Cita√ß√Ķes de Fernando Namora

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Frases, pensamentos e outras cita√ß√Ķes de Fernando Namora para ler e compartilhar. Os melhores escritores est√£o em Poetris.

√ď Noite, Coalhada nas Formas de um Corpo de Mulher

√ď noite, coalhada nas formas de um corpo de mulher
vago e belo e voluptuoso,
num bailado erótico, com o cenário dos astros, mudos
[e quedos.
Estrelas que as suas m√£os afagam e a boca repele,
deixai que os caminhos da noite,
cegos e rectos como o destino,
suspensos como uma nuvem,
sejam os caminhos dos poetas
que lhes decoraram o nome.
√ď noite, coalhada nas formas de um corpo de mulher!
Esconde a vida no seio de uma estrela
e f√°-la pairar, assim m√°gica e irreal,
para que a olhemos como uma lua son√Ęmbula.

Metade da Vida é uma Perdulária Expectativa

Vou fazendo horas – metade da vida √© uma perdul√°ria expectativa. E tonta. E ansiosa. E in√ļtil. Como quem se sentou numa gare de caminho-de-ferro, √† espera de um comboio que n√£o se sabe quando passar√° e qual o seu destino. Certeza, e relativa, est√° apenas no local de espera. E √†s vezes na pr√≥pria espera. Se chegamos a concretizar a viagem, o lugar aonde o comboio nos levou, desilude-nos. Isso, por√©m, n√£o impede que tudo venha a repetir-se. Desperdi√ßa-se o instante real e concreto, mas que, como areia, se nos escapa das m√£os, em favor de uma ilus√≥ria vez seguinte.

Por Todos os Caminhos do Mundo

A minha poesia é assim como uma vida que vagueia
pelo mundo,

por todos os caminhos do mundo,
desencontrados como os ponteiros de um relógio velho,
que ora tem um mar de espuma, calmo, como o luar
num jardim nocturno,

ora um deserto que o simum veio modificar,
ora a miragem de se estar perto do o√°sis,
ora os pés cansados, sem forças para além.

Que ninguém me peça esse andar certo de quem sabe
o rumo e a hora de o atingir,
a tranquilidade de quem tem na m√£o o profetizado
de que a tempestade n√£o lhe abalar√° o pal√°cio,
a doçura de quem nada tem a regatear,
o clamor dos que nasceram com o sangue a crepitar.

Na minha vida nem sempre a b√ļssola se atrai ao mesmo
norte.
Que ninguém me peça nada. Nada.
Deixai-me com o meu dia que nem sempre é dia,
com a minha noite que nem sempre é noite
como a alma quer.

N√£o sei caminhos de cor.

O Verdadeiro Gesto de Amor

Aquilo que de verdadeiramente significativo podemos dar a alguém é o que nunca demos a outra pessoa, porque nasceu e se inventou por obra do afecto. O gesto mais amoroso deixa de o ser se, mesmo bem sentido, representa a repetição de incontáveis gestos anteriores numa situação semelhante. O amor é a invenção de tudo, uma originalidade inesgotável. Fundamentalmente, uma inocência.

Literatura Libertadora

A literatura é um processo de libertação e, por conseguinte, aspira à liberdade. Quer dizer que o seu ponto de partida é uma recusa aos constrangimentos. Quer dizer, ainda, que os constrangimentos estão na sua génese ou no desencadear da sua explosão, como tem sido proclamado por tantos criadores.
Homem livre, pois, o escritor – ou que visceralmente deseja s√™-lo. T√£o livre, ou t√£o necessitado de o ser, que nem sequer pode estar de acordo com certas situa√ß√Ķes para que ardorosamente contribuiu: seja numa sociedade burguesa, seja numa sociedade prolet√°ria, ele sempre encontrar√° raz√Ķes para a sua insubmiss√£o e para o seu inconformismo, mesmo se, muitas vezes, se trate de uma contesta√ß√£o inconsciente.

Um Segredo

Meu pai tinha sand√°lias de vento
só agora o sei.
Tinha sand√°lias de vento
e isto nem sequer é uma maneira de dizer
andava por longe os olhos fugidos a express√£o em
[nenhures
com as miraculosas instantaneidades que nos fazem
[estar em todos os sítios.

Andava por longe meu pai sonhando errando vadiando
mas toda a sua ausência era
o malogro de o ser
só agora o sei.
Andava por longe ou sentíamo-lo longe
vem dar no mesmo
e no entanto víamo-lo sempre
ali plantado de imobilidade absorta
no cepo de carvalho raiado de negro
a que o caruncho comera o miolo
como as lagartas esvaziam as maçãs
estranhamente quieto murcho resignado
no seu estranho vadiar
os olhos aguados numa tristeza que hoje me dói
como um apelo perdido uma coragem abortada.
Ausência era tão de mágoa urdida tão de fracasso
[tingida
ausência era
altiva e desolada altiva e triste sobretudo triste
tristeza sim tristeza solene e irremediada
só agora o sei.

Às vezes parecia-me uma águia que atravessa os ares
sulco azul
que nada distingue do azul onde foi sulcado
e por isso nem é águia nem ao menos
o que do seu voo resta para que
o sonho se faça real.

