Poemas sobre Papéis

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Poemas de papéis escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Vida Sempre

Entre a vida e a morte h√° apenas
o simples fenómeno
de uma subtil transformação. A morte
não é morte da vida.
A morte não é inação, inutilidade.
A morte é apenas a face obscura,
mínima, em gestação
de uma viagem que n√£o cessa de ser. Aventura
prolongada
desde o por√£o do tempo. Projectando-se
nas naves inconcebíveis do futuro.

A morte não é morte da vida: apenas
novas formas de vida. Nova
utilidade. Outro papel a desempenhar
no palco velocíssimo do mundo. Novo ser-se (comércio
do pó) e não se pertencer.
Nova claridade, respiração, naufrágio
na maquina incompar√°vel do universo.

O Casulo

No casulo:
uma mesa quatro cinco estantes
livros por centenas ou milhares
tijolos de papel onde as traças
acasalam e o caruncho espreita
sólidas muralhas de elvezires onde
a rua n√£o penetra
uma m√°quina de escrever olivetti
com a tinta acumulada nas letras mais redondas
cachimbos barros estanhos medalhas fotos
bonecos marafonas lembranças
retratos alguns gente ida ou vinda
gorros usbeques gorros bailundos leques
japoneses arp√Ķes a√ßorianos sinos de n√£o sei donde
ou sei esperem sinos da tróica em natais nocturnos
marfins africanos óleos desenhos calendários
feitiços da Baía a mão a fazer figas
tudo do melhor contra raios coriscos mau olhado
retratos dizia Jorge o de Salvador J√ļlio o da Morgadinha
Berglin o cientista Kostas o dramaturgo
e outros e outros
Afonso Duarte o das ossadas pórtico
destas lam√ļrias o sorriso sibilino e rugoso
que matou no Nemésio o bicho harmonioso
mais de agora o Umberto Eco barbudo
a filtrar-me com medievismo os gestos tontos
e outros e outros
suecos brasileiros romenos gregos
e ainda aqueles em que a Zita foi escrevendo
a minha sina de andarilho
Tolstoi patrono obcecante um pastor a tocar
pífaro algures nos Balcãs sinais da Bulgária da Polónia
da Finl√Ęndia sinais de tantas partes onde
fui um outro de biografia aberrante
sinais da minha terra também
a minha de verdade e n√£o as outras
a que chamam minhas por distraído palpite
o Lima de Freitas num candeeiro alumiando
a mulher verde-azul em casas assombrada
mestre Marques d’Oliveira num esquisso
de alto coturno a carta de Abel Salazar
que o sol foi comendo n√£o se lendo j√°
o que a censura omitiu
aqui a China também representada
um ícone de Sófia as plácidas cabras
do Calasans o tinteiro de quando
se usavam plumas roubaram-se o missal do Cicogna
um almofariz para esferogr√°ficas furta-cores
a caixa de madeira floreada veio da R√ļssia
deu-ma a Tatiana sob promessa (cumprida)
de a p√īr bem em frente das minhas divaga√ß√Ķes
anémonas nórdicas da Anne
mios√≥tis b√ļlgaros da Rumiana
o poster é alemão Friede den Kindern
nunca pedi a ninguém a decifração
dois horóscopos face a face
cangaceiros nordestinos
o menino ajoelhado do Tó Zé
num gesso já sem braços nem rosto
objectos objectos o pote tem as armas de n√£o lembro
[quem
embora o nome que venha por de cima
seja o meu e eu também no óleo carrancudo
do Zé Lima há um ror de anos
melhor n√£o saber quantos
o molde para o bronze é um perfil onde
desenganadamente me reconheço
tanta bugiganga tanto bazar tanto papel
branco ou impresso uma faca para
apunhalar alguém a cassete de poesias na voz
da Maria Vitorino as esculturas astecas
do Miguel medalhas medalhas outra vez lembranças
agendas sem préstimo canetas gastas mais papéis
letras mi√ļdas ou letras farfalhudas
depende da ocasi√£o
um livro de filigrana
as paredes mal se vêem estantes copiosas já disse
quadros em demasia e ainda
as rendas de minha m√£e em molduras destoadas
ela no retrato de cenho descontente
fitando-me até ao miolo dos desvairos
o bordão de régulo justiceiro
obliquando no trono de cactos
amuletos africanos o mata-borr√£o que foi
de um pide deu-mo o fuzileiro no pós-Abril
uma bela cabeça de mulher do João Fragoso
jarras de sacristia candeias de cobre
sem pavio um samovar de madeira um samurai de
[veludo
os painéis de São Vicente em miniatura
a áurea trombeta do troféu lusíada
de parceria com o Manuel Cargaleiro
áureos pesados troféus o marasmo branco
de Pavia na tela sem idade
livros livros os correios n√£o p√°ram
de mos trazer para maior sufocação
cartas a granel por responder relógio não há mas ouço-o
sem falhar um segundo h√° cordas cord√Ķes medalhas
[medalh√Ķes
armas laur√©is proibi√ß√Ķes
perfumes em minaretes levantinos.

