Cita√ß√Ķes de Casimiro de Brito

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Frases, pensamentos e outras cita√ß√Ķes de Casimiro de Brito para ler e compartilhar. Os melhores escritores est√£o em Poetris.

Um homem leva mais tempo a desaprender o que n√£o faz falta do que a aprender o cisco da vida. Mas ent√£o o tempo j√° n√£o conta.

Noite por Ti Despida

Adulta é a noite onde cresce
o teu corpo azul. A claridade
que se d√° em troca dos meus ombros
cansados. Reflexos
coloridos. Amei
o amor. Amei-te meu amor sobre ervas
orvalhadas. Não eras tu porém
o fim dessa estrada
sem fim. Canto apenas (enquanto os √°lamos
amadurecem) a transparência, o caminho. A noite
por ti despida. Lume e perfume
do sol. √ćntimo rumor do mundo.

Nem todos os que se refugiam na nulidade ou na solidão o fazem por cansaço e desistência das provas do mundo. Há também quem se afaste para evitar a baba e o louvor dos cretinos.

Pr√≥prio do amante √© destruir quem ama, beber as √°guas novas que do corpo amado se levantam e deixar-se inundar por elas. Um conc√≠lio de duas destrui√ß√Ķes.

O tempo de que disponho: √ļnico patrim√≥nio em que a contagem √© sempre decrescente. Pelo menos enquanto n√£o aprender a libertar-me de mim.

O Amigo

1.

Um amigo, o primeiro amigo
dentro da nuvem de um sonho.

O impossível toca-nos as mãos
subitamente ‚ÄĒ o fogo, a flor conc√™ntrica
de planetas no exílio.

Na terra do silêncio
os frutos caem
de sua própria vontade.

2.

Ao coração das coisas,
ao jugo das cores da memória,
ao pequeno desvio da sombra no deserto,
ao amor que nos alimenta de morte, à morte
que morre connosco
opomos a infinita
constelação
dos nossos sentidos.

Suportem-se então os prazeres do amor e da amizade. O principal deles é o de se ter alguém à mão para exercitar a nossa vocação sadomasoquista.

Poeta como Tu, Irm√£o

N√£o sou mais poeta do que tu, irm√£o!
Tu cavas na terra a semente da vida,
eu cavo na vida a semente da libertação.

Somos partes perdidas dum só
que a raz√£o de ser das coisas
separou. N√£o sou mais poeta do que tu, irm√£o.
A m√£e que te gerou a mim me gerou ‚ÄĒ
n√£o foi ela quem nos trocou
as mãos, a voz do coração.

Abandona um pouco a charrua, arranca
da terra os olhos cansados, e limpa
o sujo da cara ao sujo das m√£os ‚ÄĒ onde
os calos são um só e as rugas da morte
caminhos cobertos de pó.

E olha
na direcção do meu braço cansado, sem
m√ļsculos quadrados
nem merda nas unhas, mas que te aponta
o mundo onde as raízes do dia, a luta, o trabalho
reclamam suor
mas n√£o te roubam o p√£o.
Arranca os olhos da terra, irm√£o!

Acreditar em mim, no meu clã, é pura tolice. Se até a pedra em que me sento diante do mar é devorada pelo vento!

A paz só a conhece quem sofreu todos os desastres. O que me cabe, depois de alguns desastres, é apenas o caminho arenoso da paz. Este momento.