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Poema da Utopia

A noite caiu sem manchas e sem culpa.

Os homens tiraram as m√°scaras de bons actores.

Findou o espectáculo. Tudo o mais é arrabalde.

No alto, a utópica lua, vela comigo
e sonha inutilmente com a verdade das coisas.

– Noite! Deixa-nos tamb√©m dormir…

Todo o Mal Provém não da Privação mas do Supérfluo

Ser feliz √©, afinal, n√£o esperar muito da felicidade, ser feliz √© ser simples, desambicioso, √© saber dosear as aspira√ß√Ķes at√© √†quela medida que p√Ķe o que se deseja ao nosso alcance. Pegando de novo em Tolstoi, que vem sendo em mim um padr√£o tutelar, lembremos de novo um dos seus her√≥is, o pr√≠ncipe Pedro Bezoukhov (do romance ‘Guerra e Paz’). As circunst√Ęncias fizeram-no conviver no cativeiro com um s√≠mbolo da sabedoria popular, um tal Karataiev. Pois esse companheirismo desinteressado e genu√≠no, esse encontro com a vida crua mas desmistificadora, n√£o s√≥ modificaram o pr√≠ncipe Pedro como lhe revelaram o que ele precisava de saber para atingir o que n√≥s, pobres humanos, debalde perseguimos: a coer√™ncia, a pacifica√ß√£o interior, que s√£o correctivos da desventura.
Tolstoi salienta-nos que Pedro, ap√≥s essa viv√™ncia, apreendera, n√£o pela raz√£o mas por todo o seu ser, que o homem nasceu para a felicidade e que todo o mal prov√©m n√£o da priva√ß√£o mas do sup√©rfluo, e que, enfim, n√£o h√° grandeza onde n√£o haja verdade e desapego pelo ef√©mero. Isto, ali√°s, nos √© repetido por outra figura de Tolstoi, a princesa Maria, ao acautelar-nos com esta s√≠ntese desoladora: ¬ęTodos lutam, sofrem e se angustiam,

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Clandestinidade

Secreto me acho
e secreto me sentes
quando
secreto me julgas,
Impuro me reconheço
quando
o nosso silêncio
s√£o vozes turbas.
D√ļbio √© o desejo
quando
não é transparente
a √°gua em que se deita
precavidamente.
Clandestinos somos
quando
o que somos
teme a face que pesquisa.
Os olhos s√£o claros
quando
a superfície do espelho
é lisa.

Cais

Ténue é o cais
no Inverno frio.
Ténue é o voo
do p√°ssaro cinzento.
Ténue é o sono
que adormece o navio.
No vago cais
do balouço da bruma
ténue é a estrela
que um peixe morde.
Ténue é o porto
nos olhos do casario.
Mas o que em fora nos dilui
faz-nos exactos por dentro.

Poema Cansado de Certos Momentos

Foi-se tudo
como areia fina escoada pelos dedos.
M√£e! aqui me tens,
metade de mim,
sem saber que metade me pertence.
Aqui me tens,
de gestos saqueados,
onde resta a saudade de ti
e do teu mundo de medos.
Meus braços, vê-os, estão gastos
de pedir luz
e de roubar dist√Ęncias.
Meus braços
cruzados
em cruz de calv√°rio dos meus degredos.
Ai que isto de correr pela vida,
dissipando a riqueza que me deste,
de levar em cada beijo
a pureza que pariste e embalaste,
ai, mãe, só um louco ou um Messias
estendendo a face de justo

para os homens cuspirem o fel das veias,
só um louco, ou um poeta ou um Cristo
poder√° beijar as rosas que os espinhos sangram
e, embora rasgado, beber o perfume
e continuar cantando.
M√£e! tu nunca previste
as geadas e os bichos
roendo os campos adubados
e o vizinho largando a f√ļria dos rebanhos
pela flor menina dos meus prados.
E assim, geraste-me despido
como as ervas,
e n√£o olhaste os pegos nem as cobras,

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O Substrato Afectivo Eterno

A familiaridade com um autor é a adesão ao mundo por ele criado. Podemos esquecer Рe esquecemos Рas subtilezas de estilo, o virtuosismo da composição, mas perdura por anos e anos, e às vezes para sempre, uma certa personagem, um certo lance, uma frase que nos faz estremecer, pois é predominantemente a este nível que um texto revela a sua comunicabilidade essencial. Isto é: a estima por um autor resulta sobretudo de ingredientes que nos impressionaram a sensibilidade, o que equivale a dizer: o privilégio de durar na memória dos homens tem, em regra, um substrato afectivo.

Intervalo

Quando nasci, entre rendas e afagos egoístas,
os rouxin√≥is, pela noite, namoravam a Primavera…

Os sinos ficaram tolhidos e tristes
Como se os meus gritos lhes pesassem na alma.

Minha M√£e, nessa noite,
sonhou com o aceno molhado dum lenço branco
num dia de partida…

√ď Terra!
Porque n√£o estoiraste nesse momento?

