrança desgarrada,
ave que nasce e em voo se arremeda,

deixa-a pousar em teu silêncio, leve
como se apenas fosse imaginada,
com uma luz, mais que distante, breve.

Estado Frenético de Tagarelice

Assola o pa√≠s uma puls√£o coloquial que p√Ķe toda a gente em estado fren√©tico de tagarelice, numa multiplica√ß√£o ansiosa de duos, trios, ensembles, coros. Desde os p√≠ncaros de Castro Laboreiro ao Ilh√©u de Monchique fervem rumorejos, conversas, vozeios, brados que abafam e escamoteiam a paci√™ncia de alguns, os vagares de muitos e o bom senso de todos. O falat√≥rio √© causa de in√ļmeros despaut√©rios, frouxas produtividades e m√°s-cria√ß√Ķes.
Fala-se, fala-se, fala-se, em todos os sotaques, em todos os tons e décibeis, em todos os azimutes. O país fala, fala, desunha-se a falar, e pouco do que diz tem o menor interesse. O país não tem nada a dizer, a ensinar, a comunicar. O país quer é aturdir-se. E a tagarelice é o meio de aturdimento mais à mão.
(…) Telefones m√≥veis! Soturna apoquenta√ß√£o! Um pa√≠s tagarela tem, de um momento para o outro, dez milh√Ķes de √≠ncolas a querer saber onde √© que os outros param, e a transmitir pensamentos √† dist√Ęncia.
Afortunados ventos que batem todas as altitudes e pontos cardeais e levam as mais das palavras, às vezes frases inteiras, parágrafos, grosas deleas, para as afogar no mar, embeber nos lameiros de Espanha, gelar nos confins da Sibéria,

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Tu Ensinaste-me a Fazer uma Casa

Tu ensinaste-me a fazer uma casa:
com as m√£os e os beijos.
Eu morei em ti e em ti meus versos procuraram
voz e abrigo.
E em ti guardei meu fogo e meu desejo. Construí
a minha casa.
Porém não sei já das tuas mãos. Os teus lábios perderam-se
entre palavras duras e precisas
que tornaram a tua boca fria
e a minha boca triste como um cemitério de beijos.

Mas recordo a sede unindo as nossas bocas
mordendo o fruto das manh√£s proibidas
quando as nossas m√£os surgiam por detr√°s de tudo
para saudar o vento.

E vejo teu corpo perfumando a erva
e os teus cabelos soltando revoadas de p√°ssaros
que agora se recolhem, quando a noite se move,
nesta casa de versos onde guardo o teu nome.

A um Jovem Poeta

Procura a rosa.
Onde ela estiver
est√°s tu fora
de ti. Procura-a em prosa, pode ser

que em prosa ela floresça
ainda, sob tanta
met√°fora; pode ser, e que quando
nela te vires te reconheças

como diante de uma inf√Ęncia
inicial n√£o embaciada
de nenhuma palavra
e nenhuma lembrança.

Talvez possas ent√£o
escrever sem porquê,
evidência de novo da Razão
e passagem para o que não se vê.

Conhecer-se a Si Próprio

Conhece-te a ti pr√≥prio – eis o que √© dif√≠cil. Ainda posso conhecer os outros, mas a mim mesmo n√£o consigo conhecer-me. Um fio – instintos e um fantasma… Dos outros fa√ßo ideia mais ou menos aproximada, de mim n√£o fa√ßo ideia nenhuma.
H√° uma disparidade entre mim e mim. H√° em mim o homem correcto, o homem igual a todos os homens – e o homem que l√° dentro sonha, grita e √© capaz, por insignific√Ęncias, de imaginar um terramoto ou de desejar uma cat√°strofe. O que eu me tenho desfeito dos meus inimigos – o que √© razo√°vel – mas dos meus amigos que me fazem sombra!…
O meu verdadeiro ser n√£o √© aquele que compus, recalcando l√° para o fundo os instintos e as paix√Ķes; o meu verdadeiro ser √© uma √°rvore desgrenhada – √© o fantasma que nos momentos de exalta√ß√£o me leva a rasto para actos que reprovo. S√≥ a custo o contenho. Parece que est√° morto, e est√° mais vivo que o histri√£o que represento. Asseguro este simulcaro at√© √† cova com os h√°bitos de compress√£o que adquiri. N√£o sei se a maior parte dos homens √© assim – eu sou assim: sou um fantasma desesperado.

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Mas j√° que se h√° de escrever, que ao menos n√£o se esmaguem com palavras as entrelinhas. O melhor ainda n√£o foi escrito. O melhor est√° nas entrelinhas

Um dos méritos da poesia, que muita gente não percebe, é que ela diz mais que a prosa e em menos palavras que a prosa.