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Um Poema Que Se Perdeu

Hoje o dia é um dia chuvoso e triste
amortalhado
Naquela monotonia doente dos grandes dias.

Hoje o dia…
(a pena caiu-me das m√£os)

Acabou-se o poema no papel.
C√° por dentro
Continua…

Oh! este marulhar das almas no silêncio!

Preso Político

1

Quiseram p√īr-me inteiro numa ficha.
O dia e a noite s√£o iguais por dentro.
N√£o h√° papel que conte a minha vida
mais que estes versos de punhal à cinta.
A barba cresce, e cresce a voz armada
descendo pelos muros t√£o tranquila;
t√£o tranquila que j√° nem desespera
de ser apenas voz, n√£o uma guerra.

Quiseram p√īr-me inteiro numa ficha.
N√£o h√° papel que conte a minha vida.
Mais que estes versos, esta m√£o estendida
por sobre os muros só de medo e pedra.

2

Quando saíres, amigo, não me esqueças.
Fico à espera da tua novidade.
Olha bem que far√°s da liberdade:
quando saíres, amigo, não me esqueças.

Quero mais fazimento que promessas.
S√£o de prata os enganos da cidade
com que outros sujeitam a vontade.
Não me esqueças, amigo, não me esqueças.

1966

Os Anos Quarenta

Amo-te mais quando olho quando
para a torneira do gás quando estou nu à noite quando
e come√ßo a mexer em p√Ęnico os ossos da m√£o direita
h√° domingos h√° a inf√Ęncia em que se parou numas escadas altas
ouvia-se a guerra ia-se para a cama por causa do ciclone
e quando o vento vem e decepa e quando
as árvores da rua é a mãe que recorta
uns papéis
brancos para colar nos vidros
ou quando (da capo) esse homem
nu à noite quando olha

e vejo vê-se
o indicador direito
manchado de nicotina

depois uma vez desfila
a vitória! surpreendo-os na sala
que me d√£o dinheiro e corro a comprar barros
na feira e quando quando coisas assim
partia logo e isso era a tristeza

volto a pensar: que queria eu na inf√Ęncia
o sol? outro nome sobre o meu t√£o fr√°gil?

amo-te mais à noite portanto
quando dobro as calças e começo
quando esse gesto √ļtil quando
bate numas pernas e vê-se
de trinta e cinco anos

Para Ser Lido Mais Tarde

Um dia
quando j√° n√£o vieres dizer-me Vem
jantar

quando j√° n√£o tiveres dificuldade
em chegar ao puxador
da porta quando

j√° n√£o vieres dizer-me Pai
vem ver os meus deveres

quando esta luz que trazes nos cabelos
já não escorrer nos papéis em que trabalho

para ti será o começo de tudo

Uma outra vida haver√° talvez para os teus sonhos
um outro mundo acolher√° talvez enfim a tua oferenda

Hás-de ter alguma impaciência enquanto falo
Ouvirás com encanto alguém que não conheço
nem talvez ainda exista neste instante

Mas para mim ser√° j√° t√£o frio e j√° t√£o tarde

E nem mesmo uma lembrança amarga
ou doce ficar√°
desta hora redonda
em que ninguém repara

Os Palhaços

Heróis da gargalhada, ó nobres saltimbancos,
eu gosto de vocês,
porque amo as expans√Ķes dos grandes risos francos
e os gestos de entremez,

e prezo, sobretudo, as grandes ironias
das farsas joviais.
que em visagens cruéis, imperturbáveis, frias.
à turba arremessais!