Terra – 24

António, é preciso partir!
o moleiro n√£o fia,
a terra é estéril,
a arca vazia,
o gado minga e se fina!
António, é preciso partir!
A enxada sem uso,
o arado enferruja,
o menino quere o pão; a tua casa é fria!
√Č preciso emigrar!
O vento anda como doido ‚Äď levar√° o azeite;
a chuva desaba noite e dia ‚Äď inundar√° tudo;
e o lar vazio,
o gado definhando sem pasto,
a morte e o frio por todo o lado,
só a morte, a fome e o frio por todo o lado, António!
√Č preciso embarcar!
Badal√£o! Badal√£o! ‚Äď o sino
j√° entoa a despedida.
Os juros crescem;
o dinheiro e o rico não têm coração.
E as décimas, António?
Ningu√©m perdoa ‚Äď que mais para vender?
Foi-se o cord√£o,
foram-se os brincos,
foi-se tudo!
A fome espia o teu lar.
Para quê lutar com a secura da terra,
com a indiferença do céu,
com tudo, com a morte, com a fome, coma a terra,
com tudo!
√Ārida,

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Pergunta

Quem vem de longe e sabe o nome do meu lugar
e levou o caminho das conchas em mar
e dos olhos em rio
‚ÄĒ quem vem de longe chorar por mim?

Quem sabe que eu findo de dureza
e condensa ternura em suas m√£os
para a derramar em afagos
por mim?

Quem ouviu a ang√ļstia do meu brado,
sirene de um navio a vadiar no largo,
e me traz seus beijos e sua cor,
perdendo-se na bruma das madrugadas
por mim?

Quem soube das asperezas da viagem
e pediu o p√£o negado
e o suor ao corpo torturado,
por mim? por mim?

Quem gerou o mundo e lhe deu seu nome
e seu tamanho ‚ÄĒ imenso, imenso,
e em mim cabe?

Todos os Caminhos me Servem

Todos os caminhos me servem.
Em todos serei o ébrio
cabeceando nas esquinas.
Uma rua deserta e o h√°lito
das pessoas que se escondem,
uma rua deserta e um rafeiro
por companheiro.

√ď mar que me sacode os cabelos
que mulher alguma beijou,
l√°grimas que os meus olhos vertem
no suor dos lagares,
que uma onda vos misture
e vos leve a morrer
numa praia ignorada.

Burgo

Meu velho burgo dormido
meu berço de heras
poeira h√ļmida
de secos orvalhos
minha lembrança
de press√°gios n√£o cumpridos
Meu regaço de penas
minha brisa alada
burgo meu cais
donde n√£o parto nem volto
aceno de asa
sem mastros de largada
minha √°gua
de sede crestada
burgo meu destino
de fugir e restar
sem haver partido.

Pilotagem

E os meus olhos rasgar√£o a noite;

E a chuva que vier ferir-me nas vidraças
Compreender√°, ent√£o, a sua inutilidade;

E todos os sinos que alimentavam insónias
h√£o-de repetir as horas mortas
só para os ouvidos da torre;

E os outros ruídos abafar-se-ão no manto negro da noite;

E a m√£o alva que me apontava os nortes
e ficou debruçada no postigo
amortalhada pela neve
reviver√° de novo;

E os meus braços se erguerão transfigurados
para o abraço virgem dos teus braços
que andava perdido, sem dar fé deste seu reino;

E todas as luzes que tresnoitaram os homens
apagar-se-√£o;

E o silêncio virá cheio de promessas
que n√£o se cansaram na viagem;

E todos os povos de Babel
com as riquezas que h√° no mundo
vir√£o festejar a paz em minha honra;

E os caminhos se abrir√£o
para os homens que seguirem de m√£os dadas:

O sangue derramado de Cristo
terá finalmente significação,
e da in√ļtil cruz do mart√≠rio
se erguerá o pendão da vitória;

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Balada de Sempre

Espero a tua vinda
a tua vinda,
em dia de lua cheia.

Debruço-me sobre a noite
a ver a lua a crescer, a crescer…

Espero o momento da chegada
com os cansa√ßos e os ardores de todas as chegadas…

Rasgar√°s nuvens de ruas densas,
Alagarás vielas de bêbados transformadores.
Saltar√°s ribeiros, mares, relevos…
– A tua alma n√£o morre
aos medos e às sombras!-

Mas…,
Enquanto deixo a janela aberta
para entrares,
o mar,
aí além,
sempre duvidoso,
desenha interroga√ß√Ķes na areia molhada…

Poema para Iludir a Vida

Tudo na vida est√° em esquecer o dia que passa.
N√£o importa que hoje seja qualquer coisa triste,
um cedro, areias, raízes,
ou asa de anjo
caída num paul.
O navio que passou além da barra
j√° n√£o lembra a barra.
Tu o olhas nas estranhas √°guas que ele h√°-de sulcar
e nas estranhas gentes que o esperam em estranhos
[portos.
Hoje corre-te um rio dos olhos
e dos olhos arrancas limos e morcegos.
Ah, mas a tua vitória está em saber que não é hoje
[o fim
e que h√° certezas, firmes e belas,
que nem os olhos vesgos
podem negar.
Hoje é o dia de amanhã.