Passagens de Casimiro de Brito

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Amei a vida inteira e sei de cor as leis do amor. Umas s√£o de pedra, outras de √°gua transparente. A vida inteira e n√£o sei ainda o caminho.

Amar-te é decifrar humildemente um enigma que não tem decifração porque a todo o momento as águas passam e bebê-las e banhar-me nelas é bom e não há mais nada.

O homem é uma espécie fantástica. Apesar de ter enlouquecido consegue administrar o hospício onde mora, este palco flutuante que é, ao mesmo tempo, casa de armas e selva paradisíaca.

O tempo de que disponho: √ļnico patrim√≥nio em que a contagem √© sempre decrescente. Pelo menos enquanto n√£o aprender a libertar-me de mim.

Um homem leva mais tempo a desaprender o que n√£o faz falta do que a aprender o cisco da vida. Mas ent√£o o tempo j√° n√£o conta.

Noite por Ti Despida

Adulta é a noite onde cresce
o teu corpo azul. A claridade
que se d√° em troca dos meus ombros
cansados. Reflexos
coloridos. Amei
o amor. Amei-te meu amor sobre ervas
orvalhadas. Não eras tu porém
o fim dessa estrada
sem fim. Canto apenas (enquanto os √°lamos
amadurecem) a transparência, o caminho. A noite
por ti despida. Lume e perfume
do sol. √ćntimo rumor do mundo.

Nem todos os que se refugiam na nulidade ou na solidão o fazem por cansaço e desistência das provas do mundo. Há também quem se afaste para evitar a baba e o louvor dos cretinos.

Pr√≥prio do amante √© destruir quem ama, beber as √°guas novas que do corpo amado se levantam e deixar-se inundar por elas. Um conc√≠lio de duas destrui√ß√Ķes.

O Amigo

1.

Um amigo, o primeiro amigo
dentro da nuvem de um sonho.

O impossível toca-nos as mãos
subitamente ‚ÄĒ o fogo, a flor conc√™ntrica
de planetas no exílio.

Na terra do silêncio
os frutos caem
de sua própria vontade.

2.

Ao coração das coisas,
ao jugo das cores da memória,
ao pequeno desvio da sombra no deserto,
ao amor que nos alimenta de morte, à morte
que morre connosco
opomos a infinita
constelação
dos nossos sentidos.

Suportem-se então os prazeres do amor e da amizade. O principal deles é o de se ter alguém à mão para exercitar a nossa vocação sadomasoquista.