Alegres histri√Ķes dos circos e das pra√ßas,
ah, sim, gosto de vos ver
nas grandes contor√ß√Ķes, a rir, a dizer gra√ßas
de o povo enlouquecer,

ungidos pela luta heróica, descambada,
de giz e de carmim,
nas mímicas sem par, heróis da bofetada,
tit√£s do trampolim!

Correi, subi, voai num turbilh√£o fant√°stico
por entre as sauda√ß√Ķes
da turba que festeja o semideus el√°stico
nas grandes ascens√Ķes,

e no curso veloz, vertiginoso, aéreo,
fazei por disparar
na face trivial do mundo egoísta e sério
a gargalhada alvar!

Depois, mais perto ainda, a voltear no espaço,
pregai-lhe, se podeis,
um pontapé furtivo, ó lívidos palhaços,
luzentes como reis!

Eu rio sempre, ao ver aquela majestade,
os trágicos desdéns
com que nos divertis, cobertos de alvaiade,

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Os Arlequins – S√°tira

Musa, dep√Ķe a lira!
Cantos de amor, cantos de glória esquece!
Novo assunto aparece
Que o gênio move e a indignação inspira.
Esta esfera é mais vasta,
E vence a letra nova a letra antiga!
Musa, toma a vergasta,
E os arlequins fustiga!

Como aos olhos de Roma,
‚ÄĒ Cad√°ver do que foi, p√°vido imp√©rio
De Caio e de Tib√©rio, ‚ÄĒ
O filho de Agripina ousado assoma;
E a lira sobraçando,
Ante o povo idiota e amedrontado,
Pedia, ameaçando,
O aplauso acostumado;

E o povo que beijava
Outrora ao deus Calígula o vestido,
De novo submetido
Ao régio saltimbanco o aplauso dava.
E tu, tu n√£o te abrias,
√ď c√©u de Roma, √† cena degradante!
E tu, tu não caías,
√ď raio chamejante!

Tal na história que passa
Neste de luzes século famoso,
O engenho portentoso
Sabe iludir a néscia populaça;
N√£o busca o mal tecido
Canto de outrora; a moderna insolência
N√£o encanta o ouvido,
Fascina a consciência!

Vede; o aspecto vistoso,
O olhar seguro,

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À Memória de Minha Mãe

M√£e! Morreste!
Agora é tão tarde para te dizer as palavras necessárias.
O rel√≥gio bateu duas e meia. √Č noite escura
E a dor galopa surdamente no meu peito.
Teu corpo jaz ainda morno, j√° sem interesse para ti.
Por tua causa, amanh√£, movimentar-se-√£o pessoas
Diversas
Que n√£o te conheceram.
Serão preenchidos papéis: requerimentos, boletins;
P√°s ou picaretas (nem eu sei) ferir√£o a terra
E sobre ela erguer√£o, depois, um n√ļmero qualquer
Que ser√° de futuro o teu bilhete de identidade.
Agora, porém, tudo ainda é quieto.
Só um galo canta, feliz, na sua inconsciência de ser vivo.
As l√°grimas rompem-me incontrol√°veis e in√ļteis.
√Č tarde!
Já só existem saudades e fotografias.
As palavras que eu amaria ter-te dito
Sobem-me ao silêncio dos lábios cerrados.
L√° fora a chuva molha a madrugada
Enquanto os familiares se olham
Com o rosto congestionado de l√°grimas
E sono interrompido,
Adorando-te em silêncio,
Mais que nunca,
‚ÄĒ Esmagados pelo prest√≠gio da morte.

H√° Mais de Meia Hora

H√° mais de meia hora
Que estou sentado à secretária
Com o √ļnico intuito
De olhar para ela.
(Estes versos est√£o fora do meu ritmo.
Eu também estou fora do meu ritmo.)
Tinteiro grande à frente.
Canetas com aparos novos à frente.
Mais para c√° papel muito limpo.
Ao lado esquerdo um volume da “Enciclop√©dia Brit√Ęnica”.
Ao lado direito ‚ÄĒ
Ah, ao lado direito
A faca de papel com que ontem
Não tive paciência para abrir completamente
O livro que me interessava e n√£o lerei.

Quem pudesse sintonizar tudo isto!

Mais Nada se Move em Cima do Papel

mais nada se move em cima do papel
nenhum olho de tinta iridescente pressagia
o destino deste corpo

os dedos cintilam no h√ļmus da terra
e eu
indiferente à sonolência da língua
ouço o eco do amor há muito soterrado

encosto a cabeça na luz e tudo esqueço
no interior desta √Ęnfora alucinada

desço com a lentidão ruiva das feras
ao nervo onde a boca procura o sul
e os lugares dantes povoados
ah meu amigo
demoraste tanto a voltar dessa viagem

o mar subiu ao degrau das manh√£s idosas
inundou o corpo quebrado pela serena desilus√£o

assim me habituei a morrer sem ti
com uma esferográfica cravada no coração

Devo-te

Devo-te tanto como um p√°ssaro
deve o seu voo à lavada
planície do céu.

Devo-te a forma
novíssima de olhar
teu corpo onde às vezes
desce o pudor o silêncio
de uma p√°lpebra mais nada.

Devo-te o ritmo
de peixe na palavra,
a genesíaca, doce
violência dos sentidos;
esta tinta de sol
sobre o papel de silêncio
das coisas – estes versos
doces, curtos, de abelhas
transportando o pólen
levíssimo do dia;
estas formigas na sombra
da própria pressa e entrando
todas em fila no tempo:
com uma pergunta fr√°gil
nas antenas, um recado invisível, o peso
que as deixa ser e esquece;
e a tua voz que compunha
uma casa, uma rosa
a toda a volta Рó meu amor vieste
rasgar um sol das minhas m√£os!

Escrevo como quem Quer Ser Escrito

escrevo como quem quer ser escrito

uma √°rvore ou uma pena no centro da frase
um espelho branco onde observo a palavra

e dos seus troncos brotam folhas, letras
inunda√ß√Ķes de verde no lago azul do c√©u
que caem, voando, asas de papel

como tu, também eu sussurro
lentas sílabas à leve melancolia que nos abraça

Este é o Papel Singular da Alegria

Este é o papel singular da alegria
a lei errante do país
é o maior dos silêncios.

Caminhei por entre rios pontos de √°gua
esta√ß√Ķes de novembro
pequena raz√£o dos ventos da manh√£.

N√£o trafiquei n√£o porque seja forte
mas porque falo da alegria do estar sobre vós
nestes pontos de √°gua
na acidez da flor
neste país frequentado

algumas coisas nunca mudar√£o. O rigor
da luz torna invulner√°vel o desejo de perder
esta pressa de ver√£o.

Algumas coisas ser√£o sempre as mesmas: manh√£
encosta o teu ouvido sobre a porta escuta
era a voz os cavaleiros roubados a Ucello
longínquos.

(Profanamos a casa n√£o o corpo
esta forma desenhada ruga a ruga
esta cor amarela sobre a praia.)

Amo-te Tanto

amo-te tanto mas hoje tenho de levar o carro ao mec√Ęnico, as rodas fazem um barulho estranho, n√£o deve ser nada, mas √© melhor prevenir, amanh√£ prometo que vamos ver que tal se come naquele restaurante novo junto √† rotunda, e depois levo-te ao cinema, ai n√£o que n√£o levo,
amo-te tanto mas hoje tenho de ver o treino do mi√ļdo, o treinador ligou e disse-me que temos craque, o nosso menino a jogar como gente grande, v√™ l√° tu, quando chegar com ele v√™ se tens prontinha aquela comida que ele adora, o puto merece, ai n√£o que n√£o merece,
amo-te tanto mas hoje tenho de ficar at√© tarde no escrit√≥rio, h√° aquele projecto do estrangeiro para fechar, est√° aqui tudo perdido de nervos, n√£o sei se aguento, daqui a pouco ligo-te para saber como vai tudo, o mi√ļdo e as coisas a√≠ em casa, agora tenho de ir mostrar a esta gente toda como se trabalha, ai n√£o que n√£o tenho,
amo-te tanto mas hoje tenho de me deitar cedo, amanhã é aquela reunião importante de que te falei, se conseguir o cliente vamos ser tão felizes, aquela casa, o carro novo, quem sabe?, só tenho de o conseguir convencer,

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√Č Tempo de Natal

√Č tempo de Natal. Exibe-se um pinheiro,
Com l√Ęmpadas de cor, sobre o balc√£o.
Tem, também, pendurados, a isca do dinheiro
E flocos finos de algod√£o.

Nas férias, foge a freguesia
Do final das manh√£s,
Com os seus kispos disformes, de inflada fantasia,
E o conforto das l√£s.

Bebem-se mais bebidas quentes.
O ch√£o, mais h√ļmido, incomoda.
E h√° apelos insistentes
Do cauteleiro que anda à roda.

Os embrulhos, nas mesas, nos regaços,
Com vistosos papéis,
Florescem de acetinados laços,
Lembram o oiro, o incenso, a mirra, em m√£os de reis.

Muitos adultos. Pouca criançada.
Muito cansaço. Pouca animação.
A vida (a cruz!) t√£o cara, t√£o pesada!
E d√£o-se as boas-festas sem se sentir que o s√£o.

Consigo mesa junto à vidraça.
E é em mim que procuro, ou é lá fora,
A estrela que n√£o luz, o pastor que n√£o passa,
O anjo que n√£o vem anunciar a hora?

Irm√£o

Eu não fiz uma revolução.
Mas me fiz irm√£o de todas as revolu√ß√Ķes.
Eu fiquei irm√£o de muitas coisas no mundo.
Irm√£o de uma certa camisa.
Uma certa camisa que era de um gesto de céu
e com certo carinho me vestia, como se me
vestisse de √°rvore e de nuvens.
Eu fiquei irm√£o de uma vaca, como se ela
também sonhasse. Fiquei irmão de um vira-lata
com o brio com que ele também me abraçava.
Fiquei irmão de um riacho, que é nome
de rio pequeno, um pequeno que cabe
todo dentro de mim, me falando,
me beijando, me lambendo, me lembrando.
Brincava e me envolvia, certos dias eu
girava em torno do redemoinho do cachorro
e do riacho e da vaca, sem às vezes saber
se estava beijando o riacho, o cachorro
ou a vaca, com um grande céu
me entornando, com um grande céu
com a vaca no lombo e com o c√£o,
com o riacho rindo de nós todos.
Eu fiquei irm√£o de livros, de gentes.
Eu fiquei irm√£o de uma certa montanha.

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Ninguém Meu Amor

Ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Podem utiliz√°-lo nos espelhos
apagar com ele
os barcos de papel dos nossos lagos
podem obrig√°-lo a parar
à entrada das casas mais baixas
podem ainda fazer
com que a noite gravite
hoje do mesmo lado
Mas ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Até que o sol degole
o horizonte em que um a um
nos deitam
vendando-nos os olhos

Rumor dos Fogos

hoje à noite avistei sobre a folha de papel
o drag√£o em celul√≥ide da inf√Ęncia
escuro como o interior polposo das cerejas
antigo como a ins√≥nia dos meus trinta e cinco anos…

dantes eu conseguia esconder-me nas paisagens
podia beber a humidade aérea do musgo
derramar sangue nos dedos magoados
foi h√° muito tempo
quando corria pelas ruas sem saber ler nem escrever
o mundo reduzia-se a um berlinde
e as m√£os eram pequenas
desvendavam os nocturnos segredos dos pinhais

n√£o quero mais perceber as palavras nem os corpos
deixou de me pertencer o choro longínquo das pedras
prossigo caminho com estes ossos cor de malva
som a som o vegetal silêncio sílaba a sílaba o abandono
desta obra que fica por construir… o receio
de abrir os olhos e as rosas n√£o estarem onde as sonhei
e teu rosto ter desaparecido no fundo do mar

ficou-me esta m√£o com sua sombra de terra
sobre o papel branco… como √© louca esta m√£o
tentando aparar a tristeza antiga das l√°grimas

Sangue

Versos
escrevem-se
depois de ter sofrido.
O coração
dita-os apressadamente.
E a m√£o tremente
quer fixar no papel os sons dispersos…

√Č s√≥ com sangue que se escrevem versos.